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Alguns casos comprovam o interesse internacional pela biodiversidade da Amazônia brasileira a ponto de empresas transnacionais explorarem parte do potencial da floresta em negócios pró-verdes ou somente de cunho verde, mas de pouca eficácia sustentável. Infelizmente, mesmo com a facilidade de serem companhias nacionais que possam usufruir de benefícios logísticos e fiscais, ainda restam empresas brasileiras de cosméticos que desconhecem o potencial da comercialização da biodiversidade amazônica, principalmente se produzidas sustentavelmente. Destacam-se alguns casos de empresas transnacionais estrangeiras que aproveitaram, tanto as propriedades químicas comprovadas, como o elemento exótico e único que a biodiversidade amazônica oferece em seus produtos.

Com o crescente interesse pelo açaí, empresas estadunidenses têm comercializado a substância em seus produtos. Com a chegada do ativo do açaí ao mercado internacional, surgiram produtos que utilizam a fruta como a sua principal matéria-prima. A empresa Borba Nutraceuticals desenvolveu uma linha de cosméticos, balas de tratamento de pele, água antienvelhecimento e creme facial com base no açaí, que possui propriedades antioxidantes. Com a mesma ideia, a empresa Procter &

Gamble decidiu investir em sabonetes e xampus. O sucesso do açaí não se restringe à sua utilização na fabricação de cosméticos.

Na indústria do bem-estar, empresas do ramo de sucos investem altas quantias no açaí, como é o caso da bebida energética 108 blue, fabricada pela Anheuser-Busch, segunda maior fabricante de sucos do mundo. Ainda nessa linha, em setembro de 2007, a Bolthouse Farms, empresa americana fabricante de sucos de fruta, inaugurou, nos arredores da cidade de Belém, sua primeira instalação fora dos Estados Unidos, em um investimento de mais de US$10 milhões. O objetivo desta empresa é assegurar a produção diária de 60 toneladas de polpa de açaí para abastecer sua fábrica de sucos tropicais na Califórnia. Essa procura pelo açaí deve-se ao aumento de seu consumo nos EUA, onde foi eleito, em 2007, um dos sabores preferidos da população, segundo a consultoria Mintel, empresa multinacional de pesquisa de mercado.

Mais duas empresas de menor porte se destacam: a Sambazom, empresa de suco de açaí constituída por surfistas californianos, que faturou US$ 12 milhões em 2006; e a Bossa Nova Beverage, fundada pelo americano Alton Johnson e que faturou, em 2006, com apenas 10 funcionários, US$ 4 milhões com a venda do suco de açaí. Em 2007, a Bossa Nova Beverage arrecadou US$ 7,5 milhões entre investidores privados e depositou 9 pedidos de patentes relacionados ao processo de fabricação do suco de açaí. Nessa mesma linha de produtos, a Fruta Vida, empresa texana, vende um suco exótico, chamado de mistura única de sabores brasileiros, composto de mate, de açaí e de cupuaçu.

Uma característica importante e comum às empresas citadas é que a maior parte delas possui marketing ecológico bem formulado, pois suas atividades de responsabilidade socioempresarial consistem em reverter uma porção da receita anual, com a venda de produtos de açaí, em ações ambientais de proteção à Amazônia, além de assistir às famílias indígenas brasileiras que vivem da coleta da fruta.

Utilizando-se dos exemplos dessas empresas estadunidenses, percebe-se uma alta procura pelos bioprodutos, o que gerou uma remodelação nas fórmulas das principais empresas de médio e grande portes que se especializaram na venda de cosméticos com base natural: Yves Rocher (francesa), The Body Shop (inglesa), Biotherm (francesa), Clarins (Francesa), Ushua (francesa), Rose Brier (americana) e Mahogany (americana). Empresas de cosméticos como L‘Oreal, Esther Laudel e Clinique mantiveram a produção de cosméticos com princípio ativo sintetizado, abrindo novas linhas específicas de produtos com base natural para atender à crescente demanda

do consumidor verde. Nesse sentido, a mensagem do presidente da L‘Oreal constitui excelente indicador da tendência internacional do mercado de cosméticos: ―O futuro pertence ao moderno e poderoso homem de negócio capaz de enfrentar o desafio tecnológico, científico e ambiental‖. Visão que sugere o potencial da valorização econômica da biodiversidade, tanto no que tange ao desafio científico e tecnológico da biotecnologia, quanto na acelerada incorporação de produtos cosméticos com base natural.

Segundo a American Chemical Society e a Royal Society of Chimistry, a indústria de cosméticos nos EUA vende US$ 18 bilhões, dos quais, 10% são de produtos com base natural. Tal como na indústria farmacêutica, a participação dos insumos naturais no valor da venda tem estimativa de 10%. Para elucidar como tais empresas transnacionais desenvolvem a comercialização do promissor e não menos lucrativo mercado verde, segue um breve relato da marca de cosméticos inglesa, The Body Shop.

3.8.1.THE BODY SHOP

A The Body Shop, fundada em 1976, por Anita Roddick, rapidamente se expandiu com a proposta de oferecer produtos 100% ecológicos e sem teste em animais, o que a transformou em empresa-símbolo do comércio na Grã-Bretanha. Sua expansão internacional começou em 1978, com um pequeno quiosque na cidade de Bruxelas. O sucesso foi tanto que, em 1982, a rede inaugurava duas lojas por mês.

O envolvimento dessa marca nas questões ambientais e sociais teve início em 1985, quando ela patrocinou pôsteres e campanhas do grupo ambientalista Greenpeace. Posteriormente, em 1987, a empresa criou o programa Trade Not Aid, para o comércio justamente entre pequenas comunidades fornecedoras de matéria-prima natural. A The Body Shop estabeleceu parcerias com 37 comunidades no mundo, estimulando a utilização do óleo de gergelim da Nicarágua, da manteiga de cacau de Gana, da juta de Bangladesh e da já estudada castanha-do-Brasil.

Em 1998, o faturamento da rede atingiu US$ 950,00 milhões. Atualmente, a cada quatro segundos, um produto da marca é vendido ao redor do mundo. Estima-se um faturamento anual médio de US$ 846 milhões, com lucro calculado em US$ 50.8 milhões. Com isso, o valor da marca gira em torno de US$ 727 milhões, segundo

levantamento do Euromonitor em 2008. A marca The Body Shop possui 12 mil funcionários e vende seus mais de 1.200 produtos, de xampu a maquiagem, por meio de 2.133 lojas (2/3 em sistema de franquia), que atendem mais de 77 milhões de clientes espalhados por 55 países. Seus principais mercados são a Grã-Bretanha e os EUA. Em 2006, a empresa francesa L'Oréal comprou a rede The Body Shop por US$ 1.144 bilhão preenchendo, assim, parte de seu portfólio com produtos ecológicos e competindo no setor do mercado-verde.