7. Discussion
7.2. Helpful help—Inner or outer matter?
Para Marcuschi (2005, p.28), a aula chat ou chat educacional consiste em interações de caráter síncrono, cujas finalidades abrangem o domínio educacional, como a revisão e o atendimento do grupo. Assim como os fóruns, os chats educacionais são agendados, mas, ao contrário dos primeiros, possuem menor duração, e exigem dos interlocutores habilidade e agilidade na digitação, fazendo com que estes tendam a “a uma certa informalidade, menor monitoração e cobrança pela fluidez do meio e pela rapidez do tempo”.
Normalmente, os chats educacionais, assim como os chats convencionais, apresentam uma organização local marcada por três fatores: a) pelo apelido de quem enuncia (emissor); b) pelo apelido de quem recebe a mensagem (receptor); e c) pelo momento da enunciação (horário em que a mensagem foi enviada pelo emissor). No entanto, para o e-chat do AVA SOLAR, apenas as marcas a e b conferem. Uma particularidade do SOLAR, é a possibilidade da identificação dos participantes pela foto ou figura escolhida, que além do recurso do apelido ou nome auxiliam a memorização dos participantes e a agilidade no desenvolvimento da conversa.
Assim como em outros chats, o AVA Solar permite que os interlocutores escolham entre uma série de atos de fala pré-definidos, entre eles perguntar e responder. Entretanto, se o participante preferir não utilizar essa ferramenta, o ambiente permitirá a postagem de sua
mensagem sob a inserção automática do ato de fala x fala para y. Assim, cada mensagem postada por um participante consiste em um turno de fala, que, segundo Crystal (2006), apresenta como propriedades a delimitação espacial, a editoração e a inserção de caracteres, as quais, por sua vez, pretendem facilitar a compreensão da mensagem.
Sendo assim, a delimitação exata das condições do turno de fala não gera peculiaridades da interação face a face e telefônica, tais como os assaltos de turno ou sobreposições de falas.
Apesar de ser uma interação síncrona, há em um chat uma espécie de carência de
feedback simultâneo na interação, pois, ao passo que escrevemos uma mensagem, nosso
interlocutor responde a um outro turno. Essa característica pode, em muitos momentos, gerar mal-entendidos, inspirando interpretações diferentes daquelas intencionadas pelo emissor da mensagem e, consequentemente, prejudicando o desenvolvimento da conversa.
Um dos aspectos da interação via internet que geram esse tipo de problema é o que Crystal (2006) chama de lag, ou seja o tempo de retardo que a mensagem leva para chegar ao seu destinatário, que varia conforme a velocidade de conexão à internet e o manejo do participante com este tipo de gênero.
Do pondo de vista da análise da conversação, muitos lags proporcionados pelos meios de comunicação podem ser confundidos com o silêncio na conversação, que em muitos momentos pode assumir conotações pouco apreciadas pelos participantes da interação. Crystal (2006) comenta que o silêncio inesperado em uma conversação telefônica carrega uma ambigüidade similar, mas, ao menos neste modo de comunicação, podemos checar se o meio está funcionando a partir de novas inserções de turnos de fala. No entanto, as estratégias linguísticas que apoiam nossas trocas conversacionais são menos confiáveis em bate-papos.
Nesse sentido, podemos dizer que, quanto maior o número de participantes envolvidos na interação, mais conturbada e cheia de retomadas se transforma a conversa, sendo este problema potencializado no caso da interação em bate-papos, devido à grande heterogeneidade cultural que pode se estabelecer na interação.
Observando esses aspectos, podemos definir, com base em Crystal (2006), a organização conversacional da interação em chats entre dois interlocutores, conforme demonstrado no quadro 2:
QUADRO 2: a estrutura conversacional em chat A envia uma mensagem 1
B inicia uma réplica à mensagem 1
A envia uma mensagem complementar a 1, enquanto B ainda escreve a sua réplica A reage à réplica de B
B reage ao complemento de A B faz outra observação (...)
