A criança que vive em contextos urbanos é muitas vezes impedida de se deslocar livremente pelas proximidades da sua residência, limitando-lhe o acesso a diferentes tipos de espaços e prejudicando a escolha de eventuais lugares favoritos. A menor possibilidade de vaguear sozinha, significa menos oportunidades de criar uma ligação emocional com o ambiente. Parece haver uma associação entre a autorização de mobilidade e o tipo de lugar favorito; no entanto, os diversos tipos de ligação entre os lugares preferidos e a independência de mobilidade ainda estão por esclarecer (Korpela et al., 2002).
Num estudo desenvolvido na Finlândia, Korpela et al. (2002) pretenderam analisar a variação de sítios preferidos, entre crianças dos dois sexos e de diversas idades, projectando situações que induzem a uma necessidade de busca de equilíbrio emocional retemperante, em termos cognitivos. Essa preferência pode ocorrer de uma forma solitária ou em grupo. A escolha dos sítios preferidos pode também relacionar-se com as restrições parentais. Os autores pretenderam, assim, analisar o papel da experiência retemperante, na selecção dos lugares preferidos das crianças. Foram recrutados dois grupos etários (8-9 e 12-13 anos de idade), numa amostra total de 55 crianças, sendo 26 do sexo masculino e 29 do sexo feminino. Todas as crianças eram oriundas de duas cidades Finlandesas: Tampere e Helsínquia. Viviam em apartamentos e deslocavam-se a pé para a escola. Foi seleccionado como grupo de comparação (12-13 anos de idade), visto que, investigações anteriores referem que neste grupo etário as crianças têm menos restrições parentais na independência de mobilidade e a sua concepção de privacidade pode incluir estar sozinho ou com os amigos. Como
instrumentos, utilizaram entrevistas às crianças; cerca de 50 crianças apresentaram-se voluntariamente para usar uma máquina fotográfica e fotografar os seus lugares preferidos, durante os tempos livres. Habitualmente as crianças descrevem os seus lugares favoritos como espaços de oportunidade, para realizarem actividades e brincarem, para esclarecerem ideias, relaxarem ou libertarem-se dos problemas. A necessidade de estar só, a importância dos lugares escondidos e a necessidade de escapar aos compromissos sociais, são ideias comuns referidas em estudos com crianças (Korpela et al., 2002).
Do estudo, sobressaem algumas conclusões sobre o carácter dos lugares preferidos, as suas associações com as características da população infantil e influencias parentais e as razões retemperadoras e emocionais (de auto-regulação) que estão na origem da sua escolha:
1. Todas as crianças referiram ter um espaço preferido (lugar preferido);
2. Dos espaços preferidos, por eles indicados, os espaços de desporto e a área residencial aparecem mais representadas e os lugares naturais e de serviços comunitários aparecem menos representados;
3. Não encontramos uma associação significativa entre a idade e o tipo de lugar favorito; 4. As raparigas tendem a valorizar mais os lugares naturais como seus lugares favoritos que os
rapazes;
5. Grande percentagem das crianças (cerca de 94%) afirma ter tido permissão para ir aos lugares favoritos;
6. O grupo de idade e género não diferem significativamente em relação a terem ou não terem permissão;
7. Apenas 46% dos pais mencionaram correctamente os lugares preferidos dos filhos;
8. Das razões para visitar os lugares preferidos, 24 crianças mencionaram actividades (brincar, jogar), 14 mencionaram razões sociais (encontrar amigos), 5 razões emocionais ou cognitivas (sossego, aprender, familiaridade) e 3 outras razões individuais;
9. Há uma tendência para as crianças mais velhas utilizarem com mais frequência (do que as mais novas) os espaços favoritos, para relaxamento e recuperação;
10. Ambos os géneros o fazem com frequência semelhante;
11. As crianças mais velhas têm mais autorização para se deslocarem que as mais novas. E as crianças do sexo masculino mais que as do sexo feminino;
12. Não se encontraram associações estatísticas significativas, entre o lugar preferido e a restrição parental;
13. Os grupos com restrição e sem restrição, não diferiram significativamente, na distância do lugar preferido a casa;
14. Em termos gerais, as crianças manifestaram o mesmo grau de preferência pelos vários tipos de lugares: desporto, residencial, natural e serviços comunitários;
15. O uso do espaço favorito para retemperar ou auto-regulação emocional não implica visitar o lugar sozinho. Contudo, as crianças 12-13 anos vão visitar mais vezes os lugares com amigos que os grupos mais novos. Isto sugere aos autores que os problemas se esclarecem em conversa com amigos, num lugar onde a criança pode sentir-se longe da supervisão dos pais; 16. As crianças por volta dos 13 anos começam a mencionar a escolha de estarem sozinhos ou
com amigos em lugares privados;
17. Dois terços dos pais conhecem os movimentos dos filhos, porque os lugares preferidos, identificados pelos pais, estão entre os que as crianças gastam mais tempo;
18. Uma proporção substancial de pais parece não saber o significado emocional que os lugares têm para os seus filhos;
19. Mais de um quarto de todas as crianças da amostra de 8-13 anos referiram que iam para os seus lugares preferidos após acontecimentos emocionalmente desafiadores, para relaxamento ou recuperação cognitiva (Korpela et al., 2002).
