Esta é a versão de uma conferência sobre a Europa e sua história, apresentada na Alemanha sob os auspícios da Fischer Taschenbuch Verlag , que lançou sua nova série Europäische Geschichte por ocasião do congresso anual de historiadores alemães (Munique, 1996) . Uma versão da conferência em alemão foi publicada por Die Zeit em 4 de outubro de 1996. A versão (mais extensa) é publicada aqui pela primeira vez.
Podem os continentes ter uma história enquanto continentes? Convém não confundir política, história e geogra a, principalmente no caso dos contornos nas páginas dos atlas, que não são unidades geográ cas naturais, mas apenas nomes humanos para partes da massa terrestre global. Além disso, desde o início, ou seja, já na Antiguidade, quando os continentes do Velho Mundo foram pela primeira vez batizados, estava claro que esses nomes pretendiam mais que um mero significado geográfico.
Considere-se a Ásia. Desde 1980, se não me engano, o censo dos EUA concedeu a seus habitantes a opção de se denominarem “asiático-americanos”, uma classi cação feita provavelmente por analogia com “afro-americanos”, termo pelo qual os negros norte- americanos preferem ser chamados. Presume-se que um asiático-americano seja um americano nascido na Ásia ou descendente de asiáticos. Mas qual o sentido de classi car imigrantes da Turquia sob o mesmo título que os do Camboja, Coreia, Filipinas ou Paquistão, sem falar no território indiscutivelmente asiático de Israel, embora seus habitantes não gostem de ser lembrados desse fato? Na prática, esses grupos não têm nada em comum.
Se olharmos mais de perto para a categoria “asiático”, ela nos diz mais sobre nós que sobre mapas. Ela lança alguma luz, por exemplo, sobre as atitudes norte-americanas em relação aos setores da humanidade originários das regiões outrora conhecidas como o “Leste” ou o “Oriente”. Observadores ocidentais, e mais tarde conquistadores, governantes, colonizadores e empreendedores, procuraram um denominador comum para populações que eram claramente incapazes de enfrentá-los, mas que também claramente pertenciam a antigas culturas e entidades políticas dignas de respeito ou, pelo menos, de serem levadas a sério pelos padrões dos séculos XVIII e XIX. Não eram, nos termos então correntes, “selvagens” ou “bárbaras”, mas pertenciam a uma categoria diferente, ou seja, a dos “orientais”, cujas características como tal explicavam, entre outras coisas, sua inferioridade em relação ao Ocidente. O importante livro Orientalismo, do palestino Edward Said, captou de modo excelente o estilo típico da arrogância europeia com relação ao “Oriente”, ainda que subestime bastante a complexidade das atitudes ocidentais nesse campo.1
Por outro lado, “asiático” tem hoje um segundo signi cado, geogra camente mais restrito. Quando Lee Kwan Yew, de Cingapura, anuncia um “caminho asiático” e um “modelo econômico asiático”, um tema recebido com alegria por especialistas e ideólogos ocidentais do gerenciamento, não estamos diante da Ásia como um todo, mas dos efeitos econômicos da herança geogra camente localizada de Confúcio. Em suma, estamos continuando o antigo debate, inaugurado por Marx e desenvolvido por Max Weber, da in uência de determinadas
religiões e ideologias no desenvolvimento econômico. O protestantismo costumava ser o que abastecia o motor do capitalismo. Hoje, Calvino é out e Confúcio é in, tanto porque as virtudes protestantes não são muito identi cáveis no capitalismo ocidental, quanto porque os triunfos econômicos da Ásia oriental ocorreram em países marcados pela herança confuciana — China, Japão, Coreia, Taiwan, Hong Kong, Cingapura, Vietnã — ou geridos por uma diáspora empresarial chinesa. Acontece que a Ásia hoje contém as sedes de todas as principais devoções mundiais, com exceção do cristianismo e inclusão do que resta do comunismo, mas as regiões de cultura não confucionista do continente são insigni cantes para a moda corrente no debate weberiano. Não pertencem a essa Ásia.
