• No results found

5. Methodology: Onto-epistemological assumptions, scientific procedures,

5.11. Reflections on reflexivity

Buscamos em Goffman (1963; 1982) e em Bell (1984) alguns conceitos que possam nos auxiliar a definir a terceira parte ou zona de influência de Leech (1983). Segundo Goffman (1963, p.11), em muitas situações, certas categorias de pessoas podem não estar autorizadas a estarem presentes nas interações sociais, mas estão mesmo assim, então, “o ato de permanecer para escutar a conversa torna-se inapropriado”. Contudo, ao prezar pela polidez, os interlocutores buscam formas de evitar possíveis danos as próprias faces e as faces da terceira parte (ouvinte não autorizado) por meio de estratégias de polidez linguística.

Em outra obra, Goffman (1981, p.132) busca distinguir as categorias de ouvintes em três tipos: ouvinte oficial, espectadores e audiência, o que ele chamou de estrutura de participação. O primeiro tipo diz respeito ao destinatário oficial da mensagem, aquele para a qual a mensagem é dirigida, recebendo toda a atenção do falante. Nesta categoria, se insere a típica interação entre falante e ouvinte, estudada pelos lingüistas Brown; Levinson (1978; 1987).10

Já os espectadores são constituídos por pessoas que acompanham a conversa, podendo temporariamente escutar a conversa, ou pegar pedaços dela, sem muito esforço ou atenção, tornando-se, então, ouvintes por acaso. Para o autor, a presença do espectador deve ser considerada uma regra, não uma exceção, pois em ambientes públicos, qualquer um pode se tornar um espectador.

A outra categoria de ouvintes refere-se à audiência que, conforme o autor tem o direito de examinar o falante, apreciar os comentários realizados por ele, mas não respondê-los de uma forma direta. O termo audiência pode abranger aqueles que escutam programas e conversas de rádio ou aqueles que assistem a uma peça de teatro ou televisão.

Por estarem, na maioria das vezes, ausentes do ambiente físico em que a interação está sendo realizada, como é o caso dos programas de rádio e televisão, e por consistirem um grupo heterogêneo, os indivíduos que compõem a audiência possuem características diferenciadas daqueles que pertencem às primeiras categorias. Assim, podemos dizer que a audiência configura-se como um grupo de destinatários indiretos da mensagem, heterogêneo, imaginário, pois não pode ser visto ou conhecido de fato, mas é extremamente sensível aos efeitos das mensagens encaminhadas pela mídia.

Apesar de Goffman ou mesmo Leech não terem mencionado, contamos também com situações em que existem ouvintes ocasionais que são ratificados, no sentido de serem autorizados para acompanhar a interação, mas que não participam como falantes, apenas como ouvintes. Encontramos tais tipos de ouvintes em pesquisas sociais, tais como a pesquisa etnográfica, a qual requer que o pesquisador se insira na comunidade para compreender sua cultura, sua estrutura social ou mesmo sua linguagem.

Para Gil (1999), esse procedimento metodológico pode gerar alguns entraves, ou mesmo enviezamentos para análise dos dados coletados, pois a presença do pesquisador pode

10 Os estudos realizados sobre o fenômeno da polidez lingüística pelos autores não apenas se limitaram a interações

face a face, como também a interações típicas ou ideais, nas quais havia a presença de apenas uma categoria de falante e ouvinte, no caso do ultimo ouvintes oficiais.

provocar alterações no comportamento dos observados, pois eles sabem que estão sendo observados. Diante disso, o autor assinala que existem outros procedimentos metodológicos que não a observação participante que coletariam os dados de modo mais real.

Tentando compreender melhor os diversos tipos de ouvinte, Bell (1984) analisa o estilo da audiência. O autor define estilo como uma forma de reagir à audiência, e por isso o falante, primeira pessoa, delineia seu discurso conforme as pessoas que estão presentes na interação. Sabendo que uma audiência é composta não apenas pelo ouvinte oficial, Bell sugeriu que a audiência seria uma categoria que inclui, não apenas o ouvinte oficial segunda pessoa, mas também o que ele chama de terceiras pessoas, a saber: bisbilhoteiro11 , espiões12 e auditor.

Para Bell (1984), são bisbilhoteiras aquelas pessoas que se fazem presentes na interação, escutam as conversas, mas não são membros ratificados do grupo e não têm permissão para estar ali. Um exemplo deste tipo de papel ocorre quando estamos na fila de um banco ou supermercado e as pessoas que estão à nossa frente comentam sobre um assunto particular, que, inevitavelmente, ouvimos tudo e muitas vezes nos sentimos tentados a manifestar nossa opinião. Acerca deste tipo de ouvinte, Bell (p.177) distingue dois tipos, aqueles que o falante conhece e que pode configurar seu enunciado para ele, e outro que o falante desconhece, como aquele citado no exemplo da fila de banco.

O autor ressalta que em situações de comunicação de massa, como em uma transmissão de um programa, novela ou outro gênero televisivo ou cinematográfico, os “ bisbilhoteiros”13 são o foco da configuração do discurso dos falantes. Sendo assim, em um

programa de auditório transmitido para todo o Brasil, os falantes estariam no palco, apresentando o show, os destinatários seriam as pessoas que compõem o auditório, os auditores seriam avaliadores, produtores, e os chamados “bisbilhoteiros” seriam as pessoas que assistem o show via televisão.

