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2. TEORI

2.3 K ROPPSFORSTÅELSER

2.3.3 Kroppens tvetydighet

Logo depois da modernidade, surge a era pós-moderna (segundo Santos essa época é iniciada em 1950), período que atravessou e atravessa diversas mudanças e rupturas, que também atingiram e atingem não só as concepções relativas ao corpo humano, mas também o corpo propriamente dito. Ocorrem transformações que irão modificar os padrões estéticos, conferindo novos perfis de aparência e de comportamento e novas formas de agir na sociedade. É por esta era que perpassa o corpo de Michael Jackson.

O mundo pós-moderno é conceituado por Santos (2008, p. 7-8) da seguinte forma: Pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900-1950). Ele nasce com a arquitetura e computação nos anos 50. Toma corpo como arte pop nos anos 60. Cresce ao entrar pela filosofia, durante os anos 70, como crítica da cultura ocidental. E amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência (ciência + tecnologia invadindo o cotidiano com desde alimentos processados até microcomputadores), sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento cultural.

É na época pós-moderna que o significado do corpo toma dimensão global, deixando de ter espaço regional e estando em todos os lugares, como ser onipresente. Segundo Santaella (2004, p. 140), “[...] o corpo está obsessivamente onipresente porque ele se tornou um dos sintomas da cultura do nosso tempo”:

Foi essa onipresença do corpo que me levou a desconfiar que se trata aí, muito provavelmente, do fato de que o corpo, ele mesmo, se tornou um sintoma da cultura, isto é, o corpo virou uma ancoragem entre o gozo e os imperativos da vida em sociedade (SANTAELLA, 2004, p. 141).

Representado nas emissoras de televisão e nas rádios, nos jornais impressos, nas revistas, nos periódicos, na internet e nas redes sociais, o corpo pós-moderno recebe influência de todos os cantos. Garcia (2005) afirma que “o corpo se torna sistema de articulação discursiva”:

O corpo veiculado nos meios de comunicação de massa não é o corpo de natureza, nem exatamente de cultura na sua dimensão de expressão de corpo humano: é imagem, texto não verbal que representa um ideal. É o que denominamos corpo- mídia: construído na mídia para significar e ganhar significado nas relações midiáticas (CAMARGO; HOFF, 2002 apud GARCIA, 2005, p. 32).

O ideal buscado constantemente pela mídia é um corpo padronizado, belo, magro, jovem e cheio de saúde. Este é o perfil de corpo que as linguagens da mídia e do mundo científico disseminam pela sociedade pós-moderna. Segundo Baudrillard (1995), tal fator contribui para que o corpo seja visto sob a ótica capitalista como um “objeto de consumo”, submetido às exigências mercadológicas.

Michael viveu intensamente as transformações culturais, econômicas e sociais da era pós-moderna, que serviram de espelho para o seu desempenho artístico. Podemos inferir que o corpo de Jackson produz diferentes momentos dessas (res)significações, como, por exemplo: o corpo utilizado para a arte performática, o corpo esteticamente transformado e o corpo como produto de mídia. Por isso, consideraremos o corpo de Michael “como sistema de articulação discursiva em evidente recorrência na mídia contemporânea” (GARCIA, 2005, p. xvi).

Entre as características dessa era que se refletiram no corpo do artista, podemos citar a busca constante por transformações e mudanças de imagem. Conforme explica Santos (2008, p. 87):

A paixão por si mesmo, a glamourização da sua autoimagem pelo cuidado com a aparência e a informação pessoal o entregam a um narcisismo militante. É o neoindividualismo decorado pelo narcisismo.

Segundo o sociólogo britânico Chris Rojek, autor de uma pesquisa sobre celebridades, “o narcisista é uma pessoa que acredita ser a razão da existência do mundo” (ROJEK apud SOALHEIRO; FINOTTI, 2004). Michael buscou constantemente ser o centro das atenções do mundo, independentemente de que maneira isso poderia acontecer. A falta de limites em busca de mudanças constantes para acumular fama fez de Jackson um dos grandes ídolos do movimento pós-moderno.

Michael foi para além da transformação estética: ele se identificou com outra característica do período, que é o apelo constante pelo novo e, em seu caso específico, esse

apelo tem uma inter-relação muito forte com características grotescas. Conforme afirma Santos (2008, p. 88), “viver é estar de mudança para a próxima novidade”.

