3 University of Agder - Department of Law
3.2 Educational Law
V. 17a-b: O sentido básico da ação trazer chama a atenção do leitor. Trata-se de um verbo no Hifil, cujo sentido é fazer alguém fazer alguma coisa. É Deus quem faz Seu
povo vir para onde Ele quer: o lugar de Sua habitação (v. 16c). Por si mesmo Israel jamais poderia vir e permanecer diante do seu SENHOR para adorá-lo no Seu santuário
(v. 16d).
A ideia de plantar175 o povo evoca a arboricultura cananeia, segundo André Chouraqui. Ele lembra ainda: “É um tema tradicional, como o do pastor, do rebanho e da vinha”.176
173 Conforme a noção grega, a liberdade assume conotação política. Sobretudo no tempo dos
persas, trata-se da liberdade do indivíduo ou da pólis nas relações entre os estados. Também houve crises na evolução do conceito quando da oposição entre liberdade e destino, bem como na interpretação do nomos como criação humana. O conceito de liberdade ainda sofre a influência da substituição da pólis pelos impérios, o que faz o sentido voltar-se para o interior do homem (Cf. PRATSCHER, Wilhelm. Liberdade / Libertação. In: BAUER, Johannes B. Dicionário Bíblico-Teológico, p. 237.238).
174 Cf. PRATSCHER, Wilhelm. Liberdade / Libertação. In: BAUER, Johannes B. Dicionário
Bíblico-Teológico, p. 238.
175 Raiz empregada cerca de setenta vezes no AT, cuja maioria ocorre nos profetas (Isaías e
Jeremias). Esta raiz também se acha na literatura ugarítica. Victor P. Hamilton ainda observa: “Deus levou uma videira, o seu povo, para fora do Egito (cf. Ex 15,17) e plantou-a (Sl 80,8[9]) com as próprias mãos (Sl 80,15[16]; cf. Sl 44,2[3]; em meio a videiras escolhidas (Is 5,2)” (cf. HAMILTON, Victor P. [j;n'.. In: HARRIS, R. Laird; ARCHER, Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Jr. Dicionário Internacional…, p. 959.
Quanto aos verbos trazer e plantar acompanhados de sufixos pronominais referidos ao próprio povo de Israel, conforme foi salientado na primeira parte deste capítulo, podem ser sinais de que falam do povo num momento bem posterior ao acontecimento do êxodo. Assim, estudiosos defendem a tese de ser esta parte do poema bem posterior à primeira.177
Segundo Andre Chouraqui, não se pode traduzir a palavra hebraica (
hl'x]n
;) por“herança” porque não alude à morte do proprietário anterior, mas sim por posse, porque trata-se de algo estável e tranquilo. Além do mais, há um paralelismo entre a expressão
monte de tua posse e lugar de teu trono (Is 6,1-2), pois, em Ugarit, a raiz NHLT diz respeito à habitação do deus. Assim, em Isaías, o lugar do Templo era a base do trono divino.178
V. 17c-d: Alguns estudiosos preferem identificar o lugar para a habitação de
Deus ou o Seu santuário com o Templo em Jerusalém. A montanha também seria
situada na Terra Prometida, agora já conquistada (cf. vv. 13.17). Neste sentido, toda a terra de Canaã seria santa, o santuário onde o SENHOR habita. Ele se distingue dos
demais deuses, neste caso, por ser um Deus próximo de Seu povo e porque desejou viver no meio dele.179
177 Segundo Cornelis Houtman, esta canção não teria sido cantada por Moisés e os filhos de
Israel, mas por Israel depois de seu estabelecimento na terra, ou seja, não pelos pais, mas pelos filhos (cf. Mek. II, 76; cf. Rashi). Prova disso seria o v. 17, que fala “deles” e não de “nós”. Houtman ainda lembra que Fohrer (também Greßmann, Beer e Noth) acha que 15,21 data do evento real, como uma crítica a Davi quando venceu os filisteus, pois somente ao Senhor cabe toda a honra. A respeito dos anacronismos, a LXX e a Vulgata traduziram os vv. 16 e 17 como um “desejo”, mas a Peshita os traduziu como “tempo futuro”. Há, pois, muita diversidade de opiniões a respeito da data desse canto: Cross e Freedman pensam nos séc. XII/XI, “mas sua exegese dos vv. 13.17 é insatisfatória”; Greßmann pensa no tempo de Davi/Salomão, e Rozelaar concorda com ele quanto ao tempo de Davi; Beer, Hyatt e Tournay pensam no tempo de Josias (séc. VII); Fohrer, Bender Haupt e Strauss pensam, “no mínimo, no tempo antes do Exílio, mas provavelmente na era pós-exílica” (cf. HOUTMAN, Cornelis. Exodus. Historical Commentary on the Old Testament, v. 2, p. 24-242).
