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MALURTAASEN VEL

In document * KONSEKVENSUTREDNING FASE 1 (sider 137-143)

Começo este tópico com uma das frases de Anita que nos remete ao desejo da continuidade dos estudos. Entrar no Projovem significou, para muitas jovens, o reencontro com uma instituição que, de certa forma, lhes fechou a porta, num processo que associa diferentes fatores: escolares (curriculares, didáticos e pedagógicos), familiares, econômicos, políticos e sociais, alguns discutidos no tópico que tratou dos antecedentes escolares e, também, durante as reflexões feitas no capítulo II deste estudo. Ou seja, para a maioria das/os jovens a escola foi um projeto alterado por um ou vários fatores e isto, segundo Dayrell (2007), depende do que estejam vivenciando no ciclo de vida.

Como visto na Tabela 12, parte do grupo (12) respondeu que deseja fazer o ensino médio. Deste conjunto, três jovens entraram no Programa com maiores dificuldades em termos de acervo de conhecimento porque não haviam finalizado a primeira etapa do ensino fundamental, entre os quais estão Paloma, Leila e Layale. Outros/as três, embora tenham chegado até a 6ª série, ao longo do Programa apresentaram dificuldades para acompanhar a área de matemática.

Paloma, apesar de ter afirmado que a cabeça não dava, falou do desejo de continuar estudando:

Meu sonho depois do Projovem é continuar estudando (...), não desistir dos estudos. Eu vou até onde der pra ir, mas se eu puder ir eu tô indo. Não desistir do que eu quero fazer. Seja pra o trabalho, seja pra o estudo. Vou

tentar fazer. (...) Do meu desejo, do meu sonho, é fazer, assim, medicina. Eu vejo que... assim, não vai ser um sonho realizado. Mas dependente do qual seja, pra mim vai ser bom, porque vai já vai me ensinar alguma coisa pra vida (...). Mas um dia o destino, às vezes, não permite que você esteja ali, mesmo que você queira, mas o destino pode não querer você ali.

Fonte: Entrevista Individual com Paloma.

O discurso de Paloma mostra que ela reflexiona sobre seu processo de aprendizagem e sobre as dificuldades que tem. No questionário havia marcado o ensino médio, mas não fala sobre ele quando se refere a continuar os estudos, apontando para um projeto mais distante – o sonho de chegar à universidade e fazer medicina, um dos cursos mais valorizados e concorridos. Talvez Paloma seja consciente das dificuldades que tem para cursar o ensino médio, ao mesmo tempo em que avalia que o curso de medicina pode não ser um sonho realizável.

A vida já ensinou muitas coisas para Paloma. Primeiro, quando sua mãe saiu de casa por conta da violência do pai, deixando-a com as irmãs bem pequenas. Além disso, sua avó só deixou vir com a mãe o filho homem e rejeitou as netas. Depois, quando o pai deu todas suas irmãs, ficando somente ela, a sua avó permitiu a mãe trazê-la. Outra aprendizagem que lhe marca muito foi iniciar a adolescência catando lixo para sobreviver. Aos 16 anos, quando ficou grávida, descobriu que não poderia mais ficar na casa da mãe e teve que pedir ao pai do filho para encontrar um lugar para eles morarem. Com o fim da relação foi obrigada a retornar para a casa da mãe com o filho, pois não tinha para onde ir.

De uma forma geral Paloma dá indícios que o reposicionamento na relação com a escola se afirmou. Depois que terminou o Projovem Urbano soube que ela deu continuidade aos estudos, se matriculando no ensino médio. Assim, como Paloma, Layale também demonstrou muitas dificuldades de aprendizagem, que se revelam também nas suas três reprovações no percurso escolar anterior ao Programa. Ela disse que queria continuar estudando e trabalhando. No momento da entrevista falou apenas sobre o que queria estudar:

Layale – Eu queria ser veterinária. Eu gosto muito de animais. Eu queria. Tenho vontade. Se eu passar de ano, né.

Pesquisadora – E o que falta pra isso? Layale – Aprender mais.

