5. KROPPSIDEALER
5.2 K ROPPSLIG DISIPLIN
5.3.2 Sunn slanking
A notícia publicada em 27 de março de 2010 destaca no sutiã: “Jornal oficial da Santa Sé denuncia “tentativa ignóbil” de atingir o papa Bento XVI, acusado de ter acobertado casos de abuso sexual”. Nesse momento, enfatiza-se o silêncio do pontífice acerca das denúncias, bem como a tentativa dos eclesiásticos em minimizar as denúncias da mídia. Ademais, o CB ressalta a tentativa da Igreja de distorcer o foco das denúncias quando publica a seguinte avaliação de um sacerdote: “Em toda a minha vida, nunca testemunhei tal tipo de ataque contra o papa, orquestrado como esse das últimas semanas (CRAVEIRO, Rodrigo. Vaticano contra-ataca. Correio Braziliense, Brasília, 27 mar. 2010. Primeiro Caderno: Mundo, p. 28).
6.5.4 O silêncio do Correio Braziliense sobre o ASCA na Igreja Católica no Brasil
Nesta análise constatamos o fato de que é, no mínimo, curiosa, a cobertura do CB sobre os escândalos na Igreja em outros países. Enquanto o veículo publicou com regularidade o fenômeno internacional, silenciou sobre os abusos cometidos no Brasil no âmbito eclesiástico. Em uma das três matérias que cita os delitos sexuais cometidos em nosso país, a menção restringe-se, especificamente a informar em uma única frase que “No Brasil, três padres estão sendo investigados pela Igreja” (SABADINI, Tatiana. A vergonha do papa, Correio Braziliense, Brasília, 21 mar. 2010. Primeiro Caderno: Mundo. p. 26).
Cabe destacar, que concomitantemente aos casos de abuso na Igreja em outras partes do mundo, ocorria no Brasil, o escândalo de Arapiraca envolvendo o abuso de coroinhas com idade a partir de 12 anos. Na cidade, localizada a 130 km de Alagoas, três padres foram investigados a partir de denúncias, que relataram casos de abuso sexual dos religiosos contra crianças e adolescentes, em março de 2010.
Um ex-coroinha, que afirmou ter sido molestado, filmou, às escondidas, o sacerdote Luiz Marques Barbosa tendo relações sexuais com outro membro da Igreja. As denúncias e o vídeo abalaram a cidade. O juiz da 1ª Vara da Infância e da Juventude de Arapiraca, João Luiz de Azevedo Lessa, condenou os acusados Luiz
Marques, Raimundo Gomes e Edilson Duarte68, em 19 de dezembro de 2011. A
Santa Sé decidiu pela expulsão dos monsenhores em 4 de janeiro de 2012.
Para Orlandi, o silêncio é significativo porque, muitas vezes, silenciar sobre um assunto enfatiza paradoxalmente sua importância. Em princípio “[...] o silêncio não fala, ele significa” (ORLANDI, 2007, p. 129). Na AD, o silêncio não é falta de palavras:
Silêncio que atravessa as palavras, que existe entre elas, ou que indica que o sentido pode sempre ser outro, ou ainda que aquilo que é mais importante nunca se diz [...] modos de apagar sentidos, de silenciar e de produzir o não-sentido onde ele mostra algo que é ameaça. (2007, p. 14).
Não se pode afirmar que a intenção do CB era a de não causar polêmica entre os católicos brasileiros. Ou seja, a de fazer uso do silêncio relacionado à censura, que “[...] remete propriamente à interdição: apagamento de sentidos possíveis mas proibidos, aquilo que é proibido dizer em uma certa conjuntura” (ORLANDI, 2008, p. 128). No entanto, quando a cronista Maria Paula, no auge das denúncias contra o papa, publicou a crônica Um mal terrível, sobre o tema, cartas evidenciaram a indignação dos leitores quanto às críticas à Igreja. A previsão dessa atitude pode ter motivado o CB a não fazer a cobertura sobre os abusos da Igreja em solo brasileiro temendo as críticas dos leitores devotos. No entanto, a compreensão desse silêncio não é tão simples, é mais sutil. Uma vez que devemos atentar para outros fatores, como a própria rotina produtiva das notícias.
Ressalte-se que, ao investigar os escândalos no exterior, o veículo que, a princípio, pareceu apenas reproduzir o que era publicado nas agências de notícia, ao longo da análise, chegou a confrontar a Igreja, dando espaço para que especialistas contrariassem as previsões difundidas pela Igreja. Como ao divulgar o ponto de vista do vaticanista norte-americano David Gibson. O especialista considerou o documento sobre pedofilia divulgado pelo papa como “[...] uma combinação de linguagem dura e soluções fracas, como adoração eucarística,
orações e uma inspeção nos seminários” (SABADINI, Tatiana. A vergonha do papa.
