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Internasjonale avtaler og

In document Det norske mediemangfoldet NOU (sider 49-53)

Contudo, ao contrário de estudos feitos anteriormente, ao debruçar-me sobre as letras, percebi uma característica que não é muito comentada nas análises sobre a poesia do compositor: a mulher e o amor são objetos distintos em sua narrativa. Em grande parte das análises do discurso de Lupicínio, esses dois fatores são confundidos, gerando conclusões sobre mulheres, quando o autor está falando de amor, e vice-versa. Por mais que esses dois temas estejam misturados, eles são distintos no discurso do compositor em vários aspectos.

Em primeiro lugar, a mulher é um construto de gênero que possui formas definidas e, em função disso, para se caracterizar como tal no discurso, precisa ser objeto de uma atividade descritiva. Não há como separar o universo feminino de sua caracterização, pois é ela que o define. A mulher, no discurso lupiciniano, ao contrário do que se tem se propagado, precisa aparecer como mulher nas palavras do compositor. O fato de Lúpi ser homem não o força a automaticamente se referir à mulher no desencontro amoroso. Em sua atividade poética, ele pode estar focado muito mais em representar um sentimento de satisfação ou aversão própria do que engajado em pintar o causador deste como um representante do sexo oposto. Pelo contrário, o foco pode ser exclusivo em uma dimensão de expressividade que não se refere a gênero, transcendendo essa condição e gerando um discurso que se refere a sensações experimentadas por ambos os sexos. Nada garante logicamente que o fato do autor ser homem torna suas referências automaticamente marcadas por relações de gênero.

Exemplo disto é a música “Vingança”, o maior sucesso de Lupicínio, na qual não há sequer uma referência às mulheres. Claro que a análise histórica mostra que quem traiu o compositor e inspirou a canção foi uma dançarina, Mercedes. Contudo esta, além de representante do sexo feminino, é um indivíduo que chora, lamenta e se arrepende, ao passo que o compositor, além de homem, é um narrador que sente satisfação no sofrimento de quem o traiu:

“Eu gostei tanto,

Tanto, quando me contaram que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar.

E que, quando os amigos do peito por mim perguntaram,

um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar. Eu gostei tanto,

tanto, quando me contaram,

que tive mesmo de fazer esforço para ninguém notar. O remorso talvez seja a causa do seu desespero. Você deve estar bem consciente do que praticou. Me fazer passar esta vergonha com um companheiro, e a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou.

Mas, enquanto houver força em meu peito, não quero mais nada. É vingança, vingança, vingança, aos santos clamar.

Você há de rolar qual as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar.”

Pelo que entendo, homens e mulheres, ambos, podem ser essa pessoa chorando e bebendo na mesa de um bar. Mais do que isso, os dois podem regozijar-se pelo sofrimento do alheio, como Lúpi o fez. Talvez isso represente que essa canção tenha um potencial universalizante, podendo mais facilmente ser assumida como discurso por quem a ouvir ou cantar, independentemente do gênero.

Outras canções, no entanto, apresentam imagens bem claras e convincentes de mulher, como “Maria Rosa”21.

Nessa segunda letra, apresenta-se uma narrativa totalmente diferente. A figura da mulher é diretamente descrita e comparada no final a todas as mulheres belas de seu tempo. Lupicínio desloca o centro da narrativa do amor malsucedido para a mulher. Por mais que o compositor fale dos dois, o núcleo semântico do discurso é descrever esse ser feminino como catalisador do amor malsucedido. Isso, porque, quando se fala de amor em Lupicínio, se fala de amor, não necessariamente do amor de um homem por sua mulher.

O amor, como ideal lírico, não tem gênero necessariamente, é um discurso potencialmente significativo para qualquer gênero. Quando o foco são só sentimentos causados pela sensibilidade abstrata da existência ou desilusão amorosa sobre os indivíduos, não necessariamente aparecem homens e mulheres na narrativa. Isso pode ser dito ainda mais seriamente, quando se trata de um discurso em primeira pessoa. O eu é a representação sintática do ser que está emitindo a mensagem, ou seja, qualquer pessoa. Logo, o fato de Lupicínio ser homem não o priva de ser o “eu” amoroso, universal em seu discurso.

Portanto, a mulher na obra do compositor é necessariamente um personagem, descrito e simbolizado, e não pode ser tomado jamais como uma entidade implícita, determinante ausente, que está em todas as ações apenas pelo fato de o poeta ser homem. Pensar desta maneira é desconsiderar a importância do amor malsucedido como discurso em primeira pessoa.

O amor malsucedido em Lupicínio, então, é retratado como um sentimento abstrato recriado no âmbito do próprio compositor. Ele se remete à forma como o amante sente suas intempéries e as reproduz. A mulher, por sua vez, é um personagem em terceira pessoa, que deve ser construído, ou de alguma forma referenciado, no decorrer da canção.

Um exemplo disto é a canção “Pergunte aos Meus Tamancos”, letra de Lupicínio com música de Alcides Gonçalves. Caso recorramos à história da composição da música, lembraremos que a inspiração para a sua composição se deu quando Maria, então caso de Lúpi, deu o “bolo” no compositor, fazendo-o esperar por horas na frente da sua casa, enquanto ela saía com um jovem

mais branco e mais rico:

“Vai, pergunte aos meus tamancos quantas vezes, nos meus trancos, passei lá no teu portão.

