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diskriminering av elever

In document Å høre til NOU (sider 107-110)

Outra temática da documentação fotográfica de Flieg são as reportagens ambientadas em hidrelétricas e termelétricas, realizadas entre as décadas de 1950 e 1970.122 Cronologicamente, essas coberturas começaram em 1956, quando o fotógrafo registrou para a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do Grupo Votorantim, a construção da Usina Hidrelétrica de Cachoeira do França, no vale do rio Juquiá, no município de Juquiá, São Paulo. Nesse mesmo ano, Flieg documentou a Usina Hidrelétrica Mascarenhas de Moraes (antiga Usina Hidrelétrica de Peixoto), entre os municípios de Ibiraci e Delfinópolis, Minas Gerais, para a Brown Boveri.

Entre 1972 e 1975, por encomenda do consórcio italiano Grupo Industrial Elettro Meccaniche Per Impianti All‟Estero (GIE), fotografou a construção das usinas hidrelétricas do Complexo Urubupungá-Jupiá-Ilha Solteira, na bacia do rio Paraná: Usina Hidrelétrica Engenheiro Souza Dias (Jupiá), na interseção dos rios Paraná e Sucuriú, entre as cidades de Três Lagoas (MS) e Castilho (SP); e Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, na divisa dos estados de São Paulo e Mato Grosso (SÃO PAULO, [1981]). De acordo com Palma (2003), os registros anuais da evolução da obra de Ilha Solteira constituem-se numa das documentações mais sistemáticas feitas pelo fotógrafo.

O consórcio de indústrias italianas de equipamentos elétricos GIE foi autorizado a funcionar no Brasil por JK, em 1958. Flieg foi indicado pela diretoria da Brown Boveri para realizar coberturas fotográficas para essa companhia (SÃO PAULO, [1981]). Em 1962, o GIE foi contratado pela estatal Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa) para integrar o consórcio de empresas participantes da construção das hidrelétricas da bacia do Rio Paraná,

121 Depoimento de Hans Günter Flieg a esta pesquisa, em 1 de agosto de 2019. 122

As coberturas fotográficas de hidrelétricas e termelétricas realizadas por Flieg estendem o recorte temporal de nossa pesquisa (décadas de 1940 a 1960), mas optamos por acrescentar esses trabalhos por entendermos que são uma extensão do tema da fotografia industrial.

projetadas para aumentar a capacidade energética dos estados do Sudeste, em especial São Paulo, a região mais industrializada do país (SILVA; ROTTA; COSTA, [2006]). Para o GIE, Flieg fotografou também o Complexo Termelétrico Governador Jorge Lacerda, em Capivari de Baixo, localidade próxima ao município de Tubarão, em Santa Catarina, e a Usina Termelétrica Presidente Médici, na cidade de Candiota, Rio Grande do Sul, em 1977.

Em decorrência da implantação da CBA, em 1955, a Votorantim iniciou a construção de usinas hidrelétricas próprias para sustentar a demanda de energia necessária à operação da fábrica de alumínio, tornando-se, assim, menos dependente da energia gerada pelo Estado (VOTORANTIM, [2019a]). Entre 1975 e 1976, Flieg voltou a registrar as usinas hidrelétricas do Complexo Juquiá, dessa empresa (Cachoeira do França, Serraria, Cachoeira de Alecrim, Barra, Cachoeira do Fumaça, Salto do Iporanga e Itupararanga), construídas nos rios Juquiá e Sorocaba, que compõem a bacia hidrográfica do rio Ribeira do Iguape, no estado de São Paulo.

Além de Flieg, outro profissional que se dedicou ao registro de hidrelétricas foi Thomaz Farkas, o que demonstra que esse era um filão de mercado, dentro da fotografia industrial, para alguns fotógrafos modernos. No caso de Farkas, os registros fizeram parte da formação do fotógrafo como engenheiro, por meio da exploração dessas grandes estruturas de concreto a partir das possibilidades formais oferecidas pela linguagem moderna.

Em nossa visão, ao criar imagens de grandes obras de usinas hidrelétricas e termelétricas, Flieg se colocou mais próximo do que, em estrito senso, se conceitua como um fotógrafo documental: “[...] profissional que produz uma grande reportagem fotográfica resultante de um envolvimento de anos de trabalho sobre um determinado aspecto da vida [...]” (COELHO, 2012, p. 22). Nossa percepção se respalda na intensidade dos trabalhos realizados e no conjunto de imagens resultante da cobertura sistemática do fotógrafo, capaz de construir uma narrativa visual potente para esse tema.

