3. METODE
3.3 I NTERVJU
Se o mundo pós-moderno funciona em uma velocidade tremenda em relação às mudanças de comportamento e às transformações de estilo e corpo, por outro lado ele acompanha o que há de mais atual no mundo tecnológico. Os avanços tecnológicos desta época vão contribuir, e muito, para a carreira de Michael Jackson.
Michael utilizou os meios tecnológicos de comunicação para apresentar suas performances. Para este trabalho, entenderemos como performance5 o desempenho artístico
5 Performance é definida no Aurélio como: 1. Atuação, desempenho: 2. Espetáculo no qual o artista fala e age
por conta própria. [Cf., nesta acepç., performer.]; 3. Qualquer atividade artística que, inspirada nas artes cênicas, se apresenta como evento transitório, e que pode incluir dança, música, poesia, e até mesmo cinema, televisão ou vídeo; 4. Esporte. O desempenho de um desportista (ou de um cavalo de corrida) em cada uma de suas exibições (PERFORMANCE, 2010).
de Michael Jackson aliado a todas as técnicas utilizadas por ele para expressar seus pensamentos e suas mensagens. Artista inovador, Jackson soube utilizar diversas linguagens comunicativas para demonstrar seu desempenho corporal.
A arte da performance, tomada enquanto linguagem artística específica, teve manifestação no contexto histórico dos anos 60 e 70 do século XX, investindo nas relações de cruzamento entre elementos estéticos. A performance caracteriza-se como diferentes categorias de formas de expressão que se relacionam numa rede de significados. Michael foi influenciado pela arte performática, tanto é que foi um dos artistas da época que utilizou diferentes formas de expressão ao mesmo tempo, tais como a dança, a música e a dramaturgia, aliando o seu trabalho aos avanços tecnológicos.
O conceito de performance utilizado no nosso estudo também vai ao encontro do conhecimento desenvolvido na década de 1970 pelo diretor de teatro Richard Schechner. Ele criou o Núcleo de Estudos da Performance na Universidade de Nova Iorque (NYU), por meio do qual construiu uma linha de pesquisa sobre a interdisciplinaridade e a multiculturalidade que envolvem a performance. Ele afirma que:
Hoje, dificilmente existe uma atividade humana que não seja uma performance para alguém, em algum lugar. No século XXI, as pessoas têm vivido, como nunca antes, através da performance. Fazer performance é um ato que pode também ser entendido em relação a: ser, fazer, mostrar-se fazendo, explicar ações demonstradas (SCHECHNER, 2003, apud LABRA, 2005, p. 64).
Podemos dizer que a performance desenvolvida por Michael Jackson foi inventada por ele por meio de mecanismos próprios para impor suas ideias e transmitir suas mensagens. Ele criou videoclipes com efeitos especiais, animações gráficas, utilizando, de forma inovadora, técnicas cinematográficas para simular o mundo real. Santos (2008, p. 12) também comenta sobre o assunto quando diz que a pós-modernidade fabrica “um mundo hiper-real, espetacular, um real mais real e mais interessante [do] que a própria realidade”.
Por inovar ao misturar diversas linguagens comunicativas para construir sua carreira, podemos considerar que a utilização simultânea dos discursos da voz, da dança, do figurino e da interpretação, aliada ao invento do videoclipe, fez de Jackson um dos principais ídolos performáticos de sua época. O artista soube utilizar as ferramentas proporcionadas pelos meios tecnológicos para potencializar seu corpo.
McLuhan (1979) foi o primeiro a lançar o olhar para a noção de que as máquinas são grandes difusoras de pensamentos artísticos e informacionais, quando considerou que os meios de comunicação (como o rádio e a televisão, entre outros) podem ser considerados extensões do homem. O autor disse o seguinte:
Qualquer invenção ou tecnologia é uma extensão ou auto-amputação de nosso corpo, e essa extensão exige novas relações e equilíbrios entre os demais órgãos e extensões do corpo (MCLUHAN, 1979, p. 63).
Michael Jackson obteve como extensões para o seu corpo as novas tecnologias utilizadas para a realização de videoclipes, tais como, por exemplo, os efeitos especiais, as animações gráficas, os ambientes virtuais, a música eletrônica ou a manipulação de imagens. Toda esta tecnologia, aliada à performance do astro, contribuiu para a melhoria da sua linguagem artística e, consequentemente, dos discursos que começaram a ser disseminados por ele.
