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O trabalho seminal de SSJ propõe uma sistemática para o processo de troca de turnos na conversa espontânea que, pela elegância teórica e forte sustentação empírica, teve uma grande repercussão, não apenas nos estudos sociológicos mas também nos estudos lingüísticos. Embora a questão da tomada de turnos já tivesse sido abordada por diversos autores em diversas linhas de pesquisa, SSJ argumentam que seu mecanismo de organização e operação quase nunca era analisado como um fim em si, mas sempre como meio para outras análises que tomavam por base essa organização. Por esse motivo, os autores deslocam o foco de interesse para o entendimento desse mecanismo específico, buscando elaborar um aparato formal que possa dar conta de uma série de constatações empíricas levantadas a partir da observação e análise de conversas em um corpus de língua inglesa.

Essas constatações empíricas podem ser resumidas da seguinte maneira. Numa conversação, predominantemente um fala de cada vez. Apesar disso, há troca de falantes, há variação do tamanho dos turnos, e há variação na ordenação dos falantes. Além disso, as transições de um falante para o outro são coordenadas de maneira fina, havendo poucas sobreposições de falas ou intervalos entre as falas, em muitos casos a transição ocorrendo sem qualquer sobreposição ou intervalo. Tais observações levaram os autores a crer que deva haver técnicas para alocação de turnos e para a construção de enunciados de tal modo que essas técnicas permitam a coordenação das transferências de fala e alocação dos falantes.

A elegância teórica do sistema elaborado por SSJ reside na sua natureza ao mesmo tempo livre de contexto e sensível ao contexto (p. 13-14). Por um lado, a necessidade de o sistema ser livre de contexto está relacionada ao fato de a conversa

52 espontânea: a) poder acomodar uma grande variedade de situações; b) ser um canal de interação por meio do qual pessoas de diferentes identidades e diferentes grupos continuamente operam; e c) ser capaz de acomodar mudanças de situação dentro de uma mesma conversa. Por outro lado, a necessidade de o sistema ser sensível ao contexto provém do fato de a ordenação dos turnos variar, o tamanho dos turnos variar, a extensão das conversas variar, a distribuição dos turnos variar, entre outros fatos que evidenciam a sensibilidade do sistema às contingências do contexto imediato.

Com base nessas considerações, SSJ propõem a existência de dois componentes do mecanismo de organização da tomada de turnos, acompanhados de algumas regras.36 O primeiro é o chamado componente de construção de turnos (SSJ: 16), de acordo com o qual os falantes dispõem de vários tipos de unidades, desde construções lexicais até sentenciais, para a construção dos turnos na fala. A ocorrência de um dado tipo num turno específico permite uma projeção aproximada por parte do interlocutor do tipo de unidade que está em curso e, conseqüentemente, do ponto no turno onde essa unidade poderá estar completa. O falante tem o direito de prosseguir o seu turno sem interrupção até o término da unidade em curso e o primeiro possível ponto de término da unidade é chamado de “ponto de relevância para transição” (transitional-relevance place, ou TRP). A transferência da condição de falante entre os interlocutores é coordenada com base nesses TRPs.

O segundo componente refere-se ao processo de alocação de turnos (SSJ: 16- 17), de acordo com o qual duas técnicas básicas podem ser identificadas: aquelas em que o turno seguinte é alocado pelo falante corrente, que seleciona o falante seguinte (e.g. por meio do emprego da primeira parte de pares adjacentes tais como chamado- resposta, elogio-aceitação/rejeição, etc); e aquelas em que o turno seguinte é alocado por auto-seleção, quando algum dos interlocutores opta por dar continuidade à sua participação na interação sem que tenha sido selecionado pelo falante-corrente.

Operando sobre esses componentes, as regras a seguir permitem a alocação do turno seguinte a um único participante (i.e. o princípio do um-de-cada-vez) e coordenam

36 O uso do termo “regras” no trabalho original de SSJ gerou controvérsias e interpretações equivocadas a

respeito da natureza do sistema (Searle, 1992). Assim, cabe destacar, como argumenta Schegloff (1992), que as regras descritas devem ser entendidas como princípios frente aos quais os falantes se orientam de maneira tácita, e não, por exemplo, como análogas a regras de trânsito, como Searle sugeriu.

53 a transferência de modo a minimizar os intervalos e as sobreposições de fala. De acordo com essas regras, em qualquer turno:

(1) Para qualquer turno, no primeiro lugar relevante para a transição de uma primeira unidade de construção de turno:

(a) Se o turno até aqui está construído de modo a envolver o uso de uma técnica de ‘falante corrente seleciona o próximo’, então a parte assim selecionada tem o direito e é obrigada a tomar o turno seguinte para falar; nenhuma outra parte possui tais direitos ou obrigações, e a transferência ocorre naquele lugar.

