Apesar das especificidades, as trajetórias dão-nos conta da existência de eventos de vida comuns entre as participantes. Em que diferem e de que forma se embrenham as trajetórias familiar, escolar e profissional destas mulheres?
A família constitui um dos contextos de socialização mais importantes para o bom desenvolvimento social das crianças e jovens, e se uma ligação mais forte à família é um fator de proteção, quando esse laço é enfraquecido, os sujeitos ficam mais vulneráveis a assumirem comportamentos de risco que podem conduzir à delinquência (Duarte, 2011). A este respeito, e no sentido do que seria esperado, a exposição a situações de risco no contexto familiar são percetíveis nos discursos de todas as mulheres que estiveram ao abrigo do sistema de proteção e sistema tutelar educativo e apenas no discurso de duas mulheres que contactaram exclusivamente com a prisão. Observaram-se dois aspetos principais nas narrativas destas mulheres: diferentes formas de maus-tratos e rutura nos vínculos afetivos e relacionais.
Teresa salienta as histórias de abuso e violência na infância, a convivência com a prostituição e a toxicodependência:
Fui violada aos oito anos por o meu tio porque ele era alcoólico também, e violou a mim e à minha irmã que morreu de overdose o meu pai a bater na minha mãe e essas coisas assim, no mesmo dia as duas. A minha bisavó estava no quarto a ver e deixou; O quarto da minha avó tinha umas ripas, que eram daquelas casas antigas, e eu via-a a prostituir-se, uma vez ela apanhou-me e deu-me um enxerto de porrada; O meu pai era alcoólico, espancava a minha mãe, espancava a nós; (…) a minha irmã começou também a consumir drogas, e eu não sabia, não consumia drogas à minha frente, só consumia charros.
Laura, Carlota e Carolina apontam para a violência física e os problemas de alcoolismo: O meu pai batia na minha mãe e essas coisas assim, e ela não se ficava, batia-lhe também, mas isto só acontecia quando ele bebia [Laura, 33 anos].
Durante a minha infância ele bebia, batia na minha mãe, cheguei a ver muitas vezes e a separar muitas vezes [Carlota, 24 anos].
Só o meu pai é que abusava do álcool, por causa do meu avô que também era alcoólico, morreu com uma cirrose; Por ela não ser filha dele, não sei se por ciúmes, porque bebia demais, porque lhe dava na gana, não sei, ele batia na minha irmã mais velha. Assistia várias vezes a isso, e isso perturbou-me bastante [Carolina, 25 anos].
Inês, Catarina e Elisabete referem a separação dos pais e, por consequência, a perda dos laços afetivos com um ou ambos os progenitores:
O meu pai desde os meus onze anos que se desligou de nós, meteu-se com outra mulher e nunca mais apareceu [Inês, 25 anos].
Os meus pais separaram-se depois de quase vinte anos de casados, separaram-se e deixaram- me a viver com o meu tio, e foi la que eu fiquei [Elisabete, 39 anos].
Os meus pais estão separados, o meu pai ficou no Brasil e eu vivo cá com a minha mãe, raramente tenho contacto com ele, ele já tem outra família [Catarina, 19 anos].
Rita e Luísa viveram o falecimento do pai, o agravamento dos problemas emocionais da mãe e consequente negligência face a si e aos seus irmãos:
Eu não queria à escola, porque eu era muita apegada ao meu pai, ele faleceu quando eu tinha sete anos, sentia-me triste e queria estar sozinha, por isso fui para a instituição. A minha mãe não tinha mão em nós [Rita, 37 anos].
Apesar de eu ser muito pequena, a perda do meu pai foi uma coisa que me marcou muito;
Entretanto a minha mãe perdeu o pai, e foi uma pessoa que não ficou com muitas capacidades, não ficou muito bem da cabeça e a partir daí deixou de ter pulso para nós [Luísa, 34 anos].
Todos estes acontecimentos levaram a fugas de casa, a permanências de rua, aos consumos de álcool e drogas e a uma sexualidade precoce, traduzida em casos de prostituição e gravidez na adolescência.
A escola, assim como a família, também se afigura como um importante meio de socialização com inegáveis consequências para o futuro comportamento dos indivíduos (Nunes, 2010). Na narrativa das mulheres, o discurso negativo é transversal à maioria dos percursos escolares. Histórias de insucesso escolar marcadas pelo absentismo, abandono e mau comportamento são constantes nos discursos das participantes:
Eu fui até ao sexto ano, mas depois bati num rapaz, fui suspensa e nunca mais fui à escola
[Inês, 25 anos]
Eu andei na escola até ao sexto ano, deixei de ir porque não gostava de me sentir ali presa. Queria trabalhar porque eu fumava tabaco na altura e para manter os meus vícios quis sair da escola e ir trabalhar [Carlota, 24 anos].
Eu sempre tive boas notas até ao quinto/sexto ano, mas depois no sétimo ano é que foi mais problemático. Eu ia para a escola, mas chegava, saltava o muro e ia para o lado da Brandoa e ia fumar umas ganzas, para dizer em bom português [Carolina, 25 anos].
Apenas Patrícia, Alice, Cristina e Célia revelam um discurso diferente ao das restantes participantes. Para estas mulheres o insucesso escolar não foi uma opção, mas antes uma imposição, devido a questões relacionadas com a pertença étnica e/ou dificuldades económicas:
Nunca fui à escola, eu sou cigana e naquela altura nenhuma mulher cigana ia à escola, tinham que ficar a tomar conta da casa e casar, por isso nunca fui. [Alice, 56 anos].
Andei até ao sexto ano, gostava da escola, mas tive que sair porque o meu pai me decidiu casar
[Patrícia, 25 anos].
Nunca pude estudar, andei sempre a vender pensos [Cristina, 37 anos].
Tive que sair da escola para trabalhar e ajudar os meus pais com dinheiro [Célia, 41 anos].
Relativamente aos percursos profissionais, é possível encontrar nas narrativas das participantes três tendências discursivas: inexistência de experiências profissionais, episódios de desemprego sucessivos e conjugação das práticas criminais com trabalhos não qualificados da área do comércio:
Nunca trabalhei, sempre fiquei por casa, às vezes fazia uns biscates com o meu pai, ele arranja umas televisões e assim (…) [Laura, 34 anos].
Isto foi assim, eu fiquei desempregada, procurei, não arranja, comecei a vender coisas furtadas, depois da segunda vez que fiquei desempregada é que comecei a roubar também [Rita, 37 anos].
Só as feiras não dá, não dá para pagar a luz, a água, o gás, tudo, tinha que traficar; A gente fazia algumas feiras, mas não dá. Nós tínhamos que ir para o tráfico para matarmos a fome às crianças e para nós não sentirmos tanto [Isabel, 39 anos].
2.3.Trajetórias institucionais: as diferentes experiências no sistema de