5.4 Utvalgets vurderinger
5.4.10 Forvalter
O foco no texto, segundo as críticas, costuma apassivar o leitor tanto quanto o foco no autor. A diferença é que, nesta última abordagem, o leitor seria preterido em nome do escritor, enquanto que a leitura com o foco no texto deixaria o leitor em segundo plano em favor da língua, ou do código da língua.
As primeiras concepções e/ou modelos de leitura trazidos à tona apoiavam- se em uma postura estruturalista da linguagem ligada à teoria da comunicação, que vê a
língua como um código capaz de transmitir alguma mensagem a um receptor (LAJOLO; ZILBERMAN, 1996). Se a língua é concebida como tal, a leitura passa a ser vista como uma atividade de recuperação de informações do texto, que lá estão para serem absorvidas pelo leitor.
Nesse sentido, como apontado por Koch e Elias (2006), a leitura é compreendida como um ato de decodificação, ou seja, de decifração de dados em códigos. A língua, o principal código utilizado na comunicação humana, é uma convenção, um acordo firmado entre os membros que compõem determinado grupo. Entender/compreender essa convenção se apresenta como o conceito de ler.
Ainda segundo Koch e Elias (op. cit., p. 10), quando se foca no texto, a língua é vista como código e o texto como o resultado da sinalização efetivada por um emissor. Assim, a leitura constituir-se-ia no processo pelo qual o leitor decodifica o que havia sido codificado pelo emissor. O recurso de que o leitor deve dispor é o domínio desse código, a língua; e a leitura fica concebida como um conjunto de habilidades que implicavam o conhecimento do código (da língua), bem como seu processo de instrumentalização (decorar o alfabeto, soletrar, decodificar palavras isoladas, frases, até chegar ao texto).
Julgava-se que o domínio dessas habilidades era sinônimo de domínio da leitura. Novamente, o leitor seria aqui um agente passivo ou de segunda ordem, cabendo-lhe ―o reconhecimento do sentido das palavras e estruturas do texto‖ (idem).
Segundo Orlandi (1999), a linha estruturalista vê a leitura de forma linear, com intuito de formar leitores com boa dicção, velocidade, sem promover a reflexão e a criticidade. Tal linha é permeada por teorias tradicionais e idealistas. Esse modelo, conforme Orlandi, desenvolve-se a partir dos sucessores de Saussure, que entendem a língua não mais como sistema, mas como estruturas. Nesse modelo, a linguagem é vista de maneira mecânica, de forma que os segmentos menores (fonema, sílaba, palavra, frase etc.) se juntam para formar os maiores. Dessa soma do significado de cada palavra é que surgiria o sentido do texto.
Ainda conforme Orlandi, no modelo estruturalista o sentido está necessariamente arraigado à forma, ele está na forma. Sendo assim, para que a leitura possa se efetivar é necessário que o leitor possua um conhecimento lexical que lhe permita decifrar o que as palavras escritas escondem por detrás de si. Esse modelo de
compreensão de leitura se enquadra na perspectiva do buttom up, avaliado por Isabel Solé (1998, p. 23)13.
Nele, ―se considera que o leitor, perante o texto, processa seus elementos componentes, começando pelas letras, continuando com as palavras, frases... em um processo ascendente, seqüencial14 e hierárquico que leva a compreensão do texto‖ (idem). Segundo a autora, ―as propostas de ensino baseadas no mesmo, atribuem grande importância às habilidades de decodificação, pois consideram que o leitor pode compreender o texto porque pode decodificá-lo totalmente‖ (ibidem).
Se forem retomados os conceitos apresentados por Paulino (2001) ver-se-á que essa concepção de Solé se assemelha com o terceiro sentido etimológico de ler:
contar, enumerar as letras. Segundo essa caracterização, ler está ligado à aprendizagem
da leitura na qual o aprendiz soletra, repete fonemas, agrupa sílabas, palavras, frases. É o ato primeiro da leitura, muito relacionado ao processo de alfabetização.
Para Kleiman (2001), quando é vista sob essa perspectiva, a leitura visa, principalmente, a desenvolver uma capacidade decodificadora no leitor para que ele chegue à compreensão. É o processo linear que se dá por meio da decodificação sonora da palavra redigida, concebido pela Linguística Estrutural como o próprio ato de ler. Essa decodificação sonora está relacionada à leitura em voz alta, muito utilizada em salas de aula nas quais o modelo bottom up é praticado.
