DISCUSSÃO
Este estudo examinou a avaliação que os alunos do ensino médio fazem de si mesmos, de seus professores e colegas, quanto ao nível de criatividade. Também investigou a extensão em que os professores do ensino médio têm contemplado a expressão e o desenvolvimento da criatividade, na percepção dos alunos, identificando as práticas docentes favoráveis ao desenvolvimento da criatividade adotadas por tais professores. Para tanto, utilizou-se um questionário que incluía: (1) Escala de Avaliação do Nível de Criatividade; (2) questão aberta “Na sua opinião, os professores do Ensino Médio têm contemplado o
desenvolvimento e a expressão do potencial criativo dos alunos? Justifique a resposta”; (3) Inventário de Práticas Docentes (aqui, com a denominação Avaliação de Procedimentos Docentes).
Na avaliação do nível de criatividade dos alunos, professores e colegas, constatou-se que os alunos do ensino médio se perceberam predominantemente como criativos ou muito criativos. Os docentes foram avaliados pelos estudantes como significativamente menos criativos do que eles próprios e do que os seus colegas. Resultados parcialmente semelhantes foram obtidos por Silva e Alencar (2003) em uma amostra de alunos do curso de Enfermagem de uma universidade pública e por Alencar (1997, 2002), em estudos com estudantes universitários das áreas de Ciências Humanas e Exatas de instituições pública e particular e pós-graduandos de uma universidade pública. Diferentemente do que foi observado no presente estudo, tanto Alencar (1997) como Silva e Alencar (2003) não observaram diferenças
entre a auto-avaliação dos alunos e a avaliação destes, quanto ao nível de criatividade dos seus colegas.
No que diz respeito à questão aberta, mais da metade dos alunos concordou total ou parcialmente que, de modo geral, os professores do ensino médio têm contemplado, em suas aulas, o desenvolvimento e a expressão do potencial criativo de seus alunos. Estes resultados estão em discordância com os encontrados por Silva e Alencar (2003) em um estudo que envolveu alunos e professores do curso de Enfermagem, de uma universidade pública e também com os obtidos por Oliveira (2007), em pesquisa envolvendo professores do curso de Letras de distintas instituições de educação superior. Estão, porém, em congruência com os encontrados por Souza e Alencar (2006), em estudo realizado com professores e estudantes do curso de Pedagogia.
A presença da criatividade nas salas de aula do ensino médio, sob percepção dos alunos, reforça a idéia de Mitjáns Martínez (1997) quando esta afirma ser a criatividade uma habilidade que se manifesta nos diferentes níveis e campos da atividade humana, não se restringindo a apenas algumas. Reforça ainda a importância do ambiente educacional para a criatividade, conforme destacaram Alencar (1995, 2001); Alencar e Fleith (2003b); Bono (1994); Castanho (2000); Fleith (2000); Morgan e Foster (1999); Wechsler (2002a, 2002b).
Uma análise das justificativas das respostas dos alunos à questão aberta revelou que vários deles, ao concordar com a existência da expressão e desenvolvimento da criatividade, propiciados por seus professores em sala de aula, deram crédito à realização de atividades lúdicas, ao uso de recursos audiovisuais, à discussão de temas da atualidade, à aceitação de suas idéias e ao incentivo para elaborar novas idéias.
Estes resultados estão em harmonia com a opinião dos professores de Geografia do ensino fundamental em estudo realizado por Carvalho e Alencar (2004), no qual práticas pedagógicas consideradas como as que mais favoreciam o desenvolvimento da criatividade
dos alunos estavam mais relacionadas a procedimentos que facilitavam a aprendizagem de conteúdos, do que à promoção da criatividade.
Por meio das respostas apresentadas pelos alunos, observou-se que vários deles associaram criatividade à realização de algo novo ou praticado de forma diferenciada, com valor para este grupo de pessoas, conforme apontaram Alencar (1996, 2001); Bono (1994) e Feldman, Csikszentmihalyi e Gardner (1994). Neste sentido, também Mitjáns Martínez (2006) ressaltou a criatividade no trabalho pedagógico relacionada a formas de se ensinar, de se educar, com algum tipo de novidade e com resultado valioso para a aprendizagem e para o desenvolvimento dos alunos.
Entre os alunos que discordaram da idéia de que a criatividade seja desenvolvida em sala de aula, vários deles revelaram que há pouca variedade nas metodologias de ensino, deixando as aulas monótonas e cansativas, prejudicando o interesse geral pela escola e pela aprendizagem. Este julgamento vai ao encontro dos resultados encontrados por Silva (2000, citada em Wechsler, 2002) em estudo que envolveu alunos e professores do ensino médio. Pois, enquanto os professores se viram como dinâmicos e motivadores, seus alunos os perceberam como monótonos, de forma a evidenciar uma distorção entre o que o professor pensa sobre si mesmo e como ele é realmente percebido.
