A estruturação desta unidade temática toma como referência as percepções dos/as jovens a respeito da família de origem e da estrutura familiar própria. O tratamento dos discursos que revelem suas percepções sobre a composição parental de origem será mais pontual. Às ponderações das/os jovens relacionadas ao seu arranjo doméstico serão organizadas com mais espaço, em virtude das diferentes questões que estão imbricadas nesta organização.
Sobre a estrutura familiar de origem observa-se que a maioria das/os participantes da pesquisa vêm de famílias numerosas, com mais de quatro filhos, sendo marcada por diferentes fatores: pobreza, instabilidade das relações amorosas de suas mães, violência intrafamiliar (doméstica), pouca escolaridade de mãe/pai e condições de trabalho precárias, sem direitos trabalhistas. Andrade, Esteves e Oliveira, (2009) em estudo com 75 mil jovens do Programa
61 Diário de campo, 10/04/2013.
confirmam a pouca escolarização, a precariedade no trabalho, a dificuldade de acessar bens de consumo e a restrição de redes de sociabilidade do grupo familiar. Estes dois últimos, de acordo com os relatos das/os jovens são marcas visíveis nas suas estruturas familiares.
No grupo deste estudo a composição familiar, em alguns casos, resultou dos diferentes relacionamentos que suas mães tiveram ao longo da juventude. Muitas moravam com suas famílias em cidades do interior da Paraíba, situação que, às vezes, estava associada ao trabalho dos pais em fazendas, ou ao vínculo que suas mães, por não terem condições de criá- las sozinhas, mantiveram com suas avós como aconteceu com Betty. Ela e outras jovens vão revelar que tanto as estruturas familiares de origem, quanto sua organização familiar atual estão longe da ideia tradicional de família.
Algumas jovens relataram que suas mães, depois de uma relação falida saíam em busca de sobrevivência, enquanto elas ficavam com suas avós, que acabavam se tornando a principal referência materna. Outras registraram que as mães engravidaram muito cedo (com 13, 14 anos) e nem conviveram com seus pais, como foi o caso de Thelma e Elisabeth. No caso de Betty,quando sua mãe se envolveu com seu pai ele era casado, por isso diz que nunca o conheceu. A gravidez na adolescência será um acontecimento que se repetirá na vida de algumas jovens dessa pesquisa, como veremos adiante.
Outro perfil da familiar de origem é a pouca ou nenhuma escolarização. Pelos relatos se pode inferir que, para a maioria, a escola parece que não teve sentido, ou estava muito distante da realidade interiorana em que viviam. Andrade, Esteves e Oliveira, (2009) registram a influência que a escolarização dos pais pode exercer na educação dos filhos. No seu estudo, a maioria dos jovens já se encontrava com escolarização superior a dos pais. No Brasil, a obrigatoriedade do ensino fundamental e os condicionantes a ela vinculados (perda da Bolsa Família, por exemplo) faz com que muitas famílias (mesmo com pouca escolarização) valorizem a frequência à escola.
Na sua pesquisa, Dias (2005) constatou que as famílias das/os jovens pesquisados não incentivam a interrupção dos estudos por parte destes. Outro destaque do estudo é que em contextos populares existe uma tendência de valorização da relação entre trabalho e escola, principalmente por enxergarem neste vínculo um meio de fortalecimento da solidariedade familiar, em especial para a manutenção da vida cotidiana. Esta autora destaca que a valorização do exercício conjunto dessas duas dimensões está vinculada à ideia de que estas podem “minimizar a exposição dos jovens às situações de violência” (DIAS, 2005, p. 47). Ainda conforme sua pesquisa, para muitas mães, ter as filhas sem estudar é um grande motivo
de frustração, pois enxergam que não ter estudado lhes impossibilitou de melhores condições de vida para aos filhos.
Ao falarem da escolarização das suas mães/pais Maria, Pedro, Giselle, Betty e
Elisabeth revelam:
Maria – Mainha estudou... oitava série, também. Já meu pai nunca estudou. Pedro – (...) Minha mãe só chegou à quarta.
Giselle – Painho terminou o Ensino Fundamental e mainha parou na quarta série.