Correio Braziliense, Brasília, 21 mar. 2010. Primeiro Caderno: Mundo. p. 26).
68 Religiosos são condenados por pedofilia em Arapiraca. Disponível em:
<http://noticias.r7.com/cidades/noticias/religiosos-sao-condenados-por-pedofilia-em-arapiraca-al- 20111220.html>. Acesso em 12 de jan 2012.
Outra hipótese relaciona-se ao próprio modo de produção das matérias nas redações, à necessidade de se obter notícias por meio de agências. Para Wolf, tais empresas constituem e são consideradas fontes, literalmente, insubstituíveis, que não se pode dispensar por motivos econômicos. Essa primeira conveniência econômica transforma-se, porém, em um outro elemento, que aumenta a significatividade das agências: “[...] seu uso, difundido em todo o mundo, acaba determinando uma forte homogeneidade e uniformidade [...] dentre os eventos, acabam por ser considerados noticiáveis os que as agências noticiam” (WOLF, 2005, p. 244).
Cabe ressaltar que, por meio de entrevistas, constatamos que, nem todos os textos sem assinatura publicados pelo veículo são provenientes de agências de notícias. Alguns podem ser textos escritos por freelancers ou por estagiários.
6.5.5 As figuras de linguagem como estratégia discursiva
Observamos nesta análise que uma das estratégias discursivas utilizadas pelo CB foi o uso de recursos linguísticos tais como a ironia, a metáfora e o eufemismo a fim de enfatizar o papel simbólico desenvolvido pela Igreja.
Quando as denúncias de abusos envolveram o papa, por exemplo, é explícita a ironia com que o CB tratou o tema: “[...] o caso envolveu abusos sexuais contra 200 crianças surdas e, dessa vez, respingou mais forte na túnica do papa Bento
XVI” (grifo nosso) (CRAVEIRO, Rodrigo. Crise envolve o papa, Correio Braziliense,
Brasília, 26 mar. 2010. Primeiro Caderno: Mundo, p. 20).
As vestes sacerdotais são utilizadas para enfatizar a nódoa presente no seio da Igreja: a omissão do próprio papa em relação ao abuso de centenas de crianças.
Foi nessa ocasião também, que no título Vaticano contra-ataca (CRAVEIRO, Rodrigo. Correio Braziliense, Brasília, 27 mar. 2010. Primeiro Caderno: Mundo, p. 28) temos a Igreja metaforicamente qualificada como um império. O interdiscurso relaciona a manchete do CB ao filme O império contra-ataca da série Star Wars69.
As metáforas são inúmeras e destacam a relação simbólica entre Deus e os homens. Deparamo-nos no discurso do CB com diversas citações de religiosos que
69 STAR Wars. Episódio V – O Império Contra-ataca. Direção: Irvin Kershner. Estados Unidos, 1980.
reafirmam o imaginário cristão por meio de dicotomias como bem e mal, anjos e demônios:
“Os padres devem ser mensageiros da vitória sobre o mal”, afirmou ontem o papa Bento XVI para um grupo de fiéis [...]. “Todos os cristãos batizados recebem por missão ser anjos, mensageiros de Cristo, mas os padres, ministros de Cristo devem sê-lo de maneira especial”, enfatizou. (Papa aconselha padres. Correio Braziliense, Brasília, 6 abr. 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 17).
Ao destacar as diversas vozes da Igreja sobre os abusos sexuais o CB publicou matérias repletas de menções aos textos bíblicos, que buscavam reiterar a importância dos sacerdotes e dos princípios da Igreja na sociedade contemporânea:
A raiz principal desses escândalos é a rejeição do Humanae Vitae (o ensinamento milenar da Igreja Católica, que começa com os livros Gênesis 1 e Gênesis 2), no que diz respeito à indissolubilidade dos fins de procriação e união do casamento. [...]. Por causa do pecado original, todos nós estamos em uma condição de naufrágio. A única segurança está no barco de Pedro. Aqueles que pularem do barco vão se molhar ou afundar. (CRAVEIRO, Rodrigo. Indignação na Santa Sé, Correio Braziliense, Brasília, 16 fev. 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 16).
