As análises e resultados possibilitam destacar os aspectos semelhantes e divergentes entre as empresas e que podem ajudar a apontar, em alguns casos, ações adequadas ou não diante da evolução histórica, condições macro ambientais, utilização de estratégias, capacidades e recursos.
No início das atividades, ambos os negócio surgiram diante das oportunidades percebidas pelos empresários, caracterizadas pela detecção de necessidades das pessoas. Uma pela falta de serviços mecânicos em bicicletas e posteriormente em motos e, a outra, pela oferta de produtos que ainda não eram comercializados na região e com o diferencial de vendas parceladas.
Atuando sozinhos nos setores em que trabalhavam, rapidamente desenvolveram recursos, capacidades e competências internas que contribuíram para a conquista de clientes e domínio de mercado. No entanto, pode-se ressaltar o valor desses recursos apenas pela aquisição de experiência e pelo custo que outros empreendimentos poderiam enfrentar para alcançar o mesmo patamar. Ao relacionar os recursos internos com a interferência de negócios informais/ilegais, percebe-se que aqueles não foram suficientes para manter os negócios estáveis e garantir a vantagem competitiva.
Entretanto, a empresa “A” não foi tão afetada por essa interferência externa quanto a empresa “B”, pois sua estratégia de diferenciação, através das vendas a crédito, possibilitou vantagem diante da concorrência, apesar de algumas perdas de mercado no decorrer das atividades.
Já a empresa “B” não tinha esse diferencial, já que os produtos eram vendidos à vista. Dessa forma, os concorrentes informais/ilegais vendendo peças e prestando serviços mais baratos adquiriram maior visibilidade e preferência dos clientes, levando a referida empresa a um declínio contínuo. A sua rentabilidade foi decaindo enquanto os concorrentes informais/ilegais prosperavam.
Percebe-se que em alguns momentos, diante da interferência informal e atividades ilegais como o contrabando de produtos estrangeiros para o mercado nacional, os empresários ficaram indiferentes a essas ameaças e isso representou consequências para seus estabelecimentos, já que, dado o impacto
que esses fatores apresentaram, houve declínio no faturamento e comprometimento da estabilidade em suas atividades.
Ambas as empresas analisadas participam do mesmo contexto de falta de fiscalização e presença irregular de empresas estrangeiras no município de Benjamin Constant. No entanto, ao confrontar as ações e reações no processo de mudança das empresas “A” e “B”, percebe-se que a segunda sofreu mais interferência negativa do que a primeira, haja vista que a concorrência ofertava produtos iguais e substitutos a preços menores. Enquanto que a concorrência no ramo de eletroeletrônicos apresentava-se em menor escala e esses concorrentes não tinham estrutura e recursos para obter vantagem competitiva sobre a empresa “A”.
Um aspecto comum detectado nas ações dos empresários foi o fator diversificação corporativa. Ambos os estabelecimentos tiveram que investir em novos negócios, justificando essa decisão como uma forma de driblar a concorrência informal/ilegal que ocorria diretamente e também como uma tentativa de aumentar o faturamento que vinha sendo perdido com a interferência dessas atuações sobre seus negócios. Portanto, a diversificação, apesar de dever levar em consideração uma oportunidade, nestes casos representou também uma necessidade ou alternativa que, caso não fosse tomada, poderia significar o fim das empresas analisadas.
A empresa “A”, em seu conteúdo estratégico, apresentou caráter mais proativo para lidar com a concorrência do que a empresa “B”. Como abordado em sua análise específica, a empresa “B” pode ter falhado na utilização de estratégias genéricas, resultado de conflito com sua própria identidade ou missão. A empresa inicialmente atuava sozinha no mercado de peças e serviços. Essa situação tornou possível estabelecer preços mais elevados em suas atividades e a atrair clientes em sua maioria de classe média e alta, fato que, mesmo após a entrada de concorrentes informais/ilegais, não foi modificado. A empresa “B” por um lado tentava oferecer produtos e serviços diferenciados e, por outro, tinha o dilema interno em direcionar ações para o público „vip‟ e de baixa renda. Esse conflito pode ter deixado a empresa na posição de meio-termo (PORTER, 2009) já que a mesma não soube desenvolver nenhuma das estratégias completamente.