Também Rabbi Menachem Mendel Schneerson, o Rebe de
Gianfranco Ravasi, por exemplo, divide a perícope (Ex 15,1-21) em três estágios de elaboração: o primeiro estágio seria o Cântico de Míriam (vv. 19-21), o segundo, a ação do Senhor marcando o tempo da marcha enquanto liquida seus adversários (vv. 1-12) e o terceiro estágio compreenderia os vv. 13-18 com o movimento do povo deslocando-se para a “Terra Prometida” e sua conclusão com uma aclamação litúrgica própria dos Salmos (10,16; 29,10; 93,1; 96,10; 146,10). Confira ainda Mq 4,7 (cf. RAVASI, G. Êxodo, p. 76-77).
178 Cf. CHOURAQUI, André. A Bíblia…, p. 198.
179 Cf. DRAY, Stephen. Exodus: Free to Serve, p. 91. São também da mesma opinião de que o
santuário seja o Templo ou o Templo Monte e a montanha toda a terra de Canaã, ou pelo menos a cidade de Jerusalém, as seguintes obras: DAVIES, G. Henton. Exodus…, p. 130; DURHAM, John I. Exodus. Word Biblical Commentary…, p. 209; ALTER, Robert. The
Lubavitch, dá razões para apoiar quem defende essa mesma linha de pensamento. Assim ele escreve:
A Canção do Mar descreveu passo a passo como os egípcios foram derrotados e o terror que recaiu sobre as outras nações. O próximo passo que os judeus teriam esperado é a chegada deles em segurança à Terra de Israel. Assim, no v. 17, eles declararam que, depois que Deus finalmente os trouxer à Terra (“Você os trará e os plantará…”), eles construirão para Ele um “santuário”, i. é, o Primeiro Templo.180
Vale a pena notar a importância que a Bíblia confere ao vocábulo mão (
dy
"),181Segundo Rashi, enquanto o Universo foi criado somente com uma das mãos do
SENHOR (cf. Is 48,13), o templo foi criado com as Suas duas mãos. E o tempo certo em
que este será construído com ambas as mãos do SENHOR será no tempo quando “o
Senhor reinará por todo o sempre” (Ex 15,18), no futuro quando todo o Reino será dEle. O templo é mais enfatizado do que o universo inteiro porque é no templo que a Divina Presença reside mais do que no resto do mundo. Assim também acontece na criação do homem. Deus o criou com suas duas mãos e à sua imagem e semelhança. Portanto, o principalmente, no contexto do êxodo. No v. 9g o inimigo pretende herdar o povo de
Deus, com sua mão, ou seja, apossar-se dele para sempre, mas não consegue. Então,
Deus usa Sua mão direita para destruir o opressor do Seu povo — cf. Tua destra (vv. 6.12) — e para fazer este povo sair do Egito com “braço erguido” (cf. Ex 14,8). Ademais, a mão de Moisés (cf. Ex 14,16.21.26.27) torna-se símbolo da própria mão do
SENHOR (cf. Ex 13,3.9.14.16) agindo para libertar Seu povo da escravidão egípcia.
Agora, aqui no v. 17d as mãos divinas entram de novo em ação. Deus já não usa sua
mão para a destruição, mas utiliza suas duas mãos para a construção ou estabelecimento do Seu santuário.
