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Existe uma pluralidade de denominações para as obras lexicográficas. Segundo Barbosa (1996, p.43), ainda estamos distante de uma conceituação definitiva de tais obras, porque, mesmo havendo uma gama de organizações e obras de normalização em diversos países, ainda não se chegou, apesar dessa pluralidade e desse esforço, a um denominador comum de uma Terminologia que seja consensual.

Assim sendo, a classificação das obras lexicográficas representa uma tarefa bastante árdua que acarreta problemas tanto teórico-linguísticos quanto práticos, como observa Haensch et al. (1982, p.97). O esforço para tal classificação tem-se estendido desde as primeiras produções lexicográficas até as mais recentes, perseguindo uma sistematização coerente que dê conta dessa vasta produção de variadas tipologias11, como glossários no final de uma obra literária ou não literária, atlas linguísticos, monografias dialetais, glossários de termos técnicos, publicados em revistas especializadas, dentre outras produções.

Uma pequena amostra dessa complexidade da tipologização lexicográfica nos é ilustrada por Haensch (1982), quando disserta sobre a existência de duas acepções do termo glossário:

Repertório de vozes destinado à explicação de um texto medieval ou clássico, a obra de um autor, um texto dialetal, etc.

Repertório de palavras, em muitos casos de termos técnicos (monolíngue ou plurilíngue), que não pretende ser exaustivo cuja seleção de palavras, se fez mais ou menos de forma aleatória; por exemplo, glossário de termos ecológicos espanhol-inglês. (p.106)12

Dessas duas acepções de glossário, adotamos, nesta tese, a primeira que se refere, mais especificamente, a um repertório de vozes destinado à explicação da obra de um autor.

      

11Nota para esclarecimento ao leitor: Quanto ao termo dicionário, Haensch o classifica como Dicionário

etimológico, Dicionário de sinônimos, Dicionários e vocabulários especializados: dicionários de línguas regionais, dicionários de línguas indígenas, dicionários bilíngües de línguas clássicas e modernas, Dicionário ideológico, Dicionário de uso, Dicionário por conceitos, Dicionários descitivos modernos.

12Tradução nossa:” Repertorio de voces destinado a explicar un texto medieval o clásico, la obra de un autor,

un texto dialectal, etc, Repertorio de palabras, en muchos casos de términos técnicos (monolíngüe o pluriligüe), que no pretende ser exhaustivo, y en que la selección de palabras se ha hecho más o menos al azar; por ejemplo, glosario de términos ecológicos español-inglés.”

Observemos que, nesse trecho, o autor chama a atenção para o fato de que muitos autores, infelizmente, denominam obras lexicográficas que tratam do vocabulário adotado por um determinado autor de vocabulário, ao invés de glossário.

Apesar das discrepâncias conceituais, não devemos olvidar que o surgimento da imprensa, no Renascimento, deu um grande impulso à lexicografia. Desse impulso, são frutos os dicionários bilíngues e multilíngues, que vieram à lume em maior abundância. Tal avanço tecnológico, porém, não coincidiu com o avanço conceitual no âmbito teórico da lexicologia, continuando, até nossos dias, a dificuldade de distinção, por exemplo, entre os termos ‘vocabulário’, ‘léxico’, ‘thesaurus’ e ‘tesoro’. Tal dificuldade de distinção não é sem consequência, pois, na prática lexicográfica, cada autor, ou editora, usa um conceito que lhe pareça mais adequado, segundo a oferta das perspectivas teóricas em voga, no momento da criação ou editoração da obra.

Ainda segundo o mesmo autor, desde suas origens mais remotas, a lexicografia tem-se ocupado da explicação do significado das palavras, afirmando que

O século XVIII pode ser considerado como o grande século da lexicografia enciclopédica, bem como dos dicionários normativos dentre os quais se destacam o da Academia Francesa (1694) e o “Dicionário de autoridades” publicado pela Real Academia Espanhola (1726-1739). Tendo sido precursor de ambos o “Vocabulário dos Acadêmicos da Crusca” (Veneza, 1612) que tinha como finalidade contribuir para a fixação de uma língua literária italiana, de acordo com o uso toscano, sobretudo aquela utilizada pelos três grandes poetas florentinos: Dante, Petrarca e Bocaccio. (HAENSCH, et al, 1982, p.112)13

Nesse percurso histórico, os primeiros dicionários especializados surgiram nos séculos XVI e XVIII, como os dicionários de modernismos, vocabulários de arcaísmos, vocabulários sobre determinadas matérias como agricultura, medicina, náutica, botânica, farmácia, arte militar, mineração, direito, música, etc.

