Nossos antepassados viviam, em média, 300 mil horas (aproximadamente, 34 anos). Trabalhavam 120 mil horas e dormiam 94 mil horas. Descontados os anos da infância e de escola primária, restavam-lhes 23 mil horas (menos que 3 anos) para se dedicarem às atividades domésticas e de higiene, à reprodução, à diversão e à velhice (DE MASI, 2000).
Entretanto, por meio da criatividade, a sociedade angariou as soluções mais importantes para que pudesse fazer frente a uma natureza desconhecida e ameaçadora. Descobriu as vantagens da medicina e da higiene e aumentou sua expectativa de vida. O homem também elaborou e aperfeiçoou os códigos de comunicação e, de acordo com Miranda (2005), fez nascer a linguagem, que se consolidou no mais importante mecanismo favorecedor da evolução humana.
Atualmente, as horas de que dispomos com o tempo livre são equivalentes a toda existência de nossos bisavós. Porém, esta sorte chegou tão rapidamente e de forma tão inesperada, que nos pegou despreparados para desfrutar dela, até porque representa uma situação de radical contraste com os nossos hábitos milenares. Afinal, as pessoas foram educadas para o trabalho e, agora, não sabem como se distrair, nem como descansar.
Para De Masi (2000), esta é uma situação paradoxal, pois o computador veio para livrar o homem do trabalho burocrático e poupar o tempo que gastava com suas tarefas, para liberá-lo ao lazer, à família e ao estudo. No entanto, ao invés de reduzir a carga horária, reduziu-se o número de trabalhadores e, infelizmente, as pessoas estão trabalhando muito mais horas, enquanto as cidades estão cheias de desocupados.
As transformações que afetaram e continuam a afetar a sociedade, a economia e o local de trabalho exercem uma forte pressão sobre as escolas de ensino médio, forçando-as a
considerar novas condições de aprendizagem (UNESCO, 2003). Se, no período industrial, educava-se o jovem para lutar por dinheiro, de forma a adotar a pedagogia que premiava o egoísmo, a hierarquia e a agressividade, na era pós-industrial urge educar os jovens para os valores emergentes e os métodos a serem usados deverão valorizar mais o diálogo, a escuta, a solidariedade e a criatividade (DE MASI, 2000).
Neste contexto, o ensino médio precisa ser o período em que os talentos mais variados se revelam e desenvolvem. Deve constituir-se em um momento para o enriquecimento e a atualização dos conhecimentos do tronco comum, com o cultivo da criatividade e a empatia de que necessitarão amanhã. Além disso, este nível de ensino deve ser considerado com reflexão sobre a mundialização crescente dos fenômenos, com necessidade de uma compreensão intercultural e com utilização da ciência a serviço de um desenvolvimento humano sustentável. Desta forma, a escola poderá exercer seu papel de formar indivíduos com qualidades de caráter para se anteciparem às transformações e se adaptarem a elas (UNESCO, 2001).
Ante o supracitado, conhecimento por si só não basta. É de fundamental importância repensar o ensino médio focalizando um trabalho destinado a lapidar a capacidade de pensar, imaginar e criar. Abrir o leque de habilidades a serem estimuladas, acentuar o prazer e a satisfação de aprender e criar, de modo a reformular a imagem de aluno ideal, que, em geral, se restringe à obediência, passividade e conformismo. É preciso que a escola e os demais agentes socializadores cultivem, neste nível de ensino, entusiasmo, persistência, dedicação, compromisso, iniciativa, independência, bem como intuição, sensibilidade, espontaneidade, capacidade de aprender com os próprios erros e curiosidade (ALENCAR, 2001).
Percebe-se que estudiosos de diferentes áreas destacam a criatividade como uma ferramenta necessária ao momento atual. Miranda (2005) salienta que imbuir criatividade ao ensino requer desenhar as idéias a serem implantadas nas aulas, estudá-las, testá-las repetidas
vezes. Superar a idéia errônea de criatividade como sinônimo de improviso, até porque o improviso pressupõe tarefa feita às pressas e, ao contrário, o processo criativo alude trabalho cuidadoso e planejado. Não carece criar algo inédito, mas sugere-se substituir, combinar, modificar, conectar, inventar, atribuir novo uso e adaptar idéias.
Estudiosos da criatividade sugerem várias maneiras de se cultivar a criatividade em sala de aula (ALENCAR, 1996; ALENCAR; FLEITH, 2003b; FLEITH, 2002, 2007; MIRANDA, 2005; MITJÁNS MARTÍNEZ, 1997; WECHSLER, 2002a). E para isto, destacam características relacionadas à personalidade criativa: (a) fluência de idéias; (b) flexibilidade; (c) originalidade; (d) elaboração de idéias com detalhes, com o uso elevado de analogias e combinações incomuns; (e) sensibilidade para problemas; (f) autoconfiança; (g) autonomia; (h) persistência; (i) fantasia e imaginação; (j) preferência por situações de risco; (l) alta motivação e curiosidade; (m) elevado senso de humor; (n) impulsividade e espontaneidade (ALENCAR, 1996, 2001; ALENCAR; FLEITH, 2003b; SILVA, 1994; WECHSLER, 2002a).
