No Brasil, o sentimento de nacionalismo nasce antes do século XIX, e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro surge com a tarefa de garantir elementos de uma identidade capaz de representar a nação brasileira. Com a queda do Império, em 1889, e a instituição da República baseada em princípios positivistas, reforçam-se aspectos do passado colonial e imperial, enfatizando a herança luso-brasileira na gênese da população brasileira. E apesar desse sentimento nacionalista já existir, ao longo do tempo começa a se consolidar, principalmente devido a fatores externos e internos, tais como a I Guerra Mundial, a existência do primeiro grande surto industrial interno, com a adoção do modelo de substituição de importações, o processo de urbanização e de organização de novas camadas sociais, a semana de arte moderna, o surgimento do partido comunista, dentre outros. Todos esses eventos levaram à consolidação de um ideário que comportasse tantas modificações, sendo, portanto, o nacionalismo construído a partir desse ideário.
Com o governo de Getúlio Vargas, a ideia de formação de uma identidade nacional se fortalece. O governo Vargas, baseando-se em muita propaganda, tenta criar uma memória identitária, impondo, nesse processo, a defesa da produção econômica interna, a unificação de símbolos nacionais, desprezando-se elementos da cultura regional, mas, principalmente, o que fosse estrangeiro.
Um dos primeiros passos, nesse sentido, foi criar o imaginário de uma identidade brasileira, buscando elementos da cultura portuguesa e da indígena. Esses seriam sinais de que começariam a lançar as bases de um passado comum. Para isso, contaram com relatos de turistas, cientistas e artistas estrangeiros que divulgavam na Europa o que viam e entendiam do Brasil e sua cultura.
Com a expansão industrial e o crescimento urbano, o perfil, essencialmente agrário que dominava o Brasil até a década de 1920, foi de certo modo alterado. A economia predominante não deixou de ser a agricultura, mas a industrialização e a urbanização passaram a ser elementos importantes no desenvolvimento da sociedade. Nesse caso, cidades como São Paulo e Rio de Janeiro iam perdendo as características provincianas e ganhando forma de metrópoles. Eram nessas cidades que emergiam os grupos sociais ligados as novas atividades. De um lado, crescia a burguesia e de outro, o operariado urbano. Com isso, surge um regionalismo que reflete as diferentes formas de se perceber e representar o espaço nas diversas áreas do país.
O nacionalismo, na década de vinte, vai privilegiar as práticas que se destinavam ao conhecimento do país e de suas particularidades regionais. Isso porque os regionalismos significam um entrave ao processo de nacionalização e de unificação para superar distâncias que impedissem a emergência da nação.
O antigo regionalismo5 contribuía para as grandes distâncias, principalmente devido a deficiência nos meios de transporte e comunicação e o baixo nível de
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Inscrio no interior da formação naturalista discursiva, considerava as diferenças entre espaços do país como um reflexo imediato da natureza, do meio e da raça. E as diferenças de costumes, hábitos, práticas
migrações internas entre norte e sul, o que tornava esses espaços completamente desconhecidos entre si. Mas com o advento de um novo regionalismo menos difuso e provinciano, buscando refletir as diferentes formas de perceber e representar o espaço nas diversas áreas do país, isso começa a mudar. Deve-se considerar, somado a isso, as diferentes e novas formas de sensibilidade artística e cultural, trazidas pelo modernismo, as novas formas de concepções, acerca da sociedade, da modernização e da modernidade que contribuíram para essa nova perspectiva do regional.
O discurso regionalista é também reelaborado de maneira mais articulada nesse período (décadas de 1920/30); isso através de uma produção intelectual que era vinculada a grupos dominantes. Podemos destacar, dentre essa produção, o “Manifesto Regionalista” de Gilberto Freyre, como também “O Outro Nordeste”, de Djacir Menezes – ambos discursos intelectualizados, trazendo as reivindicações da classe dominante regional e criticando o centralismo político que, segundo eles, prejudicava o Nordeste e o discriminava. A obra “O Outro Nordeste” demonstra certas disparidades internas, destacando, especificamente, as áreas secas que se seguem da Bahia ao Ceará, mostrando o espaço econômico da agropecuária, marcada por três elementos da organização social: o banditismo, o cangaço e a organização política coronelística. Tal obra enfatiza o discurso da seca, porém esse discurso é voltado para a manutenção da estrutura de poder.