Na esteira dessa evolução histórica, no século XIX, foram publicados dicionários de línguas regionais da Espanha (do catalão e seus subdialetos mallorquín e valenciano, do

      

13Tradução nossa: “El siglo XVIII no sólo es el gran siglo de la lexicografia enciclopédica, sino también el de

los d i c c i o n a r i o s n o r m a t i v os , entre los que destacan el de la Academia Francesa y el

Diccionario de autoridades publicado por la Real Academia Española. El precursor de ambos fue el

diccionario acadêmico italiano, el Vocabulario degli Academici della Crusca (Venecia, 1612), cuya finalidad era contribuir a la fijacion de una lengua literária italiana, sobre la base del uso toscano, especialmente Del de los três grandes poetas florentinos Dante Petrarca y Boccaccio.”

vasco e do galego), e dicionários de línguas indígenas da América. O século XIX ainda foi o século de maior propagação dos dicionários bilíngues de línguas clássicas e modernas.

O século XX, por sua vez, é marcado por apresentar tanto um aumento da produção de todos os tipos de dicionários até então conhecidos, com significativos avanços lexicológicos, quanto novos tipos de obras lexicográficas, como os dicionários ideológicos, os dicionários de uso, os dicionários etimológicos e os primeiros dicionários gerais de americanismos.

Apesar desse notório avanço quantitativo e qualitativo do século XX, Haensch (1982) chama a atenção para algumas lacunas conceituais que a lexicografia espanhola apresenta nos dicionários bilíngues, em tal século, uma vez que apresentam um léxico não atualizado e uma metodologia em dissonância com os últimos avanços lexicológicos.

Mesmo com esse descompasso entre a teoria lexicológica e a prática lexicográfica, é inegável que as novas orientações linguísticas do século XX têm influenciado positivamente a publicação de obras lexicográficas mais aperfeiçoadas e condizentes com um estudo mais sistemático de palavras, como é o caso, por exemplo, dos novos dicionários por conceitos e dos dicionários descritivos modernos.

Como um dos muitos avanços da lexicologia moderna, podemos citar a classificação lexicográfica de Haensch, a qual abrange vários critérios, dentre os quais levaremos em consideração, neste estudo, apenas os que dizem respeito à seleção do léxico, como:

 Obras lexicográficas que registram subconjuntos léxicos com marcação diatópica - dicionários

- vocabulários

- glossários de dialetos - glossários de subdialetos - glossários de falares locais

 Obras lexicográficas que registram subconjuntos léxicos com marcação diastrática (Nesta classificação inclui-se o vocabulário dos diversos tipos de gírias (estudantil, militar, malandragem)

- vocabulário literário (vocabulário culto literário) - vocabulário não marcado

- vocabulário familiar - vocabulário popular

- vocabulário vulgar, grosseiro ou trivial

 Obras lexicográficas que registram subconjuntos léxicos com marcação diatécnica - dicionários terminológicos

- dicionários técnicos

 Obras lexicográficas que registram vocabulário com marcação diafásica - vocabulário depreciativo

- vocabulário carinhoso

- vocabulário ofensivo (de insulto, de ultraje) - vocabulário buracrático

- vocabulário esnob (afetado) - vocabulário eufemístico - vocabulário humorístico - vocabulário irônico - vocabulário hiperbólico

 Obras lexicográficas que registram vocabulário com marcação diaintegrativa - dicionários de anglicismos

 Obras lexicográficas que registram vocabulário com marcação dianormativa - dicionários de dúvidas ou dificuldades

Desde já, deixamos patente que todos esses critérios servirão, explícita ou implicitamente, de crivo para a catalogação de cada unidade lexical e para a consequente formação do glossário da linguagem regional-popular do nosso corpus.