Pelo que foi visto até agora, o processo ensino-aprendizagem envolve sobremaneira a mediação modificadora. Apontam-se aqui as vantagens dessa postura para o ensino de leitura.
Verificou-se anteriormente que em países como o Brasil, marcado pela desigualdade social, muita gente ficou privada dos livros e da cultura da leitura durante boa parte da história do país. A família média brasileira não desenvolveu o hábito da leitura e, portanto, não a incorporou ao seu modo de ser e estar no mundo. Por essa razão, a escola acaba sendo o único lugar onde de fato a maior parte das crianças se depara com o universo dos livros e da imaginação leitora.
Essa escolarização da leitura apresenta, como já foi discutido neste trabalho, suas vantagens e desvantagens. Poder-se-ia resumir essa situação em um paradoxo: a leitura só acontece na escola, mas pelo menos na escola ela acontece42. É verdade que a escola, sendo, como é, uma instituição regularizada e regularizadora, constitui-se no espaço ―do aprendizado e das notas, da classificação, do controle‖ (PETIT, 2009, p. 269).
Isso geralmente confere à escola uma simbologia grave; consequentemente, o que ocorre nesse espaço, mesmo sendo a leitura, tem a tendência a tornar-se uma atividade solene e oficiosa, muitas vezes encarada mais como um momento de martírio do que de prazer.
42 Ezequiel Teodoro da Silva no livro Retratos do Brasil (2012b, p. 109) menciona que ―a tese relacionada à ―desescolarização da leitura‖ muito dificilmente se aplica ao caso brasileiro‖, pois aqui a escola é para muitos o único espaço privilegiado desse contato leitor-leitura literária.
Nesse cenário, a mediação assume grande relevância. A leitura propiciada pelo professor é, na realidade social brasileira, tão integrante do processo cultural que já não se a concebe sem esse verbo: mediar. O professor não é apenas importante; é essencial, sobretudo por que ele insere o aluno num universo que este quase sempre desconhece e não experimenta com outra pessoa em outro lugar.
O professor propicia ao aluno uma convivência com os textos, uma regularidade de leitura que, segundo Geraldi (2013), constitui-se no verdadeiro aprendizado para a leitura. Geraldi afirma também que, apesar do fato de que nessa relação entre professor/texto/leitor, quem aprende é o aluno, é também inegável que para o processo de descobertas/desvelamento do texto o professor tem papel crucial. O professor também experiencia a leitura que media, principalmente pelo fato de que só pode auxiliar o aluno nesse processo se antes ele mesmo, professor, já tiver passado por ele:
[P]ensar o professor como mediador da relação do estudante com o texto, e através deste com o(s) seu(s) autores, é já afirmar um ponto de vista sobre a aprendizagem: ninguém aprende a ler sem debruçar-se sobre textos. E este debruçar-se pode ser individual ou coletivo. Não é o professor que ensina, é o aluno que aprende ao descobrir por si a magia e o encanto da literatura. Mediar este processo de descobertas é o papel do professor, que só pode fazê-lo também ele como leitor. (op. cit., p. 25).
Nessa perspectiva é que se configura o conceito de professor-mediador visto como agente letrador, tal como defendido por Bortoni-Ricardo, Machado e Castanheira (2010). As autoras apresentam propostas de leitura mediada pelo professor, leitura essa concebida como tutorial. Apresentam ainda alguns protocolos de leitura realizados com alunos de diferentes séries/anos da educação básica com textos de diversos assuntos relacionados a várias disciplinas. Nesses protocolos fica claro o papel do mediador como aquele que vai auxiliando (guiando) os alunos a compreender e/ou aumentar a compreensão sobre o texto lido.
Nos protocolos o professor faz um processo contínuo de verificação do conhecimento prévio do aluno, explicando informações novas e fazendo encaminhamentos para que os alunos possam fazer eles mesmos suas descobertas. Por
essa proposta, ser um agente letrador é possibilitar aos alunos recursos para ampliarem sua própria compreensão leitora.43
Nessa perspectiva, o professor, ao mediar a relação leitor-texto, possibilita o letramento pelas inferências que faz e que propicia. Tais ações implicam na atribuição do papel de andaime ao texto. Isso significa que o professor dá assessoria ao aluno para possibilitar-lhe autonomia, fornecendo-lhe meios para a construção de cavaletes conceituais (esqueletos externos ao texto, mas que de certa maneira o sustentam). Apoiado sobre essas bases, o aluno/leitor poderá ir preenchendo os ―buracos‖ ou vazios que ficam na compreensão dos textos, vazios esses decorrentes da carência de um conhecimento muitas vezes complexo, suposto e exigido por alguns textos (BORTONI- RICARDO; MACHADO; CASTANHEIRA, 2010).
