Mas esse papel relevante concedido ao leitor implica que ele é o verdadeiro ―autor‖ daquilo que lê? Ao fazer uma breve retomada conceitual e histórica a respeito da leitura, pode-se observar que uma das tendências contemporâneas é justamente a de conceber o leitor como verdadeiro construtor de sentidos, como apontou o crítico inglês Terry Eagleton (2006, p. 113):
[d]e forma muito sumária, poderíamos periodizar a história da moderna teoria literária em três fases: uma preocupação com o autor (romantismo e século XIX); uma preocupação exclusiva com o texto (Nova Crítica) e uma acentuada transferência da atenção para o leitor, nos últimos anos.
Essa atenção, outrora inexistente ou latente, originou diversas correntes nas teorias de leitura e na crítica literária dos últimos anos, tais como Reader response, New
Criticism, Estética da Recepção e Desconstrução. De maneira mais ou menos geral, o
que reúne essas diferentes correntes num mesmo grupo é a ênfase dada ao leitor, não mais como mero decodificador ou mesmo ―receptor‖ passivo.
Para essas correntes, o sentido não está pronto ou construído na emissão, não é dado pelo autor ou emissor, não está determinado no texto de uma vez por todas, mas torna-se o que se torna principalmente pela ação do leitor. Ou seja, o sentido nasce na experiência de leitura. Boa parte dos estudiosos pós-modernos, nos mais variados campos de conhecimento parecem estar empenhados numa luta para colocar o leitor no centro do processo de produção de conhecimentos e significados os mais diversos.
Comentando essa empreitada teórica, Eagleton afirmou que ―[a] teoria da recepção examina o papel do leitor na literatura e, como tal é algo bastante novo‖ (idem). Ao comentar a postura desse grupo, o crítico marxista aponta que a própria noção de texto ou obra é diluída, dando espaço à ação interpretativa: ―[e]stes textos não existem nas prateleiras das estantes: são processos de significação que só se
materializam na prática da leitura. Para que a literatura aconteça, o leitor é tão vital quanto o autor‖ (2006, p. 113). Eagleton ironiza essas correntes pós-modernas, sugerindo que elas estão a serviço de mentalidades que apenas servem para reificar o homem e a cultura, fazendo retroceder em conquistas já alcançadas pela cultura humanista moderna.
No entanto, apesar dos protestos marxistas e algumas outras vozes isoladas, uma revolução nas bases como se entende o processo de originar e consumir sentidos e produtos culturais está em pleno curso e a guinada para o leitor parece ser mesmo inevitável. Com tais mudanças de focalização e as discussões que se seguiram, o leitor é hoje o verdadeiro ―dono‖15
dos sentidos dos textos.
Mirian Hisae Yaegashi Zappone (2009) acredita que o termo ―Teoria da Recepção‖ abriga todas as correntes que põem o foco da leitura no leitor. A autora apresenta aquelas que considera serem as principais: a ―Estética da Recepção‖, de Jauss; o ―Read-Responsive Cristicism‖, de Stanley Fish (1980), Wolfgang Iser e Jonathan Culler; e a ―sociologia da leitura‖ de Robert Escarpit (1958). Zappone considera que, de todas essas correntes, aquela que trouxe a maior contribuição teria sido a de Jauss. Segundo a autora, a Estética da Recepção propõe uma nova forma de avaliar os textos literários, a partir da experiência do leitor:
[ora], se o texto já não diz tudo, nem seu autor é o dono de um sentido para ele, o leitor tem sido considerado peça fundamental no processo de leitura. Seja individualmente, seja coletivamente, o leitor é a instância responsável por atribuir sentido àquilo que lê. A materialidade do texto, o preto no branco do papel só se transformam em sentido quando alguém resolve ler. E, assim, os textos são lidos sempre de acordo com uma dada experiência de vida, de leituras anteriores, e num certo momento histórico, transformando o leitor em instância fundamental na construção do processo de significação desencadeado pela leitura de textos. (ZAPPONE, 2009, p. 189).
Nessa linha de valorização do leitor, a ele é dado maior autonomia, não sendo mais sua interpretação subjugada às intenções do autor. O leitor é, então, contemplado pela terceira noção etimológica de ler, na classificação de Paulino (2001, p. 11): o roubar. Nessa perspectiva, há uma independência interpretativa do sujeito
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Até então, o ―dono‖ do sentido do texto era o autor. Com essa ascensão do leitor acontece a queda ou ―morte‖ do autor, ideia divulgada pelo crítico literário francês Roland Barthes (1984; 1970). Segundo Barthes, para que o leitor ativo possa nascer, o autor precisa morrer, ou seja, não deve ser mais decisivo para os significados do texto.
(leitor), já que roubar implica obter algo sem o consentimento do proprietário; ou seja, denota a autonomia do leitor, bem como também sua subversão. Para Paulino, por essa concepção, a leitura ocorreria à revelia do escritor, o que para nós não quer dizer, necessariamente à revelia do texto.
Isso significa que o leitor pode buscar no texto outros sentidos além daqueles pretendidos pelo escritor, uma vez que ele os deriva do texto, sem que o escritor tenha deles ―consciência‖. Nas palavras da estudiosa: ―não se rouba algo com conhecimento e autorização do proprietário, logo esta leitura do texto vai se construir à revelia do autor, ou melhor, vai acrescentar ao texto outros sentidos‖ (op. cit., p. 12).
Conforme Paulino, antes dessa autonomia o leitor era concebido como passivo: ―[o] leitor não teria poder algum, a não ser o de traduzir o sentido que estaria pronto no texto‖ (p. 12); agora, no entanto, passa a possuir uma nova figuração, na qual aparece muito mais vivo, crítico e, por vezes, subversivo. Essa ideia de passividade do leitor estava envolta no medo da perda de controle, de autoria (e autoridade textual) por parte do escritor, até então único ―dono‖ do texto e de sua significação.
Paulino aponta que a leitura é um processo e o resultado é a produção de sentido. Já ―a significação se dá no jogo de olhares entre o texto e seu destinatário. Este último é um interlocutor ativo no processo de significação, na medida em que participa do jogo intertextual tanto quanto o autor‖ (op. cit., p. 15).
No entanto, essa autonomia dada no roubo, também implica algo perigoso, como aponta Manguel (1997). Segundo ele,
[o] mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente e as possibilidades do futuro pode também destruir ou tentar destruir a página viva. Todo leitor inventa leituras, o que não é a mesma coisa que mentir; mas todo leitor também pode mentir, declarando obstinadamente que o texto serve a uma doutrina, a uma lei arbitrária, a uma vantagem particular, aos direitos dos donos de escravos ou à autoridade de tiranos (op. cit., p. 322-3).
No presente estudo acredita-se que não se deve descobrir o ativismo do leitor às custas da morte do autor. Pense-se aqui no professor-mediador de LP: se ele não compreende adequadamente aquilo que lê, passa indiscriminadamente a roubar tais equívocos do texto e a tornar o aluno co-autor de barbaridades interpretativas. Sem embasamento, um professor pode apenas repassar ao aluno suas falsas verdades
Mas não há necessidade de pressa. Mais à frente, como dito, ter-se-á oportunidade de apontar as falhas dessas diferentes concepções de leitura, demonstrando os exageros e as ―pressas‖ conceituais de cada uma. Por hora, contenta-se em delinear um painel dessas diferentes correntes nesse grande debate sobre o que significa ler em ambiente escolar. Em contribuição a tal debate, apresentar-se-ão a seguir algumas discussões que saem em defesa da importância do contexto comunicativo para a leitura.