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1. BEGYNNELSEN

1.2 L EDERUTVIKLINGSPROGRAMMET N Y SOM LEDER

O questionamento acerca do que faz com que um acontecimento seja noticiado e outro, não, foi um estímulo para que investigássemos os valores-notícias que motivaram a publicação das matérias sobre o ASCA no cotidiano. Como já explicitado, ao avaliarmos a noticiabilidade, é necessário ressaltar que fizemos uso da proposta de Gislene Silva para elencarmos quais valores-notícia foram utilizados pelo CB. Ademais a escolha por esta proposta tem relação com o fato de que há uma atualidade relevante nos critérios compilados pela pesquisadora.

Nesse sentido, partimos do pressuposto de que os valores-notícias não são estanques e também sofrem mudanças. Silva (2005, p. 103) propõe uma divisão para separar os atributos presentes nas seleções jornalísticas. Para tanto, a pesquisadora utiliza os termos macro e micro e reúne o que denomina como micro- valores-notícia a partir de 12 macro-valores-notícia: impacto; proeminência; conflito;

83 O Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo é uma iniciativa que tem como objetivo

fortalecer a mobilização social para dois problemas que afetam milhares de crianças e adolescentes do país: o abuso e a exploração sexual. A premiação chega à sexta edição estimulando a imprensa a contribuir para ampliar e qualificar a cobertura sobre esse tipo de violência, com ênfase na discussão das políticas públicas para a prevenção e o atendimento dos meninos e meninas vítimas desta grave violação de direitos. Diferentemente da maioria dos prêmios jornalísticos – voltados, geralmente, para o reconhecimento de matérias já veiculadas –, o Concurso Tim Lopes seleciona as melhores

propostas de reportagem, oferecendo aos vencedores apoio técnico e financeiro para a execução do trabalho, além de um prêmio em dinheiro para o jornalista responsável. Disponível em <

entretenimento/curiosidade; polêmica; conhecimento/cultura; raridade; proximidade; surpresa; governo; tragédia/drama e justiça.

Entretanto, deve-se considerar os atributos que são considerados pela autora como pré-requisitos para qualquer seleção jornalística. Tais atributos são denominados como macro-valores-notícia e sem os quais os micro-valores-notícia “nem se efetuam como questão” (SILVA, 2005, 103.). Pertencem a esse quadro os

atributos: atualidade (novidade); importância; interesse; negativismo,

imprevisibilidade; coletividade e repercussão.

Discutiremos neste tópico os valores-notícia encontrados na cobertura dos casos cotidianos. Constatou-se a presença do macro-valor notícia tragédia/drama, que reúne os micro-valores violência/crime e o interesse humano nas matérias em que o CB relata casos de violência sexual contra crianças e adolescentes.

No dia a dia, além desse valor que norteia boa parte das publicações do CB, deparamo-nos com o macro-valor polêmica que destaca o micro-valor-notícia escândalo. Constata-se que os casos noticiados enfatizavam casos de incesto entre pai e filha, irmão e irmã, sobrinha e tio, por exemplo. A pouca idade das crianças vitimizadas também foi ressaltada no CB: bebês que sofreram violência sexual com apenas 7 meses e crianças de 2 e 4 anos são alguns dos exemplos. Abusos envolvendo personalidades, como políticos, também foram encontrados, o que evidencia também o macro-valor-notícia proeminência.

Constata-se também a predileção por critérios que podem ser enquadrados no macro-valor raridade que dispõe sobre acontecimentos que envolvem algo incomum, original e inusitado. Destaca-se o caso das pulseiras utilizadas por jovens e que se tornaram um motivo para a proliferação de estupros84.

Quanto ao macro-valor justiça, houve um destaque para os micro-valores como julgamento, denúncias e investigações. No entanto, estes critérios foram mais evidentes no caso específico da criança paraguaia que veio passar férias no Brasil e relatou a violência sofrida. Também neste caso específico, nota-se o micro-valor suspense, uma vez que os acontecimentos relacionados a este caso foram narrados pelo CB como uma saga, com direito a final feliz.

