6. UTSEENDE OG IMAGE
6.4 N ORMALITET ELLER KROPPSLIG YTRING ?
6.4.1 Dansejentene versus ”de andre jentene”
Um dos objetivos deste trabalho é desmitificar opiniões sobre o fenômeno do ASCA. Como já adiantamos, acreditamos que a vergonha e o segredo que cercam
34 O cruzamento do azul e do horror. Disponível em:
<http://reocities.com/Pipeline/ramp/5062/cro16.htm>. Acesso em: 4 ago. 2011.
35 Conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelo Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum
este tema contribuem para a perpetuação dos abusos. No decorrer da pesquisa, deparamo-nos, constantemente, com afirmações equivocadas quanto ao ASCA. A constância das assertivas e a ênfase na defesa destas opiniões estimularam-nos a selecionar algumas frases.
Acreditamos que algumas afirmações, em particular, são relevantes e precisam ser discutidas, tendo como parâmetro o trabalho de estudiosos sobre o assunto. A seguir relatamos algumas assertivas, para, em seguida, discuti-las. Ressalte-se que as frases foram pronunciadas tanto por homens, quanto por mulheres, em diversos ambientes, como o acadêmico, no trabalho e nas reuniões de família.
1. “Trauma exige repetição. Sendo assim, vitimizados abusarão de outras crianças.”
O abuso sexual não é, em si, determinante de que o vitimizado perpetue a violência que sofreu. Sanderson (2005) revela que as pesquisas mais recentes mostram que 66% dos pedófilos afirma ter sofrido abuso sexual na infância. No entanto, quando são entrevistados com a utilização de um detector de mentiras, esses números caem apenas para 30%. Desse modo, alguns abusadores afirmam que foram abusados para obter simpatia ou mesmo como desculpa.
2. “Esse gays não passam de pedófilos. Mulheres, por exemplo, não cometem abuso sexual.”
Dados evidenciam que a maioria dos abusadores sexuais são heterossexuais (SANDERSON, 2005). Mulheres e homens, tanto heterossexuais, como homossexuais ou bissexuais, cometem violência sexual.
3. “A culpa dos abusos é da erotização das crianças de hoje em dia. O sexo é ensinado até nas escolas!”
Esta afirmação traz à tona dois aspectos importantes sobre o ASCA. Segundo as estatísticas do Registro Civil, divulgadas em dezembro de 2006 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de partos em mães adolescentes, somente em Sergipe, por exemplo, representou 21,53% do total de nascimentos em 2006. Para os especialistas, o aumento dos índices de gravidez precoce e dos casos de ASCA demonstra que várias etapas do desenvolvimento de crianças e adolescentes não são vivenciadas de modo adequado.
Quanto ao conteúdo erótico disseminado em músicas, a pesquisadora Maria José Subtil36 destaca que a construção social da noção de infância pela mídia
reforça uma visão erotizada das crianças. Cria-se uma espécie de mal-estar em ser infantil e as crianças assemelham-se a miniaturas de adultos.
Contudo, enquanto alguns consideram um exagero enfatizar que a mídia participa da erotização infantil, editoriais de moda (ver Foto 1) como os publicados nas páginas da revista Vogue francesa em dezembro de 2010 têm causado polêmica. Imagens de meninas vestidas como adultas foram consideradas como verdadeiros presentes para pedófilos.
