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2. LEDELSE, LEDERSKAP OG LEDERUTVIKLING

2.4 L EDERUTVIKLING

Nações são formadas historicamente. Representam o resultado de um conjunto de relações duradouras entre cidadãos, somados a outros fatores, como o compartilhamento territorial, lingüístico e econômico. Os elementos que distinguem cada nação são diversos e incluem, fundamentalmente, o que Josef Stalin em suas reflexões sobre “o marxismo e o problema nacional”, trabalho redigido em fins de 1912 e início de 1913, republicado diversas

vezes, sendo a última em 1979, chamou de “fisionomia espiritual”, que se revela naquilo que é peculiar a cada cultura nacional.

E sendo o somatório de instituições culturais, símbolos e representações (HALL, S., 2006), cultura nacional é o discurso que organiza as ações dos cidadãos, bem como o seu papel na sociedade. É fator primordial para a construção de identidades nacionais, uma vez que produz sentido sobre a nação, ou seja, significados identificados e reconhecidos pelos cidadãos. “Esses sentidos estão contidos nas histórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com o seu passado e imagens que dela são construídas” (HALL, S., 2006, p. 14).

Benedict Anderson traz um conceito que abrange tais reflexões e evoluem no sentido de pensar nações como comunidades, na medida em que se idealizam como estruturas harmônicas, ou camaradas (termo empregado por ele), estabelecendo a ideia do coletivo, da comunhão. “Ora, a essência de uma nação consiste em que todos os indivíduos tenham muitas coisas em comum” (ANDERSON, 2008, p. 32). O autor sustenta que a possibilidade de imaginar a nação se baseia em três concepções culturais fundamentais e uma delas é, exatamente, a da temporalidade “[...] em que a cosmologia e a história se confundem, e as origens do mundo e dos homens são essencialmente as mesmas” (ANDERSON, 2008, p. 69).

A narrativa da nação, portanto, se baseia no seu passado, tal como a história é contada, bem como na tradição real e naquela idealizada sobre uma base simbólica, cuja função é adequar o passado à imagem que se pretende perenizar.

Essa representação de nação, em todo o seu contexto cultural, encontrou, a partir de 1851, um espaço para exibir (quase no sentido de ostentar) a sua fisionomia. Naquele ano, aconteceu em Londres a Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações20, com a participação de 30 países. Nesse ambiente, as nações identificaram um local propício para perceberem (e ressaltarem) os seus traços culturais distintos, sejam eles históricos, econômicos, sociais, educacionais, tecnológicos, entre outros.

Não há, todavia, registro oficial de quando as exposições internacionais tiveram início, dentro desse contexto mais abrangente. Mas a sua origem pode ser traçada a partir de feiras tradicionais, realizadas com o intuito de colocar, frente a frente, produtores e compradores de diferentes regiões. Na Europa da Idade Média esses Encontros eram organizados para a troca de bens e, pode-se dizer, tornaram-se precursores das exposições industriais.

Na época, o comércio era praticamente inexistente. As necessidades de alimentação e vestimenta eram atendidas nos feudos. A vida transcorria sem demanda por capital, pois o que havia era uma economia de consumo. Cada aldeia produzia o que precisava. O intercâmbio de mercadorias não envolvia moeda, mas somente bens. O comércio começa a existir, de fato, após o século XII, com o início das Cruzadas e o consequente nascimento de cidades comerciais, como Veneza. A Europa desperta de seu sono feudal e espalha, pelo continente, sacerdotes, guerreiros, trabalhadores e uma nova classe de comerciantes ávida por mercadorias estrangeiras (HUBERMAN, 1981). As cidades comerciais surgidas entre os séculos XII e XIV, na rota dos navios que materializaram o contato com o Oriente, tornam-se, em pouco tempo, território para uma nova modalidade de comércio: as feiras, nascidas do encontro de mercadores que vinham de um lado da rota, com os mercadores que partiam do outro lado.

Inicialmente periódicas, as feiras organizadas na França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e Itália ganham instalações permanentes após o século XV, autorizadas pela realeza. Rapidamente se transformam em centros distribuidores, onde coexistem grandes comerciantes e artesãos locais. Crescem tanto que organizam sua própria polícia e tribunais, e seguem refinando-se e proliferando-se até o século XIX, quando uma nova modalidade de exposição de mercadorias chega à Europa, que assistia o avanço tecnológico influir diretamente na transformação da economia agrária para a economia industrial. O que acontecia naquele momento, e nas décadas posteriores, eram o amanhecer do nacionalismo na Europa Ocidental e o anoitecer do pensamento religioso. A nação se torna objeto consciente de aspiração. A 1ª Guerra Mundial (1914-1918) altera, definitivamente, o rumo das grandes dinastias, impondo o seu fim, até o auge do Estado nacional, na 2ª Guerra Mundial (1939- 1945), incentivado pelos meios de comunicação de massa, pelo sistema educacional e pelas regulamentações (ANDERSON, 2008).