Fonte: Crystal (2006, p.158)
Dessa forma, A e B precisam retornar várias vezes às mensagens anteriores para compreender o enunciado da conversação. Embora haja essa circularidade temática, a conversação atravessa fases e se desenvolve tal como uma conversação face a face.
4.4.1 Os aspectos conversacionais
Considerando que o chat educacional consiste em um gênero conversacional (Marcuschi, 2005), cujos propósitos comunicativos restringem-se ao âmbito pedagógico, este deve ser examinado à luz da análise da conversação, mais especificamente sob o ponto de vista de seus elementos microestruturais.
Entre os estudos fundadores dessa área, podemos citar o trabalho de Sacks, Schegloff, Jefferson (1978; 2005) que consistiu em uma análise sistemática da conversa realizada face a face, que contribuirá de forma significativa para esta pesquisa, especialmente para a identificação, organização e compreensão dos turnos, pares de adjacência e tópico discursivo presentes neste gênero.
Sacks,; Schegloff; Jefferson (1978;2005) definem a conversação como “um tipo de discurso em que dois ou mais participantes se alternam livremente, e que geralmente ocorre fora de contextos institucionais específicos, como as salas de aula”. Apesar de conceituarem a conversação como “livre e sensível ao contexto”, os autores buscaram elaborar um modelo geral, baseando-se no fato de que “há várias razões pelas quais é indesejável ter que saber ou caracterizar tais situações de conversas específicas a fim de investigá-las.” (2005, p.13)
A partir do modelo conversacional proposto por Sacks,; Schegloff; Jefferson (2005), acreditamos que ambientes educacionais e outras instituições que abrigam diálogos de diferentes
naturezas abarcam interações de caráter específico dada a assimetria das relações sociais que se instauram nesses ambientes. Baseando-se nesses autores, McHoul (1978, apud GARCEZ; MELO, 2007, p. 6) acredita que:
a fala-em-interação da sala de aula tradicional seria caracterizada pela alocação dos turnos dos falantes pelo professor, que goza de direitos especiais na sistemática para a troca de turnos. Nesse tipo de organização, não haveria auto- seleção por parte dos participantes-alunos sem a permissão do professor. Tampouco haveria seleção pelo outro, isto
é, um participante que age como aluno não seleciona um outro aluno como próximo falante e, em conseqüência, há menos sobreposição de falas do que em conversa cotidiana, por exemplo.
No entanto, pesquisas, como a de Garcez; Melo (2007) demonstram que as especificidades que delimitam uma conversa cotidiana ganham cada vez mais espaço na sala de aula, certamente influenciadas pelas abordagens sociointeracionistas que consideram a interação como forma de aprendizagem.
Acreditamos que o mesmo parece acontecer nos AVAs, contudo, é necessário que o analista centre-se nas especificidades contextuais que podem interferir em maior ou menor grau no seu desenvolvimento, tais como os papéis dos interlocutores e sua familiaridade desses com o meio de comunicação utilizado.
A abordagem teórico-analítica a ser utilizada para compreender a microestrutura do
chat educacional é a da análise da conversa etnometodológica, também conhecida como microsociologia das interações ou microetnografia. A análise da conversação caracteriza-se por
buscar compreender como os interlocutores de uma cena enunciativa, ao desempenhar seus papeis sociais, elaboram uma conversa, elencando, assim, os elementos mais típicos que fazem aquela conversa distinguir-se das demais. Para Levinson (2007, p.365), fazer análise da conversação consiste em “descobrir as propriedades sistemáticas da organização seqüencial da conversa e as maneiras como as enunciações são concebidas para gerir tais seqüências”.
4.5 Comunidades Virtuais de Aprendizagem
Antes de definir uma Comunidade Virtual de Aprendizagem, é preciso refletir sobre o conceito de comunidade virtual e suas implicações para as interações realizadas em