Foto 1 – A modelo Thylane Lena-Rose Blondeau, 10 anos, fotografa para editorial de moda na Vogue francesa em dezembro de 2010
Fonte: Thylane Lena-Rose Blondeau, new face do momento, tem apenas 10 anos. Disponível em: <http://modaspot.abril.com.br/gente/gente-modelos-celebridades/thylane-lena-rose-blondeau- new-face-momento-tem-apenas-10-anos>. Acesso em: 22 mar. 2011
Estima-se que, por ano, são gastos 17 bilhões de dólares em publicidade para crianças. A rede de lojas norte-americana Walmart criou a linha Geo-girl para meninas de 8 a 12 anos que, além de maquiagem, conta também com uma linha
anti-idade37. Nos EUA também aumentou o número de pais que compram calcinha fio dental para crianças entre 7 e 12 anos. O mercado também oferece biquínis e
36 Mídias e Música. Disponível em:
<http://docs.google.com/viewer?a=v&q=cache:h0Uegb7wDwYJ:www.comunic.ufsc.br/artigos/art_midi aemusica.pdf+m%C3%ADdias+e+m%C3%BAsica&hl=pt- BR&gl=br&pid=bl&srcid=ADGEESi6HjVhgJHXyy7ltSMYCBc0c-x2jS- GoaQQWarQwxxE2ATxvgC_UdpGNkRu5TWgG_dENgr9qKZBm6PfkvLfFqvfemVj0Xuf81mibMj89Myq dp0DgJES1LCWNjozW7nNXNknOab0&sig=AHIEtbRcHJhYbTF86whpGbC8Frf8faP8nw>. Acesso: 10 ago. 2011. 37 Grifo nosso.
sutiãs para meninas de 6 anos com enchimento, além de joguinhos de pole
dance38(ver Foto 2).
Foto 2 – A moda nada infantil para meninas
Fonte: E onde foi parar a infância? Sumiu! Disponível em: <http://tpm.me/post/3165369267/e- onde-foi-parar-a-infancia-sumiu>. Acesso em: 22 mar. 2011
Contudo, deve-se ressaltar, que, a exploração da imagem infantil pelos mais diversos meios de comunicação não se restringe a episódios recentes. Nos anos 1970, fotos da modelo e atriz Brooke Shields, nua aos 10 anos de idade e com maquiagem pesada (ver Foto 3), eram comercializadas por milhares de dólares. No filme Pretty baby, de Louis Malle, a atriz interpretou uma criança que morava em um bordel, com apenas 12 anos.
Especialistas também defendem que a maioria dos pedófilos gosta de crianças inocentes que pareçam vulneráveis e se encaixem em suas noções de infância. Desse modo, para Sanderson (2005, p. XXVIII) o abuso sexual praticado contra crianças cada vez mais novas ressaltaria que a existência de crianças sexualizadas pela mídia e pela indústria da moda, não tornariam as crianças mais vulneráveis aos abusos sexuais.
O segundo aspecto importante evidenciado na assertiva de que o sexo é ensinado até nas escolas está relacionado ao fato de que no afã de se proteger a criança e defender sua inocência, muitos acreditam que não se deve falar sobre sexualidade. Contudo, ensinar a criança sobre um comportamento sexual apropriado a protege dos agressores sexuais.
Foto 3 – A atriz Brooke Shields no filme Pretty Baby
Fonte: Disponível em: <http://www.imagesvisions.blogspot.com >. Acesso em: 22 mar. 2011.
4. “Crianças mentem sobre abuso sexual.”
Para Sanderson (2005), as crianças até podem ter conhecimento sobre atos sexuais ao ver uma atividade sexual adulta, mas elas não podem obter informações sobre o sabor, a textura e o cheiro do sêmen sem ter alguma experiência real sobre isso, por exemplo. O adulto tem de levar a sério o que a criança diz, sem julgar, criticar ou duvidar do que é narrado. Além disso, deve expressar apoio e reforçar que o vitimizado não é o culpado pelos abusos.
5. “Quase não há abuso sexual de meninos, não é?”
Segundo os pesquisadores (AZEVEDO e GUERRA, 1989, p. 18), o abuso sexual de meninas e adolescentes constitui um componente importante da socialização da mulher “[...] para submeter-se ao poder do macho”. Isto não significa a inexistência de abusos sexuais de meninos. Entretanto, pesquisas revelam que o percentual de meninas sexualmente vitimizadas representa o dobro dos casos envolvendo meninos. Para a pesquisadora, “[...] esta sujeição deve ser mais rigorosa no caso da menina, a fim de que ela não coloque em xeque a dominação masculina” (1989, p. 18).39
39
A pesquisadora completa (1989, p. 21): “Um homem mantinha relações sexuais diariamente, ora com a mulher, ora com a filha. Tem prole com ambas. Respondendo às reclamações da filha, dizia a mãe: ‘Esta é a vida de mulher: precisa se submeter aos desejos do homem. Se eu posso aguentar, por que você não pode? Aliás, isto seria demais para mim. É bom que aprendamos a dividir o fardo. Assim ele ficará mais leve para ambas’”.