No início do século XIX já se notava a conversão de um número crescente de aldeias em cidades, bem como o nítido deslocamento da população rural para centros urbanos em busca de trabalho nas fábricas. Esse movimento migratório ocasiona aumento na produção de bens e serviços. Logo, há uma intensificação do comércio que ativa e aprimora a troca de mensagens, uma vez que a negociação entre povos exige habilidades comunicacionais, tais como o saber abordar e persuadir. Havia, conforme argumenta Anderson em suas análises

historiográficas, uma transformação fundamental nos modos de apreender o mundo e, consequentemente, de pensar a nação.

Nesse sentido, as feiras e exposições comerciais são um interessante campo de observação de fenômenos da comunicação, pois representam um exercício coletivo de relações interpessoais e da construção de novas realidades. Sobre tais aspectos, Luiz C. Martino ressalta que

a necessidade de ir ao encontro do estranho, estrangeiro, diferente (alteridade) para tentar entendê-los, pode ser um indício, através do desenvolvimento de uma instituição social (o comércio) do que talvez tenha sido a primeira tomada de consciência da separação entre uma prática natural e espontânea e uma atividade consciente e racional (pois orientada para fins) de gerar comunicação (2010, p. 19). A forma como a sociedade passa a se organizar reflete o incremento do convívio entre comunidades e a proliferação do fenômeno da comunicação de massa, em especial ao longo do século XIX. É desse período a primeira exposição internacional de que se têm informações formais: Exhibition of the Year VI21, realizada na França, em 1798, com o objetivo de exibir produtos industriais. Mas foi em Londres, em 1851, que se registrou, oficialmente, a primeira Exposição Internacional, sendo logo seguida por uma segunda, em Nova Iorque, em 1853, e depois em Nova Orleans, em 185422.

O estímulo à realização de tais eventos partiu, principalmente, do segmento industrial, que os enxergavam como oportunidade de intercâmbio comercial e de conquista de mercados externos. Feiras e exposições eram, na época, a forma mais utilizada com tal finalidade, pois permitiam uma visão ampla e rápida dos recursos de uma região, inclusive do grau de avanço tecnológico, estimulando a concorrência e, sobretudo, promovendo o desenvolvimento e a circulação de riqueza.

Esses encontros impulsionaram, também, grandes obras arquitetônicas, como a Torre Eiffel, o Palácio de Cristal, o Space Needle, o Domo Geodésico e o Atomium23, erguidas respectivamente para as Exposições de Paris em 1889, de Londres em 1851, de Seattle em 1962, de Montreal em 1967 e de Bruxelas em 1958.

21 Charles Piat. Les Expositions Internationales relevant du Bureau International des Expositions. 1983.

Disponível em: <http://ensmp.net/pdf/2001/expositions.pdf>. Acesso em: 2 out. 2011.

22 Disponível em: <http://www.bie-paris.org/>. Acesso em: 2 out. 2011.

23 Space Needle é uma torre de 184 metros de altura e 9,5 toneladas, ícone da Exposição Universal de Seattle.

Domo Geodésico é uma estrutura semelhante a uma esfera, construída com pequenos triângulos, que deu forma ao Pavilhão dos Estados Unidos na Exposição Universal de Montreal. Atomium é um cristal elementar de ferro, cuja estrutura básica ganhou forma arquitetônica na Exposição Universal de Bruxelas.

Figura 1 – Palácio Cristal que marcou a Exposição de 1851 em Londres. Disponível em http://en.expo2010.cn/a/20090327/000007.htm. Acesso em 20 fev. 2012.

Figura 2 – Torre Eiffel e Fonte St. Vidal em fase de montagem para a Exposição de 1889. Disponível em http://www.loc.gov/pictures/item/90709847/. Acesso em: 20 fev. 2012.

Figura 3 - Vista da Galeria das Máquinas sendo montada para a Exposição de Paris. Disponível em http://www.loc.gov/pictures/item/90709865/. Acesso em: 20 fev. 2012.

Figura 4 – Imagem publicada no jornal Seattle Times dia 8 de abril de 1962 acompanhando reportagem sobre a

Exposição. Disponível em

http://www.curvirostra.com/tag/space- age/. Acesso em 20 fev. 2012.

Figura 5 – Foto recente do monumento Space Needle construído para o evento. Disponível em http://www.loc.gov/pictures/collection/highsm/ite m/2011632521/. Acesso em 20 fev. 2012.