A série documenta o desenvolvimento da engenharia e o aumento da infraestrutura energética do país, através da exploração de fontes hidráulicas (no caso das hidrelétricas) e minerais (com a combustão do carvão, as termelétricas fornecem uma fonte alternativa de geração de energia), em decorrência da crise mundial do petróleo a partir de 1973. É importante frisar que, nas coberturas de hidrelétricas e termelétricas, o fotógrafo foi contratado pela iniciativa privada, como em todos os trabalhos que realizou ao longo da carreira, não tendo, portanto, nenhuma relação direta com o governo militar e com as companhias estaduais de energia envolvidas nessas empreitadas. No entanto, suas imagens

acabam por se constituir em registros documentais do investimento nesse setor no período da ditadura.

Da mesma forma que procedeu nas coberturas de plantas industriais desde os anos 1950, Flieg fez o registro pormenorizado de cada uma dessas grandes obras. Nas hidrelétricas, fotografou as barragens com suas comportas; os vertedouros de água; os ambientes internos, como salas de comando operacional e casas de força, onde se instalam turbinas e geradores; os equipamentos elétricos e mecânicos; os transformadores de energia; as estruturas para a tomada de água e para o controle de sua vazão, entre outras partes. Nas termelétricas, caldeiras, turbinas, geradores, transformadores, condensadores.

As imagens dos grandes espaços abertos em que essas obras foram instaladas, no entanto, são as que inegavelmente possuem maior apuro formal e técnico. Nessas imagens, sobressai, não se sabe se de acordo com a expectativa dos clientes ou se por uma leitura poética do tema pelo fotógrafo, o duelo entre a natureza e a engenharia. Flieg registrou, em diferentes ângulos e enquadramentos, a densidade de cenários até então intocados, para mostrar a transformação das condições naturais do ambiente com a implantação dessas grandes estruturas industriais.

Para criar registros de grande plasticidade das hidrelétricas e termelétricas em meio à natureza, o fotógrafo teve que adaptar sua técnica e escolhas formais para uma nova situação, mais complexa do que o registro das fábricas, muitas delas, como mencionamos, instalações rudimentares que ele redimensionava, com os recursos técnicos de que dispunha e com seu olhar fotográfico, para que representassem uma indústria brasileira idealizada, desenvolvida e pujante.

No caso das grandes obras, muitas vezes o aspecto rudimentar persistia, cobrando do fotógrafo ajustes em sua prática para driblar problemas operacionais. No entanto, Flieg, que a essa altura já tinha um processo de trabalho formatado, pôde adaptar-se sem perder a inventividade e o caráter autoral de suas representações. Um exemplo das especificidades da cobertura de grandes obras e de seu esforço para entregar registros que não precisassem ser retocados foi dado pelo fotógrafo quando comentou, em depoimento para o MIS/SP, a reportagem da usina termelétrica de Candiota (RS), para o GIE, em 1977:

Havia uma falha técnica nos filtros de cinzas, nas chaminés [...] saía fumaça poluente [...] era uma falha grave. [A cobertura fotográfica era] para um catálogo de vendas em cores [...] distribuído em todo o mundo. Essa firma instala usinas na China, na África, na Europa e muitas na América do Sul. O engenheiro disse: “Não pode haver fumaça! Vê lá o que você faz: mistura fumaça com as nuvens e depois retoca”. Durma-se com um barulho desses! Cheguei à noite [à cidade] e vi uma linda fumaça a 5 quilômetros. Fui ao hotel dos engenheiros com o barulho da usina nos

ouvidos. Às 5 horas da madrugada acordo, não há mais barulho. Quando veio o dia, vejo a usina parada. [...] Havia uma tal ineficiência do pessoal que volta e meia essa usina estava parada. Meu problema estava resolvido, tirei lindas fotos sem fumaça. Quando chegou o catálogo impresso da Itália, isso é um absurdo, na capa eles tinham retocado o fotolito de quatro cores com um pouquinho de branco, porque ao menos um pingo de vapor deveria sair [das chaminés] ([ENTREVISTA...], 1981c).

Outro exemplo vem da colaboração de Flieg para a CBA, do grupo Votorantim, que se iniciou com a cobertura fotográfica que precedeu a inauguração da fábrica, situada ao longo da estrada de ferro Sorocabana, próximo à antiga estação Rodovalho, na atual cidade de Alumínio, região de Sorocaba, em 1955. Sobre essa cobertura, Flieg se lembra de que ao se deparar com uma estrutura industrial de 1,2 quilômetro de extensão, ao longo da ferrovia (Foto 118), entrou em “pânico”, indeciso sobre o que fazer e a quantidade de fotos que tiraria, pois a fábrica era bastante complexa:

[...] andei pela fábrica, conheci [...] e fui anotando o que precisava. Uma vez feita a visita à fábrica, eu sabia o que queria fazer. Ao andar, já pedia para tratar as poças d‟água. O engenheiro me disse que num determinado lugar havia uma falha, não estava em ordem. [O fotógrafo pediu para corrigir o problema] É preciso ser muito duro [com os clientes]. [...] não posso fotografar hoje um lugar que não está em ordem e amanhã as fotos serem publicadas. ([ENTREVISTA...], 1981c).

