Matosinhos integra a Área Metropolitana do Porto (A.M.P.) – um agregado urbano amplo e concentrado que se caracteriza por uma forte dependência do sector terciário, com movimentos pendulares diários, de casa para o trabalho ou de casa para a escola. Há uma intensa inter-relação de funções urbanas. Pode ser considerada uma cidade-aglomeração, de centros urbanos agregados, funcionando como um "corpo" inteiro: na prestação de serviços, nos movimentos físicos, nos espaços ecológicos que procuram resolver aspirações de carácter social, educativo-culturais e de lazer (Braga da Cruz, 1986). O concelho de Matosinhos possui 10 freguesias populosas numa área de 62 km ² (ver anexo IA). Tem um clima temperado húmido, com características comuns a toda a zona costeira norte de Portugal (Dias et al., 1995).
O nosso estudo integra crianças com idades entre oito e doze anos, que vivem habitualmente numa área urbana que abrange as três freguesias nucleares do concelho de Matosinhos. Apesar da divisão administrativa, com linhas de fronteira demarcadas, o conjunto das três freguesias de Matosinhos, Senhora da Hora e Leça da Palmeira constituem um corpo urbano único, paradigma da urbanidade contemporânea, local de residência, serviços, intercâmbio social, económico e industrial activos. É neste mosaico hodierno, com laivos de cosmopolitismo e rotinas pendulares, potenciador de estímulos e constrangimentos ao desenvolvimento das crianças que assentamos o “laboratório” para observar, ouvir e estudar o palco e a vida das crianças.
8.1.2 - Breve caracterização física, económica, sócio-cultural e desportiva das
freguesias de Matosinhos, Senhora da Hora e Leça da Palmeira.
A freguesia de Matosinhos coincide com a cidade, constituindo o núcleo do concelho. Ali se localizam os mais diversos centros de prestação de serviços: escolas, centro de saúde, serviços municipais, repartições de finanças, polícia, comércio e alguns espaços de lazer. Situa-se a norte da cidade do Porto, ladeada pelas freguesias da Senhora da Hora e Leça da Palmeira, com uma linha de costa breve mas decisiva, delineando as vocações económicas e de lazer, com o porto de leixões a norte, um extenso areal de praia e um largo passeio de marginal, que faz a ligação à zona da Foz, na cidade do
Porto, aglutinando o parque da cidade, constituindo no seu todo, um amplo espaço para o lazer e recreação da população de ambas as cidades.
Fonte Divisão de Informação Geográfica da Câmara Municipal de Matosinhos / Google Maps
Figura 5 – Representação gráfica das freguesias de Matosinhos, Senhora da Hora e Leça da Palmeira Actualmente, a freguesia de Matosinhos abrange uma área total de 4,80 km ² conta com a maior população residente (29 mil habitantes) e uma das maiores taxas de densidade populacional do concelho, apresentando-se com níveis de escolaridade semelhantes à média do município e uma das mais elevadas taxas de emprego nos serviços (ver Quadro 8). Matosinhos viveu sempre do mar e para o mar!
Resultado do incremento das actividades marítimas, registado a partir do século XVI, o lugar de Matosinhos foi adquirindo uma importância urbana considerável. A partir do século XIX, a construção do porto de leixões, o desenvolvimento industrial e urbanístico e a contiguidade da urbe portuense com as interdependências existentes, sobretudo económicas, contribuíram para a rápida transformaç~o da “póvoa” de pescadores e lavradores, mantida durante séculos, constituindo o mais radical processo de evolução urbana do Grande Porto (Hélder Pacheco, 1986).
De facto, a construção do porto de leixões, permitiu uma expansão acelerada da economia local, criando uma indústria conserveira de primeiro plano em Portugal – sendo Matosinhos considerado o
Instituições de ensino frequentadas pelas crianças que integram a amostra do estudo
primeiro porto sardinheiro do mundo – e possibilitando outro tipo de indústrias e transacções comerciais; a cidade adquiriu um ritmo cosmopolita com a constante chegada e partida de navios. A industrialização em Matosinhos é tardia. Veio do mar, com a doca e o desenvolvimento das pescas.