Recentemente, a mídia tem noticiado casos de estupros coletivos contra crianças e mulheres prisioneiras de guerra40 e, alguns, especificamente, contra
lésbicas41. Isso evidencia a fragilidade das relações sociais de gênero e o surgimento de novas formas de violência que retratam a intolerância de nossa época.
Entretanto, acreditamos que os números relativos ao abuso sexual contra meninos e adolescentes evidenciam a dificuldade em revelar a agressão sexual por temerem ser estigmatizados e pelo constrangimento.
6. “Essa promiscuidade sexual é coisa de pobre. Nunca vejo famílias ricas relatando casos de incesto.”
Azevedo e Guerra (1989, p. 43) enfatizam que trata-se de um fenômeno “[...] que não é caudatário do sistema de estratificação social e do regime político vigente numa dada sociedade”. Dito de outra forma, o ASCA não é um fenômeno que acontece apenas em ambientes com pessoas de baixo poder aquisitivo. Já há suficiente evidência empírica para suportar a afirmação de que não há nenhuma etnia, nenhum credo religioso, nenhuma classe social que esteja imune a sua ocorrência.
7. “Esse lance de prostituição de crianças e adolescentes é absurdo. As crianças sabem de tudo atualmente e as adolescentes querem vida fácil.”
O ginecologista Nelson Vitiello (AZEVEDO e GUERRA, 1989, p. 123) afirma que, mesmo nos nossos dias, há quem advogue a relação sexual adulto-criança como benéfica para a criança. O jornalista Eliézer Júnior42 enfatiza que há exploradores que até repudiam a pedofilia, mas não fazem o mesmo, quando se trata de adolescentes:
40
A mais destruidora das armas de guerra é usada na Líbia: o estupro. Disponível em:
<http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:Fh8UIpVt7u4J:blogdaunr.blogspot.com/20 11/04/crimes-de-guerra-estupro-coletivo.html+estupro+coletivo&cd=10&hl=pt-
BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br>. Acesso em: 12 jun. 2011.
41 Lésbicas sofrem estupro coletivo na África do Sul. Disponível em:
<http://www.meionorte.com/noticias/policia/lesbicas-sofrem-estupro-coletivo-na-africa-do-sul- 87833.html>. Acesso em: 12 jun. 2011.
42 O texto O tour que envergonha a Bahia faz parte de uma série intitulada Asas Feridas composta
por 27 matérias produzidas pelo Núcleo de Jornalismo Experimental do Curso de Comunicação da Faculdade Social da Bahia em 2004.
Perguntamos a ele (o explorador sexual) sobre o fato de seus parceiros ainda serem adolescentes. “Você está pensando que eles são bobos? Eles sabem muito bem o que querem”, disse Papai Noel, como os jovens denominam o homem com quem transam por presentes e dinheiro. Perguntamos a ele a sua opinião sobre pedofilia. ‘Um crime abominável, já cansei de mandar meninos de nove, dez anos, embora daqui’.
Segundo Vitiello, numa evidente distorção da realidade, a International
Paedophilic Information Exchange, na Inglaterra, defende o engajamento sexual de
crianças capazes de consentir, em nome de uma mal interpretada liberdade sexual.
No caso, evidentemente, a liberdade é do adulto, uma vez que “a criança é incapaz
de consentir com práticas cujo alcance sequer consegue imaginar”. (AZEVEDO e GUERRA, 1989, p. 123).
O senso comum é movido por preconceitos, falta de informação e tabus, o que demonstra a necessidade de que a mídia participe da discussão de forma direta e assertiva. Cidadãos bem informados e conscientes são imprescindíveis para a construção de uma sociedade mais justa.