Nesse modelo, se o aluno lê fluentemente, sem hesitar, é sinal de que ele compreendeu o texto adequadamente. Já se ele não faz com plenitude tal leitura, se ele lê com dificuldade, engolindo letras ou atropelando-as, isso pode ser interpretado como uma má compressão do texto. Nessa perspectiva, se ler é decodificar, interpretar implica encontrar o significado real do texto dentro dele mesmo. As relações com o contexto, com o conhecimento prévio do leitor não fazem parte dessa compreensão de leitura. Os estruturalistas limitaram-se a estudar a estrutura do texto nele mesmo e por ele mesmo, desconsiderando, portanto, sua exterioridade.
Essa compreensão de leitura enquanto decodificação gerou controvérsias e foi bastante questionada, em virtude de sua focalização unilateral. Solé apontou algumas limitações desse modelo centrado no texto e em sua decodificação, o que, segundo ela,
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Para a autora, diversos são os modelos a partir dos quais a leitura tem sido explicada, e as diversas explicações existentes podem ser agrupadas em torno de modelos hierárquicos ascendentes (buttom up) e descentes (top down).
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Este trabalho está redigido de acordo com as novas regras brasileiras de ortografia, exceto nas citações diretas feitas, onde são preservadas a ortografia original das palavras.
não pode explicar fenômenos tão correntes como o fato de que continuamente inferirmos informações, o fato de ler e não perceber determinados erros tipográficos e mesmo o de que possamos compreender um texto sem necessidade de entender em sua totalidade cada um dos seus elementos. (1998, p. 23).
No entanto, os extremos que veem na leitura apenas um ato mecânico e fisiológico não devem levar a rejeitar totalmente a percepção desses mecanismos na realização do ato completo e complexo que é a leitura. O processo de decodificação é parte integrante, é uma etapa da leitura, como aponta Sílvio Ribeiro da Silva (2004b, p. 322):
[é] evidente que é imprescindível que se decodifique para que depois seja construído o sentido. O que é considerado aqui é que a atividade de leitura deve levar o leitor a construir, em sua mente, a partir da percepção de símbolos impressos e com a ajuda de dados não verbais, uma substância de conteúdo semelhante àquela que o autor quis transmitir por meio de uma mensagem verbal escrita.
Para que a interpretação aconteça, diz Silva (op. cit., p. 322), devem ser oferecidas ao leitor condições para seguir etapas, assim são elencadas:
reconhecer as palavras escritas (decodificação), fazer a relação delas como seu sentido, efetuar a combinação desses elementos em estruturas, combinar estratégias cognitivas a fim de captar o sentido do texto e, finalmente, interpretá-lo, fazendo uso de estratégias de leitura que o auxiliarão a compreender o texto, tornando explícitas as idéias implícitas e obscuras. (grifos nossos).
Sendo assim, decodificar é um processo constitutivo e relevante, no entanto, não deve ser confundido com a própria leitura em si, ato muito mais completo e complexo. Ainda conforme Silva (2004b, p. 322), a mera decodificação do texto ―não significa que houve interpretação, uma vez que a interpretação existirá a partir do momento em que o leitor puder usar suas habilidades sintáticas, semânticas, inferenciais e pragmáticas‖.
Parece que há uma questão terminológica aí, já que se é levado a perguntar: será que decodificar não poderia servir como uma metonímia para todos esses usos subsequentes exigidos por Silva? De outro modo: se ler não é decifrar códigos, em que consiste, pois? Segundo o próprio Silva (op. cit., p. 325), o ato de interpretar se constitui por meio das hipóteses que o texto suscita no leitor. Hipóteses essas nascidas das
relações feitas entre os elementos que o leitor encontra no texto e aqueles que tal leitor traz da vida para a leitura. Assim, a relação entre o já conhecido e o novo, o texto e o extratexto são um amálgama que constituiria a ação leitora: ―Na verdade a interpretação ocorre quando há confluência entre o reconhecimento de elementos do código linguístico e a projeção dos conhecimentos do leitor no texto‖ (idem).