No início da década de 30, o Estado teve intervenção na região, porém apesar de aparentemente responder a reclames da classe dominante açucareira, não lhe deu, de fato, condição de recuperação e expansão, já que mantinha a mesma estrutura de produção. Desse modo, o açúcar nordestino não conseguia competir com o açúcar paulistano, que já apresentava características de agroindústria. Sendo assim, os proprietários nordestinos se mantiveram como dominantes apenas em nível regional, perdendo cada vez mais sua posição econômica e política em nível nacional.
sociais e políticas eram explicadas através das variações de clima, vegetação e da composição racial da população (MUNIZ, 2006).
Embora o ideal nacionalista tenha sido enfatizado nas décadas de 30/40, ele não se concretizou rapidamente. Mas, no decorrer do século XX, foi sendo gradativamente construído no imaginário dos brasileiros.
Entre as décadas de 60 e 70, consolida-se compreensão de uma cultura de mercado, capaz de reorganizar o cenário cultural brasileiro. Essas diretrizes determinaram parâmetros novos para se pensar a questão da cultura e a ideia de nação. Essas décadas foram o início de um novo modelo industrial para o país, pois houve o abandono, pelos meios de comunicação, das características regionais, os padrões locais, as fronteiras bem demarcadas, consolidando-se cada vez mais a ideia hegemônica de nação.
Atualmente, figura a ideia de globalização como a relação direta entre o regional e o global. Tal determinação é discutida de diferentes formas e por diferentes termos. Porém, essa relação é, na verdade, a interdependência e interpenetração entre local e global. A globalização interfere de modo direto na vida contemporânea, pois ao mesmo tempo em que é concebida como expansão dos mercados, ela reduz a autonomia de governos, atores políticos e sindicatos. Isso porque produz maior intercâmbio transnacional e deixa cambaleante a segurança do fato que dava pertencer a uma nação.
Pensar sobre esses fatores de atuação da globalização na vida diária das pessoas, leva-nos a compreender mudanças de comportamento, mudanças na maneira de se reconhecer e reconhecer seu lugar, sua região, sua nação. É importante pensar como as consequências desse processo vêm delineando o nacionalismo e o regionalismo atualmente. A imagem de nacionalismo e regionalismo se pautam, hoje em dia, na questão de que há processos de intercâmbios fluidos e, com isso, homogeneização, nações que abrem fronteiras e povos que se comunicam, mas ao mesmo tempo, há desarraigamentos e conflitos, fronteiras que se renovam, desejos de restaurar unidades nacionais, unidades étnicas ou familiares perdidas. Na verdade, como consequência desse processo de globalização, coexistem essas duas imagens sobrepostas em que heterogeneidades são presentes por todo esse processo.
Essas heterogeneidades presentes no processo de globalização nos levam a perceber, mais claramente, certos conflitos ou tensões que se processam na maneira como vivemos cotidianamente. Existem dois debates a esse respeito que se referem a uma perspectiva mais voltada para questões econômicas, questões relacionadas a fluidez, rapidez, ou simultaneidade com que povos se comunicam, negociam e outro debate que se refere mais diretamente a questões como migração e transculturação. O fato é que os argumentos presentes em cada um dos debates demonstram que ambos estão referidos nessa questão ampla que é a globalização.