Betty – Mãe estudou muito pouco, sabe escrever apenas o nome.
Elisabeth – Que eu saiba, na minha família, ninguém, na minha família. Eu acho que quem ta estudando mais na minha família é minha prima. Mas, assim irmã, minha irmã não estuda mais...
Fonte: Entrevistas Individuais com Maria, Pedro, Giselle Betty e Elisabeth.
Como será visto nos relatos sobre os antecedentes escolares do grupo desta pesquisa foram vários os aspectos que levaram ao abandono escolar. Para algumas a família não foi incisiva para que permanecessem na escola.
Além da violência estrutural que se revela pela situação de pobreza familiar e através do não acesso à escola, por exemplo, a violência de gênero sofrida por suas mães é destacada por 13 das 22 jovens entrevistadas. De acordo seus relatos a relação dos seus pais foi marcada por brigas e conflitos que indicavam uma organização familiar fundamentada na desigualdade nas relações de gênero e na dominação masculina revelada, principalmente, através da violência doméstica física, sexual, patrimonial dos seus pais contra suas mães e contra elas próprias.
Na maioria dos casos suas mães romperam com a violência, a partir do momento em que abandonam seus pais, elas e os irmãos. Apesar de algumas entrevistas terem sido marcadas por mágoas e ressentimentos, se observou que as jovens mostraram certo reconhecimento à coragem e à resiliência que suas mães tiveram. Sair para transformar a situação vivida, como fez a mãe de Luana.
Com base em Saffioti e Almeida (1995) entende-se que a violência de gênero é mais geral e, portanto, abrange tanto a violência doméstica, como a intrafamiliar. A violência de gênero não se restringe à relação marital, ou seja, à relação homem-mulher. Ela se reflete, também, na relação homem-homem e mulher-mulher. Segundo o Art. 5º, da Lei Maria da
Penha, a violência doméstica e familiar contra a mulher é “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial” (BRASIL, 2006, p. 18), no âmbito da unidade doméstica, da família, ou em qualquer relação íntima de afeto.
Em seu estudo sobre violência doméstica, Santos e Izumino (2005) refletem sobre a importância de se relativizar a perspectiva que insiste no binarismo dominação-vitimização. Para essas autoras é fundamental “entendermos que as mulheres têm autonomia e poder para mudar tais papéis e a situação de violência na qual porventura se encontrem” (SANTOS; IZUMINO, 2005, p. 15). Os processos vividos por mães das jovens dessa pesquisa mostram o que as autoras aqui apontam. Quando pergunto a Paloma como era a relação familiar ela revela o caminho encontrado por sua mãe para romper com a violência, que marcou sua vida e as vidas das irmãs.
Paloma – Ah, péssima! Porque eu via muita violência entre o meu pai e minha mãe. E meu pai batia muito em minha mãe.
Pesquisadora – Aí sua mãe não aguentou mais e foi pra casa da sua avó. Paloma – (...) E ficou eu e meus irmãos, a gente tudo pequenininho. Aí o primeiro a sair de casa foi meu irmão porque minha avó só queria homem macho. (...) Assim, só queria criar só filho homem. Ela não queria... nenhum neto mulher, só queria homem.
Pesquisadora – Por quê?!
Paloma – Porque... antigamente... eles... acha que mulher dá mais trabalho... Pesquisadora – Vocês ficaram com teu pai?
Paloma – É nós ficamos com o meu pai. E todas... e todas pessoa que ele via que passava de carro ali, ele dizia: “– Ah, tenho uma filha. Pois se você quiser você pode levar. Adotar uma.”
Pesquisadora – Ele conseguiu dar a alguém?
Paloma – Ele conseguiu dar tudinho, menos eu, porque eu era a mais velha. Pesquisadora – E tua mãe, o que é que fez?
Paloma – Ela não pode fazer nada porque a minha avó não queria nenhuma. Aí eu fui a última a ficar com meu pai... Aí como minha avó viu que só tinha sobrado eu, aí depois ela mandou pegar eu, porque ela disse: “– Ah, só sobrou ela. Ninguém não quis adotar, ela manda trazer mais uma filha fêmea, mesmo. Só sobrou ela mesmo, traga pra casa.”