A nova malha urbana nasce com a indústria; uma malha esboçada em finais do século XIX, praticamente a régua e esquadro, num rigor geométrico, funcionalmente adaptado às necessidades da indústria e influenciada pela explosão fabril (Helder Pacheco, 1986).
Hoje, a zona industrial das conserveiras transforma-se rapidamente em área residencial de luxo, de serviços e comércio de marca – falamos de Matosinhos Sul.
A fase do progresso industrial delineou uma nova cidade, com ruas longas e largas, numa escala ampla e desafogada. A cidade é atravessada por alguns eixos de referência que determinaram o crescimento posterior. A ligação ao exterior é garantida por boas vias de acesso (ex. IP4 a Vila Real – Bragança; IC1 Viana do Castelo – Porto – Lisboa), mas o interior da cidade está ainda insolúvel – apenas o metro de superfície apazigua as deslocações. O aumento do tráfego tornou a cidade comum, no problema geral do trânsito excessivo e, a quantidade de automóveis no centro urbano constrange os comportamentos. O município de Matosinhos integra o projecto da rede nacional das cidades e vilas com mobilidade para todos1 num contrato de adesão com a Associação Portuguesa de
Planeadores do Território (A.P.P.T.), desde o ano de 2003. Este projecto propõe ser um instrumento de planeamento para a melhoria das condições de acessibilidade do meio urbano. Está em curso a primeira fase do projecto (de três anos) abordada numa área da cidade com características de centralidade.
Na freguesia de Matosinhos coexistem diversos aglomerados de habitaç~o social, chamados “bairros”, que se foram transformando, aos poucos, em precários guetos estigmatizados; são bairros com nome: Bairro dos Pescadores, bairro de Carcavelos, bairro da Biquinha, bairro da Cruz de Pau. Há outras zonas que, apesar da intensidade de tráfego, correspondem a uma determinada centralidade, apegada à ideia do lugar privilegiado; são exemplo: a Quinta Seca, a Avenida D. Afonso Henriques, a Avenida da República ou a zona de Matosinhos Sul.
Normalmente, as áreas habitacionais possuem pequenos jardins ou pracetas; próximo do centro urbano identificam-se três ou quatro locais de lazer, descanso ou brincadeira (ex. Jardim Basílio Teles, o Adro da Igreja do Senhor de Matosinhos, parque da cidade de Matosinhos, marginal da praia de Matosinhos e o parque da cidade do Porto). Verifica-se um esforço de renovação e ampliação de
parques infantis e uma proliferação de equipamentos culturais (ex. Centro Cívico e Biblioteca Florbela Espanca) e desportivos (ex. Centro de Desportos e Congressos) de diversas tipologias e entidades proprietárias.
A existência de múltiplos clubes e associações culturais, recreativas e desportivas sugerem uma grande vitalidade associativa, que é transversal na comunidade. Segundo dados da Carta Desportiva Municipal, há na freguesia de Matosinhos (Época de 2004/2005) cerca de 1962 praticantes inscritos em clubes, destacando-se a prática do futebol, natação e voleibol. Hoje, o mar e a praia assumem especial importância na ocupação dos tempos livres, nas actividades de lazer, no reinventar e descobrir novas práticas desportivas (futebol de praia, voleibol de praia, body-board, Kit-surf, etc...).
No quadro 8 podemos observar uma síntese comparativa entre o conjunto do concelho inteiro e cada uma das freguesias em estudo (Matosinhos, Senhora da Hora e Leça da Palmeira) referente à área de superfície, à demografia e aos elementos dos diversos sectores de actividade.
