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1. BEGYNNELSEN

1.3 D ATAMATERIALE

O conceito de identidade pode ser pensado como o oposto ao de alteridade, assim como identidade pode ser entendida pela sua relação recíproca e interdefinível com alteridade (GREIMAS e COURTES, 1979). A identidade atua para designar o traço que dois ou mais objetos comungam. Não havendo oposição, o eixo semântico aparece e provoca um efeito de identificação. É neste ponto, afirmam Algirdas Julien Greimas e Joseph Courtés, que está a alteridade: quando há o reconhecimento da identidade de ambos.

Desse ponto de vista, a identificação é uma operação metalingüística que exige, anteriormente, uma análise sêmica ou fêmica: longe de ser uma primeira abordagem do material semiótico, a identificação é uma operação, entre outras, de construção do objeto semiótico (ibidem, pp. 223-224).

Seguindo ainda a linha desenvolvida pelos linguistas Greimas e Courtés em seu dicionário analítico, distinguimos identidade em sua função de designar o princípio de permanência, ou seja, apesar das modificações sofridas pelo indivíduo ao longo de sua vida

12 As ideias de Bakhtin são marcadas pelo princípio dialógico. O autor dá à palavra diálogo um sentido amplo,

ou seja, não a restringe ao ato oral da comunicação face a face, mas a toda comunicação verbal. Que pode ser, inclusive, representada pela leitura de um livro, que ele chama de “ato de fala impresso”. Bakhtin detalha, ainda, que a compreensão deve ser entendida como uma forma de diálogo, pois esse processo se dá quando à palavra do emissor uma contrapalavra é produzida (BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: HUCITEC, 2006).

13 Lotman, no livro La Semiosfera I (1996), destaca duas origens para a semiótica: a de Pierce e Morris que parte

do conceito de signo como elemento primário do sistema semiótico, e a de Saussure e da Escola de Praga que se baseia na contradição entre linguagem e discurso (o texto). Na primeira o signo é visto isoladamente e na segunda é o ato comunicacional (intercâmbio de mensagem entre destinador e destinatário) que se considera isoladamente. O mais importante é que Lotman denomina o espaço semiótico como semiosfera, onde os signos habitam e ocorrem interações entre os sistemas de cultura.

ele continua o mesmo, persiste no seu ser. Inclusive no papel do actante (agente da ação) assumido no decorrer do discurso em que está inscrito.

Por fim, os autores assinalam uma das fases do fazer interpretativo do enunciador quando ele identifica o universo do discurso com o seu próprio universo.

Demarcadas aqui as características e nossa concordância sobre as peculiaridades do tema, vamos trabalhar o seu sentido no aspecto de construção do diálogo, de aproximar ou afastar os signos.

Ao escrever A Conquista da América, Todorov pontuou exemplos sobre identidade (igualdade) e alteridade (desigualdade). Menciona, por exemplo, que os católicos, em nome da moral cristã, vêem os índios como iguais, proporcionando uma aproximação e consequente evolução do plano de colonização, enquanto os protestantes apontam diferenças e isolam-se dos indígenas. Ambos os comportamento, porém, negam a identidade do outro – no plano de existência e no plano dos valores, mas levam a resultados inversos.

Há uma análise histórica de Todorov que destacamos como ilustrativa ao pensamento que tentamos construir. O dominicano Diego Durán, nascido na Espanha, mas educado no México, para onde se mudou ainda na infância, atua como evangelizador dos índios. Obstinado e severo em suas atividades evangelizadoras, Duran não se conforma com o fato de os índios inserirem elementos de seus ritos nas práticas cristãs, introduzindo danças e oferendas em meio àquelas constitutivas da igreja católica e que deveriam executar. A oferta de flores e folhas de milho pela Natividade de Nossa Senhora era (secretamente) compartilhada com a oferta das mesmas flores a alguma deusa pagã da tribo. Contrariado com tais atitudes, ele tentava, de toda forma, dissuadi-los. Porém, o mesmo Duran se utilizou da analogia e da comparação para explicar as realidades mexicanas aos seus leitores europeus. No livro Historia de las Indias de Nueva España e Islas de La Tierra Firme, ele escreve que a punição a traidores repete-se em ambos os lados, México e Espanha; e que a família mexicana adota o nome do seu chefe, assim como os espanhóis; conta ainda que o México é subdividido em regiões, como a Espanha; que a hierarquia religiosa é similar, e assim por diante. Todorov observa que Duran esboça a sua identidade (o autor usa a palavra retrato, cujo sentido percebido por nós é o de identidade) ao reforçar a importância de compartilhar o modo de vida dos índios, sendo essa a obrigação dos missionários: “tornaram-se bichos com os bichos, índios com os índios, bárbaros com os bárbaros, homens alienados de nossos modos e nação” (2011, p. 309).

