5. KROPPSIDEALER
5.4 K ROPPSLIGE BEGRENSNINGER
Para Navarro-Swain (2012), a vida social produz, além de bens rnateriais, bens simbólicos e imateriais, um conjunto de representações, cujo domínio é a comunicação, expressa em diferentes tipos de linguagem, discursos que se materializam em textos imagéticos, iconográficos, impressos, orais e gestuais.
Neste trabalho utilizamos o conceito das representações sociais proposta por Denise Jodelet:
[...] é uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. Igualmente designada como saber de senso comum ou ainda saber ingênuo, natural, esta forma de conhecimento é diferenciada, entre outras, do conhecimento científico. (2001, p. 22).
Ainda, segundo Jodelet (2001), Durkeim foi o primeiro a identificar as representações como produções mentais sociais, extraídas de um estudo sobre a ideação coletiva. Já Sergei Moscovici trouxe renovação à análise, insistindo sobre a especificidade dos fenômenos representativos nas sociedades contemporâneas, caracterizadas por: intensidade e fluidez das trocas e comunicações; desenvolvimento da ciência; pluralidade e mobilidade sociais.
A utilização das teorias das Representações Sociais para a compreensão de fenômenos sociais tem resultado na vitalidade desse campo de pesquisa. Constata- se que grupos sociais, como a mídia, participam da elaboração representativa da sociedade. Estas impressões partilhadas resultam em uma visão consensual da realidade, que, no entanto, por meio das ações e trocas cotidianas tornam dinâmica as representações sociais.
Assim os sentidos sobre o ASCA migram por meio de formações discursivas e criam imagens, são compostos e desfeitos na dimensão do imaginário, definem conceitos e perfis sociais.
Jodelet destaca um dos principais processos envolvidos na elaboração das representações: a ancoragem. Tal processo refere-se à incorporação do que é estranho no pensamento já constituído. Ou seja, ancoramos o desconhecido em representações já existentes. Como exemplo, Jodelet cita o surgimento da Psicanálise ou a teoria marxista:
Quando a Psicanálise apareceu, foi sentida como uma ameaça, porque infrigia valores e modelos de pensamento vigentes em diferentes grupos religiosos ou políticos. Da mesma forma, vêem-se agrupamentos políticos considerarem como perigoso o fato de se informar sobre a teoria marxista ou de falar dela, como se, com isso, corressem o risco de perturbar seus esquemas mentais. (JODELET, 2001, p. 35)
Vera França destaca que só vivemos em uma sociedade quando compartilhamos quadros de sentido, compreensões e ideias que organizam e dão coerência à vida social. França questiona a força da representação para atuar com tanto poder em nossas vidas e constata que as representações não são estanques, mas modificam-se, alternam-se:
As representações não apenas variam dentro das diferentes épocas e culturas, mas também espelham vivências específicas dentro de determinadas sociedades. A violência é outro tema bastante forte em nossos dias e particularmente no contexto brasileiro. Mas essa violência recebe diferentes representações, de acordo com nossa forma de inserção. Não apenas entendemos por violência ou cena violenta, hoje, algo muito distinto daquilo que era compreendido há 20 ou 200 anos atrás, mas, nesse mesmo momento, a maneira como uma pessoa de Belo Horizonte, ou de Porto Alegre, fala e percebe a violência no Rio de Janeiro, por exemplo, não é igual à dos cariocas. (2004, p. 16)
As representações dos agressores sexuais, na contemporaneidade, enfatizam pessoas desconhecidas, ameaçadoras e excêntricas. Entretanto, especialistas enfatizam que os abusos são perpetrados por pessoas conhecidas da criança. São pais biológicos, padrastos, tios, irmãos, babás, professoras. Em suma, pessoas comuns que, muitas vezes, agem de maneira gentil a fim de atrair a criança ou o adolescente.
Tais representações compõem o imaginário que é “[...] um forjador de sentidos, de identidades, de (in)coerências” (NAVARRO-SWAIN, 2012). Baczko amplia essa assertiva (1985, p. 306) ao enfatizar que não se pode separar os agentes/atos de suas representações/imagens de si e do outro, que, de fato, definem comportamentos, inculcam valores, atribuem méritos, corroboram ou condenam atitudes/decisões.
Entretanto, questiona-se o porquê da ênfase de determinadas representações em detrimento de outras. Tal indagação é compreensível por meio das Teorias do Imaginário. É perceptível que as representações modelam comportamentos, legitimam e guiam as audiências.
Baczko ressalta que a influência dos imaginários sociais depende dos meios que asseguram essa difusão. “Para garantir a dominação simbólica, é de importância capital o controle destes meios, que correspondem a outros tantos instrumentos de persuasão, pressão e inculcação de valores e crenças” (1985, p. 313). Dessa forma, emitir discursos implica em veicular o imaginário. É compreensível, portanto, a disputa pelo controle na difusão dos enunciados.
