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5. Methodology: Onto-epistemological assumptions, scientific procedures,

5.2. Autoethnographic inspirations

Nos últimos anos, as investigações sobre polidez linguística se ramificaram em basicamente quatro linhas: a) estudos que visam criticar as teorias de base; b) trabalhos em que se aplicam as teorias de base; c) modelos que pretendem atender as dimensões interculturais; c) novos modelos de análise.

Os estudos que pretendem criticar as teorias de base dedicam-se em resenhar os autores e contrapô-los com o estado da arte, aqueles que aplicam destinam-se a entender como a polidez linguística funciona nas mais diversificadas situações de interação e muitas vezes não se detém a uma visão crítica da teoria, a exemplo temos trabalhos sobre polidez e literatura, por outro lado, observa-se um grande número de trabalhos que tentam entender a polidez nas dinâmicas sócio e interculturais das relações familiares, midiáticas e de trabalho.

Dentre os trabalhos que aplicaram os modelos de Leech (1983; 2005) e Brown; Levinson(1987), julgamos oportuno incluir a pesquisa de Paiva (2008) como uma das que criticou, aplicou e adaptou os modelos dos autores para a análise de interações ocorridas em ambiente virtual.

Diante das limitações dos modelos de Brown; Levinson (1987) e Leech (1983; 2005), Paiva (2008) propôs uma adaptação dos dois modelos com a aplicação em chat de entretenimento. A autora observou que não era suficiente identificar estratégias ou regras pragmáticas de polidez linguística, e que seria necessário fazer uma análise sobre como e com quais finalidades os participantes da sala de bate-papo pesquisada eram polidos.

Os modelos dos autores foram arranjados em oito categorias, que consistiam em metas sociais dos participantes da sala, a saber: a) inclusão e manutenção do ouvinte na interação; b) simpatia do falante em relação ao ouvinte; c) geração de expectativas do ouvinte em relação às ações do falante; d) geração de expectativas do falante em relação às ações do ouvinte; e) busca pela harmonia interacional; f) marcação das posições dos interlocutores na interação (D e P); g) redução do peso e da responsabilidade com o ato ameaçador de face (FTA)

Seus resultados demonstram que, apesar do anonimato, os participantes da sala de bate-papo constroem e preservam as identidades construídas na sala, e nela estabelecem vínculos

interacionais, demonstrando uma intimidade, marcada por meio: a) do tom descontraído das conversas; b) do uso de marcadores de identidade e grupo; c) da manifestação de simpatia e afeto; e d) da preocupação em reduzir o peso e associação com um ato ameaçador de face (FTA).

Embora tenha conseguido observar que as mesmas estratégias e regras pragmáticas de polidez linguística propostas para análise em interações face a face também estão presentes em um ambiente virtual de interação, a autora desconsiderou um fator que pode explicar o porquê de alguns interlocutores mudarem de comportamento (footing) quando há a presença de outro interlocutor na sala, que exerça sobre eles algum tipo de influência: a noção de terceira parte ou zona de influência, foco do nosso próximo capítulo.

Embora figure como estudo de grande relevância para nossa pesquisa, nos centraremos, a partir de agora, em discutir o estado da arte dos trabalhos que visam propor novos modelos de análise da polidez linguística.

Uma pesquisadora que vem se empenhando em recategorizar e rever o modo de análise de polidez linguística é Diana Bravo, responsável pelo programa EDICE. Uma das grandes contribuições de Bravo (2005, p.27) é a sua distinção entre polidez normativa e polidez estratégica. Para a autora, a polidez normativa seria aquela forma socialmente convencionalizada de polidez, como exemplo, a autora cita as saudações, os diminutivos, modalizadores proposicionais epistêmicos como os usos do verbo achar, crer e acreditar, entre outros. Em contraponto a esta categoria de polidez, a autora apresenta a polidez estratégica que independe das formulas cristalizadas de polidez e que sofre interferência da criatividade dos falantes na interação, como muitas das estratégias de Brown; Levinson (1987) que exigem do falante um calculo mental relativo para reparar ou evitar atos ameaçadores de face.

A autora comenta que a atenuação é uma das manifestações polidas que pode ser considerada como estratégica e, assim, a atenuação pode ser definida como uma estratégia de polidez negativa que, neste nível, visa a atenuação de ameaças as atividades de imagem dos falantes, pois, como nosso ponto de vista, Bravo (2005) considera que a própria imagem do falante é beneficiada. Deste modo, a autora, distingue a polidez em cinco tipos: atenuadora, valorizadora, estratégica, convencionalizada e codificada e que o efeito da polidez pode ser compreendido em três: cortez, neutro, e descortez.

