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3.3 Virtue as Happiness

3.2.2 The Doctrine of the Mean and Dependence

Grande marco histórico da ocupação da Amazônia está relacionado à Revolução Industrial. A Inglaterra, sua precursora encontrou, na floresta brasileira, importante matéria-prima: a borracha54, extraída das seringueiras (hevea brasiliensis)55. Logo,

devido à demanda inglesa e à abundância desse recurso, milhares de brasileiros migraram para a região, incentivados pelo governo. Para Grandin (2009), estima-se que, entre 1870 e 1900, cerca de 300 mil trabalhadores nordestinos tenham emigrado para a floresta. Esses emigrantes eram recrutados para trabalhar nos seringais, mas não tinham direito às terras. Assim, os seringais eram administrados por famílias ricas da região, que negociavam diretamente com as exportadoras inglesas já instaladas nos portos.

Com essa demanda, a exportação da borracha gerou certa prosperidade para a região, permitindo a construção das primeiras grandes obras como o Teatro da Paz (Belém, 1878) e o Teatro Amazonas (Manaus, 1898), além das estradas de ferro construídas para facilitar o transporte da borracha entre os portos e, posteriormente, para a Inglaterra.

54 Em 1750, os portugueses já haviam descoberto a utilidade comercial da seringueira.

55 Em 1839, Charles Goodyear criou o processo de vulcanização, que modificava a borracha e permitia

que ela fosse utilizada em altas temperaturas. O Brasil era o único país em que essa matéria-prima era encontrada nativamente.

Até a virada do século XX, o Brasil era responsável por 90% da borracha comercializada no mundo. ―A indústria brasileira consistia de uma estrutura baseada no extrativismo direto da floresta, com escassez de mão de obra e ausência total de competição‖ (GRANDIN, 2009, p. 137). Contudo, esse sistema só funcionaria enquanto outra forma de exploração, estruturada, não entrasse na competição.

Assim, entre 1900 e 1913, essas condições de exploração da borracha desapareceram, observam os economistas Zephyr Frank, da Stanford University, e Aldo Musacchio, do IBMEC. A popularização mundial da bicicleta e o desenvolvimento da indústria do automóvel deram início ao ―boom da borracha‖, cuja exploração intensificou-se a partir de 1900. Para Frank e Musacchio (2008, p.17) ―o aumento da demanda fez os preços subirem como foguete e isso foi um grande incentivo para a entrada de outros produtores no mercado‖.

Devido à grande procura pela borracha e por uma produção mais qualificada, esse produto brasileiro entrou em declínio. Em 1900, ele começou a ser fortemente explorado na Ásia, principalmente pelos ingleses56, que sequestraram mudas da hevea

brasiliensis para plantação em suas colônias na Malásia, interrompendo a primazia brasileira no segmento no mercado mundial. A partir de então, a região amazônica entrou em severa decadência, gerando problemas sociais e econômicos para a região.

Todavia, na década de 1940, abriu-se nova possibilidade para a borracha brasileira: com a Segunda Guerra Mundial, os aliados perderam o acesso ao produto asiático, pois os japoneses, que possuíam a hegemonia na região, faziam parte do eixo nazista. Nessa situação, o Brasil voltou a ser o principal fornecedor do produto e estabeleceu-se, novamente, sua importância como fornecedor mundial.

Os Estados Unidos da América, país em plena expansão, tinha especial interesse na borracha brasileira. Ciente disso, o governo brasileiro firmou um acordo bilateral, que consistia na entrada de capital americano, ou seja, de investimento para fomentar a modernização da região, e o governo brasileiro se encarregaria, como contrapartida, de arregimentar nova mão de obra para os seringais da Amazônia. O esforço do governo para atrair trabalhadores à floresta surtiu efeitos nas principais capitais do país,

56 Em novembro de 1938, Joseph Goebbels assistiu entusiasmado à estréia de ―O inferno verde‖, dirigido

pelo cineasta alemão Eduard Von Bosordy, rodado em grande parte na selva amazônica: ―Uma película valorosa, política e artisticamente‖, elogiou o ministro da propaganda nazista. O filme, embora inspirado em um fato histórico, era uma fantasiosa defesa do colonialismo e tinha como ―herói‖ e protagonista o explorador inglês Henry Wickham (1846–1928), que, após enfrentar índios e uma série de animais perigosos com flechas venenosas, retorna ileso para a Inglaterra com 70 mil sementes da hevea brasiliensis, a seringueira, disposto a replantá-las na Malásia britânica e, assim, destruir o monopólio brasileiro da borracha.

especialmente no Nordeste, onde foram instalados postos de recrutamento. Nessa época, o suíço Jean-Pierre Chabloz foi contratado para criar uma campanha de recrutamento intitulada ―Os brasileiros à Amazônia‖.

Apesar da euforia e da esperança de prosperidade, mais uma vez, o ciclo de riqueza da borracha durou pouco. Findada a guerra, os Estados Unidos suspenderam os investimentos e a Amazônia voltou a sofrer com a decadência econômica, como explica Grandin, (2009) com os exemplos das cidades de Fordlândia57 e Belterra58. Em 1937, 1.200 acres foram desflorestados para receber mais de 2,2 milhões de sementes, aumentando, em 1941, para 3,6 milhões de sementes. Em 1942, porém, a produção não conseguiu ir além de meras 750 toneladas de borracha, uma pequena fração das 45 mil toneladas extraídas no boom da borracha. Após gastar US$ 20 milhões nessa produção, Ford vendeu tudo ao Brasil por US$ 500 mil.