A partir dessa metáfora, o momento atual da Igreja envolvida em escândalos sobre abusos sexuais é representado por uma situação de naufrágio. O padre Joseph Fessio afirma que os fiéis estão confusos e perplexos diante da descoberta dos abusos praticados por alguns membros da igreja. Contudo, alerta que a segurança ainda reside em fazer parte do barco de Pedro70, a Igreja Católica
Apostólica Romana.
Ainda por meio de metáforas, Dom Lorenzo Baldisseri, o núncio apostólico no Brasil, cargo equivalente ao de embaixador do papa Bento XVI, referiu-se à dor que a Igreja sofre nos dias atuais ao sofrimento vivenciado por Jesus: “[...] é um suor de sangue com dor e sofrimento”. Cristo havia vivenciado o episódio da hematidrose (transpirar sangue), antes da crucificação. Nos dias atuais, a Igreja sofre por causa das denúncias envolvendo alguns de seus membros.
70 Cabe lembrar que o papa é considerado o sucessor do apóstolo Pedro, que é considerado pela
Igreja Católica como o primeiro Bispo de Roma e sobre o qual foi edificada a Igreja, como descrito em Mateus 16.18: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
Entretanto, em meio a tantas metáforas, os eufemismos foram o destaque na cobertura do CB. A figura de linguagem foi utilizada para suavizar o significado de determinadas expressões em diversos discursos eclesiásticos. Destaca-se que os eufemismos são mais contundentes porque evidenciam, principalmente, quando se trata do discurso direto dos membros da Igreja, que os eclesiásticos buscam atenuar a crueldade dos abusos.
Notadamente, constata-se que os abusos sexuais não são denominados, ao longo das reportagens, como estupros, violência sexual, pedofilia ou pederastia, e sim, como:
a) “[...] atos particularmente odiosos” (Perdão público, Correio Braziliense, Brasília, 13 mar. 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 31).
b) “[...] seduções do mundo” (Meio milhão com Bento XVI, Correio
Braziliense, Brasília, 14 maio 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 20).
c) “[...] grão do mal” (Meio milhão com Bento XVI, Correio Braziliense, Brasília, 14 maio 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 20);
d) “[...] pecado grave que ofende a Deus e fere a dignidade das pessoas criadas à sua imagem” (Pedofilia é crime hediondo, diz papa Bento XVI, Correio
Braziliense, Brasília, 17 fev. 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 17);
e) “[...] o mal (que) poderia empurrar os fiéis rumo à falta de coragem e ao desespero” (Pedofilia é crime hediondo, diz papa Bento XVI, Correio Braziliense, Brasília, 17 fev. 2010, Primeiro Caderno: Mundo, p. 17).
6.6 O CASO DOS JOVENS ASSASSINADOS EM LUZIÂNIA
A primeira referência ao desaparecimento de jovens em Luziânia, em Goiás, foi publicada no CB no início de janeiro de 2010. A matéria tratava do desaparecimento de Diego Alves Rodrigues, de 13 anos, ocorrido no dia 30 de dezembro. Desde o início da investigação sobre o desaparecimento desse jovem e, em seguida, o de mais cinco outros da mesma localidade, a especulação sobre o que teria acontecido mobilizou jornalistas, editores e leitores do CB. Contudo, neste período, o abuso sexual não passava de uma hipótese.
Em abril, segundo a polícia de Goiás, os seis tinham sido mortos pelo pedreiro Ademar de Jesus. O abusador estuprou e assassinou o primeiro rapaz, sete
dias depois de ter recebido o benefício da progressão de pena e saído do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, onde estava preso, desde 2005, por ter violentado dois meninos, de 8 e 11 anos.
O fato recebeu ampla cobertura do CB, incluindo grandes reportagens e matérias de capa. No CB, as principais matrizes discursivas percebidas na cobertura deste caso foram relacionadas à patologização do abusador e à responsabilização do agressor sexual e do sistema judiciário, quanto aos crimes cometidos.
6.6.1 Patologização do abusador sexual
A patologização do abusador é decorrente da dificuldade de se compreender o porquê da violência sexual. Principalmente, quando os vitimizados são crianças e adolescentes. Nesse caso, uma das concepções propagadas pelo discurso na contemporaneidade é a de que o agressor sexual é um doente.
Tanto as chamadas do CB, quanto a opinião dos entrevistados reiteram uma possível patologia. Entretanto, o que deveria ser destacado é que o abusador é sempre alguém que não é saudável psicologicamente, mas isso é diferente de ser um louco.
