Este texto, aqui publicado pela primeira vez, foi apresentado como “Isaac Deutscher Lecture” em Londres, em 3 de dezembro de 1996. Seu objetivo é discutir, entre outros temas, o problema da história contrafactual (“e se...”).
Escolhi meu tema como um tributo a Isaac Deutscher, cuja obra mais permanente é um clássico na história da Revolução Russa, ou seja, sua biogra a de Trótski. Assim, a resposta imediata a essa pergunta do título é, obviamente, sim.
Mas isso deixa em aberto a questão mais ampla: podemos algum dia escrever a história de nitiva de alguma coisa — não apenas a história conforme vista hoje, ou em 1945 —, inclusive, é claro, da Revolução Russa? Nesse caso, em um sentido óbvio a resposta é não, a despeito do fato de que há uma realidade histórica objetiva, que os historiadores investigam, para estabelecer, entre outras coisas, a diferença entre fato e cção. Somos livres para crer que Hitler fugiu dos russos e se refugiou no Paraguai, mas não foi assim. Todavia, cada geração faz suas próprias perguntas novas sobre o passado. E todas continuarão a fazer isso. Lembremos também que na história do mundo moderno estamos lidando com uma acumulação quase infinita de registros públicos e privados. Não há jeito nem mesmo de imaginar o que os futuros historiadores procurarão e descobrirão neles que nós não havíamos pensado. Os arquivos revolucionários franceses mantiveram os historiadores ocupados durante duzentos anos, e não há nenhum indício de que os retornos estejam decrescendo. Mal estamos começando a escalar o himalaia de documentação dos arquivos soviéticos. Portanto, não é possível uma história de nitiva. No entanto, a história como atividade séria é possível porque os historiadores podem concordar sobre o que estão falando, sobre quais questões estão discutindo e até sobre boa parte das respostas para reduzir suas diferenças o bastante para o debate significativo.
No campo da história russa do século XX, durante muito tempo, isso foi quase impossível. Agora, o m da União Soviética inevitavelmente alterou o modo como todos os historiadores encaram a Revolução Russa, porque agora são capazes ou, de fato, obrigados a vê-la numa perspectiva diferente, como um biógrafo de uma pessoa morta, em contraste com o de uma pessoa viva. É claro que levará muito tempo até que as paixões daqueles que escrevem a história da URSS se reduzam à temperatura morna daqueles que hoje escrevem a história da Reforma Protestante, que costumava ser um assunto de grande rancor entre estudiosos católicos e protestantes, ou daqueles que escrevem sobre a Revolução de 1688 fora dos distritos de Derry de Martin McGuiness e Bushmills do reverendo Ian Paisley, terra daquilo que uma vez me foi descrito por um ideológico bebedor irlandês como “um uísque protestante”. Na ex-URSS e sucessores dos Estados socialistas, a história da Revolução Russa ainda é escrita nesse espírito, motivo pelo qual nada além de novas fontes para história, embora não para boa história, tenda a vir de lá. Mesmo do lado de fora, a maioria de nós ainda é emocionalmente muito próxima e parcial para considerar a Guerra Fria entre capitalismo e comunismo — uma vez que os dois sistemas jamais combateram um contra o outro no campo de batalha — com os mesmos olhos com que consideramos a Guerra dos Trinta Anos.
Há ainda outra coisa. Podemos fazer um juízo da revolução que deu início à URSS, mas não ainda do seu m, e isso certamente afetará o juízo histórico. A catástrofe na qual mergulhou a gente comum da antiga URSS ao nal do antigo sistema ainda não acabou. Penso que o salto súbito, revolucionário, do antigo sistema para o capitalismo que lhes foi imposto talvez tenha perturbado mais a economia que a Segunda Guerra Mundial e mais que a Revolução de Outubro, e a economia da região já levou mais tempo para se recuperar disso que nos anos 1920 e 1940. Nossa avaliação de todo o fenômeno soviético continua provisória. Não obstante, podemos agora começar a perguntar: sobre o que podem hoje legitimamente concordar os historiadores da Revolução Russa? Podemos alcançar um consenso sobre algumas perguntas que precisam ser feitas quanto à história da Revolução Russa, e sobre alguns de seus elementos que possam ser solidamente estabelecidos pelas regras da pesquisa e da evidência e que, portanto, sejam realmente indiscutíveis?
