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D EN VANSKELIGE SAMTALEN – BÅDE EN SIMULATOR OG EN KATALYSATOR FOR SELVINNSIKT 83

5. DEN VANSKELIGE SAMTALEN

5.3 D EN VANSKELIGE SAMTALEN – BÅDE EN SIMULATOR OG EN KATALYSATOR FOR SELVINNSIKT 83

O início do século XXI revela-se como de expressivas transformações para o Brasil, principalmente no campo econômico. A crise financeira que atinge as nações industrializadas a partir de 2008 alça o país a uma posição de destaque, por revelar uma economia relativamente estável, experimentada em desequilíbrios econômicos. Ao desestabilizar-se de sua posição de potência mantida por anos, Estados Unidos e nações europeias cedem espaço a novos protagonistas no cenário mundial, como Brasil e China.

A mudança do papel de coadjuvante para ator principal convém à elite dominante, que aspira uma nova posição na história. O fato de a notoriedade chegar (também) pelas mãos de um presidente operário78, ajuda a tornar uno o sonho de Nação industrializada, apta a almejar a ascensão ao bloco dos países industrializados. Nesse momento convergem as correntes que “[...] identifica o progresso nacional com o da classe que o orienta e com o esforço de industrialização” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 217), e a que deseja conciliar uma nova nacionalidade com aquela do passado, que “vem de baixo” e mantém “a consciência de sua diferença como Nação em particular” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 217).

Nesse alternar, o Brasil que gravitava em torno do processo de globalização é definitivamente absorvido por ele, conforme exemplificamos a partir desse ponto.

Pesquisa da emissora inglesa BBC, realizada com 28.619 cidadãos em 27 países (BBC

World Service Contry Rating Poll) sobre 16 países e a União Europeia, identificou o Brasil

78 O torneiro mecânico e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, fundador do Partido dos Trabalhadores, foi

eleito, em 1986, deputado federal constituinte com a maior votação do país. Concorreu à Presidência da República em 1989, 1994 e 1998, sendo derrotado nas três eleições. Em 2002 foi eleito presidente do Brasil. Reelegeu-se em 2006.

como o de maior crescimento em percepção positiva no levantamento ocorrido entre 2 de dezembro de 2010 e 4 de fevereiro de 201179, saindo de 40% para 49% na comparação com a pesquisa do período antecedente, e registrando 20% de percepção negativa entre os entrevistados (ver Gráfico 1). De acordo com o texto de análise, o Brasil foi o país cuja reputação desfrutou melhoria mais significativa. Entretanto, o que de fato chama atenção em nossa leitura da pesquisa é o fato de a imagem do Brasil estar mais clara na mente dos pesquisados. O número de respondentes que declinaram indicar sua percepção sobre o Brasil reduziu em 6 pontos em relação à pesquisa anterior.

Isso nos leva a apreender como a globalização, a consequente rapidez com que a informação é repassada de um lado a outro, de um país a outro, de idioma a outro, a conexão de culturas e o transbordamento de imagens midiáticas afetam na construção de imaginários.

A imaginação, assim como todo o resto (incluindo estereótipos e mito), evolui. Molda- se à realidade, reconstruída diariamente, e baseia-se em imagens, que atribuem sentido ao mundo dentro do seu simbolismo (DURAND, 2002). Imagens que no século XXI são mais percebidas que entendidas, sobretudo pela velocidade de apresentação. As icônicas, fartamente trabalhadas pela mídia, ganham espaço e influenciam a leitura sobre países como o Brasil, que começam a se expor por razões e fatores além daqueles consolidados durante anos no imaginário global.

79 Os países foram classificados por meio de amostras. O trabalho foi conduzido para a BBC pela empresa

internacional de pesquisa GlobeScan e seus parceiros de pesquisa em cada país, juntamente com o Programa Internacional de Atitudes Políticas da Universidade de Maryland. Em oito países a amostra limitou-se às principais áreas urbanas e a margem de erro varia de +/- 2,8% a 4,9%. Disponível em:

<http://www.globescan.com/commentary-and-analysis/press-releases/press-releases-2011/94-press-releases- 2011/133-international-views-of-us-continue-to-improve.html>. Acesso em: 2 jun. 2012.

Gráfico 1 – Percepção de influência dos diferentes países pesquisados

A Pesquisa da BBC é realizada desde 2005. O Brasil passou a integrá-la a partir de 2008 (ver Gráfico 2), mesmo ano que também foram incorporados Alemanha e Paquistão. Na época, a BBC avaliava a imagem de Canadá, Inglaterra, União Europeia, Japão, França, Índia, Estados Unidos, China, Rússia, Israel, Coreia do Norte e Irã. No ano seguinte (2009), mais um país foi incorporado, África do Sul, e em 2010 outro, Coreia do Sul. A pergunta feita versa apenas sobre a impressão do entrevistado em relação aos países apresentados: “Por favor, diga-me se você acha que estes países estão exercendo uma influência negativa ou positiva no mundo”.