Santaella (2003) entende que no mundo pós-moderno foi criado um corpo que vem sendo chamado de “pós-humano”, ao dizer que:
[...] a maior parte dos artistas que ficou conhecida, nos anos 90, dispôs de tecnologias multimídia, fotográficas e instalações, tendendo a explorar o corpo e sua subjetividade como tecnologizados, especificamente inaturais e fundamentalmente não fixáveis na sua identidade ou significado subjetivo/objetivo no mundo. Na verdade, um corpo articulado de acordo com aquilo que ultimamente vem sendo chamado de ‘pós-humano’ (SANTAELLA, 2003, p. 52).
A fusão entre a performance corporal de Michael Jackson e as tecnologias midiáticas e mecânicas permitiu a ele pensar uma outra forma de fazer artístico por meio deste corpo pós- humano classificado por Santaella (2003). Todas as ferramentas tecnológicas utilizadas por Michael vieram a ser somadas à sua performance, tornando-a mais completa e criativa.
Michael Jackson não esteve presente para o público somente nos shows. Ele fez da sua carreira um grande show. O fato de inovar, ao realizar seus videoclipes, permitiu que Michael Jackson estivesse presente nas casas das pessoas, por meio das histórias detalhadamente trabalhadas para acompanhar suas músicas. A cada lançamento de um novo álbum, o público esperava as novidades trazidas pelo artista.
A velocidade com que as informações são disseminadas na pós-modernidade também foi outra característica que se somou à carreira de Michael Jackson. Ele, assim como outros artistas da atualidade, estava ao mesmo tempo em vários lugares, reforçando a imagem de seu corpo sempre diferente e mostrando, a cada novo espetáculo, uma novidade tecnológica que tocava a sociedade global de forma inusitada e chamava a atenção pela inovação e sofisticação.
Este foi outro fator que contribuiu para que Michael Jackson estivesse em muitos lugares ao mesmo tempo: nos jornais, com notícias sobre sua carreira ou sobre uma nova história grotesca; nas emissoras de televisão, que retratavam de maneiras cada vez mais reais suas transformações corporais e de pele; nos videoclipes, nos quais suas modificações eram
hiper reais e construíam histórias excitantes e inovadoras; nas revistas, como grande celebridade; ou na internet, visto de vários ângulos.
Um dos exemplos que podemos apresentar como referência de performance na carreira de Michael é a sua apresentação no especial da Motown Records transmitido pela televisão no ano de 1983, que foi realizado em homenagem a Berry Gordy, fundador da gravadora. No referido programa, que foi ao ar em 25 de março de 1983, Michael Jackson realizou pela primeira vez o passo moonwalk. O show teve o título de “Motown 25: Yesterday, Today and
Forever”. “Billie Jean”, música conhecida pelo público e que na época estava entre as dez
principais canções das paradas de sucesso, foi a escolhida para a apresentação.
A entrada do artista foi triunfal e pode ser comparada com as grandes apresentações de “[...] reis, rainhas, nobres e majestades. Figuras invejadas pela ousadia no vestir e ditar a moda” (GARCIA, 2005, p. 76). O que se coloca no corpo também faz parte de todo um conjunto de discurso que o artista quer passar. As roupas são um prolongamento da pele, e esta extensão representa também as dimensões do cultural, suas tendências e variações. Villaça (2007) afirma o seguinte sobre a vestimenta:
A aderência ao corpo mais evidente é certamente a roupa: embalagem que vela e desvela, simula e dissimula. Fisicamente autônoma, ela é, entretanto, intimamente ligada ao corpo, do qual recebe odores e calor e ao qual oferece um estatuto. O tecido cortado ou drapeado torna-se imagem no momento em que é vestido (VILLAÇA, 2007, p. 142).
Ele vestiu:
[...] um paletó de cetim preto com punhos que combinavam com a camisa de cetim prata, as meias brancas brilhantes que se destacavam contra as calças pretas, que terminavam logo acima dos tornozelos, e os sapatos negros sem cadarço. E, naturalmente, a luva branca somente na mão esquerda, com o anel costurado (TARABORRELLI, 2005, p. 237).