84 O CB noticiou em duas reportagens casos de violência sexual originados pelo uso de pulseiras

coloridas. O acessório indicava pela cor, a disposição da criança ou do adolescente em praticar determinadas ações, que iam de um abraço a relações sexuais.

Os crimes contra a criança foram apresentados aos leitores no dia 7 de maio de 2010, mas apresentou suítes e teve destaque na capa do veículo. Mesmo com a negação da mãe da criança e apesar dos entraves, como o Direito Internacional, a família da menina no Brasil conseguiu que ela permanecesse em nosso país, o que também enfatizou o micro-valor-notícia designado como emoção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho possibilitou o contato com metodologias distintas que contribuíram imensamente para o avanço desta pesquisa. No capítulo referente à metodologia e teoria, relatamos nossos desafios iniciais quanto ao corpus escolhido, nossa dificuldade em acessar os arquivos digitais fornecidos pelos acervos dos periódicos. Desafio que também foi compartilhado e discutido com outros investigadores de veículos impressos com os quais tivemos contato durante nossas participações em congressos.

Ademais, o tema escolhido permitiu-nos adentrar no complexo universo que permeia o abuso sexual infanto-juvenil. Entrar em contato com uma realidade tão pungente permitiu-nos compreender a relevância de se discutir um tema, ainda hoje, considerado tabu, mas que não pode ser evitado.

Para nos auxiliar nessa jornada contamos, principalmente, com a metodologia da Análise de Discurso que considera a linguagem em relação às suas condições de produção. Tal proposta vai ao encontro das pesquisas atuais sobre a linguagem que abordam o enunciado como discurso. Além disso, o imaginário social torna-se inteligível por meio da formulação e circulação dos discursos nos quais e pelos quais se efetuam as representações sociais.

Partindo do pressuposto de que, em meio à dispersão de vozes do discurso midiático, é possível estabelecer regularidades, levantamos e analisamos as matrizes discursivas presentes na cobertura jornalística do Correio Braziliense sobre o abuso sexual de crianças e adolescentes.

Inicialmente, constatou-se a existência de duas matrizes gerais: a ininteligibilidade acerca dos casos de abuso sexual infantojuvenil e o fatalismo com que o tema é tratado. A primeira matriz diz respeito à dificuldade quanto à compreensão acerca dos abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Ressalte- se que, mesmo na contemporaneidade, o tema é permeado por tabus. Estima-se que, apenas 10% dos casos de violência sexual chegam aos tribunais.

Tal desconhecimento promove uma vontade de saber acerca da sexualidade. Entretanto, o CB, como instância midiática limita-se, em alguns momentos, a difundir representações equivocadas sobre o tema.

A segunda matriz geral relaciona-se ao fatalismo com que o tema é tratado. Constatamos que os sentidos formulados pelo veículo enfatizam uma visão fatalista,

como se os abusos não pudessem ser evitados, ou, ao menos, enfrentados. Há uma concepção também de irremediabilidade, quanto à superação da violência por parte dos vitimizados.

Para a análise, dividimos o corpus, especificamente, composto por 174 matérias e 18 chamadas de capa, em três grupos. Os casos de abuso sexual no âmbito da Igreja Católica que enfatizaram as matrizes: perdão e silêncio. O caso do assassinato dos jovens de Luziânia, que tem como matrizes a patologização e responsabilização quanto aos delitos sexuais e, por último, os relatos cotidianos sobre o fenômeno, que enfatizam a superficialidade com que o tema é tratado.

Quanto ao perdão, o CB enfatizou o remorso da Igreja quanto à omissão nos casos de ASCA e sua vergonha diante dos delitos cometidos por eclesiásticos. O silêncio foi apresentado em dois eixos: o fato da Igreja se calar diante da espiral de escândalos surgidos em 2010 e em relação ao silêncio imposto às crianças e jovens vitimizados no âmbito religioso.