Explorando as cartas, o livro e os relatos sobre Duran, o filósofo Todorov entende estar diante de um exemplo de deslocamento da personalidade, dada a ambivalência do missionário, uma vez que sua vida sempre se dividiu entre o país de nascimento, Espanha, e o de criação, o México. Duran compreende ambas as culturas e “[...] é capaz de traduzir os signos de uma para os da outra” (TODOROV, 2011, p. 310). Mais adiante, ao relatar como Duran procura fontes diversificadas de conhecimento para descrever a história o mais próximo possível da verdade, e não do seu ideal de fidelidade, Todorov afirma que o religioso é simultaneamente índio e cristão, ascendendo ao status de mestiço cultural. Tal perfil motiva a aproximação entre o sujeito e o objeto observado. Mas, por outro lado, afirma Todorov, acaba por bloquear o processo do saber posto que Duran atribui às suas personagens pensamentos e intenções que só cabem a ele e aos mestiços culturais de seu tempo.

Passando para outra história, desta vez contada pela socióloga inglesa Kathryn Woodward sobre o problema étnico iugoslavo, encontramos um segundo exemplo para examinar a construção da identidade no espaço relacional e de correspondência estrutural. Woodward narra um episódio entre croatas e sérvios que, em sua guerra, apagaram mais de quarenta anos de convívio de paz sob um regime comum. No texto Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual (WOODWARD, 2005), ela narra que o radialista e escritor Michael Ignatieff, numa conversa com um soldado sérvio em uma zona de guerra da Croácia central, percebe que uma das razões para tanto ódio se deve ao fato de os croatas se acharem superiores, embora todos compartilhassem a mesma origem. Woodward reconhece tratar-se de uma história de conflito, mas também de identidades dependentes de posições nacionais separadas. “Essas identidades adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais elas são representadas” (WOODWARD, 2005, p. 8).

Segue a autora citando que embora as duas etnias se diferenciem em tudo, pelo menos a princípio, ambas são da mesma região, dos Bálcãs. Ambas nasceram ali e compartilharam um longo cotidiano, inclusive simbólico. Isso acaba sendo fator de ambigüidade quanto a pontos de significância identitária. O soldado sérvio critica os croatas por se acreditarem “europeus finos” (WOODWARD, 2005, p. 9). Nesse ponto o soldado exclui a cultura balcânica do resto da Europa e se coloca como inferior, ou como sua antítese, conforme expõe Woodward. “Isso estabelece uma outra oposição, pela qual aquilo que a cultura balcânica tem em comum é colocado em contraste com a cultura de outras partes da Europa. Assim, a

construção da identidade é tanto simbólica quanto social” (WOODWARD, 2005, p. 10, grifo da autora).

O fato principal a considerar nessa história, longa e complexa, mas cujo resumo aqui avoque intenção apenas ilustrativa e complementária ao nosso quadro de debate, refere-se ao reconhecimento de que a identidade é relacional e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades (WOODWARD, 2005). No caso de identidades nacionais, a ideia de encontro como conjuntura identitária não exclui a eventualidade do confronto.

Todavia, é preciso ter em mente que uma relação acontece a partir de uma motivação. Observa Iasbeck que “[...] a coincidência de interesses em torno de um elemento motivador é o primeiro indício de afinidade que, no decorrer do processo interativo, pode recrudescer, diluir-se, assumir graus diversos de aderência e rejeição à causa comum” (1997, p. 163). Se não há motivação para o encontro, acrescenta o pesquisador, ele não acontece. Importante destacar que essa motivação pode ser entendida como o desejo de buscar identidade com outras pessoas.

Trazendo o debate para os dias atuais, observamos que há uma intensa cobrança para redefinir a noção de identidade e de alteridade. As sociedades pós-modernas ampliam suas perspectivas de análise de temas como raça, gênero e identidade. O outro já não se encontra tão separado de nossa identidade posto que o Eu está permanentemente assumindo papeis sociais; legitimando valores e compartilhando informações culturais. Nesse contexto é fundamental introduzirmos a questão da representação, cujo significado passa pelo processo de produção de sentido e de troca entre membros de uma cultura. “Envolve o uso da linguagem, de signos e imagens que respondem por ou representam coisas” (HALL, S., 1997, p. 15).

Afirma S. Hall (1997) que somos nós – na sociedade – que damos sentido às coisas, que as significamos. Dessa maneira, os sentidos mudarão de uma cultura para outra (respeitando seus códigos), ou de um período para outro. Algumas vezes, tais significados serão radicalmente diferentes na maneira como dão forma, classificam e atribuem sentido ao mundo. Então, ao pensar em representação é preciso anuir um grau de relativismo, uma falta de equivalência entre culturas, o que leva à inevitabilidade da tradução ao cruzarmos o universo mental, ou conceitual, de uma cultura ou de outra.

Stuart Hall classifica como construtivista essa abordagem de representação, pois envolve a construção de sentido ao harmonizar a conexão de três elementos: o mundo de coisas, pessoas, fatos e experiências, o mundo conceitual (conceitos mentais que carregamos em nossas mentes) e os signos que, organizados em linguagem, expressam tais conceitos.

Lévinas argumenta (1996) que sempre existe intencionalidade no ato de conferir um sentido – a exterioridade do objeto é o que se pensa dele quando é percebido. Ele explica que a consciência transcende as coisas por ser capaz de visá-las e identificá-las, dando-lhe nomes. “Representação governa a noção de verdade14 e, assim, todos os sentidos são governados por ontologia” (1996, p. 99, tradução nossa).