Um problema é que as mais complexas dessas questões residem fora do alcance habitual da prova e refutação, porque dizem respeito ao que poderia ter acontecido. Muito do que de fato aconteceu pode agora ser conhecido porque se dispõem de informações, embora durante praticamente toda a existência da URSS grande parte fosse inacessível, oculta atrás de arquivos trancados e barricadas de mentiras e meias verdades o ciais. É por isso que um volume enorme da literatura surgida naquele período agora terá de ser sucateada, apesar de sua engenhosidade na utilização de fontes fragmentárias e da plausibilidade de suas conjecturas. Simplesmente não precisaremos mais dela. The Great Terror [O grande terror], de Robert Conquest, por exemplo, desaparecerá como grande abordagem de seu tema, simplesmente porque as fontes dos arquivos encontram-se agora disponíveis, ainda que elas não eliminem toda discussão. Conquest será lido como um notável esforço pioneiro de avaliar o Terror de Stálin, mas um livro que inevitavelmente se tornará obsoleto enquanto abordagem dos fatos terríveis que tentou investigar. Em suma, acabará lido mais por aquilo que seu livro nos conta sobre a historiogra a da era soviética que por aquilo que nos conta sobre sua história. Quando dados melhores ou mais completos se tornam disponíveis, devem tomar o lugar dos dados de cientes e incompletos. Por si só, isso transformará a historiogra a da era soviética, mas não responderá, contudo, a todas as nossas perguntas, particularmente as concernentes ao período soviético inicial antes da burocratização plena do regime, quando o governo e o partido soviéticos de fato não sabiam muito do que estava acontecendo em seu território.
Por outro lado, os debates mais acalorados sobre a história russa do século XX não giram em torno do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido. Eis aqui algumas questões. Era inevitável uma revolução na Rússia? O czarismo podia ter se salvado? Estaria a Rússia a caminho de um regime capitalista liberal em 1913? Uma vez ocorrida a revolução, dispomos de um conjunto ainda mais explosivo de contrafactuais. E se Lênin não tivesse voltado para a Rússia? A Revolução de Outubro teria sido evitada? O que teria acontecido na Rússia se ela tivesse sido evitada? Mais centrais aos marxistas: o que levou os bolcheviques a decidirem tomar o poder com um programa de revolução socialista obviamente irrealista? Deviam ter tomado o poder? E se a revolução europeia — ou seja, a revolução alemã, na qual apostavam suas chas — tivesse acontecido? Os bolcheviques poderiam perder a Guerra Civil? Mas não fosse a Guerra Civil, como teriam se desenvolvido o Partido Bolchevique e a política soviética? Vencendo-a, havia alternativas para o retorno a uma economia de mercado sob a
NEP (“Nova Política Econômica”)? O que poderia ter acontecido se Lênin tivesse continuado em plena atividade? A lista não tem m, e apenas mencionei algumas das questões contrafactuais óbvias do período até a morte de Lênin. O objetivo desta conferência não é dar a minha resposta a essas perguntas, mas tentar colocar essas questões na perspectiva de um historiador em atividade.
Elas não podem ser respondidas com base na evidência sobre o que aconteceu porque giram em torno do que não aconteceu. Assim podemos dizer, para lá da dúvida relevante, que no outono de 1917 uma onda enorme de radicalização popular, da qual os bolcheviques foram os principais bene ciários, varreu para o lado o governo provisório, de sorte que, no momento da Revolução de Outubro, tratava-se menos de capturar o poder que recolhê-lo de onde havia caído. Dispomos de fortes evidências disso. A ideia de que Outubro não foi mais que uma espécie de golpe conspiratório simplesmente não conseguiria ser sustentada. Para reconhecer isso temos apenas de ler o relato, escrito antes da Revolução de Outubro pelo então correspondente do Manchester Guardian, Philips Price, após uma viagem de várias semanas pelas províncias do Volga. A propósito, não sei de nenhuma outra testemunha estrangeira, com bom conhecimento da Rússia e uência na língua, que tenha feito semelhante viagem pelo coração da Rússia naquela época. “Os fanáticos maximalistas”, escreveu, “que ainda sonham com uma revolução social por toda a Europa, segundo minhas observações nas províncias, recentemente adquiriram, ainda que amorfo, um imenso número de seguidores.” No momento que o artigo, enviado de Yaroslav, chegava a Manchester, os bolcheviques haviam tomado o poder e, por isso, o jornal o publicou em dezembro de 1917 com a manchete “Como os maximalistas obtiveram o comando”, mas na verdade havia sido enviado antes de outubro.
