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Sivilrettslige bøter

In document Ny konkurranselov NOU (sider 129-134)

De qualquer forma, a necessidade de mediar a competência leitora, distinguindo as maiores habilidades e experiência de habilidades e experiência menores faz a discussão permanecer. É aí que se torna necessária uma concepção mais arrojada de competência ou repertório leitor, concepção essa abrigada na noção de letramento.

Nos últimos anos, o termo letramento ganhou o mundo e adentrou diversas áreas educacionais. Ouve-se, por exemplo, falar em letramento matemático e letramento digital, o que significa que o conceito está sendo utilizado para definir o domínio crescente de práticas e técnicas de um determinado campo de ação e conhecimento humanos.

Nas últimas décadas a expressão letramento literário adentrou o campo de estudos das teorias da leitura. Como costuma ocorrer, a vulgarização do termo já provoca algumas indistinções, razão pela qual seria oportuno resgatar aqui o conceito a

que ele se refere, uma vez que letramento tem sido utilizado como sinônimo de leitura em alguns textos acadêmicos.

Acredita-se que, no Brasil, a popularização do termo se deva a Magda Soares, que sistematizou a discussão sobre ele em seu livro Letramento: um tema em três gêneros (2009). Como indica o título, Soares conceitua letramento tomando como exemplo três gêneros textuais: um verbete de dicionário, um texto didático e, por fim, um ensaio acadêmico. Segundo a autora, letramento19 seria ―o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social, ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita‖ (2009, p. 18).

Soares acredita que a emergência do termo se deve a necessidade de uma noção de leitura compreendida no seu sentido amplo, ou que abrangesse todas as habilidades e competências envolvidas no ato de ler, sentido que o termo ―alfabetização‖ jamais comportou, reduzido, como esteve, à restrita ideia de domínio do código escrito20.

Conforme Soares,

um indivíduo alfabetizado não é necessariamente um indivíduo letrado; alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler e escrever; já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e de escrita (op. cit., p. 39).

Soares acrescenta ao conceito a noção bakhtiniana de prática social de linguagem e o subdivide em seu uso, contemplando dois fenômenos muito diferentes, apesar de complementares e interligados: a leitura e a escrita. Estas, por sua vez, são constituídas por um ―conjunto de habilidades, comportamentos, conhecimentos que compõem um longo e complexo continuum‖ (op. cit., p. 49).

Haveriaduas dimensões do letramento, a individual e a social. A dimensão individual refere-se aos processos e habilidades cognitivos e metacognitivos envolvendo

19 O termo letramento, segundo Soares (2009, p. 18), originou-se da palavra de língua inglesa ―literacy‖ e tornou-se necessário em decorrência de uma nova realidade social, em que não bastava saber ler e escrever, mas responder efetivamente às práticas sociais do ler e escrever, ou seja, apropriar-se dessa ―tecnologia‖.

20 Inicialmente o termo foi associado à temática da alfabetização. Hoje, é utilizado para distinguir um mero domínio alfabético da convivência mais abrangente com a leitura e a escrita. Curiosamente, em textos em que aparecem os dois termos, colocados em perspectiva, o termo alfabetização passou a ser utilizado como antônimo de letramento, ou seja, como reduzida ou limitada experiência leitora.

a leitura e a escrita. Para ela, a leitura, do ponto de vista individual de letramento (enquanto ―tecnologia‖ adquirida pelo indivíduo),

estende-se da habilidade de traduzir em sons sílabas sem sentido a habilidades cognitivas e meta cognitivas; inclui, dentre outras: a habilidade de decodificar símbolos escritos; a habilidade de captar significados; a capacidade de interpretar seqüências de idéias ou eventos, analogias, comparações, linguagem figurada, relações complexas, anáforas; e, ainda, a habilidade de fazer previsões iniciais sobre o sentido do texto, de construir significado combinando conhecimentos prévios e informação textual, de monitorar a compreensão e modificar o significado do que foi lido, tirando conclusões e fazendo julgamentos sobre o conteúdo (op. cit., p. 69).