Apesar de apontar para avanços da área, especialmente quando distingue os tipos de polidez e seus efeitos, na obra de 2005, a autora pouco comenta sobre cada uma dessas categorias

e detem seu artigo na análise de algumas interações, verificando se há atos e sub-atos de fala,que podem ou não ser corteses, assim como gerar efeitos similares de polidez. Outro fator que ela julga de suma importância é o contexto da interação, mas em suas análises, pouco faz relação com ele, deixando a cargo do leitor imaginar qual seja e como ele se deu.

Na perspectiva de redefinição das categorias de polidez, destaca-se o estudo de Watts (2004), o qual propõe que assistimos, na verdade, a dois fenômenos de polidez, denominados de Polidez de 1a ordem e 2a ordem.

Para o autor, a polidez de 1a ordem deve ser concebida como a noção do senso comum de polidez, ou seja, refere-se ao que chamamos de boa educação, boas maneiras ou etiqueta social. Já a polidez de 2a ordem refere-se ao conceito científico sobre o tema, o qual busca analisar como as pessoas comportam-se umas com as outras. Depois de distinguir a polidez, Watts (2004) propõe que nem sempre o que os autores comumente atribuem ao rótulo de polidez linguística realmente é, pois para ele, polidez linguística é um comportamento saliente, reconhecido pelos membros de uma comunidade, como algo diferenciado do comportamento prescrito naquela situação.

Desse modo, Watts (2004) acredita que a maior parte do nosso comportamento é pautado em ações políticas, e que, portanto, estão condizentes com as funções que assumimos na interação. O comportamento polido seria um comportamento identificado e avaliado positivamente pelos participantes da interação, enquanto que se ocorresse o contrário, ou seja, se os participantes da interação identificassem e avaliassem um comportamento como violador de alguma norma social, assistiríamos a um comportamento impolido, pois infringiria as normas políticas da interação.

As concepções de polidez propostas por Watts (2004) impõem a necessidade da participação do grupo ou interlocutores da interação como agentes importantes para a identificação do que é ou não polido, ou mesmo indiferente (comportamento político). Sob esse ponto de vista, avaliar a polidez como um conjunto de estratégias ou regras pragmáticas parece ser uma compreensão parcial e ao mesmo estanque, pois se desconsideram as impressões dos envolvidos na interação.

Acreditamos que a abordagem de Watts (2003) demonstra algum amadurecimento em relação à teoria de base, especialmente no que diz respeito ao comportamento político, ou seja, aquele previsto pela função social que o indivíduo ocupa na interação. No entanto, se colocarmos

nas mãos dos sujeitos estudados o poder de decidir o que é ou não polido, podemos incorrer no erro de abstrair demais o tema, torná-lo cada vez mais difícil, em termos de generalização, pois para cada cultura, grupo, indivíduo, situação, teríamos empregos de estratégias e, certamente, impressões diferentes, muito em parte pelo elemento psicológico de cada sujeito, e assim, em vez de termos parâmetros para comparar, teríamos, na verdade, um grande quebra-cabeças que se encaixaria apenas em situações bem particulares, únicas.

No caso de nossa pesquisa, optamos por não consultar os interlocutores por duas grandes razões: a primeira delas diz respeito a inviabilidade de se sondar todos os alunos e tutores envolvidos, uma vez que residem em municípios distintos, podem ter perdido o contato ou se afastaram do grupo; a segunda razão deve-se ao fato de que acreditamos que os elementos lingüísticos presentes nas interações aliados as variáveis adotadas são suficientes para mensurarmos a manifestação da polidez linguística, que ao nosso ver, nem sempre é consciente por parte dos interlocutores.

Seguindo uma abordagem mais abstrata e sociológica, Werkhofer (2005) sugere que a concepção de polidez linguística pode ser compreendida em termos metafóricos, tal como polidez é dinheiro. O autor observa que assim como dinheiro, mesmo sendo socialmente constituída, a polidez pode ser motivada por estruturas no curso de uma ação, alimentando o processo social.

A escolha da metáfora Polidez é dinheiro deve-se ao fato de que como o dinheiro tem o valor simbólico que circulará de acordo com as mudanças econômicas, a polidez também tem valores sociais que são derivados da ordem social identitária de cada época.

Assim como Watts, o autor considera que a polidez é usada para pagar mais do que normalmente possa ser requisitado dentro de uma troca ritual dos atos de fala, ou seja, é o excesso avaliado positivamente pela sociedade. Desse modo, ele propõe que a polidez, assim como dinheiro: a) é um meio socialmente construído; b) é um meio simbólico, no sentido de que suas funções originais derivam da associação com alguma coisa, a saber com valores; c) é historicamente construída e reconstruída; suas funções e valores são associados com a troca essencial. d) fornece chances de seu usuário usar com maestria o complexo meio, o que significa estar apto a usá-la conforme seus desejos. (WERKHOFER, 2005, p.190)

Não discordamos de Werkhofer (2005), no entanto, acreditamos que balizar uma análise sobre o tema segundo seus parâmetros metafóricos não nos possibilita um detalhamento dos dados, que julgamos essencial para a compreensão das diferentes manifestações da polidez na

língua. Deste modo, enquanto o estudo de Watts (2003) proporciona uma metodologia de estudo com base na multiplicidade de julgamentos que os usuários da língua possam ter, a metáfora Polidez é Dinheiro de Werkhofer (2005) nos proporciona uma visão abstrata o suficiente, ao ponto de ser impossível adotar uma metodologia que possa identificar e avaliar o que seja polidez ou não, diferentemente das propostas de Brown; Levinson (1987) e Leech (2005), que pelos seus potenciais de aplicação, até hoje são adotadas, apesar das críticas.