Mas, naturalmente, questões sobre alternativas não podem ser solucionadas dessa maneira — o que poderia ter acontecido, por exemplo, se os bolcheviques não tivessem decidido tomar o poder, ou tivessem se disposto a tomar o poder à frente de uma ampla coalizão com os demais partidos socialistas e social-revolucionários. Como poderíamos saber? Philips Price, por exemplo, no mesmo despacho, sugeria a possibilidade de que o enorme ódio da guerra, que, segundo ele imaginava, era o que organizara “a confusa massa social” da revolução (palavras suas), produziria “um Napoleão — um ditador da paz [...] que colocará um m à guerra mesmo à custa de perdas territoriais para a Rússia e ao preço das liberdades políticas conquistadas pela Revolução”. Sabemos que alguma coisa desse tipo aconteceu. Retrospectivamente, podemos notar que, na situação de 1917, ele certamente tinha razão de supor que, de um modo ou de outro, era inevitável que a Rússia logo saísse da guerra. Mas ele também supunha que logo que isso acontecesse a Revolução se dividiria em facções em luta que resultariam em sua derrota. Isso não aconteceu, mas, para um excelente observador contemporâneo, também parecia muito provável. Como não aconteceu, mesmo os historiadores não podem fazer mais que especulações a respeito.
Mas como exatamente especulamos? E qual o sentido de, pelo menos, algumas dessas especulações? A di culdade reside em que há pelo menos três tipos diferentes de contrafactuais. Um deles, apesar de fascinante, é analiticamente inútil. Considere-se Lênin, ou a esse respeito, Stálin. Sem a presença pessoal desses homens singulares, a história da Revolução Russa certamente teria sido muito diferente. A despeito de uma série de evasivas
gerais de ordem política e ideológica, os indivíduos nem sempre fazem tanta diferença assim na história. Os EUA, por exemplo, perderam de fato sete presidentes antes do nal de seu mandato devido a assassinato ou outras circunstâncias desde 1865, mas, na perspectiva do século, isso não parece ter feito muita diferença ao per l da história norte-americana. Por outro lado, às vezes os indivíduos realmente fazem diferença, como no caso de Lênin e Stálin — ou, nesse sentido, nos últimos anos da URSS. Um ex-diretor da CIA contou ao professor Fred Halliday em uma entrevista à BBC: “Acredito que, se Andropov fosse quinze anos mais novo quando tomou o poder em 1982, ainda teríamos conosco uma União Soviética, continuando a declinar economicamente, cada vez mais de ciente tecnicamente [...] mas ainda sobrevivente”.1 Não gosto de concordar com diretores da CIA, mas isso me parece totalmente
plausível. Entretanto, após dizer isso, quase não há muito mais a ser dito. Pode-se analisar o tipo de situações históricas nas quais pessoas singulares podem representar uma drástica diferença, tanto positiva quanto negativamente. Talvez, como faz Alan Bullock em suas biogra as paralelas de Hitler e Stálin, possamos investigar as maneiras como as mesmas se combinam para reforçar seu poder pessoal, como certamente fez Stálin, mas Lênin claramente não tentou fazer. Podemos estabelecer os limites daquilo que tais indivíduos dotados de poder interno absoluto podem alcançar, ou de que maneira suas metas e políticas não eram específicas a si mesmos enquanto indivíduos, mas essenciais a seu tempo, lugar e situação.