Jefferson (2006), afirma que o artista chegou a dizer que sua carreira seria “o maior espetáculo da Terra” e ressalta:

Ele afirmou várias vezes em entrevistas que é obcecado pela perfeição. [...] Sua aparência, no entanto, está sempre em um fluxo perigoso. Constantemente vemos nos videoclipes Michael Jackson passar por transformações monstruosas. De um jovem doce para um espírito maléfico (Thriller), de astro elegante da música pop para um gato preto (Billie Jean), de um xamã dançarino vestido de branco para um desordeiro quebrando janelas, que depois segura e acaricia o pênis (Black or White). Ele adora gêneros que enfatizam identidades mutáveis, desenhos animados alegres e histórias de horror (JEFFERSON, 2006, p. 77).

A procura por se fazer diferente e se mostrar diferente não limitou fronteiras para a carreira de Michael Jackson. É como se o artista tivesse uma necessidade constante de se transformar. A mudança para Michael Jackson era algo volúvel que poderia acontecer a qualquer momento. Algo imposto, por um lado, pelas próprias mudanças que ocorreram na sociedade pós-moderna, um ambiente que impõe mudanças de comportamentos, relacionamentos, estéticas e culturais.

Por outro lado, existia o fato de que Michael Jackson era uma pessoa pública – e celebridades se tornam espelhos para toda uma sociedade. É interessante perceber que o papel deste artista – que se identificou com o período pós-moderno – contribuiu para disseminar características como a padronização de corpos perfeitos, a busca por cirurgias plásticas e o consumo exacerbado de produtos. Michael Jackson se identificava com a pós-modernidade e ajudava a reforçar os conceitos trazidos por ela.

Na busca incansável pelo novo, que é uma das características da pós-modernidade, percebe-se que Michael criava diversas histórias e representava diferentes personagens em seu cotidiano artístico. Em relação à sua vida real, suas excentricidades também foram responsáveis por criar várias figuras dramáticas. Basta lembrar de Michael Jackson dormindo em uma câmara hiperbárica, do artista obcecado pelo Homem Elefante e das suas aparições públicas usando máscaras cirúrgicas.

Aliado a tudo isso, Jackson utilizou suas transformações corporais como um dos principais artifícios para modificar sua identidade. Transformações no corpo, a criação de personagens e atitudes esquisitas, estes três elementos juntos fizeram do astro um grande colecionador de identidades.

A busca por identidades diferentes vai ao encontro do que Hall (2006) afirma sobre o sujeito pós-moderno. Segundo o referido teórico, o homem deste período assume identidades

diferentes em diferentes momentos, dando ênfase à descontinuidade, à fragmentação, à ruptura e ao deslocamento.

[...] A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (HALL, 1987 apud HALL, 2006, p. 13).

Em relação às transformações corporais, podemos citar as cirurgias plásticas pelas quais o rosto do astro passou e a modificação da cor da sua pele. Sobre o assunto, a biografia escrita por Taraborrelli (2005),4 diz que os dois motivos que levaram o ídolo a fazer tantas plásticas foram: a perseguição por um ideal de perfeição física e a necessidade pessoal de deixar de ter uma semelhança física com o pai, Joseph Jackson. Michael chegou a afirmar para seu ex-empresário, Frank Dileo, que só queria melhorar a aparência. No entanto, Frank perguntou ao artista quando ele pretendia parar, e ele respondeu: “‘Sou uma obra inacabada’, disse, com um leve sorriso” (TARABORRELLI, 2005, p. 343).

Sobre a mudança da cor da pele, na década de 1980, Jackson foi diagnosticado com vitiligo, uma doença de pele. “Alguns médicos especularam que o vitiligo pode ser tanto hereditário quanto [pode] decorrer de danos causados por substâncias químicas branqueadoras ao longo dos anos. O vitiligo deixa a vítima sensível ao sol” (TARABORRELLI, 2005, p. 420). No final daquela mesma década, também foi detectado que o artista tinha lúpus discoide – uma doença que provoca o clareamento ou escurecimento da pele no couro cabeludo.

