5. Methodology: Onto-epistemological assumptions, scientific procedures,
5.12. Ethical considerations
Partindo da hipótese de Labov (1972), Bell (1984) busca em outras pesquisas dados que refutem ou corroborem sua premissa, e encontra o seguinte: a) a presença física do interlocutor e seu papel na interação podem condicionar um tratamento mais ou menos formal da fala; b) nem sempre uma fala menos formal requer menos atenção do falante; c) mesmo na leitura, o falante pode alternar estilos, dependendo do seu foco e da audiência. Diante dessas constatações, observa-se que a atenção a fala é um fator que contribui para o desenvolvimento do estilo, mas não é o único, nem mesmo aquele que vai definir o grau de formalidade empregado na fala. É a audiência, entre outros fatores, que terá um maior peso sobre a escolha do estilo adotado pelo falante, assim, não podemos compreender o estilo como algo estático, engessado, mas como
algo que alterna, se transforma por natureza, tal como o footing17.
O modelo de Bell (1984) sugere que os falantes ajustam, configuram, delineiam seus discursos conforme a audiência para demonstrar intimidade e solidariedade, ou seja, o estilo deriva da esfera social e por isso é sensível à audiência e visto desse modo, ele pode ser um grande objeto científico para a linguística.
Analisar a mudança de estilo do falante sob o pressuposto de que ele busca a solidariedade, aprovação para com sua audiência é visto como um problema na concepção de Patrick (s/d). O autor comenta que essa é uma visão limitada, uma vez que o falante pode, como Bell (1984) mesmo comenta, optar por um estilo divergente, pelo qual haverá poucas chances de haver consenso na interação. Avaliando desse modo, o modelo de Bell incorre no mesmo problema do modelo de Brown; Levinson (1987) quando os autores já criticados por isso sugerem que os falantes interagem buscando a harmonia na interação.
Apesar de compartilharmos com a crítica, acreditamos que o modelo de Bell (1984) é consistente e adequado para a nossa análise, pois o autor assume que o estilo não seja algo tão individual que possa impossível de ser analisado, ao contrário, o vê como um reflexo das interações sociais.
Concebendo o estilo como uma derivação do contexto social em que os falantes estão inseridos, e diante de suas diversas interações, Bell distingue três níveis de relações entre o que próprio do indivíduo e dos grupos sociais com os quais ele se relaciona: a) o falante muda seu estilo para torná-lo similar ao estilo de outro falante em um dado momento sincrônico; b) o falante muda seu estilo quando se transcorre algum tempo ou muda-se de lugar para parecer com as pessoas desse lugar ou tempo; c) Todo um grupo de falantes muda seu estilo para parecer um outro grupo de falantes que empregam normalmente tal estilo. Essas mudanças de estilo nos sugerem que os falantes são pessoas sensíveis às interações, e quando pretendem estabelecer identidade e aprovação sujeitam-se a mudar seu estilo para conseguir atingir seus objetivos.
“O ritual de cortesia opera em todas as situações sociais (Beeman, 1977), cujo status relativo deve ser reavaliado a cada mudança de ocasião. Uma mudança extrema de estilo é um resultado provável de tais mecanismos sociais. Desde que a deferência é um comportamento dirigido a audiência, no modelo que desenvolvo, extrema deferência poderia facilmente prduzir uma extrema
17 Analisando o estilo sob a perspectiva de Bell (2004), observamos que o conceito de footing de Goffman (1981)
está intimamente associado a aquele, pois ambos tratam da variação, o primeiro sinaliza uma mudança mais visível, como o desvio para o ingresso em um determinado grupo, já o segundo não deixa de incorporá-lo, mas também se manifesta mais sutilmente, como a mudança no tom de voz.
mudança de estilo dirigida a um determinado público.” 18(1984, p.156)
Entendemos que o modelo proposto pelo autor tem grande afinidade com os modelos de Brown; Levinson (1987) e Leech, além dos demais estudos de polidez já citados no início desta tese, visto que conceitos como polidez positiva e negativa podem responder às necessidades dos falantes quando eles precisam compartilhar ou preservar suas imagens e para isso a mudança de estilo pode figurar como uma ou mais estratégias e restrições sugeridas pelos autores. Diante disso, compartilhamos com Bell (1984) a idéia de que a polidez é uma faceta de um estilo macro, especialmente quando se busca aprovação.
