Sob a óptica de um contexto histórico regional, verificou-se que a Área 3 da FLONA de Brasília vem sofrendo um processo de expansão urbana e agrícola, que gerou um impacto de caráter permanente nas cabeceiras de drenagem do rio Descoberto e, consequentemente, também no Lago do Rio Descoberto, principal manancial de abastecimento do Distrito Federal.
Partindo desse contexto, bem como de uma caracterização das condições locais, foi possível identificar a pressão constante e direta que a ocupação exerce nos recursos hídricos locais, principalmente em termos de processos erosivos e de desmatamentos, onde as alterações no solo e na vegetação se refletem, sobremaneira, nas condições em que se encontram as nascentes, na área do estudo.
A recuperação de nascentes é condição imprescindível para que a Área 3 possa novamente contribuir para o abastecimento d’água do Distrito Federal, a partir da desaceleração dos processos de contaminação e de degradação que ali se verificam. Contudo, tal processo só é possível se houver uma mudança significativa nos hábitos dos moradores. E, para atingi-la, a comunidade local deve organizar-se e implementar ações participativas, buscando o apoio de universidades, órgãos gestores da FLONA e entidade de extensão rural.
Com a utilização do georreferenciamento como ferramenta básica de trabalho, foram mapeadas as 6 (seis) nascentes da Área 3, das quais apenas uma ainda apresenta fluxo contínuo. O registro fotográfico serviu como evidência para comprovar a situação de degradação em que se encontra a área. Esse trabalho foi realizado com o auxílio permanente de antigos moradores e permitiu interessante coleta de depoimentos.
A dissertação também contemplou o levantamento de alguns projetos de recuperação de nascentes que vêm sendo desenvolvidos no Brasil, o que serviu de base para a identificação e hierarquização das atividades necessárias a um processo participativo de recuperação da Àrea 3, que resultou na seguinte seqüência de ações: 1) Definição de lideranças para o processo de recuperação de nascentes sob a coordenação da Associação de Produtores Rurais de Capãozinho; 2) Sensibilização de proprietários e empregados a partir da apresentação dos resultados desta Dissertação; 3) Criação de grupos específicos no âmbito da Associação de Produtores Rurais de Capãozinho com a finalidade de divisão de tarefas entre os associados; 4) Desenvolvimento de metodologia para a recuperação, proteção de nascentes e recomposição de matas ciliares (diagnóstico da área e procedimentos de recuperação); 5)
Formação de monitores locais para a proteção de nascentes, envolvendo planejamento e execução de planos e projetos com autogestão comunitária; 6) Busca de apoio externo às atividades de recuperação de Áreas de Preservação Permanente das nascentes e dos córregos com formação de viveiros para o trabalho de revegetação; 7) Organização de estrutura permanente em apoio ao planejamento e monitoramento das ações. Busca de informações específicas para a recuperação e proteção de cada nascente; 8) Distribuição de tarefas entre os grupos para cumprimento das metas: recuperação de áreas por meio de revegetação e técnicas de proteção; redução do uso de agrotóxico; eliminação de práticas indevidas na faixa ciliar; incorporação de técnicas de plantio menos impactantes; estabelecimento de limites para o desmate e práticas agrícolas, criação de gado, com base no conhecimento da legislação; estabelecimento de medidas de proteção das nascentes destinadas ao consumo humano; e eliminação da prática de queimadas..
A proteção e recuperação das nascentes existentes na Área 3 poderá possibilitar o retorno de condições anteriormente existentes dentro da FLONA e áreas limítrofes, bem como servir de modelo orientador para trabalhos semelhantes, em outras unidades de conservação. Falta um trabalho preventivo e pró-ativo, que insira efetivamente os atores locais na difícil tarefa de se conservar uma área para as gerações futuras.
A degradação de nascentes constitui, atualmente, um problema complexo e urgente, que afeta todo o território brasileiro, e os órgãos governamentais não estão devidamente aparelhados para solucioná-lo, na abrangência e com a rapidez requeridas pela situação. Contudo, cabe ressaltar que um trabalho de recuperação, com participação da comunidade, só será possível com a inserção de um Programa no Plano de Manejo da FLONA, voltado especificamente para esse fim. A inexistência desse Plano, principal instrumento para se desenvolver qualquer a atividade em uma FLONA (Lei nº. 9.985/2000 do SNUC), inviabiliza, portanto, uma ação imediata dos atores locais.
Apesar dessa dificuldade, é imprescindível contar com a participação da comunidade interessada na gestão das áreas protegidas – especialmente daquelas de uso sustentável, como as FLONAS - para que se atinjam os objetivos da conservação. A interrupção de processos predatórios, por parte da comunidade, só ocorrerá quando ela estiver consciente de toda a repercussão negativa de seus hábitos, que afetam sua saúde e qualidade de vida, além de provocar perdas econômicas difíceis de mensurar, como aquelas causadas pelo desaparecimento da biodiversidade local antes mesmo que tenha sido conhecida.
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