Mesmo na contemporaneidade há críticas quanto às Teorias do Imaginário como escolha metodológica. Segundo Pesavento, por um longo período, as teorias do imaginário estiveram relegadas a uma posição secundária diante de outras metodologias:
Houve um movimento reiterado de ruptura a partir do racionalismo cartesiano, com tudo aquilo que representava opiniões, pré-noções e formas de conhecimento transmitidas pela tradição ou pelos vieses ideológicos. Para Descartes, a imaginação era fruto do erro e da falsidade, cabendo-lhe, no máximo, o designativo de um estágio inferior do conhecimento. Ora, quando se afirmava que o atributo por excelência do homo sapiens era o pensamento racional (cogito, ergo sum), tudo aquilo que escapasse aos critérios e rigores da lógica formal e que se baseasse em razões relativas era praticamente desprezado. (1995, p. 11).
Um dos autores que tem contribuído para as pesquisas neste campo é o grego Cornelius Castoriadis. Para o filósofo, o simbólico está presente nas instituições de maneira irremediável. Desse modo, há a subsistência de um componente essencial e decisivo: o imaginário de todo símbolo e de todo simbolismo, em qualquer nível que se situem. Para o pesquisador, o imaginário na sociedade:
É o elemento que dá à funcionalidade de cada sistema institucional sua orientação específica, que sobredetermina a escolha e as conexões das redes simbólicas, criação de cada época histórica, sua singular maneira de viver, de ver e de fazer sua própria existência, seu mundo e suas relações com ele, esse estruturante originário, esse significado-significante central, fonte do que se dá cada vez como sentido indiscutível e indiscutido, suporte das articulações e das distinções do que importa e do que não importa, origem do aumento da existência dos objetos de investimento prático, afetivo e intelectual, individuais ou coletivos. (1986. p. 175).
De acordo com Baczko, atualmente, “[...] o imaginário se dissocia cada vez mais de significados tradicionais, tais como ‘ilusório’ ou ‘quimérico’” (1985, p. 298). Cabe também assinalar que os termos imaginação e imaginário são cada vez mais
utilizados fora do domínio a que tradicionalmente o seu uso se limitava, como o das artes.
Dessa forma, neste trabalho, buscamos a representação do ASCA na mídia impressa contemporânea, levando em conta os sentidos que circulam sobre o assunto, a riqueza das imagens, memórias que trazem à tona casos de comoção como o do assassinato da menina Ana Lídia19 em Brasília.
O conceito de memória que faz parte do repertório da AD é essencial para nossa análise. Ao analisarmos o discurso sobre o abuso sexual é necessário, como enfatiza Orlandi (2010, p. 10), “[...] colocar-mo-nos na encruzilhada de um duplo jogo da memória: o da memória institucional que estabiliza, cristaliza, e, ao mesmo tempo, o da memória constituída pelo esquecimento que é o que torna possível o diferente, a ruptura, o outro”. Segundo Gregolin (2004, p. 29), “[...] todo enunciado liga-se a uma memória e, assim, não há enunciado que, de uma forma ou de outra, não reatualize outros enunciados”.
A noção sobre a ruptura, nome dado às transformações que atingem o regime geral de uma ou várias formações discursivas (MACHADO, 2009, p. 162), possibilita a compreensão da força do imaginário. Para Machado:
O imaginário não é mera repetição de ações e ideias, ao contrário, há nele espaço para a criação de novas representações. Se fosse diferente, vivenciaríamos o eterno retorno, o que a própria história já nos mostrou que não é possível, dado que nenhuma sociedade é igual a outra e nem igual a si mesma em momentos diversos. (2006, p. 26).
Dessa maneira, o discurso acerca do ASCA, tal como é concebido hoje, é diferente do que era descrito há algumas décadas. A figura do abusador, na atualidade, é discutida em diversos veículos de comunicação como o cinema ou as telenovelas20. O debate sobre o abuso sexual nas escolas protege crianças e
19 Ana Lídia Braga foi estuprada e assassinada aos 7 anos de idade, em Brasília. A criança foi
sequestrada do colégio onde estudava, no dia 11 de setembro de 1973, e foi encontrada morta, no dia seguinte. Os suspeitos nunca foram presos e o crime não foi elucidado.
20 A telenovela Passione, exibida no horário nobre e apresentada de 17/5/2010 a 14/1/2011, pela TV
Globo, denunciou a exploração sexual de crianças. Na trama, a protagonista Clara (Mariana Ximenes) era explorada por sua avó. No ano de 2005, a novela América apresentada na mesma emissora, também tratou do abuso sexual infantil. Na trama o pedófilo Bill (Jaime Leibovitch) conquistava a confiança de Rique (Matheus Costa) pela internet.
adolescentes, por exemplo21. Tornar a lei mais rígida quanto aos crimes sexuais
também suscita mudanças quanto ao enfrentamento desse fenômeno.
Nesta investigação, concentrar-nos-emos nas imagens presentes no discurso perpetrado pelo CB, no intuito de levantarmos quais são as principais matrizes discursivas presentes, para, em seguida, procedermos às análises do ponto de vista da AD francesa, concentrando-nos, portanto, na articulação entre os arranjos formais da linguagem concomitante às questões sócio-históricas que ela suscita.