Em relação ao tempo decorrido entre as várias institucionalizações que marcaram a vida das mulheres entrevistadas, é possível perceber que os seus discursos se desenvolvem essencialmente com base em quatro tópicos específicos: as condições de cumprimento da medida/pena, a falta de apoio após cessação das medidas/penas e a manutenção do(s) grupo(s) de pare(s) e das condições familiares, cujos comportamentos diruptivos justificaram a intervenção.
Afastadas do seu meio natural de vida devido a dificuldades económicas, a comportamentos de risco tidos pelos cuidadores primários e familiares próximos, tais como violência doméstica, consumos de drogas e álcool e insuficiente supervisão parental, Laura, Inês e Teresa revelam terem-se deparado com os mesmos problemas à saída dos lares de acolhimento:
Saí do colégio e continuei a ver cenas, o meu pai a bater na minha mãe e essas coisas assim; Mal saí do colégio fui consumir com a minha irmã. Foi sempre, sempre com ela, todas as recaídas que tive foi sempre com ela, sempre que consumia era com ela, ela é que sempre lixou a minha vida, mas é a irmã que mais amo.
Após cessada a medida, estas mulheres descrevem terem sido devolvidas ao mesmo meio que as viu partir, aos mesmos problemas que justificaram a intervenção, sem que estes tenham sido devidamente trabalhados. As dificuldades económicas, que já anteriormente pautavam as suas vidas, continuavam lá, assim como os problemas de violência, os consumos de álcool e drogas e a negligente supervisão parental:
Viemos para casa lá com os meus 15 anos, depois tirei a quarta classe lá na escola e passei para o quinto ano, a seguir fui mudada para outra escola, perdi cinco vezes o quinto ano por faltar às aula, por conhecer amigos que viam que eu estava solta, eu continuava a juntar-me aos rapazes, tipo para jogar à bola e essas coisas assim. Depois os amigos começaram a influenciar- me a fumar, porque eu não fumava e comecei a fumar na escola, comecei a beber; Havia muitas brigas, porque o meu pai era alcoólico e pronto, nasci, depois pronto, saí do colégio e era tudo igual, o meu pai trabalhava, mas o dinheiro que ganhava era todo para a bebedeira [Laura, 33 anos].
Para Catarina e Carolina, o sistema de proteção parece não ter sido capaz de as proteger, nem ter efeito contentor nas suas práticas.
Catarina revela na sua narrativa como os comportamentos disruptivos faziam parte do seu dia-a-dia institucional e após terminada a medida, também:
(…) fugia para ir para a noite, essas coisas, fugia com elas; Os educadores estavam durante o dia mais ou menos, só que era muito raro estar lá, tínhamos as freiras e tudo, só que é como eu disse morávamos lá, mas por exemplo, íamos sozinhas para a escola, e nós não íamos.
Carolina viu a medida de acolhimento cessar para ser colocada numa outra resposta de acolhimento fora do sistema de proteção. Foi encaminhada para centro educativo para cumprimento de uma medida de 18 meses, após ter roubado telemóveis da instituição e os vender em contexto de rua.
Rita e Luísa saíram do sistema de acolhimento para meio natural de vida junto de outros familiares, tia e irmão, respetivamente. No entanto, os desafios de transição para a vida no exterior, a falta de acesso a recursos económicos e sociais e/ou outras formas de apoio, levaram estas mulheres a buscar apoio junto do(s) grupo(s) de pares e em relacionamentos amorosos. O que posteriormente se traduziu em gravidezes precoces e acompanhamento de grupos relacionados à prática criminal:
Depois de sair vivi uns tempos com uma tia, mas depois conheci, na altura era meu namorado e depois chegou a ser meu marido, e ele uma vez levou-me a casa da mãe dele e ela gostou tanto
de mim que disse para eu ficar lá, que ia tomar conta de mim (…) depois engravidei (…) [Rita, 37 anos].
A manutenção de relações de amizade anteriores ao acolhimento e criadas no tempo de permanência neste, também surge descrito nos discursos das participantes como fator de manutenção e/ou agravamento dos comportamentos de risco após a institucionalização:
Fui para casa, já conhecia algumas pessoas que eram da minha infância, só que essas pessoas pronto, consumiam e essas coisas. Como já conhecia, andei sempre com elas e pronto foi sempre o meu meio de amigos, foi esse; Depois vim morar para o Porto com o meu namorado, porque a minha mãe não me deixava namorar com ele, já via um bocado o comportamento dele, e cá também tinha as amigas do colégio, foi com elas que fui apanhada [Catarina, 19 anos].
Condenadas à medida de internamento em centro educativo pelos crimes de tráfico de estupefacientes e roubo, a medida de internamento em centro educativo e tal como referido anteriormente, para Teresa e Carolina não significou mais de que uma pausa nos comportamentos desviantes e, por isso, o regresso ao meio natural de vida dificilmente se poderia ter dado de outra forma:
Depois do colégio estava ainda pior, saía para discotecas, apanhava bebedeiras, ligava à minha mãe ás três da manhã: mãe anda-me buscar, que eu não me consigo mexer; Depois olhe, fui para um curso de cabeleireiro, nesse curso de cabeleireiro fiz tudo menos ir para o cabeleireiro, era na Rua dos Bacalhoeiros em Lisboa, ao pé do Terreiro do Paço, eu lembro-me perfeitamente que a gente subia as escadas estava na Mouraria, Alfama, e aqueles bairros todos e eu conheci muito pessoal dos Olivais e tudo, e a gente apanhava elétricos aos picas, íamos fora do elétrico, roubávamos os turistas, só loucuras.
O regresso a casa, após cumprimento da pena de prisão, é descrito por Inês, Elisabete e Luísa, como um processo bastante complicado uma vez que, para além de terem que lidar com os problemas que motivaram a praticar do crime, há toda uma rede de conhecidos criada no tempo em que se dedicaram à prática criminal que automaticamente as volta a procurar:
As pessoas começam a vir novamente ter connosco, começam a vir aquelas pessoas e nós para matarmos a fome às crianças começamos outra vez a traficar; Quando eu cheguei à rua havia pessoas que sabiam que estava ligada ao crime, eu fugia, não queria aquilo, eu procurei trabalho, procurei, procurei, procurei, até que encontrei, mas depois não correu bem e voltei; Eu cheguei a um ponto que já não conseguia pagar a renda, já não conseguia pagar nada, já estava saturada daquilo, até que pronto, olhe, voltei; Tens que ser muito forte para veres a consumir e não consumires tu, você não deve saber (risos);
Por outro lado, a falta de apoio nos pós reclusão, tanto ao nível de recursos económicos como sociais e familiares, também surge nos discurso destas mulheres como uma barreira à reinserção:
A mim nunca me deram nada, cheguei mesmo a passar fome, eu alertava a minha técnica que isso estava acontecer; Fui à assistente social e ela mandou-me inscrever naqueles trabalhos temporários, disse que tinha de fazer aquilo durante um dia e meio para depois então dar alguma ajuda, fiz e nada; Não tinha ninguém que me ajudasse, a minha mãe não me podia acolher, tive que a lugar uma casa, mas fui despejada por não pagar as rendas [Luísa, 34 anos]. Depois quando eu saí não tinha emprego, não tinha nada e pedi ajuda, não tivemos ajuda, só ao fim de muito tempo, passado sete ou oito meses, ou nove meses é que veio as ajudas. Eu muitas vezes punha o pão rijo fora e houve momentos que depois não tinha pão, as minhas filhas queriam pão, cheguei a ir novamente ao lixo buscar o pão [Isabel, 39 anos].