A dimensão social do letramento implica em que ele não seja um fenômeno unicamente pessoal, mas é, sobretudo, uma prática social: ―letramento é o que as pessoas fazem com as habilidades de leitura e escrita, em um contexto específico, e como essas habilidades se relacionam com as necessidades, valores e práticas sociais‖ (p. 72).

O letramento literário é um campo específico dos estudos sobre letramento. ―Letrar‖ literariamente alguém implica em possibilitar ao indivíduo desenvolver um conjunto de habilidades, posturas e atitudes relacionado ao universo dos textos literários. Numa avaliação sobre a história do termo, Cristina Maria Rosa (2011, p. 192) afirma que Maria das Graças Paulino foi uma das primeiras a usar a expressão, concebendo-a em termos de práticas sociais de leitura literária.

Ainda segundo Rosa, a expressão é precedida de várias outras na obra de Paulino, mas aparece escrita pela primeira vez no texto ―Funções e disfunções do livro para crianças‖. Originalmente publicado em ―O jogo do Livro Infantil‖, de 1997, o texto foi relançado em 2010 na coletânea Das leituras ao Letramento Literário (1979-1999). Segundo Rosa (op. cit., p. 192), em 1999 a expressão ―letramento literário‖ foi apresentada à Associação Nacional de Pesquisa em Pós Graduação (ANPED).

Desde então, diversos outros autores ―adotaram‖ a terminologia acrescentando/ampliando sua definição, trazendo a expressão ―letramento literário‖ para a linha da recepção do texto literário. Paulino e Cosson (2009, p. 67), por exemplo, conceituam letramento literário como um ―processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos‖.

Em trabalho que publicou com Renata Junqueira de Souza, Cosson se esforça por distinguir esse tipo de letramento dos outros desenvolvimentos leitores:

[o] letramento literário faz parte dessa expansão do uso do termo letramento, isto é, integra o plural dos letramentos, sendo um dos usos sociais da escrita. Todavia, ao contrário dos outros letramentos e do emprego mais largo da palavra para designar a construção de sentido em uma determinada área de atividade ou conhecimento, o letramento literário tem uma relação diferenciada com a escrita e, por consequência, é um tipo de letramento singular. (COSSON; SOUZA, 2010, p. 102).

Em outro trabalho, o mesmo Cosson acrescenta à discussão um certo apelo pragmático, uma vez que, segundo ele, o letramento literário ―[é] o processo de letramento que se faz via textos literários [e] compreende não apenas uma dimensão diferenciada do uso social da escrita, mas também, e, sobretudo, uma forma de assegurar seu efetivo domínio‖ (2006, p. 12).

Segundo Paulino (1998, p. 8), formar um leitor literário é formar alguém que ―saiba escolher suas leituras, que aprecie construções e significações verbais de cunho artístico, que faça disso parte de seus fazeres e prazeres‖. Disso infere-se que o professor mediador de textos literários deve capacitar seus alunos a ―saber usar estratégias de leitura adequadas aos textos literários‖, e que nesse processo deve aceitar

o pacto ficcional proposto, com reconhecimento de marcas lingüísticas de subjetividade, intertextualidade, interdiscursividade, recuperando a criação de linguagem realizada, em aspectos fonológicos, sintáticos, semânticos e situando adequadamente o texto em seu momento histórico de produção (op. cit., p. 8).

Se o leitor está sendo dotado dessas habilidades e consciência apontadas por Paulino, o seu letramento literário está se efetivando. O passo seguinte é apenas a constante atualização de seu repertório literário, que se constituirá a partir de suas próprias escolhas e interesses particulares.

Tendo conferido os principais aspectos da leitura na teoria escolar, resta-nos agora avaliar aquelas que efetivamente podem ser observadas na prática cotidiana do ensino de língua portuguesa nas escolas, ou seja, no efetivo trabalho com a leitura literária em sala de aula.

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