Tutores e alunos podem mudar de footing por formato de produção devido à alternância do posicionamento discursivo que ocupam dentro do enunciado. Segundo Goffman (1981), eles podem assumir três posicionamentos: autor, animador e responsável ou apenas um deles, quando estão ocupando o turno de fala.
Deste modo, avaliaremos se a presença da terceira parte influencia na preferência de um ou mais posicionamentos que os alunos e tutores assumem na interação. Neste caso, faremos um cruzamento dos formatos de produção com a variável presença da terceira parte e sua ausência nos momentos anteriores e posteriores a sua saída das salas.
Tanto o aluno como o tutor podem assumir três posicionamentos diferentes, cujas implicações vão além da meta de comunicar, demonstrando assim, que tutor e aluno podem: estar mais ou menos engajados na discussão; demonstrar conhecimento sobre o assunto; tentar afiliação com os participantes; adquirir ou manter a admiração deles. São metas sociais que pretendem estabelecer uma relação de polidez por meio do ato de enunciação.
3.1.3.1 O animador
Posicionando-se como animador, o sujeito dará voz a autores diversos, inclusive a ele mesmo. Trata-se de um processo físico de articulação do aparelho fonador junto ao entorno corporal que, em conjunto, enunciam algo. Embora Goffman (1981) não tenha mencionado o ato de escrever como uma expressão da articulação do dito, nós julgamos necessário fazer esta inclusão, dado que a comunicação humana não se restringe a oralidade e nada mais justo considerar a escrita como um processo físico de manifestação de sentimentos, tal como é a fala.
Enquanto animador, o sujeito fará citações diretas, indiretas e indiretas livres, isso fica claro nas comunicações escritas, como é o caso dos chats educacionais virtuais, em que alunos e tutores procuram demonstrar por meio de recursos gráficos, como o uso de aspas e itálico, e exibição de fontes que o dito não é de sua autoria. Mesmo que o sujeito não marque os
dizeres do outro em seu discurso, podemos identificar esse dito por meio de rastreamento na rede ou mesmo a intuição.
Visto de modo separado dos demais posicionamentos, o animador não tem voz própria, mas sua escolha determina o tipo de interesse que ele possui em enunciar algo, há aí, uma meta social que ele pretende atingir, e esta meta pode ser de afiliação (polidez positiva) e/ou distanciamento (polidez negativa).
Podemos crer que ao enunciar algo sobre o tema que se discute na aula de outro autor, o aluno pretende manter o tópico discursivo, engajar-se na discussão, mas não ao ponto de se expor tanto, pois se resguarda nas palavras do outro, ou seja, em uma citação, podem-se flagrar dois movimentos de polidez, que de forma complementar preservam o aluno na medida em que ele se expõe para o grupo.
Já o tutor, ao enunciar uma citação, suas metas sociais podem não coincidir com as do aluno, por exemplo: retomar o tópico que fora quebrado, direcionar as discussões, provocar discussões, ou seja, pode usar os dizeres do outro em benefício da realização das expectativas educacionais previstas para a realização do chat, mas não diretamente de si mesmo, a polidez, neste caso, centra-se na ordem e harmonia da interação e não necessariamente para manter uma boa relação entre os participantes.
3.1.3.2 O responsável
Se o animador teria um posicionamento mais apassivado perante o dizer do outro ou de si mesmo, o que implica em uma restrição para evitar o compromisso e adquirir resguardo a sua face, o responsável, pelo contrário, assumiria mais riscos, pois se compromete de forma explícita com o que diz.
Posiciona-se como responsável o sujeito, que além de “animar” as próprias palavras, responsabiliza-se por elas utilizando verbos como saber, achar, acreditar, entre outros. Essa responsabilidade pode ser salientada com o uso dos pronomes pessoais “eu” e “nós”, e atenuadas com a omissão deles.
Tanto o aluno quanto o tutor podem posicionar-se como responsáveis e animadores do que é dito com diferentes metas sociais. O aluno pode querer demonstrar comprometimento com a discussão, assumindo sua opinião, responsabilizando-se por ela, com isso, ele se expõe,
podendo ser criticado, mas também apreciado pelo grupo pela sua coragem. Para aqueles que não querem deixar de se comprometer, podem fazer uso da estratégia inclua ouvinte e falante na
mesma atividade, cujo pronome nós e a expressão “a gente” são acionados para minimizar o peso
do que se diz a partir do compartilhamento da responsabilidade.
O tutor pode fazer uso da mesma estratégia para tratar de uma questão que, para ele, seja difícil ou até mesmo pessoal. Ele pode compartilhar a responsabilidade para evitar que o aluno o questione, já que ele assume ser um posicionamento geral.
3.1.3.3 O autor
Para Goffman (2002, p.134), “ considera-se que há um autor das palavras que são ouvidas, ou seja, alguém que selecionou sentimentos que estão sendo expressos e as palavras nas quais eles estão codificados”. Diante dessa concepção mentalista de autor, consideramos que não há como mensurar a autoria de um modo amplo segundo o conceito de Goffman, pois não temos como averiguar quando o aluno ou o tutor é autor, com exceção dos casos em que eles demonstram seus sentimentos para consigo mesmos e com os demais participantes.
Ao posicionar-se como autor, o aluno ou o tutor nunca o farão de modo isolado, sempre o assumiriam juntamente com outra projeção, como animador e/ou responsável. Para assumir tais posicionamentos, eles poderão fazer uso de estratégias de polidez para amenizar críticas e enunciar críticas, fazer elogios, ressaltando-os ou colocando-os de modo menos direto para evitar constrangimentos e atender as expectativas dos papeis de tutor e aluno.
Neste caso, a presença da terceira parte pode estimular a produção de enunciados elogiosos ou críticos ou mesmo retraí-los, caso os sujeitos da interação sintam-se constrangidos em passar por essas situações com pessoas que possuem pouca intimidade e estão numa posição hierarquicamente superior a deles.