Existem também alguns outros trabalhos (ensaios, artigos, textos) que tratam especificamente do curso de mestrado, mas não se constituindo em processo investigatório. O objetivo primordial é apresentar posicionamentos que conduzem à reflexão, interpretação e análises psicológicas e sociológicas dos fenômenos que ocorrem durante a elaboração da dissertação, atingindo inclusive a relação orientador-orientando. Dentre eles está Como vai sua tese? de Goldberg (1980). A autora critica a política de pós-graduação destacando o fato de ser a dissertação um único fator que legitima o mestrado, e que a origem dos problemas que se verificam durante o processo de elaboração da dissertação está além do domínio . No que se refere ao orientando, diz que este faz um verdadeiro “jogo” de aparências, já que finge cumprir
as recomendações da Banca. Mostra também que o fator medo se faz presente na interação
orientador-orientando, especialmente quando há situaçõesnovas.
Essa manifestação é desdobrada por Goldberg (1980) quando aponta a competência técnico-científica, a maturidade pessoal e a honestidade profissional do orientador como fatores essenciais paraevitara instalaçãodo medo entre os integrantes da díade. O medo para ela é o responsável pela desestabilização emocional do mestrando, podendo inclusive interferir negativamente no momento da apresentação de sua dissertação. Por isso, é preciso que o orientando esteja seguro quando da escolha do tema edadefinição do problema que abordará. Adianta, ainda, que o fator que legitima o mestrado – a dissertação – é considerado como a etapa mais difícil, mais críticapara o mestrando, pois a sua defesa faz parte dos rituaisque o avaliarão.
Sugere Goldberg (1980), paraevitar queo medo se instale entre aqueles que compõem a díade, é preciso quetanto o orientador quanto o orientando estejam imbuídos com os resultados da dissertação. Para ela, o medo se instala mais facilmente nos orientandos, haja vista a preocupação em apresentarem-se condignamente perante a Banca examinadora. Assim sendo, o
orientando pode sentir-se “desequilibrado” emocionalmente, e esse fato interferir no resultado final.
Em A Orientação da Dissertação de Mestrado: Concepção e Prática – Indagações de um Educador, Arantes (1986) concorda plenamente com Goldberg (1980) no que tange à competência técnica do orientador, e coloca para reflexão uma série de perguntas (sem respostas), dentre as quais: “estando o orientador sujeito a pressões, pressionará por sua vez o aluno? Fará imposições, escudando-se na necessidade de cumprir requisitos acadêmicos? Buscará se garantir frente à instituição e à comunidade acadêmica?” Suas perguntas surgem diante do estudo exploratório e especulativo que realizou, no qual distingue dois tipos de condicionantes na escolha do orientador pelo orientando: um acadêmico (disponibilidade de tempo, interesse e competência na área de estudo) e outro não-acadêmico (amizade pessoal). Cabe, portanto, ao orientador saber equilibrar os interesses acadêmicos, os da instituição e os dos alunos, a fim de que o projeto se desenvolva com sucesso.
Ao finalizar seu texto, Arantes ressalta que durante todo o desenvolver da dissertação o orientador pode ser questionado não só pelos alunos ousados e críticos, mas também por aqueles devidamente preparados. Por isso, é necessário que esteja devidamente imbuído em seus propósitos de orientador. Caso contrário, terá de optar (ou não) pela orientação dos chamados “alunos bem dotados” ou resignar-se em aceitar o quinhão que lhe couber na partilha dos “menos dotados”. Antes, porém, deve atentar para a definição do que seja aluno bem ou maldotado.
Na publicação lançada por Bianchetti e Machado (2002) há a afirmação que a relação orientador - orientando e suas páginas escritas diferem essencialmente dos frios contatos oferecidos por obras técnicas. O orientador, o orientando e suas páginas escritas formam um trio que interage de forma original e com considerável espaço de liberdade na construção de conhecimentos necessários à escrita do trabalho do orientando, de acordo com o seu estilo pessoal de escrita. A relação entre orientador - orientando é diferente, portanto, daquela que o orientando estabelece com manuais, que são necessários, mas não suficientes. As ações da díade devem estar entrelaçadas de tal modo que criem unicidade e cumplicidade de atitudes. Todavia nem sempre isso acontece. Hácasos em que o orientador abdica de suas propostas, afasta-se de sua missão, deixando que o orientandobusque, sozinho, em manuais às vezes não credenciados, as orientações metodológicas e científicas para a sua dissertação.
Bianchetti e Machado (2002) lembram que está nas mãos dos orientadores a grande responsabilidade de formar pesquisadores, a fim de que o Brasil possa inserir-se no panorama mundial como nação geradora de ciência e tecnologia.
Em Metodologia do Trabalho Científico, Severino (2003) destina alguns capítulos ao estudo da orientação nos cursos de pós-graduação. Enfoca a importância do estabelecimento de uma relação educativa entre orientador - orientando, com o devido respeito à autonomia e à personalidade de cada um. Para ele, a experiência profissional mais amadurecida do orientador deve se somar às experiências em construção do orientando. A verdadeira relação educativa pressupõe trabalho em conjunto com perspectivas de crescimento para ambas as partes. Todavia, isso só se consegue com uma interação dialética em que não esteja presente qualquer forma de opressão ou submissão.
Em 2002, o catálogo informatizado da Livraria Saraiva, em Porto Alegre, acusava a existência de apenas 29 títulos destinados a auxiliar na redação de escritos acadêmicos, sendo 18 para monografias, cinco para teses, um para dissertação, 3 para dissertação e teses juntas e 3 para teses, dissertação e monografia juntas. (BIANCHETTI; MACHADO, 2002, p.15). Neste ano, 2006, a Livraria Siciliano, em Brasília, afirma que em seu catálogo estão registrados 33 títulos de Metodologia Científica (LIVRARIA SICILIANO, 2006)