Em termos de adaptação do modelo de Brown; Levinson (1987) destacam-se algumas pesquisas, cujos propósitos são trabalhar aspectos pouco considerados pelos autores, tais como as noções de poder, solidariedade e gênero e a modalidade da interação no exercício da polidez.

Ao estudar o poder e a solidariedade nas interações, Tanem (1990) demonstra que independente da interação social, imperam relações de poder que condicionam as percepções sobre gênero e sua posição social. A autora acredita que dependendo do falante, uma determinada estratégia que visa a afiliação com o grupo pode ser compreendida como uma estratégia de dominação.

Dessa linha de pesquisa surgiram muitas outras como a desenvolvida por Holmes (1995), a qual demonstrou que o comportamento feminino é mais polido que o dos homens pelo fato de as mulheres exprimirem em seus discursos mais estratégias que visam atenuar o efeito de atos ameaçadores de faces com o uso de: formas de tratamento, diminutivos e expressões amenizadoras, entre outros.

Locher (2004), por sua vez, focalizou sua pesquisa em torno do conceito de Poder, adotado no modelo de Brown; Levinson (1987) como um fator que pode interferir na escolha das estratégias de polidez. Além dos autores, a autora se inspirou em Watts e outros autores contemporâneos pra explicar que o poder instaurado na interação é motivado por questões que a antecedem, tal como os status dos participantes, as condições de participação e se a interação é realizada ou não publicamente.

Trata-se de um estudo que aplica parte do modelo dos autores, explorando com mais veemência a assimetria das relações sociais, frente às condições interacionais, pelas quais os indivíduos estão sujeitos. Um dos aspectos mais inovadores de seu trabalho reside sobre o estudo da impolidez e polidez em situações de conflito social.

Outra importante contribuição para os estudos sobre o tema vem de Antonio Briz, pesquisador e coordenador do grupo de estudos VALESCO da Espanha. O autor e seu grupo

dedicam-se a analisar a polidez sob a perspectiva dos traços interacionais para verificar, entre outros efeitos, a imagem de polidez que os falantes empenham-se ao criar nas interações.

Tomando como base dois de seus trabalhos (2005) e (2012), observamos que Briz detém sua investigação sobre o estudo da atenuação estratégica, que para ele pode consistir nos atos de mitigar, aliviar, reparar e ocultar a verdadeira intenção do falante que pretende passar uma imagem de polidez. Para estudar este fenômeno, o autor propôs um método de análise que julgamos pertinente a nossa pesquisa. Neste método, Briz (2012) avalia a polidez segundo uma escala de variação situacional, onde em uma situação comunicativa, a linguagem dos falantes pode passar de um nível mais coloquial (prototípico) a um nível mais formal (prototípico) através de traços coloquiais e formais existentes nos enunciados.

Os traços são medidos de acordo com as seguintes variáveis: relação entre os participantes, tema, planejamento do dito , finalidade interpessoal, tom da interação. O autor ainda considera se na interação há elementos sociais, tais como: as diferenças dialetais, etárias e de gênero e nos níveis socioculturais e sociodialetais; e elementos que dizem respeito aos traços do gênero em que se insere a interação, considerando, assim, a conversa entre amigos como o traço prototípico de uma situação informal e uma conversa em congresso como o exemplo prototípico de uma situação formal de interação.

O modelo de Briz (2012) traz uma série de vantagens para uma análise quantitativa e qualitativa de polidez linguística, pois ao alocar em escalas de formalidade e informalidade, o analista poderá localizar em que momento da interação e sob que circunstancias os interlocutores são mais ou menos polidos, o que para nossa pesquisa, nos ajuda a identificar quando há mudança de footing, qual tipo e em quais circunstâncias ela ocorre.Ele também é bastante eficiente para tentarmos identificar a relação entre o nível de formalidade, a relação entre os participantes e a natureza da interação.

No entanto, o modelo ainda pressupõe como agentes da interação apenas falante e ouvinte, não considerando a presença de uma terceira pessoa que possa interferir também nos níveis de formalidade e na própria relação entre os participantes, e este é um dos pontos em que poderemos contribuir com a nossa pesquisa.