Nessa alegoria, o uso dos andaimes44 é emprestado da ideia de construção cooperativa, em que assume o sentido de suporte, plataforma, a qual, por sua vez, agrega os conceitos de base segura e ainda de acesso privilegiado, uma vez que o andaime é o que torna possível ao construtor erguer-se e atuar nos lugares mais altos, aos quais seria inviável chegar sem tais recursos.
O sentido da alegoria implica, portanto, que, assim como na construção de paredes elevadas, os andaimes alçam o construtor e lhe dão meios de atuar; no processo ensino-aprendizado, o professor mediador assessora/guia/auxilia o aluno no procedimento de compreensão leitora de um texto. Ou seja, o professor atua de modo tal a que ele possibilite ao aluno, seja por meio de pistas, questionamentos, sugestões ou instigações, fazer inferências até o ponto em que possa ―agir por si‖, ganhar autonomia naquela trilha. Nesse momento o ―suporte‖ é retirado para dar lugar à livre expressão do aluno, que então compreendeu o texto.
Na perspectiva de Vygotsky e Feuerstein, cabe a um indivíduo mais experiente (professor-mediador) oferecer apoio (andaimes, na terminologia adotada aqui) ao menos experiente (aluno-leitor). Apropria-se nesse trabalho dessas teorias para relacionar o trabalho do professor de língua e literatura como sendo aquilo que dá
43 Para uma maior imersão na temática, sugere-se a leitura do trabalho A mediação da leitura: do projeto à sala de aula – desafios e possibilidades, de Ana Aparecida Vieira de Moura e Luzineth Rodrigues Martins (2012). Nele, as autoras focam a reflexão sobre a prática pedagógica na perspectiva da mediação do ensino, revisitando alguns autores que oferecem aportes teóricos sobre a leitura a partir de um ponto de vista interacional.
44 Segundo Bortoni-Ricardo (2010, p. 26), andaime é um termo metafórico que ―se refere a um auxílio visível ou audível que um membro mais experiente de uma cultura presta a um aprendiz‖, em qualquer ambiente social, ainda que o termo seja mais empregado no âmbito do discurso de sala de aula.
suporte para a ―edificação‖ do processo que compreende a compreensão leitora. Na interação social, e no caso na mediação da leitura, há a necessidade desse suporte.
Segundo Bortoni-Ricardo, Machado e Castanheira (op. cit., p. 26), o processo de ―andaime‖ ou andaimagem foi proposto inicialmente por Jerome Bruner com base na teoria vygostkiana, sendo mais tarde desenvolvida por Cardzen, no início dos anos de 1980. Esse processo, segundo as autoras, configura-se como uma base procedimental e atitudinal por meio da qual o professor fornece ao aluno uma coluna de sustentação cognitiva e experimental, gerando na interação entre ele e o aluno, uma ponte responsável pela construção do conhecimento e possibilitando o desenvolvimento do aprendiz.
Michèle Petit (2008) compreende a função do mediador em termos de iniciador aos livros. Segundo ela, pode-se chamar assim
[a]quele ou aquela que pode legitimar um desejo de ler que não está muito seguro de si. Aquele ou aquela que ajuda a ultrapassar os umbrais em diferentes momentos do percurso. Seja profissional ou voluntário, é também aquele ou aquela que acompanha o leitor no momento, por vezes tão difícil, da escolha do livro. Aquele que dá a oportunidade de fazer descobertas, possibilitando-lhe mobilidade nos acervos e oferecendo conselhos eventuais sem pender para uma mediação de tipo pedagógico. (p. 175).
O professor efetiva essa mediação de diversos modos, como por meio de perguntas facilitadoras do processo de inferências e ainda ensejando protocolos de leitura. Esses protocolos de leitura terão efeito benéfico cumulativo no desenvolvimento do acervo de conhecimento enciclopédico dos sujeitos colaboradores. Assim, a mediação deverá conceber o leitor como sujeito que desempenha papel ativo no evento da leitura e na interação com o texto.