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For lite omfang og for stor ustabilitet rundt forsøksordningen

11.4 K RITIKK OG NEGATIVE ERFARINGER

11.4.1 For lite omfang og for stor ustabilitet rundt forsøksordningen

A análise da conversa de base etnometodológica (AC) teve uma importante influência no modo como muitos lingüistas enxergavam a língua, em especial aqueles com orientação ao discurso. O caráter fortemente empírico da abordagem privilegiava uma observação meticulosa de dados naturais ao invés do apelo às intuições de falantes e sentenças descontextualizadas. O interesse pelo modo de pensar do senso-comum exigia um olhar para conversas espontâneas cotidianas ao invés do apelo a gêneros escritos elaborados. O conceito de reflexividade implicava a idéia de que o sistema lingüístico não deve estar desvinculado das ações sociais,34 sendo, portanto, necessário

entender como as diferentes ações se estruturam a fim de se entender como a própria língua se estrutura.

No caso da conversação, considerada uma forma primordial de interação social entre humanos, a relação íntima entre a estrutura da prática e a estrutura da língua pode ser entendida, pelo menos em parte, através do fenômeno da projetabilidade. A prática da conversação, enquanto atividade social, exige a coordenação de ações a fim de que certos objetivos sejam alcançados, num processo similar ao que ocorre, por exemplo, na condução de um dueto de música ou dança, ou num cumprimento de mãos (Clark, 1996). Essa coordenação se dá em grande medida pela capacidade que os então- receptores de uma fala têm de identificar as ações num dado turno-em-curso e antever os seus possíveis pontos de completude, alinhando temporalmente suas próprias ações

34 O termo ação social será aqui tratado no sentido de Weber (1978: 4-23, apud Schegloff, 2002: 287-

288), para quem: “Action is ‘social’ insofar as its subjective meaning takes account of the behavior of others and is thereby oriented in its course” (ênfase minha). Utilizando como exemplo uma situação em que dois ciclistas se aproximam em sentidos perpendiculares, sem visão um do outro, Weber argumenta que “a mere collision of two cyclists may be compared to a natural event. On the other hand, their attempt to avoid hitting each other, or whatever insults, blows, or friendly discussion might follow the collision, would constitute social action”.

Embora tal definição se mostre perfeitamente compatível com o empreendimento da AC, Schegloff aponta que essa preocupação – relativa à ação social em seu nível mais básico, da interação direta entre membros – acaba se revelando uma questão marginal no trabalho de Weber, cedendo lugar à discussão de questões tais como a burocracia, a patriarquia, visões de mundo religiosas, etc. Considerando o

importante papel da tecnologia na viabilização do estudo de interações cotidianas, então, Schegloff argumenta que um dos intuitos da AC é precisamente o de resgatar essa orientação e esse entendimento que os participantes revelam uns em relação aos outros, através do registro e análise da forma mais primordial de interação direta entre humanos: a conversação.

48 às do seu interlocutor de acordo com essas projeções. Essa capacidade dos interlocutores está vinculada à propriedade da fala de apresentar uma estrutura, uma organização, uma ordenação suficiente para permitir tais projeções. O campo da AC, a partir do estudo de Sacks, Schegloff e Jefferson (2003 [1974], doravante SSJ), tem avançado significativamente na análise de fenômenos como esse, revelando padrões de conduta social num nível micro-analítico.

Contudo, o empreendimento da AC sempre foi, antes de tudo, um empreendimento sociológico, não lingüístico. Isso significa que, além da diferença nos objetivos de análise dos sociólogos, certos conceitos fundamentais que se mostravam intimamente relacionados ao uso da língua desenvolvidos nos trabalhos seminais da área permaneceram um tanto vagos e intuitivos. É o caso da chamada “unidade de construção de turnos” (turn-constructional unit, ou TCU), que, embora destacada pelos estudiosos da conversação como distinta das unidades lingüísticas por definição, me parecem vez ou outra utilizadas de maneira intercambiável com termos tais como “enunciado” (utterance) e “sentença” (sentence).

Talvez o problema essencial acerca da noção de TCU seja o fato de que, a despeito de sua definição funcional em termos interacionais (i.e. uma unidade que, ao seu término, constitui um possível ponto de relevância para transição entre falantes), a sua caracterização formal é feita lingüisticamente (i.e. a língua é o principal recurso da fala-em-interação e são os recursos lingüísticos, fundamentalmente, que permitem a antecipação de possíveis pontos de relevância para transição). No que diz respeito a esse pólo formal, desde o início a sintaxe tem sido favorecida pela maioria dos sociólogos na caracterização das TCUs em detrimento de outras dimensões lingüísticas importantes, como a prosódia e a gestualidade. É plausível especular que esse seja um forte viés das transcrições que servem de base para análise, uma vez que a escrita apresenta a língua em uso de forma descorporalizada. Seja como for, esse viés é um dos aspectos que muitos lingüistas trabalhando sob a orientação teórica da AC têm criticado nos últimos anos, destacando, em especial, a importante contribuição da prosódia para a organização da conversação.

Neste capítulo, então, discutirei em maiores detalhes a visão da AC sobre a relação entre língua e discurso (i.e. gramática e interação), visão essa que tem servido como base para a abordagem da atual pesquisa. Especificamente, pretendo introduzir algumas pesquisas representativas que, direta ou indiretamente, trataram do fenômeno

49 da projetabilidade; e articular uma proposta de caracterização dos conceitos de turno,

TCU e ponto de relevância para transição que se mostre psicológica e interacionalmente plausível, tendo em vista a importância desses conceitos para o nosso entendimento sobre o trabalho de coordenação da participação na conversação.

Uma das preocupações centrais do capítulo é a de revelar o forte viés em favor dos recursos léxico-sintáticos para o trabalho de projeção da fala em alguns estudos clássicos da AC e, alternativamente, recuperar a importância da gestualidade e principalmente da prosódia nesse sentido. Considerando-se o problema da segmentação gramatical da libras, que ocupa a presente pesquisa, a conclusão geral é a de que, embora a AC ofereça um referencial teórico fundamental para a abordagem dessa questão, oferecendo uma perspectiva sobre a relação entre estrutura e contingência na fala espontânea, a sua definição sobre a forma e função das unidades mínimas do discurso ainda se mostra limitada. Ainda que estudos lingüísticos provenientes da lingüística funcional e da lingüística cognitiva ofereçam uma alternativa importante nesse aspecto da análise, esse olhar alternativo – a ser articulado no capítulo 4 – deverá ser trazido neste capítulo apenas tangencialmente, isto é, na medida em que possibilite apontar os pontos da abordagem da AC que, a meu ver, carecem de reformulação.