(b) Se o turno até aqui está construído de modo a não envolver o uso da técnica de ‘falante corrente seleciona o próximo’, então a autoseleção para a próxima vez de falar pode ser instituída, mas não necessariamente; quem inicia primeiro adquire o direito ao turno, e a transferência ocorre naquele lugar.

(c) Se o turno até então é construído de forma a não envolver o uso da técnica de ‘falante corrente seleciona o próximo’, então o falante corrente pode, mas não precisa continuar, a menos que outro se auto-selecione.

(2) Se, no primeiro lugar relevante para a transição de uma primeira unidade de construção de turno, nem 1a e nem 1b operaram, e, seguindo a provisão 1c, o falante corrente continuou, então o conjunto de regras a–c reaplica-se no próximo lugar relevante para a transição e recursivamente a seguir em cada lugar relevante para a transição, até a transferência ser efetivada (p. 16-17).

A questão que mais interessa à presente discussão é o papel da gramática nesse modelo. Como argumentam SSJ, “[s]e examinamos materiais empíricos para ver onde, em um turno em andamento, os próximos falantes começam (ou tentam começar) turnos seguintes, percebe-se que tais começos não ocorrem continuamente ao longo do curso em desenvolvimento de um turno, mas em pontos específicos no decorrer do seu desenvolvimento” (p. 41). De modo geral, a localização desses possíveis pontos discretos no turno coincide, segundo os autores, com os possíveis pontos finais de unidades sintáticas, ainda que eles chamem a atenção para a necessidade de considerar o papel da prosódia como recurso estratégico de modificação desses pontos.

Ao fazer uso de um termo como unidade de construção de turnos, ou TCU, contudo, Schegloff argumenta que a questão não é simplesmente a de propor uma mudança terminológica – de sentenças ou orações para TCUs (Schegloff, 1996: 55-6). Mais do que isso, a idéia é a de que a fala-em-curso na conversação se mostre aberta a “considerações relativas à reatividade e ao valor interacional, ao ajuste ao interlocutor, à

54 recalibragem momento-a-momento, à re-organização e ao re-acabamento, e à co- construção interacional”. O fato de a gramática que habita turnos-na-fala ser realizada em tempo real para os participantes na conversação leva o autor, então, a afirmar que “se ‘sentenças’, ‘orações’ e ‘sintagmas’ vão acabar se mostrando implicados [na conversação], eles serão diferentes em ênfase, e talvez em tipo, dos objetos sintáticos estáticos de grande parte da teorização lingüística”.

A princípio, poderia ser argumentado que a discrepância entre os objetos estáticos da língua e a dinamicidade da fala resulta precisamente da distinção entre competência e performance, ou língua e fala, e que o apelo dos analistas da conversação em favor de uma gramática dinâmica e flexível, portanto, não necessite ser mantido. Contudo, diferentemente dos pressupostos clássicos da lingüística, a AC tem oferecido amplas evidências de que as instâncias concretas da fala, inclusive as chamadas “disfluências”, não devem ser assumidas como falhas na implementação de um sistema perfeito sob determinadas restrições cognitivas e emocionais. Ao contrário, elas são recursos metódicos convencionais levados a cabo pelos participantes estrategicamente a fim de realizar trabalhos interacionais específicos (e.g. resolução de instâncias de sobreposição de fala (Schegloff, 2000), sinalização de elementos reparáveis problemáticos e seus reparadores (Schegloff, 1979), sincronização da atenção dos interlocutores sobre o que é dito (Clark, 2002), entre outras propostas).

Essa reflexão revela que o olhar para a gramática sob a ótica da AC exige uma teorização de língua que leve em consideração a sensibilidade dos enunciados ao processo contingente e colaborativo de uso da língua produzida em tempo real. O conceito de TCU parece ter sido elaborado exatamente em vista da incompatibilidade atestada pelos analistas da conversação entre as unidades observadas no uso concreto da língua, com toda sua dinamicidade e flexibilidade, e as unidades gramaticais tradicionais da lingüística, altamente abstratas e estáticas.

Por outro lado, já na proposta inicial de SSJ nota-se um viés analítico em favor da sintaxe como elemento central da gramática – e, interacionalmente, como elemento central para o estabelecimento da coordenação da ação social – que me parece muito próximo do viés que os próprios lingüistas têm trazido ao longo dos tempos. Esse favorecimento da sintaxe, explicitamente reconhecido por Schegloff em trabalho subseqüente (1998: 237, nota 3), tem sido revisto e/ou criticado por pesquisadores, principalmente lingüistas, que, dando prosseguimento à reflexão sobre como a projeção

55 de TRPs é realizada na conversação espontânea, têm proposto redefinições e aprofundamentos sobre o conceito de TCU. Algumas dessas propostas serão discutidas a seguir.