4. PRESTASJONER, KONKURRANSE OG SELVFØLELSE
4.3 K ROPPENS UTSATTHET
Para estudarmos o corpo midiático (como a mídia noticiava Michael Jackson), acreditamos ser de grande importância revelar as estratégias de poder utilizadas pelo astro e pela mídia especificamente na fase das transformações estéticas do artista e do seu comportamento excêntrico.
Em um breve histórico sobre o artista, podemos inferir que Michael foi um dos ícones de poder da sua geração. O artista conquistou este status por meio de diferentes fatores: os estilos do canto, da música e da dança; a sonoridade de suas canções; o ineditismo de videoclipes inovadores, que transformaram o mercado musical; o lançamento de tendências para a moda; o fato de ser negro e abrir portas para a dominação da música negra na música popular; as suas transformações corporais e de pele; suas esquisitices e excentricidades; e a sua parceria com grandes causas sociais.
Michael Jackson começou a se mostrar de forma individualizada, na década de 1970, atingindo um sucesso inimaginável nas décadas de 1980 e 1990. O artista se criou justamente quando o pós-modernismo “alastrou-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência” (SANTOS, 2008, p. 8). As estratégias de poder utilizadas na
carreira de Jackson somam uma série de quesitos que nasceram nesta fase cultural, da qual o cantor fez parte e na qual atuou com brilhantismo.
Jackson soube utilizar sua voz, juntamente com o seu corpo, e se transformou, por meio de grandes performances, em um objeto de sua arte. Não podemos deixar de ressaltar que o “corpo humano foi se tornando, especialmente no Ocidente, objeto cada vez mais central do olhar e da criação na arte” (SANTAELLA, 2003, p. 251). Como já visto anteriormente, no caso de Michael, o corpo dele deve ser compreendido “como sistema de articulação discursiva em evidente recorrência na mídia contemporânea” (GARCIA, 2005, p. xvi).
Vale lembrar também que, ao acoplar a música com a dança (corpo e performance), ele uniu mais algumas ferramentas poderosas, como a imagem e os efeitos especiais para produzir seus videoclipes. O cantor inovou ao relacionar diferentes linguagens de comunicação de uma só vez (conforme citado no primeiro capítulo). Thriller, o álbum mais vendido de todos os tempos, movimentou o mercado musical de todo o mundo.
Nas décadas de 1980 e 1990, as facilidades tecnológicas, também tratadas no capítulo anterior, possibilitaram a reprodução e a distribuição das imagens e das informações de Michael e de tantos outros artistas, mas Jackson esteve na mídia como nunca outro cantor estivera. Grandes nomes como Frank Sinatra não foram tão retratados e explorados como Michael, pois um dos fatores que destacam a “Era da Informação” é o grande alcance de público que as mídias conseguem ter.
Naquele mesmo período, também existiram avanços na disseminação de informações sobre cultura, dando grande espaço para o assunto nos veículos de comunicação – importantes agentes de difusão. A forma como as mídias funcionam no mundo pós-moderno, “[...] como redes, que se interligam e nas quais cada mídia em particular – livro, jornal, TV, rádio, revista, etc. – tem uma função que lhe é específica” (SANTAELLA, 2003, p. 53), também contribuiu para que Jackson estivesse, ao mesmo tempo, em vários veículos de comunicação.
Ídolo gerado na pós-modernidade, Michael sabia utilizar as novas tecnologias para agregar valor à sua carreira e a todos os produtos produzidos para ela. As estratégias utilizadas por Jackson deram força para ele e o ajudaram a ter potência, “capacidade de efetuar um desempenho determinado” (LEBRUN, 2004, p. 10) e a exercer influência sobre o comportamento de milhares de pessoas. Segundo Lebrun (2004), estes dois elementos são primordiais para a formação do poder.