Esse trecho da entrevista de Paloma não só revela que as relações de gênero são relações de poder que se exercem entre homem-mulher e, igualmente, entre mulher-mulher, no caso da sua avó com sua mãe, mas, ainda, revela o privilégio do homem sobre a mulher, que Paloma interpreta como “dar trabalho”. Diferente desta história, no caso da mãe de Luana, além dos fatores condicionantes, ou seja, do machismo do seu pai, resultado da sua formação cultural, existia a bebida, um fator precipitante que Santos e Izumino (2005) mencionam.
De acordo com Luana sua mãe, que não aguentava mais apanhar, foi embora sem dizer o destino. Em casa ficaram ela, o pai, duas irmãs, dois irmãos, um com apenas dois anos. Diz que o pai sofreu muito, mas não colocou ninguém dentro de casa e ela acabou assumindo toda a responsabilidade sobre os irmãos menores. Só depois que a mãe veio morar em João Pessoa com outro homem a família descobriu seu paradeiro. Apesar disso, Luana
contou que ela e os irmãos permaneceram morando com o pai.
Segundo seu relato, depois de 8 anos a mãe voltou para casa. Mas, segundo Luana, uma das condições que sua mãe exigiu do seu pai foi que ele deixasse de beber e mudasse seu jeito grosseiro. Luana disse que o pai aceitou e parou de beber. Revela que hoje os dois são evangélicos e o pai retomou a reforma da casa que tinha parado. Luana disse que no tempo em que ficou distante sua mãe teve outras três relações, mas que não deram certo e que ela sempre lhe dizia que “ia dar um jeito pra meu pai mudar”.
Ao ser perguntada sobre suas aprendizagens a partir da relação dos pais, da decisão tomada pela mãe, Luana diz:
Com meu pai eu aprendi que ele não botou ninguém dentro de casa, respeitou. Na minha mãe, eu aprendi assim, pro lado dela, que ela deixou ele, abandonou. Não gostei, a gente não gostou, que era pequeno, né. Mas, assim, de evangélico, de ajeitar ele, mudar ele, a vida dele, aí foi bom.
Fonte: Entrevista Individual com Luana.
Nos trechos dos discursos de Paloma e de Luana sobre a relação dos seus pais procuro mostrar as facetas de poder que envolvem as relações de gênero, as desigualdades que as atravessam e que, no caso da violência de gênero e da violência doméstica, nos dois exemplos citados, o binarismo dominação-vitimização é limitado para explicar. Nas duas situações, suas mães buscaram alternativas para sair/transformar a situação, o que significou romper com a lógica de que a responsabilidade do cuidado dos/as filhos/as e da vida privada era delas, idéia, ainda, recorrente em estruturas familiares e escolares, em rituais como dia das mães. Como
visto no capítulo 3, a partir das contribuições de Meyer (2003), tais questões mostram a produtividade da categoria gênero para a análise da vida social.
Pedro e Leila também foram deixados por suas mães que decidiram romper com as relações domésticas violentas em que viviam. Essa decisão foi dura em suas vidas, pois a violência resvalava neles, através das surras e dos maus tratos paterno. Maria contou que sua mãe fez algumas tentativas, mas só saiu quando conseguiu levar todos os quatro filhos, o que reflete o peso simbólico de ser mãe e da maternidade. Na entrevista contou que a mãe:
Maria – Não aguentava mais, sofrendo, batia nela, e..., às vezes, pegava ela a força para fazer sexo, essas coisa assim. Ela não contava, né. Contava agora à pouco. Aí uma vez ela planejou sem a gente saber. Aí quando ele saiu... assim que ele saiu pro trabalho a gente veio simbora. A gente veio mais de carona, a professora da gente (...) que ela já sabia do sofrimento de mainha, aí botaram a gente no carro e veio deixar a gente aqui. Quando a gente passou no trabalho dele, e todo mundo se abaixou, que ele disse que se visse a gente dentro do carro metia pedrada dentro do carro. Queria nem saber. Pesquisadora – Como ele era com vocês?