Pode-se a rmar, por exemplo, com total plausibilidade, que havia margem para mais ou menos rigidez no projeto de industrialização acelerada pelo planejamento estatal soviético, mas se a URSS se envolvesse em semelhante projeto na época, por maior que fosse o envolvimento genuíno a ele dedicado por milhões de pessoas,2 iria exigir uma boa dose de
coerção, mesmo se a URSS tivesse sido governada por alguém não tão implacável e cruel quanto Stálin. Ou então se pode a rmar, com Moshe Lewin, que mesmo o poder total não propiciaria a Stálin controle sobre a máquina burocrática em constante dilatação na qual a URSS necessariamente se convertia. Apenas o terror, o medo da morte para funcionários temporariamente onipotentes, poderia garantir que obedecessem ao autocrata e não o enredassem na teia de aranha burocrática. Ou, além disso, pode-se demonstrar que, dados antecedentes históricos determinados, mesmo o que fazem os autocratas obedece a velhos padrões. Tanto Stálin quanto Mao sabiam que eram os herdeiros de imperadores absolutos, e se conformaram, pelo menos até certo ponto, a seus predecessores imperiais — certamente tinham consciência de que seriam vistos a essa luz por seus súditos. Mas, quando se disse tudo isso e mais, ainda não se respondeu a questão das alternativas históricas. Tudo que se disse é: “as coisas teriam sido diferentes se Lênin não tivesse conseguido sair da Suíça até 1918”, ou, no extremo, “as coisas teriam sido muito diferentes” ou “não muito diferentes”. E não se pode ir mais longe, exceto na ficção.
Uma segunda série de contrafactuais é um pouco mais interessante, no mínimo porque de fato ajuda a história da Revolução Russa a remover os antolhos da polêmica ideológica. Tomemos o exemplo da queda do czarismo. Nenhum observador sério, mesmo antes de 1900, esperava que o czarismo sobrevivesse muito tempo no século XX. Uma revolução russa era universalmente prevista. O próprio Marx, em 1879, esperava “um grande desastre e não muito distante na Rússia; imagina-se que começará por reformas de cima para baixo que o velho edifício não será capaz de suportar e que levarão ao seu desabamento total”,3 e o político
britânico que relatou suas opiniões à lha da rainha Vitória achava essa visão “não despropositada”. Retrospectivamente, parece inegável que as chances do czarismo, após sobreviver a sua primeira revolução em 1905, eram pequenas, e praticamente nulas bem antes da Grande Guerra; e não havia muitas pessoas na época que pensassem o contrário durante mais que um momento. Não precisamos nos incomodar muito com a teoria de que a Rússia czarista fazia progressos no sentido de se tornar uma próspera sociedade capitalista liberal quando a Primeira Guerra Mundial e os bolcheviques surgiram, como se do nada, e a arruinaram. Não fosse por necessidade do argumento antimarxista, essa teoria jamais teria sido levada a sério.
A propósito, nem mesmo os liberais a rmaram com con ança que uma Rússia liberal, democrático-parlamentar, era uma possibilidade muito grande após a queda do czar. Muitos deles gostariam de acreditar que não foi mais que um golpe leninista que cortou a garganta de uma promissora democracia liberal russa, mas eles o fazem sem convicção. Posso lembrar apenas, de passagem, que nas únicas eleições relativamente livres, realizadas logo após a Revolução de Outubro, para a Assembleia Constituinte, os liberais burgueses somaram 5% e os mencheviques 3%.
Por outro lado, os comunistas também dispõem de seus mitos sobre possibilidades diferentes de história. Minha geração, por exemplo, foi educada no conto da traição da Revolução Alemã de 1918 pelos líderes social-democratas moderados. Os Ebert e os Scheidemann abortaram a Revolução Alemã potencialmente socialista e proletária, a Rússia soviética continuou isolada — e o desenvolvimento lógico esperado por Marx e Engels não aconteceu, ou seja, uma revolução russa acendendo o pavio da revolução proletária em países menos obviamente despreparados para erigir uma economia socialista.