De fato, um detalhe que trouxe mais brilho para a performance de Jackson, durante toda a sua carreira, foi a importância que o artista deu para as suas vestimentas. A preocupação constante do ídolo na construção da sua identidade imagética é algo presente em todas as questões que envolvem sua vida artística e pessoal. Com seu modo de se vestir, Michael influenciou várias gerações mais uma vez, mas agora por meio do fenômeno moda. É importante dizer que a moda interfere também na construção da identidade visual do homem.
A identidade visual, composta pela imagem, pela aparência e pelo estilo, segundo Kellner (2001, p.17), “nos levam a reflexões sobre o papel da imagem e da moda na construção de identidade, bem como o papel da música popular, dos astros e estrelas e da propaganda na cultura contemporânea”.
Se, por um lado, Michael Jackson se consolidou no mundo da música e da dança, por outro ele influenciou de forma impressionante o mundo do consumo. Seus trajes podem não ter sido copiados de forma idêntica pela sociedade, mas foram determinantes para traçar tendências na moda mundial. Atualmente, segundo Villaça, “a busca de identificação dos indivíduos com ícones mediáticos vai se tornando lugar comum no [mundo] contemporâneo” (VILLAÇA, 2007, p. 148).
Jackson criou sua própria moda com calças curtas, coladas e pretas – de couro ou cetim –, dando visibilidade às meias; jaquetas em cores pretas, prateadas, azuis, douradas, entre outras tantas, todas brilhantes. Algumas lembravam trajes de militares, com ombreiras, brasões e botões, tudo muito iluminado; luvas bordadas com pedras e luvas de muitos modelos; correntes e cintos espalhados como assessórios; gravatas-borboleta e mocassins de verniz, smoking, etc.
Jefferson (2006, p. 78) afirma que, durante a carreira do ídolo, tantos e tantos estilos foram lançados que “não é possível determinar um estilo para ele”. Em matéria publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, Pacce (2009), jornalista e crítica de moda, afirmou que “sua principal marca foi o look militar com spencer debruado e calça skinny [...]. Aliás, os spencers que ele usou em várias versões voltaram à cena neste ano pelas mãos de Christophe Decarnain na grife Balmain”.
Ele demonstrou, por meio de suas vestimentas, não só no espetáculo “Motown 25:
Yesterday, Today and Forever”, mas em toda a sua carreira, estilo específico e ousado.
Michael criou fantasias próprias em torno das suas peças, que seduziam pela imagem. Pode-se dizer que Jackson provocou, em torno do seu estilo de se vestir, um “fetiche”, cultuado pela sociedade, que seduziu muitos consumidores. As vestimentas do ídolo contribuíram, e muito, para a identidade produzida por Jackson durante a sua carreira.
Michael Jackson inovou ao utilizar vários tipos de ferramentas tecnológicas na sua carreira e ao lançar uma moda com estilo próprio de se vestir, mas inovou também com seus passos de dança. Na apresentação do especial “Motown 25: Yesterday, Today and Forever”, ele também lançou seu modo próprio de dançar – mais uma linguagem discursiva introduzida na sua performance.
Neste espetáculo, Jackson foi ovacionado pela plateia, que gritava, pedindo “Billie Jean”. Então, a coreografia que se tornaria referência no mundo da dança e sua marca registrada foi executada pelo artista.
Jackson, com o chapéu na mão direita, colocou-o rapidamente e ao mesmo tempo flexionou a perna esquerda, que estava pronta para se movimentar. Começou a fazer
movimentos repetidos com o quadril e as mãos postas sobre a virilha. Depois disso, girou e jogou o chapéu de lado, fez um rápido movimento com as mãos abaixo da cintura, tirou o microfone do suporte com a mão esquerda e começou a se movimentar. Michael interpretou cada passo da canção com uma hábil pose e movimentos sincronizados, virou-se e apoiou a ponta do pé direito contra o chão, enquanto o outro ficava em repouso, em uma silhueta em forma de “L”. O artista arrastou o pé esquerdo rapidamente e, invertendo o mesmo movimento, fez que ele deslizasse habilmente para trás.