Percebemos que as notícias sobre a vida de grandes personalidades acabaram se tornando um show contínuo acompanhado pelos veículos de comunicação. E não foi diferente
com Jackson. Se, por um lado, os meios de comunicação têm o poder de aproximar o público dos acontecimentos, por outro eles se tornam mais poderosos porque definem os temas sobre os quais a sociedade deve pensar. É o que afirma a teoria da hipótese da Agenda-Setting:
[...] se é certo que a imprensa ‘pode, na maior parte das vezes, não conseguir dizer às pessoas como pensar, tem, no entanto, uma capacidade espantosa para dizer aos seus próprios leitores sobre que temas devem pensar qualquer coisa’ (WOLF, 2008, p. 145).
A dicotomia entre o ídolo e as notícias sobre ele pode ser considerada um emaranhado de poder. O poder tanto do próprio ídolo de influenciar e quebrar barreiras na sociedade quanto o poder da mídia de divulgar os temas que lhe são pertinentes, dando a estes assuntos algumas características abordadas na hipótese do agendamento, tais como: a) acumulação: “capacidade que a mídia tem de dar relevância a um determinado tema” (HOHLFELDT; MARTINO; VERA, 2001, p. 201); b) relevância: “ela é avaliada pela consonância do tema nas diferentes mídias, ou seja, se um determinado acontecimento acaba sendo noticiado por todas as diferentes mídias, independentemente do enfoque que lhe venha a ser dado, ele possui evidente relevância” (HOHLFELDT; MARTINO; VERA, 2001, p. 201); c)
centralidade: “capacidade que as mídias têm de colocar como algo importante determinado
assunto, dando-lhe não apenas relevância quanto [à] hierarquia e [ao] significado” (HOHLFELDT; MARTINO; VERA, 2001, p. 201).
Consideramos que os jornais impressos construíram a imagem da primeira fase da carreira solo do cantor por meio de características positivas: o homem que transformou o mundo da música e implantou uma forma diferente de produzir vídeos; o Jackson que quebrou barreiras raciais; o cantor que mais vendeu discos no mundo; o dançarino que reinventou passos; um artista que doou milhões e milhões em prol de causas sociais; o cantor que foi considerado a pessoa mais famosa do mundo; o Michael imbatível, o “Rei do Pop”.
Os veículos de comunicação, com sua forma específica de trabalhar com personalidades (tratando-as como heróis6), ajudaram a construir Michael. Na primeira fase, as notícias que endeusavam o cantor estavam em toda a parte. A construção do discurso positivo e da espetacularização sobre o artista permitiu que o mundo acreditasse nas verdades disseminadas pelos meios de comunicação, fomentadas durante anos.
Segundo Machado (1999), Nietzsche afirma que as verdades construídas pelo homem são limitadoras. Em sua obra, o filósofo mostra que o fato de os homens construírem verdades
6 Campbell (2007, p. 28), diz que: “O herói [...] é o homem ou mulher que conseguiu vencer suas limitações
históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas. As visões, ideias e inspirações dessas pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do pensamento humanos”.
estabelece a prerrogativa para que eles as destruam e, por este motivo, defende que a verdade não existe, mas afirma que:
A crença na verdade é necessária ao homem. A verdade aparece como uma necessidade social; por uma metástase, ela é, em seguida, aplicada a tudo, mesmo onde não é necessária. Todas as virtudes nascem de necessidades. Com a sociedade começa a necessidade de veracidade, senão o homem viveria em eternos véus. A fundação do Estado suscita a veracidade. O instinto de conhecimento tem uma fonte moral. [...] O homem bom também quer ser verdadeiro e acredita na verdade de todas as coisas. Não apenas da sociedade, mas também do mundo (MACHADO, 1999, p. 37).
Esta necessidade de verdade está espalhada por todos os cantos da sociedade e não poderia faltar no jornalismo. Para Foucault (2006, p. 229), “há efeitos de verdade que uma sociedade como a sociedade ocidental, e hoje se pode dizer a sociedade mundial, produz a cada instante”. Segundo ele:
Essas produções de verdades não podem ser dissociadas do poder e dos mecanismos de poder, ao mesmo tempo porque esses mecanismos de poder tornam possíveis, induzem essas produções de verdades e de poder que nos unem, nos atam (FOUCAULT, 2006, p. 226).