A escola, os pais, outros familiares, o ambiente escolar, as influências das características e comportamentos do professor, os colegas, os objetivos educacionais propostos, os métodos de ensino e o clima psicológico, são algumas das forças sociais que podem modelar a criatividade do indivíduo (ALENCAR, 2001).
Prova disto são os resultados de uma experiência com oficina de criatividade para adolescentes, utilizando-se desenhos, montagens com sucata, recriação de contos e criação de história em quadrinhos. Evidenciou-se que é possível partilhar com os adolescentes o conhecimento de algumas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo e alcançar o objetivo pedagógico de colaborar na formação e no fortalecimento da identidade do indivíduo. Além disso, os resultados também trouxeram à tona que criatividade e identidade formam um par que se retro-alimenta para dar voz ao sujeito, que passa a se sentir dono de si mesmo, a
experimentar uma sensação de poder, começando a sentir na própria pele sua confirmação, sua recriação (GIGLIO, 2002).
Assim, para favorecer a expressão criadora no ensino médio, Wechsler (2002b) sugere que os professores utilizem estratégias criativas para motivar os adolescentes, de forma a considerar as especificidades afetivas e cognitivas dessa faixa etária. Assim, convém que os métodos de ensino utilizados em sala de aula estimulem o aluno a pensar de forma independente, realize teste de suas idéias, de forma a se envolver em atividades que animem a sua curiosidade e requeiram o emprego de diferentes habilidades intelectuais. Isto exige formar adequadamente os professores na área da criatividade, para que estes possam utilizar atividades que possibilitem ao aluno exercitar seu pensamento criativo e propiciar um clima em sala de aula que reflita fortes valores de apoio à criatividade (ALENCAR, 2001). É a busca de estratégias para mobilizar nossos alunos para que se tornem pessoas mais criativas. A sala de aula e a escola precisam figurar ambientes criativos. Não se pode falar em criatividade do aluno, sem incluí-la em tudo o que o rodeia (SÁTIRO, 2002).
Para De Masi (2005b), educar um jovem para a criatividade não é querer que ele seja bom em tudo, mas significa ajudá-lo a individualizar a sua vocação autêntica, ensinar-lhe como escolher os parceiros certos, como encontrar ou formar um contexto suficientemente gerador de criatividade, como explorar os vários aspectos do problema que o preocupa, como colocar a mente à vontade, como alimentá-la de liberdade e como estimulá-la, até que, em colaboração com as mentes dos seus colegas, encontre a idéia certa. Significa educá-lo para não temer o fluir incessante das inovações, a ameaça aos arranjos constituídos de poder e as impugnações dos conservadores.
É uma ação contra a posição passiva que o aprendiz tem ocupado até agora, no sentido de receptor de conhecimentos, de conteúdos acadêmicos e também, atitude adaptativa às exigências que lhe são impostas, como os processos seletivos utilizados para atingir os
níveis superiores de ensino, sempre atrelados a uma concepção de acúmulo de conhecimentos essencialmente reprodutivos (MITJÁNS MARTÍNEZ, 2006).
Diz respeito a uma mudança no cenário que o ensino médio tem apresentado até agora, como falta de originalidade, criatividade, ausência de pertinência social e falta de atualização científica. Este nível de ensino necessita dar o exemplo, precisa ousar construir o futuro, seguindo as “Perspectivas atuais da educação” descritas por Gadotti (2000). Na concepção do autor, a escola necessita ter projeto, ter dados, fazer sua própria inovação, do qual dependerá seu futuro. Inovar é mais importante do que reproduzir com qualidade o que existe. É saber que se pode produzir, construir e também reconstruir conhecimentos elaborados.
Para ele, mudar a lógica da construção do conhecimento é um desafio à escola, pois a aprendizagem agora ocupa toda a nossa vida e a felicidade na escola não é uma questão de opção metodológica ou ideológica, mas sim uma obrigação essencial dela. Neste sentido, convém que as secretarias de educação e os demais órgãos competentes façam investimentos na qualidade do ensino, de forma a considerar as diversas dimensões, como: escola, professores e outros profissionais, políticas e práticas educacionais, participação das famílias e sistemas de avaliação interna e externa, implementando as técnicas e os procedimentos adotados, principalmente de forma a acompanhar a história escolar do aluno e não o seu desempenho em um momento específico.
É notória, pois, a importância da expressão e desenvolvimento da criatividade no contexto escolar do ensino médio. De acordo com Wechsler (2002a), desenvolver a criatividade em sala de aula traz ganhos generalizados, tanto para o melhor desempenho acadêmico, como para a melhoria da motivação e participação nas salas de aula. E o papel do professor, conforme já apontado pelos resultados dos estudos supracitados, é essencial para estimular o pensamento, as atitudes criativas em seus alunos e para propiciar, segundo
Wechsler (2001), condições ambientais capazes de tornar a sala de aula um espaço gerador de novas idéias.
Além disso, de acordo com Craft (2005), trabalhar a criatividade no contexto escolar é importante para o momento atual e para a saúde da economia, pois pode encorajar as pessoas a almejarem compromisso com a criatividade, com a elaboração de novas idéias e com o seu desenvolvimento, de forma a ir além da simples instrução. Um ensino médio com esta perspectiva permitirá o despertar de pessoas empreendedoras com mais chances e oportunidades de conquistarem um lugar efetivo no mundo do trabalho.