Se tais debates transitam no interior desse processo mais amplo, as principais questões mais evidenciadas são dramas interculturais, considerados como resistência a globalização, questões que discutem o caráter parcial dos processos globalizadores, novos deslocamentos gerados pela precipitada unificação do mundo, dentre tantas outras questões. Porém, o que me interessa nessa discussão é como tal processo se faz presente no cotidiano e na vida das pessoas, atualmente. A maneira como esse interfere nas relações atuais e na construção de novos lugares. Os grupos musicais estudados nesse trabalho dialogam entre si, através da música, e demonstram como a transculturação, os avanços tecnológicos, a economia globalizada, a fluidez das relações sociais e a quebra de fronteiras influenciam suas identidades, sua região e suas percepções de mundo.
No presente trabalho, a questão que se coloca, é que a retomada de elementos
regionais tradicionais pela juventude, pode ser consequência de todo esse processo de
globalização. Esse processo acaba por levar essa juventude, representada aqui, pelos grupos musicais que dialogam em suas composições, com elementos da cultura global e da cultura local, a se reconhecerem por meio dos elementos locais, tradicionais, como é o caso da cultura popular que se faz presente através do cancioneiro popular local, nas composições desses grupos. Considera-se que, através da cultura popular, se constrói hoje uma vasta produção cultural (nas artes plásticas, na música, na dança, na poesia, no artesanato etc.), e todas essas produções geralmente determinam uma representação do lugar, pois tende à evidenciação de referências tradicionais, locais, para caracterizar diferenças entre regiões, destacar identidades e demarcar espaços, principalmente quando esse lugar passa a ficar meio desfigurado com a quebra de fronteiras, com as
perspectivas globalizantes e com o surgimento do ciberespaço e os novos planos de existência, como a existência virtual, por exemplo.
Essa situação em que a juventude volta-se ao tradicional como referente identitário, é fruto do processo da globalização que intensifica o sentimento e a sensação de desterritorialização. Esse sentimento cria a necessidade de uma permanência identitária, uma certa resistência à massificação da cultura, bem como, a manutenção dos valores tradicionais pertencentes a cada lugar específico. Segundo García Canclini (2007):
Quando escutamos as diversas vozes que falam da globalização, surgem “paradoxos”. Ao mesmo tempo em que é concebida como expansão dos mercados e, portanto, da potencialidade econômica das sociedades, a globalização reduz a capacidade de ação dos Estados nacionais, dos partidos, dos sindicatos e dos atores políticos clássicos em geral. Produz maior intercâmbio transnacional e deixa cambaleante a segurança que dava o fato de pertencer a uma nação (GARCIA CANCLINI, 2007, p. 19).
A retomada ao elemento regional tradicional pela juventude supõe uma reflexão sobre o universo do regionalismo nordestino. O regionalismo nordestino remete tanto ao espaço geográfico, quanto às características históricas desse lugar. O Nordeste, segundo Silveira (1984):
Trata-se do espaço mais antigo do país em termos de ocupação demográfica e econômica, disso resultando uma identidade objetiva, geográfica e cultural, diferenciada de outros espaços posteriormente ocupados, e mantendo sobre os mesmos uma hegemonia de praticamente três séculos. Essa identidade se consubstancia ainda, através de um longo processo, em um pensamento regionalista – forma de pensar suas dimensões, limitações e relações – se não o mais arraigado, no entanto remanescente com bastante vigor no arcabouço mental brasileiro (SILVEIRA, 1984, p.15).
A retomada do discurso regionalista, no atual contexto, explica-se porque, segundo García Canclini (2007):
O cultural facilita falar da cultura como uma dimensão que refere diferenças, contrastes e comparações, permite pensá-la menos como uma propriedade dos indivíduos e dos grupos e mais como um recurso heurístico que podemos usar para falar de diferença (GARCIA CANCLINI, 2007, p.57).
O processo de ressignificação dos lugares começa a ganhar corpo, justamente a partir do confronto entre o global e o local. É um processo que se constrói a partir de diferenças e similitudes, a partir da tradição e da modernidade. Pensar o Nordeste nesses parâmetros nos leva a considerar que os processos de produção econômico, social e cultural se constituem de modo interativo e que a soma dessas relações ressignificam a região Nordeste.