Em entrevista televisiva cedida para Oprah Winfrey em 1993, Michael negou que fazia algum tipo de tratamento para clarear a pele. Quando Oprah perguntou se ele não estava tomando nada para mudar a cor da pele, ele respondeu:

Oh, Deus, não! A gente tenta controlar e usar maquiagem para compensar isso, porque deixa manchas em minha pele. Tenho de igualar minha pele. Mas sabe o que é engraçado? Por que isso é tão importante? Não é importante para mim. Sou um grande admirador da arte. Amo Michelângelo; se eu tivesse a chance de conversar com ele ou ler sobre ele, eu gostaria de saber o que o inspirou a se tornar quem é, a anatomia de sua habilidade artesanal, não sobre com quem ele saiu a noite passada... O que há de errado com... Quero dizer, isso é o que é importante para mim (HALPERIN, 2009, p. 65).

Segundo Taraborrelli (2005, p. 420), alguns especialistas afirmaram que a obsessão de Michael por cirurgias e pela mudança da cor da pele os levou a acreditar que Jackson sofria de “transtorno dismórfico corporal, um problema psicológico no qual as pessoas ficam tão obcecadas com sua aparência que a modificam constantemente e não têm um conceito formado de como são percebidas pelos outros”.

4 Existem diversas biografias e livros escritos sobre Michael Jackson. Para este estudo utilizaremos Taroborrelli

A psicóloga Coward, que escreve uma coluna semanal no jornal inglês The Guardian, em entrevista para a revista Super Interessante, afirmou que

entender a trajetória de Michael Jackson é fundamental para entendermos o mundo em que vivemos. ‘Suas transformações corporais são apenas uma manifestação extrema dos comportamentos que se tornam cada vez mais generalizados em nossa cultura. Há cada vez mais jovens determinados a mudar aspectos físicos por meio de cirurgias plásticas’ (COWARD apud SOALHEIRO; FINOTTI, 2004).

O fator que mais impressionou as pessoas em toda a história de transformações de Michael Jackson foi a cronologia do caso. A cada nova aparição pública, o artista se apresentava diferente. Havia uma evolução gradativa nas suas transformações. O que mais chocou nas mudanças de Jackson foi a transformação da pele, seja ela causada ou não por alguma doença. A imagem que as pessoas tinham de Michael Jackson era de um menino negro e, de repente, esta criança se transformava em um homem cada vez mais branco.

A imagem de Michael Jackson como um homem de pele negra não havia sido apagada pela sociedade. Por isso, foi este imaginário que problematizou todo o processo de modificação da cor da pele do artista. As pessoas não se cansaram de perguntar como um jovem negro poderia ter se tornado um homem branco. O mistério criado em torno da mudança da cor de sua pele rodeou todo o percurso pessoal e profissional de Michael Jackson. Independentemente dos motivos que levaram Michael Jackson a ficar com a pele clara, ele ficou marcado como a primeira celebridade que mudou a cor da própria pele.

Juntamente com as mudanças da cor da pele ocorreram transformações que tornaram o rosto de Michael Jackson mais magro, o nariz mais fino, de modo que os traços da afrodescendência já não faziam parte da aparência do ídolo. É como se o corpo daquele menino do passado tivesse adquirido uma nova roupagem com o passar dos anos.

Podemos lembrar um dos momentos em que o artista já apresentava transformações em seu corpo e mudanças na cor da sua pele. Foi no especial da Motown Records de 1983, do qual Taraborrelli (2005) destaca:

[...] [Michael Jackson estava] mais magro, quase frágil. Seu nariz estava mais afilado e esculpido [...]. Seu novo rosto tinha sido habilidosamente melhorado: os olhos amendoados eram acentuados com um contorno de lápis preto e uma discreta aplicação de sombra nas pálpebras. As maçãs do rosto salientes tinham sido coloridas com uma levíssima camada de blush, e os lábios estavam cobertos com uma mínima camada de gloss. Seu antigo cabelo afro tinha sido substituído por ondas mais macias que adornavam seu rosto; na testa, duas mechas pequenas (TARABORRELLI, 2005, p. 236).

O universo enveredado por Michael a partir daquela época era o da busca pela beleza (da aparência), um dos pontos centrais tratados pela filosofia nietzschiana. Segundo Machado (1999), Nietzsche defendia que os gregos, por exemplo, criavam seus belos deuses para esconder seus sofrimentos.