Já a empresa “A” teve seu maior momento de dificuldade após o investimento sem retorno com as atividades políticas seguido pelo fim da parceria entre os sócios. A falta de experiência
administrativa do empresário que continuou com a empresa “A” o impossibilitou de utilizar estratégias claras para lidar com a concorrência e interferência informal que se estabelecia em seus domínios.
Outro aspecto que contribuiu para o início do declínio nas vendas dessa empresa foi o aparente abandono do negócio principal para entrar em um novo ramo, comprometendo inclusive o capital da primeira empresa. Isso gerou confusão interna sobre a utilização de recursos (financeiros e humanos) nos diferentes ramos. Então, não havia consenso ou dedicação para as atividades de nenhuma empresa, ocasionando um colapso recíproco tanto no novo setor quanto no antigo, já que a empresa abrira espaço para a atuação dos concorrentes.
No entanto, após perceber a falha, a empresa “A” retomou o direcionamento das atividades, voltando ao seu negócio principal e oferecendo o seu diferencial como maior força para combater a concorrência. A estratégia de diferenciação com as vendas parceladas era o seu ponto forte para lidar com os negócios informais e vendas estrangeiras, já que estes só vendiam à vista ou com condições menos vantajosas do que a empresa “A”.
Em determinados períodos ficaram provadas a relação de acaso e surpresas que o ambiente impõe (McKAY; CHIA, 2013), como o fim da sociedade e não pagamentos de obras na empresa “A” e o incêndio que culminou no fim das atividades da empresa “B”. Percebe-se que a utilização de estratégias emergentes (MINTZBERG, 1987) nem sempre podem ser consideradas eficazes para lidar com essas situações, embora sejam alternativas e fatores potencializadores de coragem e determinação, representando um ânimo a mais ou uma esperança em manter as atividades, encontrando uma forma de obter vantagem e sair da situação de risco. Dessa forma, as estratégias emergentes dependem das capacidades e recursos das empresas para tornarem-se oportunas e eficazes.
Mesmo assim, quem garante que o sucesso é certo com a utilização de estratégias deliberadas?
Como afirmaram Barney e Hesterly (2007), a estratégia é a melhor aposta de uma empresa para obter vantagem competitiva. Isso quer dizer que não há uma certeza sobre a eficiência e eficácia dessas ações já que tudo depende de como as organizações se
adaptam e se modificam para se manterem operantes e firmes diante das dificuldades que surgem.
O contexto em que atuaram as empresas analisadas apresenta condições de imprevisibilidade, onde quase tudo é ameaça e há pouco o que fazer para combatê-la, uma vez que não se pode confiar na atuação fiscalizadora dos governos.
Diante dessa instabilidade foram detectados todos os perfis gerenciais e estratégicos apresentados no quadro de análise, corroborando a percepção de que, assim como ambiente é variável e dinâmico, também deve ser a atuação dos empresários.
Na comparação entre as empresas, percebeu-se que, de forma geral, a empresa “A” teve atuação mais voluntarista, enquanto a empresa “B” agiu de forma essencialmente determinista. Esse reflexo pode ser percebido no quadro a seguir:
Quadro 37 – Comparação entre as empresas pesquisadas
Semelhanças Divergências
Exploração de oportunidades Perfil gerencial para lidar com as ameaças Desenvolvimento de capacidades Empresa A desenvolveu melhores recursos em relação à empresa B Dificuldades com os concorrentes
informais/ilegais – Indiferença inicial
Caráter proativo/voluntarista da empresa A em relação à empresa B (padrão determinista do ambiente) Necessidade de diversificação Empresa A: estratégias claras Empresa B: indefinição estratégica Aparente abandono do negócio
principal Empresa A conseguiu vencer crises Dinamismo ambiental Empresa B não se resguardou contra ameaças
Fonte: Dados da pesquisa (2013)
A realidade dessas empresas foi reflexo da interferência ambiental sofrida e gerada principalmente pela presença de estabelecimentos informais/ilegais, contrabando e circulação irregular de pessoas e produtos entre a fronteira. Esse contexto é ainda possibilitado pela escassez de fiscalização por parte das autoridades brasileiras na região.