Os profissionais da área de comunicação constroem suas próprias verdades com o objetivo de difundir informações e conquistar um público cativo. Jackson desenvolveu um poder sobre os veículos de comunicação, que dependeram dele para construir seus noticiários; no entanto, a mídia pós-moderna construiu as verdades sobre o cantor de forma a garantir o consumo.
Michael mantinha uma relação de poder com a mídia, para fazê-la dependente das suas atitudes, bem como da sua fala, do seu visual e da sua música. E a mídia correspondia a isso, construindo as verdades de Jackson para a população. Portanto, as verdades do ídolo exemplar tiveram tempo marcado.
O artista, na segunda fase de sua carreira, destruiu a imagem de inatingível e astro máximo do pop e passou a ser explorado pela mídia de forma diferente. Após suas transformações estéticas e suas excentricidades, as notícias sobre o ídolo foram transformadas em outro tipo de espetáculo.
Michael continuou a exercer poder, mas, no entanto, sob diferentes estratégias. E a mídia, apaixonada por notícias inusitadas e negativas, desconstruiu as verdades de Jackson que foram construídas por eles mesmos, profissionais da comunicação, por mais de uma década. O ídolo passou a ter presença constante nos veículos de comunicação por meio dos escândalos relacionados às suas transformações estéticas e às suas esquisitices.
O final da década de 1980 e o início da década de 1990 começaram a marcar de forma diferenciada a carreira do artista. Em 1987, quando o cantor lançou o clipe “Bad”, durante a
divulgação do álbum, a publicação de excentricidades sobre a vida de Michael adquiriu contornos enfáticos. Foi noticiado, por exemplo, que o astro tentou comprar os ossos e as roupas de Joseph Carey Merrick, o Homem-Elefante; que ele teria uma parte do próprio nariz, retirada em cirurgia plástica, conservada em uma jarra dentro de casa; que dormia em uma câmara hiperbárica, para retardar o envelhecimento; que andava constantemente com seu chimpanzé de estimação.7
As especulações sobre as verdades ou mentiras de Michael se tornaram constantes. Os veículos abordavam que o artista passou por diversas cirurgias plásticas e davam diferentes versões para a razão que o levou a mudar a cor da pele, que agora estava ficando branca. Conforme foi dito no capítulo II, ele declarou diversas vezes que sofria de vitiligo e também de lúpus discoide (ambas causam despigmentação da pele).
O caso é que o menino negro, de traços afrodescendentes, que passou por diversas dificuldades por causa da situação financeira da família, se tornara um homem branco, rico, famoso e esquisito. Era um outro Michael, que assustou o mundo. Sua aparência externa provocou grandes discussões e influenciou, mais uma vez, a sociedade.
O poder desta nova representação corporal fez que as pessoas se chocassem e se posicionassem, muitas delas de forma contrária às mudanças de Jackson. Os movimentos sociais negros, a população afrodescendente e os especialistas dividiram opiniões e discutiram diversos assuntos relacionados ao tema nos meios de comunicação. A imprensa noticiava, cada vez mais, informações sobre o astro.
Na referida fase, os profissionais das informações divulgadas sobre o artista se identificavam com “os acontecimentos que constituem e representam uma infração, um desvio, uma ruptura do uso normal das coisas” (WOLF, 2008, p. 207). Critérios que se enquadram nas categorias dos valores-notícias (componentes da noticiabilidade – esta, por sua vez, entendida como “conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gere a quantidade e o tipo de acontecimentos, de entre os quais há que selecionar as notícias [...]” (WOLF, 2008, p. 195).
Tais informações se encaixam, entre outras, nas categorias relativas ao produto, “que dizem respeito à disponibilidade de materiais e características específicas do produto informativo” (HOHLFELDT; MARTINO; VERA, 2001, p. 210). Especificamente na categoria de condição de desvio de informação – “que se refere ao fato de que a notícia ruim é
7 BAD (Álbum). In: WIKIPÉDIA: A enciclopédia livre. Disponível em:
sempre mais interessante do que a notícia boa” (HOHLFELDT; MARTINO; VERA, 2001, p. 211).