Neste sentido, Silva e Alencar (2003), Ribeiro (2006), Souza e Alencar (2006) também identificaram diferenças entre a percepção de professores e alunos. Os professores consideraram que estimulam o desenvolvimento e a expressão criativa dos alunos. Entretanto, os discentes não concordaram neste ponto com os seus mestres. Ressalta-se que, em estudo realizado por Oliveira (2007) com professores do curso de Letras, foi identificada ausência, na formação destes professores, de informações sobre criatividade e oportunidades de atualização.
Os resultados do estudo revelaram ainda que, para alguns participantes, a ênfase exagerada no conteúdo e em sua reprodução, bem como a forma tradicional de ministrar as disciplinas escolares, são fatores que atrapalham a expressão e o desenvolvimento da criatividade, além da falta de tempo para expressão e incremento de idéias novas. Em consonância com estes resultados, o fator falta de Tempo/Oportunidade também foi encontrado como uma barreira à criatividade em outros estudos, como o realizado por Alencar e Fleith (2003a) com professores que atuavam desde o ensino fundamental até a educação superior, em instituições públicas ou particulares; por Castro (2007), envolvendo alunos e professores da 4.ª série do ensino fundamental de escolas públicas e particulares, e por Ribeiro (2006), em estudo que envolveu alunos e professores universitários de cursos de licenciatura. Neste último, Avaliação e Metodologia de Ensino obteve a média mais baixa quando identificadas práticas docentes adotadas pelos professores para favorecer a criatividade.
Integrando as constatações, Alencar (2000) também encontrou, entre pós- graduandos, o uso de técnicas instrucionais que priorizam a reprodução de conhecimento como uma das características mais apontadas para o professor inibidor da criatividade. Resultados obtidos em diversas pesquisas em diferentes níveis de ensino reforçam a opinião de Ricci (1999) sobre o currículo da escola, quando enfatiza que este impede o aluno de se compreender no mundo atual como construtor de novos conhecimentos, ao apresentar tudo como acabado e absoluto, ignorando a necessidade de um processo histórico de produção e comunicação social.
Os alunos que concordaram parcialmente com o desenvolvimento da criatividade nas salas de aula do ensino médio revelaram que alguns professores inovam e que tais inovações propiciam o interesse dos alunos pela disciplina. Resultados em consenso com estes foram os encontrados por Fleith (2000), em que tanto professores como alunos de 3.ª e 4.ª séries
mostraram acreditar na importância das atitudes do professor para possibilitar a expressão da criatividade.
Vários alunos do ensino médio também afirmaram que, enquanto alguns professores desenvolvem bem suas aulas e a criatividade, outros sequer dominam o conteúdo da disciplina. Além disso, para estes alunos, há uma discrepância entre os professores, pois, enquanto alguns têm aulas dinâmicas, outros não mudam a rotina, deixando as aulas muito monótonas. Esta constatação está em consonância com resultados de um dos estudos realizados por Alencar (2000), em que os alunos envolvidos na pesquisa apontaram o pouco domínio da disciplina lecionada, o conteúdo da disciplina muito restrito e com poucas referências, como algumas das características mais freqüentemente mencionadas para identificar o professor inibidor da criatividade.
Outrossim, os resultados reforçam a importância do papel do professor no desenvolvimento do talento criador, além da predominância em sala de aula de um clima favorável à expressão da criatividade revelados por Silva (1994) e apontados nos resultados de um dos estudos realizados por Fleith (2000).
Observa-se ainda, por meio das respostas à questão aberta, que os alunos reconhecem a criatividade na forma com que os conteúdos são ensinados, sem mencionar outros componentes do currículo, como objetivos e avaliação. Tal constatação pode significar que os alunos incorporaram a idéia de que ensinar é transmitir conteúdos.
Ao avaliar os procedimentos docentes, os alunos das três séries mostraram opiniões divergentes, com grande parte das respostas se dividindo entre Concordo e Discordo. Ademais, uma análise das respostas revelou que as práticas docentes favorecedoras da criatividade mais utilizadas pelos seus professores são o estímulo à análise de diferentes aspectos de um problema, além da percepção e conhecimento dos pontos de vista divergentes sobre o mesmo problema ou tema em estudo. Estes itens fazem parte do rol de estratégias
destacadas por estudiosos da área para o cultivo da criatividade em sala de aula (ALENCAR, 1996; ALENCAR; FLEITH, 2003b; FLEITH, 2002; MIRANDA, 2005; MITJÁNS MARTÍNEZ, 1997; WECHSLER, 2002a).