Nesse sentido há de se ressaltar que em ambientes onde não existem essas interferências irregulares, onde todas as empresas devem seguir a legalidade e há fiscalização eficiente, todos acabam desenvolvendo o que DiMaggio e Powell (2007)
chamam de isomorfismo. Ou seja, já que todas as organizações de um determinado ambiente sofrem as mesmas pressões e experimentam as mesmas características, estas tendem a assemelhar-se umas às outras de forma a gerar um equilíbrio até mesmo de preço. Essa situação pode ser percebida em uma simples consulta de preços de produtos através da rede mundial de computadores, onde há vários sites que oferecem produtos iguais com preços e condições similares (prazo de entrega, garantia, frete grátis e variedade de meios de pagamento).
Apesar de as empresas analisadas neste trabalho experimentarem as mesmas condições ambientais, suas situações diferem quanto aos ramos em que atuam, à falta de fiscalização e à interferência sofrida com a presença de negócios informais/ilegais no mesmo contexto atuando como concorrentes, pois Lagreca e Hexsel (2007) já afirmaram que torna-se essencial para as empresas legalizadas desenvolver estratégias para enfrentar os concorrentes informais.
Conforme Hitt, Ireland e Hoskisson (2005), torna-se um desafio para as empresas competir em um cenário volátil e imprevisível e lidar com as descontínuas mudanças ambientais devido ao conjunto de ações e reações competitivas que são praticadas por rivais agressivos.
Ao relacionar os perfis gerenciais e conteúdo de estratégias utilizadas para se resguardar das ameaças ambientais, percebe-se que após o período de crise e interferência da concorrência informal, a empresa “A” optou pela utilização do modo planejado e tipo analítico de execução de atividades quanto ao processo; retomou sua estratégia de diferenciação e desenvolvimento de mercado quanto ao conteúdo; reestruturou seus recursos internos e recuperou capacidades e habilidades. Dessa forma a empresa conseguiu defender-se das ameaças do ambiente externo, inclusive concorrentes informais.
Já a empresa “B”, a partir do período 3, quando esta estava sofrendo maior interferência dos concorrentes informais, adotou medidas essencialmente adaptativas, reativas e defensivas; os recursos e capacidades internos foram desvalorizados e desestruturados; esses elementos ocasionaram indefinição quanto ao conteúdo estratégico, ficando a empresa basicamente na posição de meio-termo (PORTER, 2009). Dessa maneira a empresa
permitiu que o ambiente externo ditasse as regras, ficando na posição determinista da Adaptação Estratégica.
Com isso percebem-se as diferenças entre as duas empresas pesquisadas. Isto se reflete na atualidade, pois apenas a empresa “A” continua ativa.
5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
O estudo da mudança estratégica nas duas empresas analisadas possibilitou identificar os processos de mudança, detectar e descrever as alterações contextuais internas e externas e identificar as estratégias adotadas diante de cada evento com o objetivo de tirar proveito de cada situação visando a conseguir vantagem competitiva.
A localização das empresas em seu contexto de fronteira internacional, de acordo com a sua descrição, formado por elementos característicos de informalidade e ilegalidade que fomentam o contrabando de diversos produtos e circulação descontrolada de pessoas, foi essencial para entender a situação de desafio que as mesmas enfrentaram e enfrentam para manter-se ativas e, mais difícil, em progresso no mercado em que atuam.