Figura 6 – Domo Geodésico montado para a Exposição de Montreal. Disponível em http://www.collective-zine.co.uk/cboard/topic41752- fascinating-buildingsstructures-p3.html. Acesso em: 20 fev. 2012.

Figura 7 – Atomium que marcou a Exposição de 1958. Disponível em http://www.flickr.com/photos/allhails/2878742080/sizes/m/in/photostream/. Acesso em: 20 fev. 2012.

A função das Exposições era, portanto, inquestionável naquele momento da história. Com regras estabelecidas pelo país sede, que deliberava sobre os seus benefícios e privilégios de forma independente, cada novo Encontro se transformava em momento de demonstração de progresso da humanidade; principalmente na Europa, que entre 1871 e 191424 vive um momento de plenitude, sem grandes conflitos bélicos e com forte expansão do capitalismo. Era a época do positivismo25 de Comte, que inspirava uma nova ordem: maior respeito ao conhecimento científico, à experiência e às coisas práticas. Ao defender a observação, a exatidão, a ciência como o único fundamento verdadeiro (um guia social), o positivismo estimulava o desenvolvimento técnico-industrial e passava a ser encorajado pelas atividades econômicas e, mais ainda, pelas ideologias econômico-sociais.

O empreendimento que surgia, então, na forma de congregação de países – um casamento de interesses entre monarquia e poder econômico, como abordaremos mais claramente ao longo de nossa análise – fortalecia o conceito de nação, estabelecendo fronteiras de conhecimento e desenvolvimento, de investimento e domínio, de capacidade e evidência. Anderson, na sua lógica de nação como comunidade política imaginada, explica que elas se tornaram críveis “num sentido positivo”, devido a uma interação quase casual,

24 Período chamado de Paz Armada, que antecede a Primeira Guerra Mundial, quando a indústria bélica investe

em novas tecnologias e intensifica a produção armamentista, enquanto as nações europeias adotam o serviço militar obrigatório.

25 Embora criticada por algumas escolas, como a sociológica tradicional, as ideias de Comte tiveram grande

aceitação na Europa e também em outros países, como o Brasil, cujo governo republicano, em especial Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, adotou o seu lema (ordem e progresso) na bandeira nacional.

“[...] porém explosiva, entre um modo de produção e de relações de produção (o capitalismo), uma tecnologia da comunicação (a imprensa) e a fatalidade da diversidade lingüística humana” (2008, p. 78). O argumento do historiador se guia pelo sentido de que a condição de nação é o valor de maior legitimidade universal na vida política moderna, mesmo que traduzido em graus diversos de autoconsciência e oficialidade.

Conseqüência exata do forte desenvolvimento tecnológico e do avanço cultural e social – então impelidos pelo fenômeno comunicacional26 –, as Exposições elevam o ritmo de realizações ao final do século XIX e início do século XX. Entretanto, a necessidade de investimentos financeiros cada vez maiores para a montagem dos Encontros – um fardo para nações participantes e organizadores que se sentiam impelidos a se envolverem no projeto – e a periodicidade desordenada, mas intensa, leva a França, o império mais antigo e detentor de poder numa Europa em transformação, a buscar regulamentação e princípios de organização para as Exposições.

Em janeiro de 1928, o Governo francês coloca em prática uma iniciativa que impactou diretamente no que são hoje as Exposições Universais. Convidou os Governos dos países com os quais se relacionava diplomaticamente para discutir o estabelecimento de uma convenção internacional de exibições. O propósito era obter apoio para melhor estruturá-las e transformá- las, de fato, em um instrumento político27.

Quarenta Estados participaram da conferência internacional organizada pela França, incluindo o Brasil. O resultado mais relevante foi a criação do Bureau International des

Expositions (BIE), com sede em Paris, que ainda hoje dita as regras das Exposições. Instituiu-

se a periodicidade de cinco anos para eventos de porte Universal, com seis meses de duração, e em países que se candidatassem oficialmente a abrigá-los, cumprindo os requisitos formais estipulados pela Organização.

Concebidas como encontros mundiais (de formidável dimensão) para reflexões, trocas e descobertas, e com forte propósito educacional e promocional do desenvolvimento humano, as Exposições passaram a se submeter às regras estabelecidas pelo BIE, com exigências variadas, tais como um argumento temático, de interesse universal, que contribua positivamente para a humanidade.

26 Entre o final do século XIX e começo do século XX, a comunicação tem um grande impulso devido aos novos

meios possibilitados pelo avanço industrial e pela crescente demanda por conhecimento. Há um significativo aumento na transmissão de mensagens, facilitada pelo poder difusor das novas mídias.