O corpo que se comunica por meio da dança juntou-se ao corpo que dialoga com o público também pela interpretação (assim como pela música e pela vestimenta), o que possibilitou uma combinação que transformou o mundo do espetáculo. Jefferson (2006) faz uma leitura minuciosa sobre a primeira parte da apresentação:
Michael Jackson estava de perfil enquanto o baixo de “Billie Jean” soava: pernas separadas, joelhos dobrados em demi-plié, uma das mãos tocando de leve o chapéu de feltro. Um cavaleiro usando calças de boca larga. Oito movimentos pélvicos para a frente o transformavam em um cavalheiro do soul. Um leve chute e uma palmada de cada lado, então virava de frente para a plateia e – no tempo exato – jogava o chapéu para os bastidores. Um homem de canto e dança. Então, ele imitava um bad boy dos anos cinquenta, penteando rapidamente o cabelo (JEFFERSON, 2006, p. 14).
Para a autora, a possibilidade de mutação que vem com a modificação do cantor também acompanha o seu sucesso na dança. Ela diz que ele tem “a habilidade de passar suavemente de um funk de James Brown para o charleston de Josephine Baker” (JEFFERSON, 2006, p. 77), além de possuir a “capacidade de ser fluido e persuasivo ao mesmo tempo, de criar uma aura de suspense e improvisação” (JEFFERSON, 2006, p. 78).
Garcia (2005) entende os movimentos ou poses de um artista como “instrumentalizações para a dimensão da performance”. Poses após poses significam um grande exercício de transformação. Podemos dizer que o autor conceitua a performance experimentada por Jackson da seguinte forma:
[...] A experiência invocada pela performance é consequência dos mecanismos poéticos e estéticos, dos vários meios comunicativos expressos simultaneamente. O processo de criação da performance entrecruza-se com as condições adaptativas de um fazer poético, interessado em desenvolver, estrategicamente, uma manifestação de agenciamento entre [o] artista, [o] objeto e [o] público. Desse modo, o ato performático emerge pela conduta de coordenadas consensuais que tecem poeticamente a cena, o ambiente, a situação, o lugar (GARCIA, 2005, p. 132). O referido show foi um divisor de águas na carreira do artista. A sua forma de interpretação, de utilizar o corpo e de cantar alavancou sua carreira de maneira inexplicável. Aquele foi mais um momento que se somaria a tantos outros fatores que ajudariam Jackson a se tornar, mais tarde, o Rei do Pop.
Durante a apresentação, Jackson abusou também da sensualidade, quando lançou o movimento das mãos sobre suas virilhas. Esse movimento se transformou em seu gesto de erotismo, aliado à dança, que marcaria a maioria das suas coreografias. Jefferson (2006, p. 88) acredita que o “verdadeiro poder erótico sempre esteve no ritmo da sua voz e de seu corpo”.
Entende-se que a performance trazida por Michael era uma mistura composta por interpretação, representação corporal, dança, canto, estética e movimento. Ele conseguia, de forma exemplar, misturar diversos recursos técnicos, estilísticos e sensuais nos seus movimentos.
Segundo Cohen (2009, p. 87), “o artista é antes de mais nada um relator do seu tempo. Um relator privilegiado, que tem a condição de captar e transmitir aquilo que todos estão sentindo mas não conseguem materializar em discurso ou obra”. Pode-se inferir, depois das questões tratadas neste capítulo, que Michael Jackson foi um relator do discurso pós- moderno.
Como se percebe, a linguagem corporal do referido artista conseguiu transmitir para a sociedade muitas características da pós-modernidade, tais como: o uso dos novos métodos tecnológicos a favor da sua performance; a busca por diferentes identidades, por meio das transformações corporais e do estilo de vestimentas próprias; e a criação de uma imagem ousada e sensual por meio de um desempenho único.
Por isso, Michael Jackson pode ser considerado o artista da inovação e da utilização tecnológica. O “estouro” performático de Michael não se deu por um único fator. Foi a combinação de vários fatores que possibilitou que Jackson se transformasse em um grande artista. Por um lado, a capacidade musical; por outro, os movimentos impecáveis da dança; depois, a criação de um estilo próprio de se vestir; além disso, a construção de novos personagens e a sensualidade dos gestos; por fim, as mudanças constantes na aparência.
CAPÍTULO III