Foto 118 – Instalações da Companhia Brasileira de Alumínio, Antiga Estação do Rodovalho, Hans Günter Flieg, 1976.

Em depoimento a esta pesquisa,123 o fotógrafo comentou sobre a inauguração da CBA, considerada a maior fábrica brasileira à época, de acordo com Votorantim ([2019a]). No início da cobertura, o vice-presidente da companhia, Miguel Carvalho Dias, solicitou as fotos produzidas para apresentá-las a Café Filho, a fim de convencer o presidente, que estava reticente, a ir à inauguração. Flieg montou um álbum com cópias contato 9 x 12 cm e entregou ao empresário. Ao ver o álbum, Café Filho se convenceu da importância da obra e confirmou presença. Num dos registros da abertura, segundo Flieg publicado em O Cruzeiro, aparecem Café Filho, Jânio Quadros (governador de São Paulo), o senador José Ermírio de Moraes e seu filho Antonio Ermírio de Moraes em frente a uma mesa folheando o álbum montado pelo fotógrafo. Uma foto similar a esta se encontra em Votorantim ([2019b]), além de um registro de Flieg da companhia datado de 1960.

Em nossa visão, os trechos do depoimento do fotógrafo que selecionamos demonstram não só o rigor com que Flieg tratava seu ofício, exigindo as melhores condições ambientais para fotografar, mas também dois aspectos bastante importantes e distintivos de sua produção: o primeiro deles, que comentamos anteriormente, é que Flieg era consciente de que suas fotografias não eram apenas técnicas, mas também artísticas. Em razão disso, havia no processo de trabalho do fotógrafo uma preocupação com cada registro produzido que se assemelha com a concepção de obras de arte. Comentamos nesta seção que Flieg decidia cada pose em uma cobertura e, a partir delas, fazia o número de registros necessário. Essa metodologia adotada pelo fotógrafo é próxima do fazer artístico. As poses do fotógrafo equivalem a quadros; e os inúmeros registros a partir das cenas criadas ressoam à ideia de matriz e cópia, presente, por exemplo, na gravura. Ou seja, havia uma intenção artística em sua atuação, se não declarada pelo menos idealizada.

O segundo aspecto distintivo é a preocupação com a perenidade dos registros (daí a procura por uma instituição de guarda para seu arquivo, que relatamos na Introdução da dissertação) e seus usos ao longo do tempo, ao circular socialmente, exemplificados na frase: “[...] não posso fotografar hoje um lugar que não está em ordem e amanhã as fotos serem publicadas” ([ENTREVISTA...], 1981c). Em nossa visão, a atenção com a trajetória futura de suas imagens é decorrente do fato de que Flieg também sabia que sua documentação fotográfica tinha interesse histórico. Ou seja, mesmo que não fosse o ponto de partida de seus registros, já que a fotografia de Flieg em sua origem não é histórica (conforme a conceituação que também apresentamos na Introdução), havia no fotógrafo a compreensão de que o

conteúdo que estava fotografando se constituía em uma fonte visual para o trabalho do historiador.

O envolvimento de Flieg com o tema das grandes obras, o que em nossa visão o aproxima do trabalho do fotógrafo documental, transparece no apuro formal, técnico e estético das representações. O fotógrafo registrou as hidrelétricas do alto de andaimes para criar vistas aéreas e panorâmicas que demonstram a monumentalidade dessas estruturas. Fez tomadas de baixo para cima e no sentido inverso com o uso da lente grande-angular. Também registrou isoladamente barragens, redes de fiação, estruturas de ferro, turbinas, maquinário, explorando prolongamentos de linhas diagonais, a horizontalidade e a verticalidade dos elementos das cenas. Utilizou recursos formais como a seriação de elementos em composições em perspectiva, para reforçar a noção de profundidade dos ambientes internos, e a fragmentação dos equipamentos de metal para ressaltar as formas curvas e retas (PALMA, 2003).

A poesia das imagens fica explícita, por exemplo, na criação de narrativas visuais como nos registros sequenciais da Usina Hidrelétrica de Itupararanga (Fotos 119 a 121).

Foto 119 – Usina Hidrelétrica de Itupararanga, Rio Sorocaba, Hans Günter Flieg, 1975.

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