Esse é um mito perigoso, pois demoniza o abusador sexual e remove dele a responsabilidade pelo abuso. A maioria dos abusadores sexuais é uma pessoa “normal”. Acredita-se que apenas uma pequena porcentagem sofra de doenças mentais, e, dessa forma, não são loucos. Uma porcentagem muito pequena deles parece ser triste ou solitário graças à inadequação ou a dificuldades para se relacionar socialmente. Eles são considerados “maus” quanto ao comportamento sexual, mas não se apresentam como pessoas ruins. Pelo contrário, passam a ideia de serem “pessoas muito gentis e boas”, bem conhecidas tanto dos adultos quanto das crianças (SANDERSON, 2005, p. XVIII).
Na matéria Por que Admar foi solto? o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante questionou: “Não sei qual foi o critério do magistrado para fazer a progressão do regime, mesmo tendo um laudo avaliando o sujeito como psicopata” (LUIZ, Edson; PACHECO, Silvia. Por que Admar foi solto?
Correio Braziliense, Brasília, 12 abr. 2010, Caderno Cidades, p. 30). Isso não
significa que, necessariamente, todo abusador sexual seja considerado louco. Entretanto, foi a matriz reforçada pelo CB.
Em algumas reportagens, percebemos que, diante da urgência para se encontrar uma resposta para um crime considerado bárbaro surgem diversos termos e expressões para se referir ao criminoso. Evidencia-se a seguinte cadeia sígnica: maníaco sexual, psicopata, assassinos em série e serial killer71, a qual remete-nos a
uma questão que foge a qualquer lógica ou tentativa de racionalização.
Se não há como explicá-lo, o discurso jornalístico remete a uma figura recorrente do cinema, a do serial killer, expressão da língua inglesa que indica assassino em série. A safra de filmes e seriados sobre tais personagens permeiam o imaginário da sociedade contemporânea e geram as representações acerca dos abusadores sexuais. Distantes do protagonista angustiado de Taxi driver72, que liberta uma adolescente da exploração sexual, os serial-killers como o canibal de O
silêncio dos inocentes73, ou a sádica de Justiça a qualquer preço 74, bem como o
psicopata de Cabo do medo75 simplificam a insanidade e reforçam o senso comum
sobre os maníacos.
De acordo com Pesavento (1995, p. 15) “[...] o imaginário faz parte de um campo de representação e, como expressão do pensamento, se manifesta por
imagens e discursos que pretendem dar uma definição da realidade”. O imaginário
acerca do abuso sexual engloba a doença mental e o medo em relação aos desconhecidos. Tais abordagens em nada contribuem para o enfrentamento do fenômeno.
Como já dissemos, anteriormente, “[...] a agressão sexual durante a infância é, geralmente, perpetrada por pessoas que a criança conhece e nas quais confia” (VIVARTA et al. 2003, p. 52).
6.6.2 Responsabilização pelos crimes sexuais
A outra matriz enfatizou o agressor sexual e também o sistema judiciário, culpado por colocá-lo em liberdade. No caso específico de Luziânia, o sentimento de indignação foi devido ao fato do abusador ser um presidiário beneficiado pela progressão do regime. O pedreiro cumpria pena em regime domiciliar por ter
71 Criminoso de perfil psicopatológico que comete crimes com certa frequência, geralmente seguindo
um modus operandi e, às vezes, deixando sua "assinatura".
72 TAXI driver. Direção: Martin Scorsese. Estados Unidos, 1976. (114 minutos).
73 O SILÊNCIO dos inocentes. Direção: Jonathan Demme. Estados Unidos, 1991. (118 minutos). 74JUSTIÇA a qualquer preço. Direção: Andrew Lau. Estados Unidos, 2007. (101 minutos). 75 CABO do medo. Direção: Martin Scorsese. Estados Unidos, 1991. 1 DVD (128 minutos).
abusado sexualmente de duas crianças em 2005. A revolta contra o sistema judiciário foi ainda maior, quando houve a descoberta de que Ademar era suspeito de um crime na Bahia e para se livrar da acusação trocou seu nome.
Nesse sentido, tanto o fato de Ademar estar em liberdade, quanto o fato de a justiça permitir sua liberação foram alvo de questionamentos no discurso do CB sobre o tema. Desse modo, não foi suficiente encontrar o criminoso, mas era necessário responsabilizar quem havia possibilitado sua liberação. A responsabilidade recaiu então sobre o juiz da Vara de Execuções Penais do DF, Luiz Carlos Miranda.
No texto publicado em 12 de abril de 2010 são destacadas expressões como “[...] o homem que se diz assassino foi condenado há 14 anos por abuso sexual de menores, entretanto, perambulava solto depois de cumprir apenas quatro anos de reclusão” (MAGGIO, Sérgio. Solução sem fim. Correio Braziliense, Brasília, 12 abr. 2010, Caderno Cidades, p. 28).