Quadro 8 – Elementos sobre a área, a população e os sectores de actividade do concelho de Matosinhos e das freguesias de Matosinhos, Senhora da Hora e Leça da Palmeira
Co n ce lh o e Fr eg u es ia s Á re a D en si d ad e P op u la ci on al * P op u la çã o R es id en te * Fa m íl ia s * Sectores de Actividade** A gr ic u lt u ra , Si lv ic u lt u ra e P es ca s In d ú st ri a, Co n st ru çã o e En er gi a Se rv iç os Matosinhos
(Concelho) 62 Km2 2725,1 Hab./Km2 166275 Hab. 58119 _ _ _ Freguesia
Matosinhos 4,80 Km2 5935,0 Hab./Km2 28488 Hab. 10324 1,6 % 26,9 % 71 % Freguesia
Sra. Hora 3,70 Km2 7173,8 Hab./Km2 26543 Hab. 9296 0,3 % 25,1 % 74,6 % Freguesia
Leça 7,16 Km2 2404,3 Hab./Km2 17215 Hab. 6128 0,9 % 27,2 % 71,8 %
* INE – Censos 1991/2001
** Matosinhos – Carta Desportiva Municipal – Câmara Municipal de Matosinhos / 2005
A freguesia da Senhora da Hora acentua o registo da taxa de emprego nos serviços e no comércio, surgindo com os níveis de escolaridade mais favoráveis do município e uma densidade populacional mais acentuada que a própria sede de concelho (ver Quadro 8).
Apresenta uma extensa linha de fronteira com a cidade do Porto, através da Estrada da Circunvalação que divide os dois municípios, sofrendo uma influência directa do movimento pendular diário. Na área geográfica da Senhora da Hora localizam-se algumas das principais instituições de prestação de
serviços e comércio existentes no concelho de Matosinhos: O Hospital de Pedro Hispano, o Estádio do Mar (Leixões Sport Clube), o maior Centro de Comércio e Lazer do Norte – Norteshopping, etc… Apesar da densidade urbanística, encontramos espaços arborizados com jardins e equipamentos lúdicos; a quantidade de equipamentos desportivos existentes assemelha-se à freguesia de Matosinhos (ver Carta Desportiva Municipal – Matosinhos, 2004-2005),2 assim como, a intensidade
da prática desportiva do movimento associativo, que revela um número de 1307 praticantes, destacando-se a prática do futebol, andebol e futsal.
Leça da Palmeira abrange uma área total 7,16 km² e conta com uma população de 17 mil habitantes, o que se traduz numa densidade populacional inferior às freguesias de Matosinhos ou Senhora da Hora (ver Quadro 8). No contexto do município, apresenta-se, ao nível da escolaridade, com a segunda situação mais favorável, e, com a segunda maior taxa de emprego no sector dos serviços3.
Leça da Palmeira constitui uma vasta área progressiva onde se localizam importantes estruturas industriais, comerciais e de lazer. A já longa e polémica presença da refinaria da Petrogal e o porto de Leixões, garantem um elevado número de empregos no sector secundário; por sua vez, o Centro de Congressos e Exposições (ex. Exponor) confere à região uma reconhecida centralidade económica4.
Mas são os espaços de lazer, desporto e cultura que identificam Leça na sua história recente; a descoberta dos banhos e lazeres estivais do romantismo, além da colmeia piscatória, foi transformando Leça em estância balnear para o chique da burguesia da cidade do Porto (no séc. XIX). Data desta época o “Americano” que transportava as famílias ricas entre a praça do Infante (cidade do Porto) e Leça da Palmeira (Hélder Pacheco, 1986).
A costa oceânica e o porto de abrigo (ex. a marina) estimulam e acolhem diversas actividades desportivas ligadas ao mar: diversos clubes de vela, clubes de mergulho, surf e pesca5.A marginal
junto ao mar, a piscina das marés, as quintas da Conceição e Santiago, o kartódromo e o centro hípico, são espaços que referenciam estilos de vida de uma população que, residindo em Leça da palmeira, se desloca diariamente a trabalhar para o outro lado do estuário do rio Leça, em Matosinhos ou na cidade do Porto (ver em anexo IA, o mapa das três freguesias em estudo na panorâmica geral do concelho de Matosinhos).
2 Carta Desportiva Municipal – Câmara Municipal de Matosinhos / 2005 3 Ibid
4 Implantação da multinacional sueca – IKEA no concelho de Matosinhos que, juntamente com o Marshopping, constituem uma das
mais amplas superfícies comerciais da Europa – 2008
5 Segundo dados da Carta Desportiva Municipal (Época de 2004/2005), a vela é o desporto mais praticado na freguesia de Leça da