Tampouco pertence, é claro, o prolongamento ocidental da Ásia conhecido como Europa. Em termos geográ cos, como todos sabem, a Europa não tem fronteiras orientais, e o continente, portanto, existe exclusivamente como um constructo intelectual. Mesmo a linha divisória cartográ ca dos atlas escolares tradicionais — os montes Urais, o rio Ural, o mar Cáspio, o Cáucaso, evocados com muito mais facilidade na mnemônica alemã que em outras línguas — baseia-se em uma decisão política. Como recentemente nos lembrou Bronislaw Geremek,2 quando V. Tatishchev indicou, no século XVIII, os montes Urais como divisores entre a Europa e a Ásia, conscientemente desejava romper com o estereótipo que atribuía à Ásia o Estado de Moscou e seus herdeiros. “Foi necessária a decisão de um geógrafo e historiador, e a aceitação de uma convenção.” Naturalmente, qualquer que fosse o papel dos Urais, a fronteira original entre a Europa (isto é, os helenos) e os povos de nidos pelos helenos como “bárbaros” corria através das estepes ao norte do mar Negro. A Rússia meridional foi parte da Europa por muito mais tempo que muitas regiões hoje automaticamente nela incluídas, mas cuja classi cação geográ ca era discutida pelos geógrafos mesmo no nal do século XIX, como, por exemplo, a Islândia e Spitsbergen.
O fato de que a Europa seja naturalmente um constructo não signi ca que não existisse ou não exista. Sempre houve uma Europa, desde que os antigos gregos lhe deram um nome. Só que se trata de um conceito mutável, divisível e exível, embora talvez não tão elástico quanto “Mitteleuropa”, o exemplo clássico de programas políticos disfarçados de geogra a. A única parte da Europa que gura em todos os mapas da Europa Central é a área da atual República Tcheca e suas regiões adjacentes; mas algumas regiões se estendem ao longo de todo o continente menos a península Ibérica. No entanto, a elasticidade do conceito “Europa” não é tanto geográ ca — para ns práticos, todos os atlas aceitam a linha dos Urais — quanto política e ideológica. Durante a Guerra Fria, o campo da “história europeia” nos EUA abrangia principalmente a Europa ocidental. A partir de 1989 o campo foi estendido até a Europa central e oriental, já que “a geografia política e econômica da Europa está mudando”.3
O conceito original de Europa se apoiava em um duplo confronto: a defesa militar dos gregos contra o avanço de um império oriental nas guerras persas, e o encontro entre a “civilização” grega e os “bárbaros” citas nas estepes do Sul da Rússia. À luz da história subsequente, encaramos isso como um processo de confronto e diferenciação, mas seria igualmente fácil interpretá-lo como simbiose e sincretismo. De fato, como nos lembra Neal Ascherson em seu magní co Black Sea,4 na linha de Iranians and Greeks in Southern Russia, de
Rostovtzeff, isso gerou “civilizações mistas, muito curiosas e interessantes”, nessa região de interseção entre influências asiáticas, gregas e ocidentais movendo-se a jusante do Danúbio.
Seria igualmente lógico considerar toda a civilização mediterrânea da Antiguidade clássica como sincrética. A nal, ela importou seu roteiro e, mais tarde, sua ideologia imperial e religião estatal, do Oriente Próximo e Médio. Na verdade, a atual divisão entre Europa, Ásia e África não tem nenhum sentido — pelo menos nenhum sentido correspondente ao presente — numa região na qual os gregos viveram e prosperaram igualmente nos três continentes. (Apenas em nosso século trágico foram nalmente expulsos do Egito, Ásia Menor e região pôntica.) Que signi cado poderia ter tido no apogeu do Império Romano indiviso, alegremente tricontinental e disposto a assimilar tudo de útil que viesse de qualquer parte?
As migrações e invasões oriundas das regiões de povos bárbaros não eram novidade. Foram enfrentadas por todos os impérios no cinturão da civilização que ia desde a Ásia oriental no rumo oeste até o Mediterrâneo oriental. Entretanto, o colapso do Império Romano deixou o Mediterrâneo ocidental, e um pouco mais tarde o Mediterrâneo oriental, sem nenhum império e monarcas capazes de lidar com elas. A partir desse ponto em diante, é possível visualizarmos a história da região entre o Cáucaso e Gibraltar como um milênio de lutas contra conquistadores de leste, norte e sul — de Átila a Suleiman, o Magní co, ou mesmo até o segundo cerco de Viena em 1683.