O uso do verbo perambular é significativo. A AD indica que não há neutralidade nem mesmo no uso mais aparentemente cotidiano dos signos. Dessa forma, a escolha por este vocábulo salienta a ideia de que o agressor sexual vagava livremente por Luziânia.
Uma das matérias publicadas em 12 de abril conta com um box: Povo fala76
cuja pergunta é: “Um preso com diagnóstico de psicopatia deve ser solto ao alcançar os pré-requisitos para a progressão da pena?” As respostas evidenciam a revolta da população de Luziânia quanto à ineficiência das leis.
Deveriam prender é o juiz que soltou o psicopata. Alguém que já tem um histórico de crimes sexuais e de psicopatia não pode ser devolvido à sociedade. Edson José Gonçalves, 43 anos, bancário.
Como é que soltam alguém com esse perfil? A lei está errada se solta na sociedade alguém sem condições de viver aqui fora. Tem que mudar a lei. José Eduardo Machado, 47 anos, público. (O povo fala. Correio
Braziliense, Brasília, 12 abr. 2010, Caderno Cidades, p. 28)
Estimular o ódio ao agressor sexual não contribui em nada para o enfrentamento do ASCA. De acordo com Dias, que os autores de crime sexual sofrem severa discriminação nas prisões. “Os autores de crimes sexuais, sobretudo
76 De acordo com o Manual de Redação e Estilo do Grupo Associados, o box Povo fala expõe a
opinião de pessoas comuns, escolhidas entre membros da comunidade, que se manifestam sobre um tema. Inclui o nome completo do entrevistado, a idade, a profissão e a cidade onde mora.
os cometidos contra crianças e adolescentes são vistos como párias pelo código de ética dos presos. Dentro do sistema carcerário, é comum que esses presos peçam o chamado “seguro de vida” à direção do presídio com medo da execução” (2003, p. 8).
Em nossa análise deparamo-nos com um crime em que uma mulher foi aprisionada e estuprada durante quase duas décadas pelo próprio pai com quem teve sete filhos, o lavrador José Agostinho Bispo. Ele foi “[...] autuado em flagrante pelo estupro de uma das filhas-netas, de 7 anos” (Abusada pelo pai por 17 anos.
Correio Braziliense, Brasília, 10 jun. 2010, Caderno Brasil, p. 16).
O agressor sexual foi preso em junho e, na primeira rebelião na penitenciária, teve a cabeça decepada pelos outros presos, em 10 de fevereiro de 2011.
Por conta da hostilidade em relação aos abusadores sexuais, a própria morte de Ademar de Jesus chamou a atenção das autoridades:
É no mínimo estranho e deve ser objeto de cabal esclarecimento como uma pessoa tão visada encontrou tempo, espaço e instrumentos suficientes para se matar. Independentemente da causa da morte, deve haver responsabilidade criminal daqueles que detinham só como atribuição a custódia e a segurança do acusado. É bom lembrar que ele foi levado para lá por uma questão de segurança. (AMORIM, Diego; FILGUEIRA, Ary. Maníaco é achado morto na cadeia. Correio Braziliense, Brasília, 19 abr. 2010, p. 25).
O questionamento do promotor de Justiça de Luziânia, Ricardo Rangel indaga acerca do fato de que, apesar de haver presos nas celas ao lado. O agressor enforcou-se com uma tira de tecido extraída do forro do colchão. A morte do abusador passou a ser investigada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.
Deve-se esclarecer que questionamos o fato do CB priorizar uma cobertura que trate do abuso de maneira superficial. Não se trata de criticar que o abusador seja responsabilizado por seus crimes e nem mesmo de admitir que não haja maníacos que, dificilmente, conseguirão controlar seus impulsos. Trata-se da maneira como o CB aborda essa questão, dos sentidos que são formulados.
Nesse aspecto o que se discute é o porquê do CB enfatizar essa cobertura e não outra. Como questiona Foucault:
Eis a questão que a análise da língua coloca a propósito de qualquer fato de discurso: segundo que regras um enunciado foi construído e, consequentemente, segundo que regras outros enunciados semelhantes poderiam ser construídos? A descrição de acontecimentos do discurso coloca uma outra questão bem diferente: como apareceu um determinado enunciado, e não outro em seu lugar? (2007, p. 30)
Em se tratando deste caso específico, a responsabilização foi enfatizada e com ela o que comumente acontece em casos de grande repercussão: os questionamentos a respeito do endurecimento das penas e de outras mudanças na