Pesquisadora – Você acha que esse sonho é possível? Layale – Pra mim é impossível.

Pesquisadora – Por que?

Layale – Porque, sei lá. É muitas coisas que a pessoa vai ter que enfrentar. Eu tenho medo assim de não dar certo, tá entendendo. Mas eu tenho vontade sim, gosto muito de animais.

Pesquisadora – Você acha que você tem capacidade pra isso? Layale – Tem que aprender, né. Tenho que aprender bastante.

Fonte: Entrevista Individual com Layane.

Assim como Paloma, sua colega Layale coloca o sonho de fazer veterinária no campo das impossibilidades. Realça isso ao afirmar que precisa aprender bastante e quando destaca que são muitas coisas a enfrentar, uma delas é o ensino médio. Diferente de Paloma e Layale, Betty é afirmativa quando fala da continuidade dos estudos. Tem as amigas como estímulo e se coloca responsável por incentivá-las. Diferente das duas colegas, Betty não coloca o sonho da universidade como uma impossibilidade, embora reconheça que não será fácil. Ela sabe que para ela chegar à universidade precisa passar pelo ensino médio. Assim, quando pergunto sobre o que fará depois do PJU, afirmativamente comunica:

Betty - Pronto. Ensino Médio. A gente já tava combinando com as meninas que a gente vai pra universidade ver se a gente termina lá... Na universidade, onde a gente vê que é mais favorável porque na universidade tem alguns cursos que você aprende, mas, também, você termina, você pega uma profissão. A gente tá pensando quando a gente chegar lá que for fazer a matrícula, elas já me botaram no meio. (...) Que tá tudo com a esperança de terminar.

Pesquisadora – O que mais depois do ensino médio? Já tem alguma ideia? Betty – Não exatamente. Mas, eu pretendo fazer faculdade. Já que eu comecei de novo, eu quero chegar lá. Eu sei que eu posso chegar lá. Nada é tarde [riso]. (...) E com as meninas, a gente vamos uma empurrando a outra, pra gente poder chegar lá. E eu sei que vou conseguir. Não vai ser fácil, não, mas, também, não é difícil, nem impossível, né?

Fonte: Entrevista Individual com Betty.

A força discursiva que Betty traz na sua fala revela sua vontade de realizar esse sonho e mostra como o grupo de amizades pode interferir positivamente neste processo. Diferente de

Marcos que destacou uma formação técnica porque já tem uma meta estabelecida, Betty quer estudar para ter uma profissão, o que para ela pressupõe passar pela universidade.

Laura é outra que faz parte do grupo daqueles que desejam continuar os estudos. No Núcleo X ela é a jovem junto com outra colega, mais protegida pelos direitos trabalhistas,

pois ambas tinham a carteira assinada. Laura disse que somente quando sua patroa informou que não poderia mais pagar o salário mínimo e se prontificou em ajudá-la, fazendo seu currículo, foi que se deu conta de não ter nenhuma formação concluída para colocar no papel. Então decidiu registrar que tinha o ensino médio.

Relata que deixou o currículo pelas lojas do comércio local, consultórios, postos de gasolina... Por onde passava deixava seu currículo. Depois de poucos dias uma loja a chamou para uma entrevista e, logo em seguida, o gerente do posto de gasolina, do bairro onde mora. Contou que na última entrevista pediram o histórico do ensino médio, ela disse que justificou nunca ter pedido na escola do interior que havia estudado. Até hoje trabalha no posto. Avalia que se tivesse informado que não tinha o curso, o dono do posto não tinha lhe contratado e revelou que esta situação a motivou término dos estudos, pois viu na prática como é necessário. Durante a entrevista, sua resposta foi sucinta, mas afirmativa quanto ao projeto depois do Projovem: Eu quero terminar. Vou terminar. E eu quero fazer um curso de enfermagem e continuar trabalhando no meu emprego.

Outro grupo, quando fala da continuidade dos estudos, nem sempre faz uma relação direta com o ensino médio que, de certa maneira, fica subtendido, em alguns casos.