Não admira que a ideologia que constituiu o cerne da “ideia europeia”, a partir de Napoleão, passando pelo movimento pan-europeu dos anos 1920 e Goebbels, até a Comunidade Econômica Europeia — ou seja, um conceito de Europa que deliberadamente
exclui partes do continente geográ co — goste de recorrer a Carlos Magno. Esse Grande
Carlos reinou sobre a única parte do continente europeu que, pelo menos desde a ascensão do Islã, não havia sido alcançada pelos invasores, e portanto poderia clamar ser a “vanguarda e salvação do Ocidente” contra o Oriente — para citar as palavras do presidente Karl Renner em 1945, em louvor da propalada “missão histórica” de seu país.5 Uma vez que o próprio Carlos Magno foi um conquistador que avançou suas fronteiras contra os sarracenos e os bárbaros orientais, poder-se-ia até dizer, para empregar o jargão da Guerra Fria, que ele avançou da “contenção” para o “rechaço”.
Por certo, naqueles séculos ninguém além de um círculo minúsculo de clérigos de formação clássica pensava em termos de “Europa”. A primeira contraofensiva genuína do Ocidente contra sarracenos e bárbaros foi conduzida não em nome do regnum Europaeum dos panegiristas carolíngios, mas em nome da cristandade (romana): tal como as cruzadas de sudeste e sudoeste contra o Islã, cruzadas de nordeste contra os gentios do Báltico. Mesmo quando os europeus iniciaram sua conquista real do planeta no século XVI, a ideologia cruzadista da reconquista espanhola é facilmente reconhecível na ideologia dos conquistadores do Novo Mundo. Somente depois do século XVII é que os europeus reconheceram a si mesmos mais como um continente que como uma fé. No momento em que foram capazes de desa ar o poderio dos principais impérios orientais ao nal daquele século, a conversão de in éis à verdadeira fé não poderia mais competir ideologicamente com o livro-caixa. A superioridade econômica e militar agora reforçava a crença de que os europeus eram superiores a todos os demais, não como portadores de uma civilização de modernidade, mas coletivamente como tipo humano.
A “Europa” esteve na defensiva durante um milênio. Agora, por meio milênio, ela conquistava o mundo. Ambas as observações impossibilitam apartar a história europeia da
história mundial. O que por muito tempo fora óbvio aos historiadores econômicos, arqueólogos e outros pesquisadores da trama passada da vida cotidiana (Alltagsgeschichte), agora deve ser de aceitação geral. Mesmo a simples ideia de uma história da Europa cartogra camente de nida apenas se tornou possível com a ascensão do Islã, que divorciou permanentemente as margens meridionais e orientais do Mediterrâneo de suas margens setentrionais. Que historiador da Antiguidade clássica insistiria em escrever a história apenas das províncias mediterrâneas setentrionais do Império Romano, exceto por capricho ou ideologia?
Porém, separar a Europa do resto do mundo é menos perigoso que a prática de excluir partes do continente geográ co de algum conceito ideológico de “Europa”. Os últimos cinquenta anos deveriam ter nos ensinado que essas rede nições do continente não pertencem à história, mas à política e à ideologia. Até o m da Guerra Fria isso era inteiramente óbvio. Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa, para os norte-americanos, signi cava “a fronteira oriental do que veio a ser chamado de ‘civilização ocidental’”.6 A “Europa” parava nas margens
da região controlada pela URSS, e era de nida pelo não comunismo, ou anticomunismo, de seus governos. Naturalmente foi feita a tentativa de dar um conteúdo positivo a esse remanescente, mediante sua descrição, por exemplo, como zona de democracia e liberdade. Porém, isso parecia implausível mesmo para a Comunidade Econômica Europeia antes da metade dos anos 1970, quando desapareceram os regimes patentemente autoritários da Europa meridional — Espanha, Portugal, os coronéis gregos — e a Grã-Bretanha, indiscutivelmente democrática mas duvidosamente “europeia”, nalmente passou a fazer parte dela. Hoje, é ainda mais óbvio que não funcionarão as de nições programáticas da Europa. A URSS, cuja existência cimentou a “Europa” em conjunto, não existe mais, embora a diversidade de regimes entre Gibraltar e Vladivostok não esteja oculta pelo fato de que todos, sem exceção, declaram sua lealdade à democracia e ao livre mercado.