[...] O grego cria um mundo de beleza que, ao invés de expressar a verdade do mundo, é uma estratégia para que ela não ecloda. Produzir a beleza significa se enganar na aparência e ocultar a verdadeira realidade (MACHADO, 1999, p. 19). Vale ressaltar que o artista se identificava com outra forma de utilização do corpo, não imposta até então. A busca pela perfeição fez que as mudanças de Jackson fossem ao encontro de uma nova fase de transformações, defendida da seguinte forma por Santaella (2003):

[...] A transformação na relação do artista com o corpo, não apenas o seu próprio corpo, mas o corpo em geral, começou a se insinuar com o advento das tecnologias computacionais, da engenharia molecular, da explosão das telerredes de informação e comunicação e das nanotecnologias. Essa transformação está sendo, e será provavelmente, muitíssimo mais impactante do que foi, no século XX, a autoapropriação pelo artista do seu corpo como sujeito e objeto da experiência estética (SANTAELLA, 2003, p. 272).

Rifkin (1999) também sustenta que as novas ferramentas da biologia estão abrindo oportunidades para remodelar a vida sobre a Terra. Rifkin (1999, p. 231) diz que “a natureza não é mais vista como um conjunto de restrições, e sim como um processo de ‘avanço’ criativo”. Segundo ele:

A vida, há muito tida como um trabalho manual de Deus, mais recentemente vista como um processo aleatório guiado pela ‘mão invisível’ da seleção natural, agora está sendo reimaginada como um instrumento artístico de incontáveis possibilidades (RIFKIN, 1999, p. 235).

Não se sabe, ao certo, a quantos processos cirúrgicos Michael Jackson se submeteu; no entanto, aos poucos, o rosto e o corpo do artista foram se transformando. A cada aparição de Jackson, ele apresentava alguma mudança no rosto ou nos cabelos. De tempos em tempos, o artista passava por uma remodelagem estética na superfície do corpo.

As transformações do corpo do artista podem ser vistas como modificação do corpo em objeto. É um objetivo sustentado pelo homem pós-moderno: “Essas corridas por padrões cada vez mais distantes e inatingíveis geram um imenso vazio, que potencializa a eterna insatisfação do homem moderno” (WILTON, 2005, p. 75).

De tanto buscar por modificações, o homem contemporâneo se perde na procura pela perfeição, esquecendo que as transformações externas não mudarão o sujeito interiormente. “O pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos quais viceja uma ideia tida como arquissinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida” (SANTOS, 2008, p. 10).

Schilder (1980) diz que:

[...] uma modificação real da aparência só pode ter efeitos limitados. É verdade que uma operação plástica pode, ocasionalmente, mudar não só o corpo como a imagem corporal. Podemos reconstruir a imagem corporal. Podemos nos olhar no espelho e projetar a imagem do espelho em nós. Também podemos estudar a mudança de atitude dos outros e transferi-la para nossa imagem corporal. Mas todos esses fatores não terão papel decisivo quando não forem capazes de alterar a atitude psíquica do indivíduo (SCHILDER, 1980, p. 231).

Nos últimos anos de vida do cantor, foram tantas e tantas as transformações que, antes de falecer, Jackson – além da pele muito branca e pálida – tinha o rosto todo desfigurado e os cabelos muito lisos.

Suas transformações às vezes drásticas em matéria de imagem e estilo indicavam que a identidade é um construto, algo que, produzido por nós, pode ser modificado à vontade (KELLNER, 2001, p. 341).

Talvez uma das perdições de Michael Jackson tenha sido mesmo a busca constante pela mudança estética. O desequilíbrio emocional demonstrado em muitos episódios pelo ídolo pode ter relação com esta procura por um outro Michael Jackson, que se transformava por fora, mas que mantinha suas origens por dentro. Quem sabe os ideais da pós-modernidade sufocaram Michael Jackson e o trouxeram para um mundo sem limites, do qual ele foi um dos grandes representantes?

A trajetória de criação de vários personagens para a vida artística e de outros tantos para a vida pessoal fez de Michael Jackson um grande construtor de identidades. As mudanças contribuíram para que o artista se tornasse uma figura constantemente explorada pelos meios de comunicação. Estes, por sua vez, retrataram esta formação de personas que o ídolo desenvolveu durante toda a sua vida. Mais adiante vamos demonstrar que o corpo multifacetado de Michael Jackson foi um dos fatores que mais somaram para que ele adquirisse poder.