Ressalte-se que esse período da borracha na Amazônia foi pautado pelo comércio predatório, oposto à proposta do comércio verde, distinguindo-se este último por ser sustentável, protegendo o bioma e a rica biodiversidade da região, além de desenvolver trabalhos sociais e culturais com as comunidades tradicionais. Ainda, sobre a importância dos recursos naturais brasileiros e de sua produção sustentável, Caubet (2005) acredita que eles devem ser tratados como estratégicos para o desenvolvimento nacional. Pois, eles têm uma dupla face: são bens com inegável importância econômica, mas também são elementos indispensáveis para o equilíbrio dos ecossistemas.

57 Fordlândia foi o nome dado a uma gleba de terra adquirida pelo empresário norte-americano Henry

Ford, por meio de sua empresa Companhia Ford Industrial do Brasil, por concessão do Estado do Pará, por iniciativa do governador Dionísio Bentes e aprovada pela Assembléia Legislativa, em 30 de setembro de 1927. A área de 14.568 km2 fica próxima à cidade de Santarém, no estado do Pará, às margens do Rio

Tapajós. Henry Ford tinha a intenção de usar Fordlândia para abastecer sua empresa do látex necessário à confecção de pneus para seus automóveis, então dependentes da borracha produzida na Malásia, na época colônia britânica. Os termos da concessão isentavam a Companhia Ford do pagamento de qualquer taxa de exportação de borracha, de látex, de pele, de couro, de petróleo, de sementes, de madeira ou de qualquer outro bem produzido na gleba.

58 O governo brasileiro, por suspeitar dos altos investimentos estrangeiros na Amazônia, oferecia pouca

ajuda. Dessa forma, o empresário Ford ainda tentou realocar as plantações de Fordlandia em Belterra, mais para o norte, onde as condições para a seringueira eram melhores. Contudo, a partir de 1945, novas tecnologias permitiram fabricar pneus a partir de derivados de petróleo, o que tornou o empreendimento um total desastre, causando prejuízos de mais de US$ 20 milhões à época.

3.1.2.AAMAZÔNIA DE 1960 A 1980

Passados mais de 20 anos desde o fim da Segunda Grande Guerra, no início da ditadura militar (1964) verificam-se novas políticas públicas para a ocupação da Amazônia. No discurso nacionalista, os militares pregavam a unificação do país, com o principal objetivo de proteger a floresta contra a internacionalização. Em 1966, o Presidente Castelo Branco transmitiu, claramente, a preocupação em relação à floresta ao declarar a célebre frase ―Integrar para não Entregar‖.

Dessa forma, muitas ações foram realizadas no intuito de assegurar a proteção da região, fomentando novamente benfeitorias na Amazônia, época em que também surgiu a Transamazônica, inaugurada em 1972 e, dois anos depois, a Belém– Brasília. Ainda nesse contexto, por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), o governo ofereceu uma série de incentivos para produção agrícola na região. Porém, segundo o historiador Homma (2004), ―os subsídios são direcionados aos mais favorecidos‖, intensificando o enriquecimento dos mais ricos e desfavorecendo os pequenos produtores na região amazônica. Além disso e apesar da onda migratória experimentada em todos aqueles anos de ocupação da Amazônia, praticamente todas as terras ainda pertenciam oficialmente à União e aos estados. Após sucessivos incentivos à produção e à ocupação da Amazônia, os sinais da devastação ficaram mais claros. Em 1978, a área desmatada chegava a 14 milhões de hectares. (HOMMA, 2004).

Com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (CNUMAD), em Estocolmo, 1972, o debate sobre a questão ambiental ganhou espaço importante, assumindo uma dimensão política mais profunda. Entre os avanços obtidos ao longo dessa conferência, um dos mais marcantes esteve relacionado à redefinição do conceito de degradação ambiental – antes, fortemente concentrado em aspectos relacionados à poluição e à utilização de recursos naturais – ao abordar questões ligadas ao desenvolvimento humano.

Nesse âmbito das questões ligadas ao desenvolvimento humano, observa-se que novo fenômeno surgiu na região amazônica e interferiu na vida das pessoas: a venda e a disputa por terras. Essa prática tornou-se cada vez mais comum, a exemplo do comércio de terras, muitas vezes sem controle ou documentação. Frequentemente, os lotes eram cercados sem o devido controle do governo e comercializados por grileiros, que especulavam e se beneficiavam da venda ilegal de terras na Amazônia. Em 1976, o

governo fez a primeira regularização de terras na região: tratava-se de uma medida provisória que permitia a regularização de propriedades de até 60 mil hectares, que tivessem sido adquiridas irregularmente, mas ―com boa fé‖. Nessa época, a população da Amazônia Legal59 chegava a 7 milhões de pessoas. Outro evento subsequente foi o assassinato do líder sindical Chico Mendes, em 1988, considerado um marco na história da Amazônia. Neste momento, o governo brasileiro passou a sofrer pressões, inclusive internacionais, a respeito das políticas para a Amazônia.

Assim, com o início da mais recente fase da globalização, a difusão da informação em tempo real também chamou a atenção da sociedade para a problemática ambiental. Ao longo da década de 1990, em consequência deste fenômeno, as distâncias, ao menos virtualmente, reduziram-se e registrou-se uma forte aproximação entre sociedades distantes geográfica e culturalmente (HUNTINGTON, 1997; KEOHANE, 1999), facilitando significativamente a compreensão e o acompanhamento dos problemas ambientais.