Também De Masi (2005b) destaca que educar um jovem para a criatividade requer ajudá-lo a explorar os vários aspectos do problema que o preocupa, colocar a mente à vontade, alimentá-la de liberdade e estimulá-la, até que, em colaboração com as mentes dos seus colegas, encontre a idéia certa.
Em contrapartida, os alunos apontaram a promoção da autoconfiança como uma das práticas menos utilizadas pelos seus professores. Neste sentido, Silva (1994) ressalta que, quando a autoconfiança é incorporada ao grande potencial do indivíduo, consegue auxiliá-lo a enfrentar as sociedades geradoras de mecanismos que dificultam a produção socialmente divergente e tentam impedir a expressão do potencial criativo.
De igual modo, Alencar e Feith (2003a) e Fleith (2002) destacam práticas docentes que devem ser adotadas para se estabelecer um clima em sala de aula propício à emergência e ao desenvolvimento de habilidades criativas, propiciando ao indivíduo o enfrentamento dos problemas de maneira diferente e corajosa. Entre tais práticas, está o estímulo de características como persistência, autoconfiança, independência e disposição para aprender a partir dos próprios erros.
A diversidade nas metodologias de ensino utilizadas nas disciplinas também foi apontada pelos alunos como uma das práticas menos adotadas pelos seus professores. Em consenso com este resultado estão os encontrados por Alencar e Fleith (2004a), em estudo que envolveu professores e graduandos, em que os alunos avaliaram seus professores como menos favoráveis no fator Avaliação e Metodologia de Ensino. Tais dados sugerem necessidade urgente de melhor equipar os professores com técnicas instrucionais capazes de propiciar um clima de excelência para a aprendizagem em sala de aula e, por conseqüência, com
encorajamento e preparação dos estudantes para a criatividade (ALENCAR, 2001; ALENCAR; FLEITH, 2004a).
Eis um pequeno retrato do ensino médio com enfoque no cultivo da criatividade sob a percepção dos alunos. Temos, pois, um nível de ensino que contempla a expressão e o desenvolvimento da criatividade em níveis não muito expressivos. Há alguns professores se empenhando em construir um ambiente de aprendizagem de excelência e promotor da criatividade, enquanto outros precisam rever vários aspectos relacionados à criatividade.
Este retrato revela o refrear de jovens sedentos de protagonismo e movimento, enformados à rotina cansativa de uma aprendizagem reprodutora de conhecimentos e traz à tona a necessidade que este nível de ensino tem de acatar a concepção dos três anéis, de forma que o professor passe a proporcionar ao estudante oportunidades para desenvolver suas habilidades, descobrir seus interesses e estilos de aprendizagem, através de uma variedade de estratégias e atividades proporcionadas por um currículo desafiador, conforme mencionado por Renzulli (1992) e por Renzulli e Reis (2002).
Percebe-se que nosso sistema educacional ainda tem uma estrutura curricular que dificulta o desenvolvimento e a expressão da criatividade de forma plena, conforme destacou Mitjáns Martínez (1997). Faz-se necessário repensar seus objetivos, métodos, literatura docente, avaliação, clima criativo e professor, com vistas ao oferecimento de um contexto que tenha, segundo González Quintián (2006), uma variedade de oportunidades e atividades capazes de reformular e enriquecer a criatividade do indivíduo envolvido no sistema.
Esta pesquisa representa uma pequena contribuição aos estudos realizados com foco no ensino médio e requer aprofundamentos. Desta forma, sugere-se que outros estudos sobre criatividade com foco neste nível de ensino sejam realizados e que estes envolvam professores e alunos, direção e também pais de alunos.
Considerando os resultados encontrados, sugere-se uma investigação sobre a concepção que os alunos têm de criatividade, pois isto contribuirá com a compreensão das diferenças de opinião na concordância ou discordância de que a criatividade venha sendo contemplada pelos professores do ensino médio. Além disso, propõe-se uma investigação que identifique as barreiras encontradas pelos professores do ensino médio para o desenvolvimento e expressão da criatividade.
Outra proposta é envolver na pesquisa alunos e professores simultaneamente, pois isto permitirá confrontar suas opiniões, investigando possíveis diferenças de opinião quanto a criatividade ser ou não contemplada nas salas de aula deste nível de ensino. Além disso, também são recomendadas pesquisas que envolvam diferentes tipos de escola, objetivando examinar se há diferenças de percepção relacionadas à criatividade em sala de aula. Propõe-se também realizar estudos que envolvam a direção e a coordenação pedagógica das escolas de ensino médio, com vistas a verificar a extensão em que a criatividade é valorizada pelos gestores educacionais. Cabe ainda realizar pesquisas que envolvam alunos do ensino médio e seus pais, com o objetivo de analisar a relação entre a criatividade de pais e filhos. E, por fim, pesquisa com amostra maior, com participantes de diferentes regiões e culturas.
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