Ora, esse mito difere daquele sobre um czarismo liberal em um aspecto importante. Antes de 1917, nenhum observador realista esperava, durante mais que um único momento, que o czarismo sobrevivesse, e muito menos superasse seus problemas, mas em 1917-8, o roteiro de Marx e Engels parecia muito provável. Não culpo os revolucionários alemães e russos por terem essas esperanças no período de 1917 a 1919, embora eu tenha a rmado alhures que Lênin não deveria ter acreditado nisso até 1920. Durante algumas semanas ou mesmo meses no período de 1918 a 1919, poderia parecer provável uma expansão da Revolução Russa para a Alemanha.
Mas não era. Penso que hoje há um consenso histórico a esse respeito. A Primeira Guerra Mundial abalou profundamente todos os povos nela envolvidos, e as revoluções de 1917-8 foram, acima de tudo, revoltas contra aquele holocausto sem precedentes, principalmente nos países do lado que estava perdendo. Mas em certas áreas da Europa, e em nenhuma outra mais que na Rússia, foram mais que isso: foram revoluções sociais, rejeições populares do Estado, das classes dominantes e do status quo. Não acho que a Alemanha pertencesse ao setor revolucionário da Europa. Não acho que parecesse pelo menos provável uma revolução social na Alemanha em 1913. Ao contrário do czar, acredito que, não fosse pela guerra, a Alemanha do kaiser poderia ter solucionado seus problemas políticos. Isso não quer dizer que a guerra fosse um acaso inesperado e inevitável, mas essa é uma outra questão. Claro que os líderes social-democratas moderados desejavam impedir que a Revolução Alemã caísse nas mãos dos socialistas revolucionários, porque eles próprios não eram nem socialistas nem
revolucionários. De fato, nem mesmo desejavam se livrar do imperador. Mas não é esse o ponto. Uma revolução de outubro na Alemanha, ou algo parecido, não era um risco sério e, portanto, não precisou ser traída.
Penso que Lênin estava enganado ao apostar suas chas em uma revolução alemã, mas não acho que ele pudesse ter percebido isso em 1917 ou 1918. Simplesmente não parecia provável. É nisso que a retrospecção histórica difere da avaliação contemporânea das possibilidades. Se em política temos de tomar decisões, como Lênin teve, nós as tomamos conforme as percebemos — e para ele era natural percebê-las dessa maneira. Mas o passado aconteceu, a partida não pode ser jogada de novo e, por isso, podemos perceber as coisas com mais clareza. A Revolução Alemã não foi um partida perdida comparada ao ponto da jogada anterior do time. A Revolução Russa estava destinada a erigir o socialismo em um país atrasado e logo extremamente arruinado, embora eu ainda precise ser convencido por Orlando Figes, que a rma que em 1918 Lênin já havia desistido de pensar em uma revolução se expandindo para mais algum lugar da Europa. Ao contrário, descon o que os arquivos irão mostrar que, por vários anos ainda, a liderança soviética, ainda que não preparada para colocar em risco sua base doméstica na Rússia, permanecia tão envolvida com a revolução internacional quanto Fidel Castro e Che Guevara o estiveram, e, se assim posso dizer, muitas vezes com tantas ilusões e a mesma ignorância que os cubanos sobre a situação no exterior.4
Tendo a pensar que Lênin teria desejado tumultuar o Palácio de Inverno mesmo se tivesse certeza que os bolcheviques seriam derrotados, naquilo que poderia ser chamado pelos irlandeses de princípio da “Ascensão da Páscoa”: fornecer inspiração para o futuro, mesmo da forma como a derrotada Comuna de Paris havia feito. Todavia, tomar o poder e declarar um programa socialista apenas fazia sentido se os bolcheviques esperassem uma revolução europeia. Ninguém acreditava que a Rússia pudesse fazê-la por si mesma. Então, a Revolução de Outubro deveria ter sido feita? E se deveria, com que objetivos? Isso nos remete para o terceiro tipo de contrafactuais, que, na verdade, diz respeito a alternativas consideradas possíveis na época. De fato, a questão não era se alguém mais devia arrebatar o poder ao