Em relação ao caso do assassinato dos jovens de Luziânia, a patologização indica que o CB reitera a assertiva de que os agressores sexuais são doentes. Tal representação retira, pelo menos em parte, a responsabilidade do agressor. É preciso esclarecer que abusadores sexuais podem não ser psicologicamente saudáveis, mas nem sempre são loucos.

A própria denominação utilizada pelo CB para os abusos sexuais, o uso indiscriminado do vocábulo pedofilia é recriminado por especialistas por reforçar o sentido de que o agressor sexual é alguém doente. Constata-se que o termo sofreu um deslocamento de sentido. Uma vez que, no século XIX, relacionava-se aos abusos cometidos somente por pedófilos, sujeitos portadores de uma parafilia, um desvio sexual.

Quanto à responsabilização, o CB não apenas preocupou-se em dar visibilidade à prisão de Ademar de Jesus, o suposto assassino dos jovens de Luziânia, como questionou o papel do sistema judiciário quanto à liberação do ex- presidiário.

A última matriz diz respeito à superficialidade com que os casos relatados no dia a dia do veículo são tratados. Constata-se que, a maioria dos textos publicados nesse grupo são notas. Os relatos não possuem uma continuidade (suítes) e alguns dos principais sentidos evidenciados são a banalização da violência e o sensacionalismo.

Entretanto, cabe ressaltar que as matérias do Correio Braziliense nesse segmento são heterogêneas. Ou seja, observa-se a existência de matérias que não somente apresentaram as múltiplas dimensões do ASCA como elucidaram questões fundamentais para a compreensão do fenômeno.

Tais matérias foram publicadas, em sua maioria, no decorrer do mês de maio. Essa coincidência tem uma explicação lógica: o dia 18 de maio foi instituído como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Nesse sentido, segundo pesquisas empíricas, diversas instâncias midiáticas têm publicado matérias sobre o tema a fim de dar visibilidade ao fenômeno.

Desse modo, nossa primeira hipótese: a de que o discurso do CB trata, de modo superficial, os delitos sexuais contra crianças e adolescentes não foi confirmada totalmente. Enquanto a segunda hipótese que fazia referência ao fato de que a cobertura jornalística sobre o abuso sexual infantojuvenil é impulsionada, principalmente, por acontecimentos factuais foi confirmada.

Ainda, quanto a esse grupo de matérias, encontramos o macro-valor notícia que reúne os micro-valores violência/crime e o interesse humano. Além desse valor, deparamo-nos com o macro-valor polêmica que destaca o micro-valor-notícia escândalo. Constata-se também a predileção por critérios que podem ser enquadrados no macro-valor raridade que dispõe sobre acontecimentos que envolvem algo incomum, original e inusitado e referências ao macro-valor justiça, que engloba micro-valores como julgamento, denúncias e investigações, além da aparição do valor-serviço.

Nesse sentido, a análise revelou que houve uma confirmação limitada à hipótese de que a cobertura jornalística acerca do tema é inadequada do ponto de vista da responsabilidade social da mídia. Dito de outra forma, a hipótese não se confirma totalmente, pelo menos como a formulação inicial permitia supor.

Em nossa Análise de Conteúdo verifica-se que o tema é mais veiculado no caderno Cidades. Entretanto, foi abordado em outras editorias como Mundo e Brasil. Atendendo a uma tendência dominante na mídia, o CB valoriza a notícia por meio de recursos de diagramação. Quanto ao estilo adotado, o veículo adota a modulação da matéria. Tal disposição é valorizada porque o contraste provocado por matérias dispostas horizontal e verticalmente dinamiza o conjunto dos textos e imagens. Analisando a composição gráfica do CB, verificamos também que a fotografia é o

recurso mais utilizado pelo veículo para auxiliar na explicação e interpretação dos fatos noticiados em relação a outros recursos observados, como ilustração, box , olho, foto e legenda.

Sendo o discurso de informação uma das bases da democracia, constata-se que o CB pode contribuir sobremaneira no alerta à sociedade, na cobrança às autoridades e na divulgação de informações que esclareçam as múltiplas dimensões do ASCA.

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