180 MILLER, Chaim. Chumash. O livro do Êxodo…, p. 102.
181 Na Bíblia, há uma relação muito próxima entre mão e braço de Deus. No contexto da
criação, é a mão de Deus que faz o céu e a terra (cf. Is 66,2) e como a mão do oleiro, a Sua modela (Jó 10,8; Jr 18,6; cf. Gn 2,7) o ser humano. A sombra de Sua mão pode evocar proteção (Is 49,2) e nela se encontra segurança (Sb 3,1; cf. Sl 31,6 = Lc 23,46). O SENHOR
toma posse do profeta e comunica-lhe o espírito de visão quando põe “sobre” ele Sua mão (Ez 1,3), mas também ela pode fazer-se pesada (Sl 32,4) e ferir (Is 5,25; cf. Hb 10,31). Seu
braço pode ser símbolo de poder (cf. Is 53,1) e de santidade (Is 52,10) (cf. RIDOUARD, André. Brazo. In: LÉON-DUFOUR, Xavier; DUPLACY, Jean; GEORGE, Augustin, et al.
SENHOR mostra um interesse especial pelo homem mais do que por suas outras
criaturas.182
Noel D. Freedman segue esta mesma linha de Rashi ao defender a tese de que o verdadeiro templo de Deus de que fala este versículo foi feito não por mãos humanas, mas sim pelas mãos divinas. Por ser obra do próprio Deus, esse templo só pode ser localizado no monte santo: o Sinai / Horeb,183 ponto central de adoração e ponto focal da entidade político-religiosa de Israel. Freedman ainda mostra a origem de tal identificação. A montanha sagrada se refere, de modo particular, à montanha sagrada da mitologia cananeia: Sapon, a qual seria associada primeiramente com Baal e de forma diferente com El. Assim, no Norte (Sapon), haveria duas montanhas: Cassius, montanha de Baal, e Amanus, de El, segundo Frank Moore Cross. Baal mesmo teria construído seu templo, sem o uso de mãos humanas.184
A palavra ADONAI, provavelmente, no grego “Adonis”, tem um precursor
semítico (fenício). Segundo Dalman tanto o Pentateuco Samaritano quanto o Targum defendem a ideia de que a palavra seria explicada do ponto de vista do cantor que chama Deus de eli no v. 2. A palavra significaria Senhor Absoluto. Por outro lado, Baudissin prefere ver a palavra como um vocativo, afirmando que o termo é original. Segundo Eissfeldt, não significa “meu Senhor”, já que a terminação não parece ser um sufixo possessivo. Tratar-se-ia de uma forma bastante recente e pressuporia a pronúncia
adoni mais antiga. A terminação “ai” poderia ser sufixo pronominal de primeira pessoa no singular ou um sufixo nominal.185
Por outro lado, percebe-se que houve uma variação semântica da forma ADONAI,
o que explicaria a impossibilidade de entendê-la unitariamente. Eissfeldt afirma que o presente poema usa a palavra por volta da primeira metade do séc. X a.C., ou antes. Na literatura profética o termo é acompanhado do predicativo “Sabaot”, evocando o
182 Cf. DORON, Pinchas. Rashi’s Torah Commentary…, p. 76.
183 Nesse ponto Rashi e Freedman se distanciam. Rashi, ao observar que há uma repetição,
explica que se trata de dois templos. O primeiro templo corresponderia àquele que foi construído na terra de Israel, e o último templo àquele que seria construído na Era Messiânica (cf. MILLER, Chaim. Chumash. O livro do Êxodo…, p. 102-103).
184 Cf. FREEDMAN, D. Noel. Temple without Hands. In: Temples and High Places…, p. 21-
22.
185 Cf. EISSFELDT, O. yn"doa]. In: BOTTERWECK, G. Johannes; RINGGREN, Helmer, FABRY,
SENHOR supremo e Sua força. Os profetas Amós, Isaías e Ezequiel evidenciam a excelsa
majestade divina quando usam ADONAI como predicativo da onipotência divina.186