Outros que também possuem essas mesmas características são os espiões, que além de não ter a permissão para acompanhar a interação, também são ignorados pelos seus membros. Nesses casos, tanto falante quanto ouvinte desconhecem que há alguém ouvindo a conversa, como em um grampo telefônico que capta a interação entre políticos.

11 Tanto em Goffman (1981) quanto em Bell (1984), o termo utilizado é overhearer, mas por falta de um termo

correspondente em português, optamos por usar bisbilhoteiro.

12 No original: eavesdropper

13 Sob a perspectiva de uma comunicação de massa, acreditamos que o termo bisbilhoteiro seja inadequado, visto que

Outro tipo de ouvinte que pode influenciar o discurso do falante é o que chama de árbitro14, que como o próprio nome já diz, é uma figura que elucida as regras do jogo, nesse caso o jogo da interação. Apesar de não estar presente fisicamente, o falante costuma se apóia nele para desenvolver seu discurso, deste modo, ele está presente no imaginário do falante.

Dependendo do árbitro em mente, o falante pode desenvolver seu discurso de diferentes maneiras, se ele faz parte de uma religião, ele conhece o árbitro dela, suas regras e como deve se expressar, utilizando elementos que o identifique a tal religião, mas se ele é vendedor e precisa vender um carro para alguém de outra religião, ele tentará acessar o que ele julga ser “o árbitro” que rege o imaginário de seu cliente, tentará usar expressões que se identifiquem com ele.

Assim sendo, podemos conceber o árbitro como uma espécie de grupo de referência, pelo qual o falante se espelha ao tentar interagir com diferentes ouvintes. O falante está apto a adotar o discurso do árbitro, somente quando ele possa identificar os grupos de referência, acessar e analisar os sistemas lingüísticos presentes, ou seja, conhecer suas regras, e estar disposto a incorporá-las no seu discurso.

O último papel e para esta pesquisa o mais importante é o de auditor, que, ao contrário dos papéis anteriores, ele se faz presente na interação, é conhecido, membro ratificado, e, na maioria dos casos, é a segunda pessoa de maior influência no discurso do falante, uma vez que o foco do falante seja interagir com o ouvinte oficial.

Os mesmos padrões de estrutura sociolinguística já descritos para o destinatário oficial serão realizadas para o auditor, mas se manifestarão de modo mais suave. Como uma pessoa fala antes de um auditor reflete como a pessoa fala ao mesmo indivíduo como destinatário. A influência do auditor é mudar o estilo de um falante na mesma direção, mas não com a mesma intensidade como se o auditor fosse realmente o destinatário. Falantes tratam auditores como uma segunda classe de destinatários. (BELL 1984, p.174)15

O auditor pode ser alguém que supervisiona, acompanha a interação, mas faz isso com consentimento dos presentes. Neste caso, podemos citar esta pesquisa, pois ao acompanhar os chats, a pesquisadora teve de se inscrever na turma, ocupar um papel conhecido por todos e, tanto antes como durante a conversa, pediu o consentimento para estar ali, nos termos de Bell

14 Do original, Referee.

15 “The same patterns of sociolinguistic structure already described for the addressee will hold for the auditor but in

a weaker form. How a person speaks before a given auditor reflects how that person speaks to the same individual as addressee. The auditor´s effect is to shift a speaker´s style in the same direction but not to the same degree as if the auditor were actually addressee. Speakers treat auditors as second-class addressees.”(BELL 1984, p.174)

(1984) a pesquisadora seria uma auditora-investigadora.

O autor nos mostra que em uma interação, na qual se faz presente o auditor, além do falante e segunda pessoa há mais pressão sobre o falante e, por conseguinte sob os demais presentes que em uma interação sem auditor. Por isso, optamos por adentrar as salas de bate-papo com aproximadamente vinte minutos de seu início e sair dez minutos antes de seu término previsto, pois buscamos averiguar como reagem as primeiras e segundas pessoas da interação sem a presença da terceira parte, ocupada pela auditora pesquisadora.

Em alguns casos, a presença do auditor pode afetar bastante a interação. Uma delas acontece quando o auditor ocupa o papel de destinatário, outra é quando o auditor tem mais poder (em algum aspecto) e assim afeta o discurso do falante que a presença do destinatário oficial. Com base nisso, tomamos como hipótese que enquanto o auditor-pesquisador sob a figura do professor conteudista da disciplina estiver presente na sala de bate-papo há mudança de estilo no discurso do tutor.

Correlacionado o modelo de Bell (1984) com o modelo de Polidez de Brown; Levinson (1987) observamos que estratégias como desloque o ouvinte; seja simpático; use

marcadores de identidade e grupo; inclua falante e ouvinte na mesma atividade; demonstre respeito ocupam lugar importante quando o falante pretende adquirir aprovação tanto de um

destinatário oficial como de um auditor.

Algumas dessas estratégias podem revelar o quanto de intimidade ou falta dela existe ou se o participante quer adquirir intimidade ou delimitar poder na interação. Tudo isso pode ser observado a partir do modo em que o falante se expressa. Desse modo, estratégias como as citadas acima nos darão pistas de como o auditor-pesquisador influencia o discurso de tutores e alunos que se submeteram a pesquisa.

“De fato, a escolha das expressões linguísticas pode ser usada para assinalar quem é o destinatário dentro de um grupo (GAL, 1979, p.121)- isto é, salientar os papéis do destinatário e auditores como membros da audiência”. (BELL, 1984, p. 175)16