Malinowsky & Thurber (1996) realizaram uma investigação, com o intuito de analisarem o desenvolvimento das alterações nas preferências espaciais em crianças e jovens do sexo masculino, ao longo da idade; a partir da estadia num campo de férias desportivas, com a duração de duas a quatro semanas, com rapazes de idades entre os 8 e os 16 anos, os autores procederam a um trabalho apurado de observação e recolha de informação, através de questionários e entrevistas. De um total de 395 jovens integrados no campo de férias, a quem ministraram um questionário sobre o seu lugar preferido no campo, durante o tempo de estadia, foram seleccionados 155 rapazes, aleatoriamente, para a realização de entrevistas (que foram gravadas e transcritas); as respostas obtidas nas entrevistas foram categorizadas utilizando umas bases de classificação de Hart (1979)49 que têm em
conta quatro parâmetros de análise: (i) uso do espaço (terra/terreno) associado a actividade; (ii)
expressão social/interpessoal; (iii) sentido comercial; (iv) sentido estético/cognitivo. A maioria dos
49 referências dos autores a partir do trabalho de Hart – ver em Hart, R. (1979). Children’s Experience Of Place, New York, Irvington
rapazes residentes no campo de férias era oriunda de famílias de classe média, com alguns (cerca de 8%) pertencentes a etnias minoritárias. Sabe-se pouco, sobre as razões das mudanças de preferências por diferentes lugares, ao longo da idade. Sabe-se que, desde muito cedo (até à idade de 5 ou 6 anos) as crianças tendem a ver o mundo egocentricamente, considerando o envolvimento em função de si próprias.
A partir dos 10 ou 11 anos o seu sistema de referências torna-se mais abstracto; organizam uma outra perspectiva de envolvimento, em termos de referência de coordenadas, perdem a orientação egocêntrica do passado e começam a perceber o envolvimento imediato, em termos de pontos de referência fixos, como a casa ou a escola (Hart & Moore, 197350 citados por Malinowsky & Thurber,
1996).
Os resultados do estudo sugerem que, numa larga margem de idade, é escasso o número de lugares considerados “lugares favoritos”. Deixa-nos a impressão que as preferências de lugares são semelhantes nos rapazes de todas as idades. Numa nota, os autores referem que este estudo e muitos outros, têm negligenciado as razões que os rapazes apresentam para gostarem dos espaços referenciados como preferidos.
No entanto, o que as crianças procuram num determinado ambiente pode mudar com o crescimento. Para os mais novos ficou claro que preferem lugares de actividade. Cerca de 72% dos rapazes mais novos, afirmam, fazer mais uso da terra/actividade e quase 60% de crianças com 11 anos também o fazem. Contudo, há uma redução deste tipo de respostas com o aumento da idade. Apenas 23,3% dos rapazes mais velhos respondem o uso da terra/actividade; estes tendem a dar respostas da categoria estética/cognitivo (43,3%) comparado com apenas 11,4% dos mais novos que se enquadram nesta categoria. Depois, ao longo da idade, dá-se um aumento progressivo e alargado da relação entre o envolvimento próximo e o global, para depois se aprofundar o desenvolvimento da relação estética e cognitiva com lugares particulares e um sentido de lugar, no largo esquema do mundo. Portanto, os mais novos tendem a escolher lugares de uso da terra, enquanto os mais velhos utilizam espaços estéticos ou de qualidades cognitivas; as categorias “social e comercial” integram o menor número de respostas em todos os grupos de idade. Alguns estudos têm observado um aumento do tempo despendido pelas crianças a brincarem com a terra ou neve, construindo os seus próprios lugares secretos e cabanas em pleno espaço público (Holloway & Valentine, 2000). O elemento “|gua” revela- se muito atractivo em todos os grupos etários; o lago e a borda de água foram as respostas mais frequentes sobre os lugares mais favoritos, seguindo-se a cabana, como a segunda escolhida.
50 ver em Hart, R. A. & Moore, G. T. (1973). The Development of Spatial Cognition: A Review. In R. M. Downs & D. Stea (Eds.), Image and
É interessante constatar que, entre os rapazes estudados, verificam-se diversas interpretações e estímulos – por exemplo, o lago sugeriu diversos motivos de atracção aos rapazes de diferentes idades. Para os mais novos é um lugar para nadar, enquanto os mais velhos, admiram a beleza do pôr- do-sol. Isto sugere que os objectos e lugares no ambiente possuem múltiplas “affordances”51 (Heft,
198952citado por Malinowsky & Thurber, 1996).