A esse respeito, Bell (1984) comenta que a acomodação da fala da primeira pessoa a sua audiência é resultado de um processo social chamado de convergência, pelo qual a falante tenta igualar seu estilo ao do seu ouvinte, expressando-se através do sotaque, conteúdos enunciados e pausas similares aos de seu ouvinte.
Em contrapartida, os estudos de Thakerar, Giles; Cheshire (1982, apud BELL, 1984) demonstram que nem sempre tentar imitar o estilo do ouvinte pode compensar o esforço de desviar o estilo, uma vez que o ouvinte pode repudiar o falante por isso. Desse modo, o falante deve intuir quando manter, desviar, perder ou aprender um estilo para atingir suas metas sociais na interação.
Com base nisso, o estilo pode: a) sofrer desvio, quando alguém de uma classe social x tenta falar como y, mas isso não faz dessa pessoa pertencente a classe y, e vice-versa, ou seja, o estilo configura-se como um reflexo da estratificação social, mas não ela em si; b) sofrer avaliação por parte da comunidade de fala e dos grupos de referência aos quais o falante está inserido, um exemplo ocorre quando uma pessoa que mora em uma cidade, como Fortaleza e passa morar em Belo Horizonte, vai ser avaliada pelas comunidades de fala dos dois lugares, ou seja, faz-se a busca pela identidade linguística, mas nesse caso há derivação daquilo que é usual, apreciado em um lugar e em outro; c) ser aprendido e esquecido, esse argumento sugere que com o desenvolvimento e as interações sociais que tem o indivíduo, ele pode aprender novos estilos e esquecê-los temporariamente ou indeterminadamente, dependendo da situação. Para o autor,
18 “ Ritual courtesy operates in all social situations ( BEEMAN, 1977), and relative status must be reassessed at
every change of occasion. Extreme style shift is a likely result of such social mechanisms. Since deference is an audience-directed behavior, in the framework I develop below, extreme deference could easily prduce extreme audience-directed style shift”.
“variação de estilo, estratégias polidez e sistemas gramaticais diminuem e se decompõem conforme o idioma deixa de ser usado com as pessoas que retribuem tais formas” (1984, p.158)19
Em termos mais específicos, o modelo de Bell parte da hipótese que a variação de estilo existe, em algumas circunstâncias é mais saliente, mas essa variação está mais presente no discurso do falante, que ocupa o papel de 1ª pessoa, em seguida pelo ouvinte, que ocupa o papel de 2ª pessoa, e por último os papéis que compõem a 3ª pessoa na interação. Deste modo, quanto maior é a proximidade do falante, maior é a probabilidade deste sujeito sofrer com a variação de estilo, e essa variação de estilo decorre da influência de um tipo de terceira parte que pode estar presente ou não na interação, assim, essa hipótese corrobora a idéia de 3ª parte ou zona de influência proposta por Leech (1981).
Além dos participantes ratificados e não ratificados na interação, Bell (1984) comenta que o tópico e o cenário também são fatores determinantes para a variação do estilo. Algumas pesquisas sociolinguísticas, tais como as de Labov e outras mais recentes, como mostra o Atlas Lingüístico do Brasil, quando o falante comenta sobre determinados tópicos, como lembranças, histórias da infância, que requerem mais emoção, eles geralmente alternam de um estilo mais monitorado, encontrado nas leituras e entrevistas, para um menos monitorado, chegando a ser emocionado.
A mudança de tópico também se reflete nas pesquisas de Brown; Levinson (1987), pois duas de suas estratégias sugerem que o falante pode se preservar e preservar seu destinatário quando evita falar sobre tópicos polêmicos, como política, religião. Outra estratégia sugere que o falante procure concordar e evitar a discordância, ou seja, se o tópico for bem aceito pela audiência, para manter sua imagem e conseguir aprovação, ele deve-se manter de acordo com o que já foi dito e evitar discordar, seria uma atitude defensiva que o preservaria.