Por conseguinte, o país que deseja acolher uma Exposição deve apresentar a sua candidatura ao BIE, mencionando o tema proposto, bem como a data, a duração, o estatuto jurídico e a garantia de apoio público, caso o Governo não seja o responsável direto. Há, ainda, outros deveres, como a indicação da área, das metas e cauções financeiras.

Entre 1851 e 2010 são contabilizadas 25 Exposições (Quadro 1), classificadas pelo BIE como Universais28. Quase 70% sediadas na Europa. Os Estados Unidos se responsabilizam pelas demais, exceto por três. Em 1970 o Japão abriga uma Exposição. As duas últimas também acontecem na Ásia: 2005 em Aichi, no Japão, e 2010 em Xangai, na China. A próxima, em 2015, será em Milão e o Brasil disputa a sede para a de 2020, junto com Rússia, Turquia e Emirados Árabes Unidos.

Quadro 1 – Cidades que abrigaram Exposições Universais

País Cidade Ano

Ásia Xangai 2010

Ásia Aichi 2005

Europa Hanover 2000

Europa Sevilha 1992

América do Norte Nova Orleans 1984

Ásia Osaka 1970

Europa Montreal 1967

Europa Bruxelas 1958

América do Norte Nova Iorque 1939

Europa Bruxelas 1935

América do Norte Chicago 1933

América do Norte São Francisco 1915

Europa Gante 1913

Europa Bruxelas 1910

América do Norte São Luis 1904

Europa Paris 1900

América do Norte Chicago 1893

Europa Paris 1889 Europa Barcelona 1888 Europa Paris 1878 Europa Viena 1873 Europa Paris 1867 Europa Londres 1862 Europa Paris 1855 Europa Londres 1851

O quadro evidencia o vínculo que se desejava instaurar entre modernização (no sentido de evoluir) e ocidentalização, naquilo que engloba padrões e valores europeus e norte- americanos. O sociólogo Octavio Ianni (2010, p. 108) sintetiza muito bem esse entendimento ao afirmar que “[...] a teoria da modernização do mundo, com seus ingredientes evolucionistas, leva consigo a ideia de ocidentalização do mundo. Ao mesmo tempo que implica a generalização do capitalismo, implica a ocidentalização, como processo civilizatório”. Em suas reflexões, o autor relaciona aquilo que classifica como teoria da ocidentalização à teoria da modernização, que contempla valores do ocidentalismo, inclusive o de consolidação do capitalismo.

Não se pode deixar de mencionar que o pensamento eurocêntrico que predominava na Europa no século XIX é logo assumido pelo pensamento norte-americano, uma vez que suas características de nação se amoldam às características da modernização, que abrangem distintos aspectos culturais, étnicos, sociais, entre outros.

Igualmente importante fazer menção ao fato de que durante muitos anos houve uma preponderância da idéia de que a cultura europeia era referência mundial para todas as nações, como se fosse a única verdadeira. A Europa estaria em harmonia com a modernidade, enquanto as demais regiões do Globo condensadas ao pensamento primitivo do pré- modernismo. Esse aforismo se propaga paralelamente à expansão do colonialismo na América e na Ásia, iniciado a partir do século XV. E por colonialismo podemos entender a difusão dos saberes, das linguagens e, até (e muito importante), do imaginário de evolução e progresso.

Hoje, todavia, existem formas contrárias de analisar o eurocentrismo, inclusive classificando-o como fenômeno etnocêntrico; ou como um discurso, ou uma ideologia, visto que ele pode ser considerado a expressão da dominação objetiva dos povos europeus no mundo, como apregoa o economista egípcio Samir Amin (1989), em sua vasta literatura sobre o tema. O eurocentrismo esteve presente em toda a construção ideológica das Exposições Universais, que se tornou palco para mostrar toda a capacidade desenvolvimentista da região. Era como se a Europa estivesse apta a educar os demais povos e dar a eles a luz e a razão.

O filósofo Tzvetan Todorov explora bem este tópico no livro A Conquista da América (2011), como também na obra Nós e os Outros (1993), onde o ‘nós’ corresponde aos europeus e os ‘outros’ seriam os povos periféricos. No primeiro livro citado, Todorov decorre, por exemplo, sobre a atitude de Colombo para com os índios, ou seja, do colonizador diante

do colonizado. De acordo com análise do autor, ou Colombo os trata como iguais, numa atitude que culmina com o assimilacionismo (projeção de seus próprio valores), ou os percebe como diferentes, colocando-se como superior. As duas experiências da alteridade baseiam-se no egocentrismo, isto é, na identificação de que os seus valores são os que prevalecem no mundo, que é um.

O que queremos pronunciar é que o eurocentrismo serviu para moldar a imagem do Outro e, novamente, as Exposições ajudaram a cumprir esse papel, conforme descreveremos ainda neste capítulo.