Gráfico 2 – Percepção de influência dos diferentes países pesquisados

Outra importante pesquisa que aponta o Brasil como integrante do debate global é produzida pela Imagem Corporativa desde 2009 e baseia-se em 15 publicações internacionais80. Desde o início do levantamento, em janeiro de 2009, até dezembro de 2011, a equipe da Agência analisou 13.648 matérias citando o Brasil, o que perfaz 379 artigos mensais. Em 2009 foram registrados 3.675 artigos e em 2011 foram 4.929 (ver Gráfico 3). Houve, em 2011, aumento de 87,5% no número de matérias negativas na comparação com 2009. A explicação registrada no Boletim de análise do período cita dois pontos que

80 Imagem Corporativa é uma agência de comunicação. Produz boletim trimestral com base nos temas sob os

quais o Brasil é citado nas seguintes publicações diárias: Nikkei (Japão), China Daily (China), Clarin (Argentina), El Mercúrio (Chile), El País (Espanha), Financial Times (Inglaterra), The New York Times (Estados Unidos), Le Monde (França), The Globe and Mail (Canadá), RIA Novosti (Rússia), The Economist (Inglaterra), The Times of India (Índia), The Economic Times of India (Índia), The Wall Street Journal (Estados Unidos), The Washington Post (Estados Unidos). A Pesquisa é distribuída somente a clientes da Agência e foi cedida para este artigo.

influenciaram o resultado: a contínua exposição do país, o que consolida a sua imagem, tornando-o, para a mídia, menos uma novela e mais uma realidade; e críticas contra posições internacionais assumidas pelo Governo brasileiro, perante outras nações, inclusive maior repercussão no campo macroeconômico. A tendência é que o percentual de negatividade se estabilize entre 25% e 30%.

Gráfico 3 – Citações positivas e negativas ao longo dos anos pesquisados.

Chama-nos atenção a quantidade de matérias apontando o Brasil como participante de discussões globais em relação a outros temas, apesar de uma queda de 35% em 2011 (ver Gráfico 4). A explicação analítica fornecida pela Imagem Corporativa relaciona a saída de Luiz Inácio Lula da Silva da presidência (2003 – 2010) como justificativa para a queda. Cita que a partir de 2010 o Brasil foi mais comparado a países com atuação global do que confrontado a países latino-americanos; fato que consolida a sua posição de líder na região, não sendo mais necessário mencionar tal liderança com frequência.

São dados e número reveladores de uma realidade que transporta a sociedade brasileira a um cenário global interativo, retirando-a da sua condição regional e impactando na visão de si própria.

Relembramos a realidade representada por Mazzaropi, simbolizando as tradições culturais do interior – às vezes estereotipadas, mas identificáveis pelo público – no confronto com o universo urbano, cujo alargamento de fronteiras influencia de forma contínua na (trans)formação da sociedade. Nos filmes, a cidade é insaciável e habitada por pessoas que não se incomodam em levar vantagem sobre a suposta incapacidade do caipira, que pouco compreendia as relações urbanas. A avidez o engole, ou melhor, leva-o a adequar-se ao urbano, a modelar-se com a paisagem e, assim, ampliar os limites da identidade nacional – um inchamento de margens, no pensamento de Bauman (2003) – que agora se compõe de docilidade e indolência, e também, ou principalmente, de ousadia e empreendedorismo.

Esse novo traço da identidade não era inexistente, mas camuflado pelo lado mais acomodado, conservador, por vezes apático do brasileiro. Ao se deixar absorver pelo mundo globalizado e cumprir o papel de globalizante, o Brasil reinventou sua identidade; agregou a ela novos elementos, reconhecendo-a em seu aspecto inconclusivo e dualístico. Começou a construí-la com maiúsculas, conforme expressa o antropólogo Roberto DaMatta.

BRASIL com maiúsculas, que sabe tão bem conjugar lei com grei, indivíduo com pessoa, evento com estrutura, comida farta com pobreza estrutural, hino sagrado com samba apócrifo e relativizador de todos os valores, carnaval com comício político, homem com mulher e até mesmo Deus com o Diabo (1986, p. 12).

A mudança de percepção, ou de imagem do Brasil em termos globais, se estruturou de forma paralela ao discurso emitido pelo país, que segue os caminhos do global, mesmo ainda fora de compasso. O ritmo pulsante e sensual do corpo brasileiro e a habilidade de pernas e pés abrem espaço para outras destrezas: a do químico que integra o trabalho de extração de petróleo em águas profundas – atividade altamente tecnológica que projeta o Brasil internacionalmente –, ou a do engenheiro aeronáutico capacitado em composição eletrônica, mecânica e hidráulica de aeronaves, ou ainda a do agricultor que comanda robustas colheitadeiras, tratores e pulverizadores responsáveis pela alta produtividade das terras brasileiras.

Esses três perfis projetaram o novo homem brasileiro no discurso apresentado pelo país na Exposição Universal de Xangai 2010. Havia ainda um quarto brasileiro, uma artista

plástica, mais próxima do imaginário sobre o Brasil do que os demais trabalhadores. Mulata, esguia, cujos encantos transpareciam no trabalho artesanal que produzia, como também nos momentos em que aparecia sambando, ou batucando em uma caixa de fósforos. Esses e outros brasileiros, anônimos e famosos, que compuseram o Pavilhão, serão abordados no próximo capítulo, numa análise semiótica da representação do Brasil.

5 UMA ANÁLISE DO DISCURSO BRASILEIRO SOB ASPECTOS SEMIÓTICOS E