Outro fator singular da região é a distância de grandes centros urbanos dificultando o acesso e chegada de produtos nacionais, que coloca as empresas legalizadas em situação de desvantagem diante dos concorrentes informais e ilegais que ofertam produtos contrabandeados a menor preço. Esse mesmo fator agregado às condições geográficas tem impedido os governos de tomar atitudes que possam coibir a entrada ilegal de produtos e pessoas no território nacional e possibilitar investimentos de cunho desenvolvimentista para as cidades do interior do Amazonas (ou pelo menos essa tem sido a justificativa recorrente para a situação de abandono que essas cidades enfrentam).
Nesse sentido, pode-se afirmar que os objetivos do trabalho (geral e específicos) foram alcançados através dos resultados obtidos e apresentados na análise.
Dentre as dificuldades do estudo pode-se destacar a desistência de uma das empresas que estava inicialmente disposta a participar, já que seriam três para completar o estudo de caso e também a dificuldade de encontrar uma substituta diante das recusas em contato com outras organizações.
Entende-se que essa situação seja motivada por desconfiança dos próprios empresários ou descrença de que estudos nessa área possam contribuir para mudar o quadro socioeconômico da região.
Foi dificultoso também manter contato com os empresários das duas empresas que participaram da pesquisa, pois levando em consideração a falta de tempo que estes dispunham para o
atendimento, alguns aspectos não puderam ser incluídos na análise, como a dinamicidade da atuação dos empresários em outros ramos. Isso também ocasionou adaptações no cronograma de atividades de pesquisa, principalmente em consequência de desmarcações de entrevistas envolvendo os proprietários e gerentes.
Há de se considerar que este estudo não tem a pretensão de ilustrar categoricamente que a situação abordada não tem solução ou que foi apresentado um retrato fiel da realidade, haja vista que a ciência é dinâmica e possibilita novas perspectivas e abordagens para problemas semelhantes.
Nesse sentido, outros fatores regionais característicos do ambiente estudo, poderão ser melhor compreendidos em estudos posteriores, como o caso dos problemas sociais (má distribuição de renda, falta de empregos e oportunidades, deficiências na educação, problemas nos sistemas de transporte, saúde e saneamento básico precários, aspectos culturais, etc.) como elementos impactantes para a realidade percebida.
Esses aspectos podem inclusive constituir pesquisas em outras áreas agregando o conhecimento transdisciplinar e oferecendo melhores perspectivas dos elementos típicos dessa região bem como de outras que podem apresentar características de dificuldade organizacional a partir do contexto de alta informalidade ou instabilidade.
Pode ser motivada até mesmo a pesquisa junto aos órgãos governamentais para verificar o desenvolvimento de projetos e ações que vêm sendo adotadas nos últimos anos, quais os resultados que têm sido apresentados e perspectivas futuras, tanto na área de fiscalização da fronteira como no setor de investimentos e desenvolvimentos de políticas públicas e de integração para melhorar as condições de vida na região do interior do estado do Amazonas e outras localidades que enfrentam aspectos equivalentes.
Assume-se que, dada à situação apresentada, torna-se necessário agir para modificar a realidade, resultando em condições melhores tanto para as empresas, quanto para a população.
No entanto, percebe-se que a atuação dos estrangeiros e a entrada irregular de produtos no território nacional têm contribuído para abastecer um mercado carente e, nesse sentido, é preciso levar em consideração que se não fosse por essa situação, a vida naquela região seria ainda mais difícil. Torna-se necessário apenas
formalizar os procedimentos, possibilitando às empresas legalizadas a atuação em um ambiente justo; aos estabelecimentos estrangeiros, que se regularizem prontamente e, ao contrabando de produtos, fiscalização para cessar a interferência ilegal que este processo ocasiona às empresas, população e governos.
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