E o placo placo placo do meu salto chegou a fazer buraco

no asfalto lá do chão. (Se tu não acredita, vai) E compreenderás, então, como tinhas te enganado. Eu não faltei ao encontro que tu tinhas me marcado. Se marcaste para as dez horas, Eu, às nove, estava lá.

Meia-noite, eu fui embora, porque cansei de esperar.”

Vemos nesta letra que, por mais que saibamos que a mulher é a causa do desgosto do protagonista, por conhecermos a história da música, não há como dizer isto apenas analisando a letra, cuja tensão principal não gira em torno da mulher, mas da agonia da espera. É uma canção que fala sobre esperar. Pode ser cantada, sem prejuízo de significado, por um irmão que está nervoso porque o outro esqueceu de um compromisso, por um pai que não aguenta mais esperar a carona da filha, etc. Não se pode depreender daí que a mulher representa a espera e o homem, a pontualidade, porque não se trata de uma canção sobre mulheres e homens.

Há também o caso em que a mulher é introduzida na música como um referencial distante, não descrito, uma espécie de figurante na canção, como em “Nunca”:

“Nunca,

nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim, as pazes contigo eu farei.

Nunca,

quando a gente perde a ilusão , deve sepultar o coração, como eu sepultei.

Saudade,

diga a essa moça, por favor, como foi sincero o meu amor, quanto eu a adorei, tempos atrás. Saudade,

não esqueça também de dizer que você me faz adormecer, pra que eu viva em paz.”

Neste exemplo, é possível ver um personagem feminino, “a moça”, ser mencionado. Contudo, ela é só um detalhe narrativo, a canção em si descreve a saudade que não apresenta nada de especificamente masculino. Logo, baseado nessa pequena aparição, não se pode tirar conclusão nenhuma de como é o universo feminino na poesia de Lupicínio, pois a canção está dando informações sobre a saudade e como o protagonista não vai, de maneira nenhuma, conceder perdão.

Portanto, para uma canção ser uma impressão poética das relações do compositor com o universo feminino especificamente, mais do que com a saudade, o amor e o sofrimento, ele precisa construir sua relação com gênero na narrativa. É preciso existir na música uma imagem de mulher que seja protagonista, ou pelo menos atuante, como é em “Maria Rosa”. Mais um exemplo em que o compositor traz para a letra de canção sua visão em relação ao feminino é outro grande sucesso de sua carreira e, para variar, em parceria com Alcides Gonçalves: “Quem Há de Dizer”.

“Quem há de dizer que quem você está vendo, naquela mesa, bebendo, é o meu querido amor. Repare bem

que toda vez que ela fala ilumina mais a sala do que a luz do refletor.

O cabaré se inflama, quando ela dança E, com a mesma esperança,

todos lhe põem o olhar. E eu, o dono,

Aqui, no meu abandono, Espero, louco de sono, o cabaré terminar. Rapaz!

Leva essa mulher contigo! Disse uma vez um amigo, quando nos viu conversar. Vocês se amam,

e o amor dever ser sagrado. O resto, deixa de lado. Vá construir o teu lar. Palavra!

Quase aceitei o conselho. O mundo, este grande espelho, que me fez pensar assim. Ela nasceu

com o destino da lua, pra todos que andam na rua. Não vai viver só pra mim!”

Nesta canção, há uma figura feminina, construída em sua luminosidade inalcançável. A mulher não é apenas uma moça a quem a saudade se dirige. Aqui ela é o centro semântico sobre o qual gravita todo texto: o conflito, o amor malsucedido. O compositor, mais do que centrar a música sobre seus sentimentos de agonia, pega o seu amor em primeira pessoa e transforma-o em coadjuvante que circunda a mulher, protagonista descrita e absoluta sobre o seu contexto. Aqui se tem uma visão do compositor sobre uma figura de feminilidade inextirpável, um personagem de um gênero realmente descrito e que pode, junto com outros, de outras canções, caso apresente fatores em comum, ser objeto de análise acerca de como a figura feminina é construída por Lupicínio, e não apenas deduções automáticas baseadas no gênero do compositor.

Este trabalho analisará justamente essas obras, letras em que o compositor realmente se refere a mulheres, e aos amores, que não necessitam de imputações de intencionalidade ou deduções automáticas de gênero que coloquem a mulher na poesia. Aqui, só será analisada aquela que realmente está no texto e não aquela que talvez possa estar implicitamente, uma vez que foi a razão histórica a inspirar a canção, pois esta corre risco de ter sido preterida em prol da representação de um sentimento pessoal como o abandono e a solidão, ou simplesmente exercer um papel coadjuvante que não diz nada sobre ela. Os critérios usados para a seleção das letras, portanto, foram os seguintes:

− só serão analisadas letras nas quais o compositor se refere a entes do universo feminino de forma clara e gráfica: utilizando substantivos femininos comuns ou

próprios (Maria Rosa, Carlúcia); por meio do pronome pessoal feminino de terceira pessoa “ela”; ou de pronomes de segunda pessoa (tu, vós) ou ainda de tratamento (você), caso conectados sintaticamente a substantivos flexionados no feminino;

− a figura feminina deve exercer um papel de protagonismo na narrativa das letras analisadas.

In document Det norske mediemangfoldet NOU (sider 49-53)