Jackson, na mesma época, rompe com o símbolo de “divindade”, ajudando a desconstruir sua imagem. As notícias sobre o cantor despertam um interesse público, por meio da carga de excepcionalidade que possuíam. Para que possamos entender as notícias que foram publicadas sobre o artista naquele período, iremos – à luz dos conhecimentos desenvolvidos por Motta (2002) – apreendê-las como informações que perpassam por uma ruptura ou transgressão social, compreendida como:
[...] ruptura inconsciente, quase sempre involuntária, no nível individual, não coletivo. É uma transgressão não da ordem pública estabelecida, mas dos comportamentos e [das] relações sociais esperados no nível individual. Infração, por parte de indivíduos isolados, das relações que regulam e organizam o comportamento do homem e estabelecem as condições de ordem social. Ou infração dos princípios éticos que definem as fronteiras da vida e da sociedade humana (MOTTA, 2002, p. 311).
O poder desenvolvido por estas notícias se relaciona aos “desvios das normas e dos comportamentos” (PORTO, 2002, p. 311) de Jackson. Tais acontecimentos “contêm algo que poderíamos denominar, com alguma redundância, de ‘anormalidade negativa’” (PORTO, 2002, p. 311).
Podemos considerar excêntrico também o fato de que Jackson se comportava como um adulto que não crescera. Em 1988, ele se mudou para sua nova residência, intitulada de
Neverland (Terra do Nunca), onde se divertia com várias crianças e adolescentes. Em Neverland, ele se isolou em busca de privacidade. Naquele período, o interesse do público e
da mídia por informações sobre o cantor era cada vez maior.
Em 1993, quando o astro foi acusado de abusar sexualmente de um jovem de 13 anos, ele teve sua imagem novamente arranhada. Naquela ocasião, ele entrava para os noticiários policiais como possível pedófilo. Mesmo com o ídolo negando seu envolvimento, a imprensa deu visibilidade tremenda ao caso, ocasião em que os veículos de comunicação se transformaram novamente em vendedores do show da vida privada de Jackson, que há muito tempo se tornara pública.
Logo depois, Michael foi internado em uma clínica de dependentes químicos, pela necessidade de se restabelecer de um vício em analgésicos. Em 1994, o astro se casou e a mídia especulou sobre a conveniência do casal no matrimônio. Outro acontecimento que se tornou público foi o fato de Jackson ter colocado, em 2002, para fora da janela o seu filho recém-nascido, o que provocou severas críticas sobre a atitude do ídolo.
Era, então, uma fase decadente, na qual a força do cantor esteve longe dos palcos e para a mídia só importava o próximo acontecimento inusitado do astro, para que os profissionais da imprensa tivessem audiência ou vendessem jornais. O modelo de jornalismo sensacionalista8 foi muito empregado naquela época com relação à carreira de Jackson. Dez anos depois da primeira acusação, já em 2003, o Rei do Pop foi acusado novamente de abuso sexual e enfrentou um julgamento de cinco meses seguidos de holofotes de toda a mídia mundial. Ao final, o artista foi inocentado por falta de provas que justificassem as acusações.
A quantidade de dinheiro gasto com processos judiciais levou o ídolo a perder muito do que tinha. E a mídia novamente noticiou o ocorrido. Jackson estava falido. A turnê que ele estrearia no ano de 2009 seria uma tentativa de reerguer a carreira do cantor. Mas o ídolo veio a falecer no dia 25 de junho do mesmo ano.
8 Segundo Barbosa e Rabaça (2001) sensacionalismo significa “estilo jornalístico caracterizado por intencional
exagero da importância de um acontecimento, na divulgação e exploração de uma matéria, de modo a emocionar ou escandalizar o público. Esse exagero pode estar expresso no tema (no conteúdo), na forma do texto e na apresentação visual (diagramação) da notícia”.
CAPÍTULO IV