Com relação ao cenário, Bell comenta a pesquisa de Hindle (1979),
Hindle (apud Bell, p.179) analisou o discurso de uma pessoa em três ambientes de uma casa, no escritório e durante um jogo de bridge. A pesquisa mostrou que houve diferentes manifestações freqüentemente associadas com diferentes valores das variáveis vogal estudada.
Esse resultado demonstra que fatores extralingüísticos podem influenciar o discurso do falante, deixando-o mais ou menos à vontade, com um estilo mais ou menos monitorado
19 "Style ranges, politeness strategies, and grammatical systems diminish and decay as the language ceases to be
dependendo do ambiente, onde ele se encontra. Labov (2008) recomenda que ao fazer as entrevistas com os informantes deve-se prezar pelo ambiente. Escolher um ambiente em que o informante sinta-se à vontade e livre de perturbações é ideal para a coleta de dados, o autor acrescenta que verificar os aparelhos de captação e a acústica permite que os dados coletados sejam passíveis de transcrição.
Tomando como base esses autores, que trabalharam com ambientes físicos de interação, cabe-nos responder a seguinte pergunta: é possível fazer tal estudo considerando o cenário como um fator de mudança de estilo, uma vez que a interação se dará em um ambiente virtual?
A nossa resposta é sim, pois o cenário não é composto apenas de elementos físicos, mas das imagens que compartilhamos deste cenário, que podem mudar conforme nossos interesses. Vejamos o nosso corpus, ele é composto por diversas conversas instauradas em “janelas”, que abrigam além dos nomes e imagens escolhidas pelos participantes, poucos recursos: tipo de letras, formas de ressaltá-las, atos de fala e espaço para digitação com botões que permitem enviar mensagem, sair da sala, aumentar a janela, diminuí-la ou mesmo fechá-la, como nos mostra a figura 1.
FIGURA 1: sala de bate-papo disponível no AVA SOLAR
Fonte : Ambiente Virtual de Aprendizagem Solar
Esse espaço que toma a atenção do aluno e do tutor é palco de vários tipos de interações sociais que permitem que seus interlocutores possam fazer-se presentes, sem
precisarem compartilhar a mesma sala. Nesse espaço virtual, os sujeitos da interação manifestam- se, discutem, dialogam, queixam-se, marcam suas identidades e dependendo com quem e sobre o que estão falando, esse ambiente formal (primariamente institucionalizado) pode tornar-se menos formal, menos parecido com um cenário de um chat educacional virtual, mais parecido com uma conversa descontraída entre colegas, que não parecem estar em uma sala de aula na universidade, mas no pátio.
Desse modo, cremos que mesmo a “janela” sendo a mesma, ela não encerra o cenário em si, compreendemos que os sujeitos que ali interagem podem elucidar outros elementos que fazem daquela janela outra coisa que não seja um chat educacional virtual, e um dos elementos que julgamos ser essencial para isso é o tópico discutido.
Para Bell (1984, p.181), os falantes costumam relacionar tópicos a cenários e por conseguinte a grupos de pessoas. “Tópicos como educação e ocupação, e cenários como escola e trabalho, podem causar mudanças de estilo adequado a um empregado ou a um professor”. Acreditamos que a afirmação do autor não é de todo equivocada, especialmente quando os interlocutores estão no início de uma conversa, ou têm pouca familiaridade com entre si, com o cenário e tópicos discutidos, mas do contrário, essa me parece uma afirmação engessada, na medida em que as interações são dinâmicas por natureza.
Vejamos a seguinte situação, quando estão presentes apenas alunos, quais assuntos podem ocorrer? Como a linguagem deles se configura? Será que o modo pelo qual eles se expressam muda quando o tutor chega? Será que o tutor ocupa papel de auditor quando entra na sala? E quando há a presença de um auditor pesquisador, os tópicos mudam? São mantidos? Ou perdidos? Os tópicos provocam estilos pré-determinados, em que momentos? O tom do início da conversa se transforma?
Com base nessas questões, buscaremos desenvolver esta tese, mas para isso devemos retomar Goffman (1981; 1986), especialmente sobre seus conceitos de frame e footing, pelos quais os interlocutores de uma dada situação se perguntam “o que está acontecendo aqui?” para tentar decifrar como devem se portar na situação.