Maria – Bruto também. Às vezes mandava a gente caçar a sandália dele, se a gente não caçasse em não sei quantos minuto, apanhava todo mundo de cinto.
Fonte: Entrevista Individual com Maria.
Maria relatou que além da violência sexual a que a mãe estava constantemente submetida, quando o pai chegava bêbado em casa quebrava tudo e batia neles. Seu relato confirma o entendimento da violência doméstica como um fenômeno multidimensional que, segundo a Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006), por sua complexidade, impõe atenção multidisciplinar.
Como suas mães, muitas jovens dessa pesquisa foram construindo suas estratégias de rompimento com a violência de gênero, nas suas diferentes nuances. Em alguns casos a tomada de posição foi na própria relação, com a denúncia do marido para a polícia, como fez
Laura; em outros revidando a violência física ou tomando posição diante de posturas que consideram machistas, saindo sozinhas, ou com as amigas, participando das atividades da escola nas quais o marido se coloca contrário, como aconteceu com Thelma e Anita. Isto é, cada uma do seu jeito, vem se posicionando diante do machismo.
Cabe registrar que, em função do próprio trabalho feito pelo núcleo, nas situações em que colegas relatavam algum sofrimento, outras jovens tomavam posição dizendo o que fariam, ou o que suas colegas deveriam fazer. Algumas reconheceram a contribuição de
professores/as do Programa para que passassem a enxergar a violência nas suas vidas e a se posicionar contra, o que, em alguns casos, não significou sair da relação, mas mudar o companheiro, o que vai ao encontro das reflexões trazidas por Santos e Izumino (2005). Concordo com a posição das autoras de relativizarmos a perspectiva que insiste no binarismo dominação-vitimização. Na ótica dessas autoras, com autonomia e empoderamento, as mulheres podem mudar as situações de violência a que estão submetidas, como revela algumas falas:
Laura – (...) A gente já brigou, brigou muito já, já discutiu, ele já bateu em mim já. Eu fui denunciei ele. Ele foi preso, pagou fiança. Depois pediu pra voltar pra mim, aí eu voltei.
Thelma – (...) nós vivia brigando, batia muito em mim, mas eu também dava nele. (...) Quando ele faz muita raiva a mim, me espanca, me humilha, não quer me levar pros canto, eu vejo que tem outro a fim de mim, querendo ficar comigo, eu vou lá e fico.
Anita – É porque agora ele tá vendo que eu tô falando sério, entendeu? Que agora eu não tô brincando. (...) Ele não me leva, como o Projovem tá me dando a oportunidade de conhecer vários lugares, eu tenho que me abraçar, abraçar o Projovem e ir. Mesmo que aconteça alguma coisa, mas seja o que Deus quiser!
Fonte: Parte das entrevistas individuais de Laura, Thelma e Anita.
Um elemento importante para o enfrentamento à violência é a denuncia da vítima. Isso avançou muito com o surgimento da Lei Maria da Penha e com as novas penalizações. Agora não é mais possível pagar fiança como fez Marcos, marido de Laura. A referida Lei veta a “punição dos agressores com penas pecuniárias (multa e cesta básica)” (BRASIL, 2006, p. 11). Outro elemento importante é a não suspensão do processo penal. Esses e outros aspectos de certa forma vieram fortalecer a denúncia por parte da vítima, o que de certa forma mostra uma diferença em como as mães das jovens lidaram com a questão e como elas podem lidar.
Os tópicos a seguir se deterão, ainda mais, na ampliação da compreensão das/os jovens dessa pesquisa, que como tantos sujeitos da atualidade vivem a transição para a vida adulta, num movimento que se caracteriza mais como labiríntico (DAYRELL, 2007) do que linear. São jovens que organizam e estruturam o cotidiano a partir de processos que avançam, ou recuam, a depender das condições que a vida lhes proporciona. Tal realidade vai dar à família inicial (pai/mãe) um papel importante, mesmo que a relação seja marcada, no caso de alguns, por tensões/conflitos. Dessa maneira, passo a tratar de questões relacionadas à
estrutura familiar das/os jovens, a primeira das quais está relacionada com a moradia e a conjugalidade, pois como diz o ditado popular brasileiro: “Quem casa, quer casa!”.