Procurar uma “Europa” programática única, portanto, resulta em debates intermináveis sobre os problemas até agora não resolvidos, e talvez insolúveis, de como ampliar a União Europeia, ou seja, como converter um continente, que ao longo de sua história tem sido econômica, política e culturalmente heterogêneo, em uma única entidade mais ou menos homogênea. Nunca houve uma Europa única. A diferença não pode ser eliminada de nossa história. Isso sempre foi assim, mesmo quando a ideologia preferia vestir a “Europa” numa roupagem mais religiosa que geográ ca. Por certo a Europa foi o continente especí co da cristandade, pelo menos entre a ascensão do Islã e a conquista do Novo Mundo. Entretanto, mal haviam sido convertidos os últimos pagãos quando se evidenciou que pelo menos duas variedades de cristianismo nada fraternas se enfrentavam no território europeu, e a Reforma do século XVI adicionava diversas outras. Para alguns (como se sabe, quase sempre da Polônia e Croácia), a fronteira entre a Cristandade Romana e Ortodoxa é “ainda hoje, uma das mais permanentes separações culturais do planeta”.7 Mesmo hoje, a Irlanda do Norte demonstra que a antiga tradição de guerra religiosa sangrenta intraeuropeia não está morta. A cristandade é uma parte da história europeia que não pode ser erradicada, mas não tem sido uma força uni cadora maior que outros conceitos ainda mais tipicamente europeus, como, por exemplo, “nação” e “socialismo”.
liação está aberta apenas a candidatos garantidos como convenientes pelo conselho do clube, é quase tão antiga quanto o nome “Europa”. Até onde vai a “Europa” depende naturalmente da posição adotada. Como todos sabem, para Metternich, a “Ásia” começava na saída leste de Viena, uma visão ainda adotada ao m do século XIX em uma série de artigos voltados contra os húngaros “bárbaro-asiáticos” no Reichspost de Viena. Para os habitantes de Budapeste, a fronteira da verdadeira Europa passava claramente entre os húngaros e os croatas; para o presidente Tudjman, ela passa, com igual clareza, entre croatas e sérvios. Sem dúvida, os orgulhosos romenos se consideram europeus na essência e parisienses no espírito, exilados entre eslavos atrasados, muito embora Gregor von Rezzori, escritor austríaco nascido na Bukowina, os descrevesse como “magrebinos”, ou seja, “africanos”.
A verdadeira distinção, dessa forma, não é de ordem geográ ca; mas tampouco é necessariamente ideológica. Ela separa a superioridade sentida da inferioridade imputada, conforme de nida por aqueles que se consideram “melhores”, ou seja, pertencendo normalmente a uma classe intelectual, cultural ou mesmo biológica mais elevada que a de seus vizinhos. A distinção não é necessariamente étnica. Na Europa, como em outros lugares, a fronteira universalmente mais reconhecida entre civilização e barbárie passa entre os ricos e os pobres, em outras palavras, entre os que têm acesso aos luxos, educação e o mundo exterior, e o resto. Consequentemente, a divisão mais óbvia desse tipo passa através de e não entre sociedades, isto é, basicamente entre a cidade e o campo. Os camponeses são indiscutivelmente europeus — quem era mais indígena que eles? —, mas com que frequência os românticos cultos, os folcloristas e cientistas sociais do século XIX, mesmo quando muitas vezes admiravam ou até idealizavam seu sistema de valores arcaico, os tratavam como uma “sobrevivência” de algum estágio cultural anterior, e consequentemente mais primitivo, preservado até o presente em virtude de seu atraso e isolamento? Não era o povo da cidade mas as pessoas do campo que pertenciam aos novos museus etnográ cos inaugurados pela gente instruída, em diversas cidades da Europa oriental entre 1888 e 1905 (como em Varsóvia, Sarajevo, Helsinki, Praga, Lemberg/Lwiw, Belgrado, São Petersburgo e Cracóvia).
