Para atender ao objetivo proposto e, consequentemente, confirmarmos a tese de que o processo de formação de futebolista no Brasil apresenta uma configuração atual específica que pode comprometer o processo, principalmente pelo fato de que as configurações que permitiram as experiências nas ruas, por meio de jogos e brincadeiras com bolas nos pés, as experiências nas peladas e na várzea não são as mesmas há mais de duas décadas, estruturamos esse estudo da seguinte forma:
No primeiro capítulo buscamos traçar o desenvolvimento do futebol no Brasil, destacando elementos que nos possibilitem compreender sua trajetória desde práticas que podem ser consideradas precursoras do futebol em nosso país
até o momento de confirmação social em meados do século XX. Esse capítulo foi dividido em duas partes: na primeira, desenvolvemos a trajetória do futebol por intermédio de uma perspectiva que permitiu o reconhecimento da prática de jogos com bola, jogos com bolas nos pés e futebol antes de Charles Miller, determinantes para o desenvolvimento do futebol no Brasil.
A decisão de traçar um caminho alternativo do futebol tem implicações importantes. Ao adotarmos a perspectiva de análise que antecede Charles Miller corremos o risco de até mesmo comprometermos a proposta histórica de que sua figura está associada à introdução do futebol normatizado no Brasil, tal como destaca Giglio (2007).
O futebol antes de ser association, era futebol. Dizer simplesmente que as regras, trazidas por Miller, são um marco na difusão do futebol é cometer um engano. Para se jogar algo, parte-se do pressuposto que há um conjunto de regras a serem seguidas, pois sem regra não há como definir o que se joga. Antes de ser association, o futebol tinha suas regras, mas não eram necessariamente as mesmas de uma região para outra e não tinham a preocupação de seguir o modelo do futebol association. Talvez porque grande parte das pessoas não tinham muito contato com esse tipo de futebol. Portanto, o futebol association representa a universalização da regra, isto é, para praticar o futebol association, o qual Miller estará vinculado desde sua chegada da Inglaterra, é preciso conhecer e jogar a partir de uma mesma regra. Só é possível desconstruir esse mito fundador do futebol brasileiro quando se entende que a consolidação e crescimento do futebol é o resultado de um longo processo no qual os multiplicadores, isto é, as pessoas envolvidas com a sua prática e divulgação disseminaram o futebol pelo Brasil. Portanto, aqueles que receberam os méritos devem ser vistos como importantes peças de uma engrenagem que resultou na introdução do futebol em sua cidade e, caso não estivessem amparados pelos multiplicadores, certamente demorariam ainda mais para colher os primeiros frutos da popularização do futebol no Brasil. (GIGLIO, 2007, p. 63). Ao adotarmos tal perspectiva, mesmo situando-o como agente multiplicador, como destacou o autor, não o desconsideramos. Simplesmente
admitimos um caminho complementar, o qual permite traçar uma nova trajetória em busca, tal como pretendeu Shirts (1982), pelas “pontas de um novelo que se desenrolam” (p. 88), mas não em direções opostas, como normalmente se defende.
Mesmo que aparentemente contraditórias, ambas as vertentes são valorizadas nesta perspectiva adotada, diferentemente do que acontece quando se assume o football association como produto pronto e início de tudo. Necessitamos então assumir que, em algum momento, há uma interação, mesmo que imperceptível entre a cultura local dos jogos com bolas e a cultura inglesa do football. Tratá-las como distintas implicaria em assumir uma cultura genuinamente local e outra genuinamente europeia na configuração da trajetória do futebol brasileiro. Seria possível tal distinção? Freyre (2003) nos diz que não.
O importante para nós nesse momento é que, apesar de ser difícil o reconhecimento e detalhamento de momentos históricos específicos7, as brincadeiras e os jogos com bola, orientados ou não, devem ser compreendidos como facilitadores para que o football association “desembarcasse” e fosse apropriado da maneira que foi, resultado de um, tal como destacou DaMatta (1994), “documentado processo de difusão cultural” (p. 11).
Completando a especificação da trajetória do futebol no Brasil, na segunda parte tratamos a transição do futebol praticado de maneira até certo ponto fragmentada, para sua confirmação como instituição nacional. Para isso, optamos por descrever parte da história do Clube de Regatas do Flamengo. Considerado o
7 Para se ter uma ideia da dificuldade de estabelecermos situações pontuais que indicam o “pontapé” inicial do futebol no Brasil, Aquino (2002) faz referência à proibição de um jogo com bola “causador de agrupamentos de vadios e de desordens” (p. 24) encontrada nos Anais da Câmara Municipal da cidade de São Paulo de 1746.
clube com maior torcida do Brasil por muitos anos8, sua trajetória, principalmente entre o período que relatamos, 1895 a aproximadamente 1960, se mistura com a história do futebol em nosso país. Falar de Flamengo significou, por muitos anos, falar de Brasil. A escolha também se deu no sentido de compreendermos o que significava ser Flamengo no período da infância e adolescência de Zico, pois, sem dúvida alguma, o fato de ser torcedor, no interior de uma família flamenguista, num determinado momento histórico, contribuiu para sua formação enquanto futebolista. Dando continuidade à apresentação do estudo, no Capítulo II procuramos esclarecer elementos do processo de formação de futebolistas no Brasil. Pensando na estrutura do capítulo que assumimos e desenvolvemos, reconhecemos que o processo de formação se configura a partir das variadas experiências com o futebol desde a infância, independentemente se a prática se dá em um contexto sistematizado ou não. Seguindo essa proposta, na primeira parte do capítulo (Pausa para a música) destacamos uma perspectiva de análise de Norbert Elias que trata da história de Mozart, o qual poderá nos ajudar a compreender o processo de formação em questão. Na segunda parte (De volta ao jogo) buscamos tratar do processo de formação de futebolista como um todo, enfatizando os futebóis que fomentam as principais experiências formativas.
Compreendido parte do processo de formação estruturado no Brasil, no terceiro capítulo traçamos uma trajetória de formação do sujeito, enquanto futebolista, destacando elementos que consideramos importantes e que nos possibilitou identificar particularidades que nortearam o processo de formação do futebolista.
8 Atualmente é fácil acessar reportagens que apontam “empate técnico” entre o Clube de Regatas do Flamengo e Sport Club Corinthians Paulista.