Giselly – Terminar o Ensino Médio e fazer curso, e arrumar um emprego. Pedro – Meu sonho [riso] é continuar estudando... é, né? Torcer, né? Pra não desistir, não ter a recaída, de desistir. [riso]. Fazer o ensino médio, depois terminar (...) e fazer o Enem, isso é uma coisa. Assim, né, terminar o estudo pensar em fazer o Enem. Aí eu fico pensando, daqui pra lá eu não sei o que é que vai acontecer na minha vida. Se vai surgir algum emprego, tal.

Fonte: Entrevista Individual Giselly e Pedro.

Giselly que para entrar no Programa, estrategicamente, usou do jogo de gênero

terminou afirmando três coisas que, para ela, são importantes após o Projovem: terminar o ensino médio, fazer um curso e arrumar um emprego. Ela que já tem curso na área de informática, o que é raro para a maioria das jovens, feito com o financiamento da mãe disse durante a entrevista que quer muito trabalhar para poder comprar suas coisas. Na sua visão depender financeiramente do marido, por um lado é bom porque tem mais tempo de cuidar do filho e de acompanhar seu andamento na escola. Por outro, não é bom porque, às vezes, quando quer alguma coisa o marido alega que eles já têm muita conta para pagar. E afirma: “eu estando trabalhando não, eu posso ajudar ele, como eu posso ter as minhas coisas, sem precisar dele, entendeu?”.

Pedro tem muitos sonhos para depois que terminar o Programa. Depois que terminar o ensino médio quer fazer universidade, um curso de Nutrição ou algo no campo das Artes. Entretanto, como aconteceu em momentos anteriores do seu processo de escolarização, tem suas recaídas que, na verdade, como Rodrigo, Layale e Paloma,parecem estar relacionadas às dificuldades de aprendizagem que vieram se somando ao longo do seu processo de escolarização. No Projovem sua frequência foi bastante oscilante, às vezes, ficando quase um mês sem aparecer no Núcleo. Sua justificativa era falta de vontade e quando comparecia ficava pouco tempo em sala de aula.

Thelma que tem dois anos a mais que Pedro, ainda não conseguiu estabelecer uma relação de interesse com a escola por vários fatores, como os já discutidos nos antecedentes escolares. Ela foi uma das jovens que falou não ter aprendido nada no Programa, destacando em sua entrevista que poucos são os/as professores/as que sabem ensinar. Ao reflexionar sobre sua aprendizagem reconhece que é desinteressada, mas quando perguntei sobre os projetos depois do PJU disse:

Thelma – Mulher eu queria terminar, eu queria... Eu queria ser alguém na vida, né. Mas acho que não vai chegar nunca. Por que, sei lá... Acho que eu sou burra, os negócio (conhecimento) não entra na minha cabeça, só safadeza, safadeza eu sei com a “mulesta”.

Pesquisadora – O que está faltando na escola para você se interessar? Thelma – Ta faltando eu me interessar mais, não é?

Fonte: Entrevista Individual com Thelma.

Parece que no caso de Thelma e Pedro, o retorno à escola através do Projovem não reacendeu a vontade de aprender. Entretanto, para a maioria, mesmo para aquelas/es que apresentam dificuldades de aprendizagem e que refletem sobre elas, o PJU, de alguma maneira, oportunizou nova conexão com a escola e com o aprender. Contudo, a continuidade do processo de escolarização e o sucesso escolar, depois do Projovem dependerá das escolhas seguintes. Diferente de outras jovens, soube que Thelma e Pedro não deram continuidade aos estudos após o Projovem. Ao longo do curso ambos revelaram seu desinteresse pelo estudo, ela registrando que seu empenho para as questões da sexualidade e ele literalmente “sem vontade”, em um momento de nossas conversas disse que desde pequeno se escondia para não ir para a escola, mesmo a mãe mandando. Na história dos dois a escolarização familiar (pai, mãe e irmãos) também é precária.

In document * KONSEKVENSUTREDNING FASE 1 (sider 137-143)