Não obstante, quase sempre a linha corre entre povos e Estados. Em todo país da Europa havia aqueles que olhavam enviesado para vizinhos bárbaros de alguma fronteira, ou pelo menos para populações atrasadas em termos técnicos ou intelectuais. O declive econômico em nosso continente costuma descer para leste ou para o sudeste a partir da Île de France e Champagne, tornando assim mais fácil classi car vizinhos indesejáveis como “asiáticos”, notadamente os russos. Porém, não nos esqueçamos do declive do norte para o sul, que dizia aos espanhóis que eles “realmente” pertenciam mais à África que à Europa, uma visão partilhada pelos habitantes do norte da Itália quando olhavam, superiores, para seus compatriotas ao sul de Roma. Apenas os bárbaros do norte, que devastaram a Europa nos séculos X e XI, tendo atrás de si somente o gelo do Ártico, não poderiam ser atribuídos a nenhum outro continente. Em todo caso, eles se tornaram os ricos e pací cos escandinavos, e seu barbarismo sobrevive apenas na mitologia sanguinária de Wagner e do nacionalismo alemão.
No entanto, os picos da civilização europeia cujos sopés levavam a outros continentes não poderiam ter sido descobertos até que a Europa como um todo tivesse cessado de pertencer ao reino bárbaro. Isso porque, mesmo no nal do século XIV, estudiosos oriundos da região da
alta cultura, como o grande Ibn Khaldun, haviam mostrado pouco interesse na Europa cristã. “Deus sabe o que lá acontece”, observou ele, dois séculos depois de Sa’id ibn Akhmad, cádi de Toledo, que estava convencido de que nada havia a aprender com os bárbaros do Norte. Pareciam mais feras que homens.8 Naqueles séculos, o declive cultural evidentemente corria na
direção contrária.
Mas reside precisamente aí o paradoxo da história europeia. Essas verdadeiras reviravoltas ou interrupções históricas são sua característica especí ca. Ao longo de sua longa história, o cinturão de culturas avançadas que se estendia da Ásia oriental até o Egito não passou por nenhuma recaída duradoura na barbárie, a despeito de todas as invasões, conquistas e convulsões. Ibn Khaldun via a história como um eterno duelo entre os nômades pastoris e a civilização sedentária — mas nesse con ito eterno os nômades, ainda que por vezes vitoriosos, continuavam a ser os desa antes e não os vencedores. A China sob os mongóis e os manchus, a Pérsia, devastada por todo tipo de invasões de conquista a partir da Ásia central, continuavam a ser marcos de alta cultura em suas regiões. Assim também o Egito e a Mesopotâmia, fosse sob os faraós e os babilônios, gregos, romanos, árabes ou turcos. Invadidos durante um milênio pelos povos da estepe e do deserto, todos os grandes impérios do Velho Mundo sobreviveram, com uma única exceção. Somente o Império Romano foi permanentemente destruído.
Sem esse colapso da continuidade cultural, que se fez sentir mesmo no nível modesto da horticultura e do cultivo de ores,9 uma “Renascença” — isto é, uma tentativa de retorno,
após mil anos, a uma herança cultural e técnica esquecida, mas supostamente superior — não teria sido nem necessária nem concebível. Quem, na China, precisava voltar aos clássicos que todo candidato tinha de memorizar para os exames o ciais, realizados indefectivelmente todo ano, desde muito antes da era cristã? A convicção errônea dos lósofos ocidentais, inclusive de Marx, de que apenas se poderia encontrar uma dinâmica do desenvolvimento histórico na Europa, mas não na Ásia ou na África, deveu-se, pelo menos em parte, a essa diferença entre a continuidade das outras culturas letradas e urbanas e a descontinuidade na história do Ocidente.
Mas isso apenas em parte, pois, a partir do nal do século XV, a história do mundo tornou- se indiscutivelmente eurocêntrica, e assim permaneceu até o século XX. Tudo o que distingue o mundo de hoje do dos imperadores Ming e Mughal e dos mamelucos originou-se na Europa — seja em ciência e tecnologia, na economia, na ideologia e na política, ou nas instituições e práticas da vida pública e privada. Mesmo o conceito do “mundo” como um sistema de