Através da entrevista, as crianças foram convidadas a fazer parte do estudo, porque consideramos possuírem essa competência, esse saber especifico que nós tentamos compreender melhor. Esforçamo-nos simplesmente por reencaminhar a entrevista – como uma conversa – para os objectivos pretendidos. Estivemos atentos às palavras, à fluidez do diálogo, mas também às hesitações e aos silêncios; fizemos nota de gestos e reacções faciais. Neste sentido, é de supor que a relação entre o entrevistador e o entrevistado seja prolongada no tempo, implicando uma relação de maior proximidade e familiaridade entre os dois (e.g. Quivy & Campenhoudt, 2003).
A utilização da entrevista de tipo semi-estruturada permite uma interacção verbal animada e flexível, entre o investigador e o respondente. Aquele deve deixar-se guiar pelo fluxo da entrevista com o objectivo de abordar, como que numa conversa, os termos gerais sobre os quais deseja ouvir o respondente, permitindo extrair uma compreensão rica do fenómeno em estudo (e.g. Quivy & Campenhoudt, 2003; Savoie-Zajc, 2003). No entanto, a técnica de entrevistar crianças parece oferecer dificuldades práticas e éticas, visto que se trata de um dispositivo típico do mundo dos adultos a que as crianças tentam adaptar-se; um mundo que é para elas demasiado rígido e que impõe, por vezes, esquemas limitativos à sua (quase sempre) natural expressão criativa (e.g. Leonard, 1990). Uma outra dificuldade neste tipo de conversas (Sarmento, 2000), relaciona-se com o facto de as crianças acharem que estão a fazer mais um exercício escolar e, assim, darem as suas respostas de forma exclusivamente narrativa ou basearem-se em estereótipos.
O plano de elaboração da entrevista teve de perspectivar as linhas essenciais do estudo, que consistiam:
1. Na caracterização pessoal da criança, como elemento funcional de identificação na amostra; 2. Na identificação das rotinas de vida da criança e na gestão dos seus tempos;
3. Na independência de mobilidade, através de percursos realizados a pé ou de carro, sozinha ou acompanhada no contexto urbano;
4. Na percepção e representação do espaço, pelo conhecimento e vivências do envolvimento; 5. No jogo livre e espontâneo/brincadeira, pela ocupação dos espaços e tempos de lazer.
A entrevista utilizada no nosso estudo (Anexo III) é composta por 72 perguntas, subdivididas em cinco títulos temáticos referidos anteriormente; mais de metade são perguntas fechadas, de resposta rápida e mais ou menos previsível; mas há cerca de 17 questões abertas, em que o respondente desenvolve uma ideia, esclarece uma experiência que vai ao encontro dos objectivos do investigador.
Foi utilizado um modelo de entrevista, previamente aplicado no estudo de Machado (2008); para assegurar a sua viabilidade e fidelidade, testámos inicialmente em doze crianças, dos dois grupos etários e de ambos os sexos e realizámos uma análise do padrão de semelhança, em três momentos do processo de recolha, obtendo resultados positivos (mais de 80% na aplicação/confirmação). Foram feitas ligeiras alterações, introduzindo perguntas, reorganizando outras e adaptando o léxico à capacidade de compreensão das crianças. As entrevistas foram aplicadas nos dois grupos etários (8/9 anos e 11/12 anos) em crianças do sexo masculino e feminino, constituindo o total da amostra – 163 sujeitos. Foram realizadas no espaço das escolas e no tempo regular de aulas; as crianças foram entrevistadas individualmente, durante um tempo médio de 20 a 35 minutos.
Todas as entrevistas foram administradas pelo autor do estudo, gravadas num gravador digital
“Olímpus”, possuidor de um cartão-memória, cujo conteúdo foi transferido para suporte informático e
posteriormente todas as entrevistas foram transcritas para formato de papel. Para robustecer a validade do instrumento fizemos uma análise do padrão de semelhança, duplicando entrevistas, em três fases distintas do processo de recolha. Assim, na realização das primeiras 60 entrevistas, repetimos a entrevista com 3 crianças de cada grupo etário (8-9 e 11-12 anos). No intervalo entre as 60 e as 120 crianças entrevistadas, foram repetidas também 3 entrevistas em cada grupo etário. Finalmente, no último terço da amostra, entre as 120 e as 163 entrevistas, utilizando sempre o mesmo método.
8.3.3 – Diário de actividades
Através do diário de actividades podemos obter informações mais precisas sobre o uso do tempo das crianças nas suas rotinas diárias, a frequência e extensão dos seus percursos e a independência de
mobilidade no seu espaço de vida (meio urbano). É possível ficar a conhecer melhor o tipo de actividades que realizam, os trajectos que percorrem, o meio de transporte utilizado e a autonomia das crianças (se realizam os trajectos sozinhas ou quem as acompanha). Interessa-nos as suas acções (actividades), os seus trajectos (mobilidade), os seus palcos (espaços) e a medida da sua rotina (tempos).
Construímos um modelo (Anexo IV) que parece integrar os itens indispensáveis para responder ao conjunto de hipóteses formuladas anteriormente. O diário de actividades, adaptado por nós, foi aplicado em estudos precedentes na população infantil portuguesa (e.g. Arez, 1999; Serrano, 2003).
Cada diário é constituído por oito páginas:
Na primeira página consta a identificação da criança – nome, idade, género, morada e no plano central, um espaço alargado para a realização de um desenho, onde a criança possa exprimir e imaginar a cidade onde vive – poderá fazê-lo em qualquer altura ao longo da semana. As páginas seguintes do diário referem-se a cada um dos dias da semana em estudo (ex. de 2ª feira a Domingo). Cada página do diário de actividades está dividida em cinco colunas que correspondem a cinco itens de informação:
O que fizeste?
Quanto tempo utilizaste? Hora de início e hora de fim; Como foste para lá?
Com quem estavas nessa actividade? Onde fizeste?
A aplicação dos diários tem a duração de 7 dias (uma semana – incluindo Sábados e Domingos) e são preenchidos no dia seguinte às actividades realizadas (ex. na 3ª feira preenche-se o diário sobre as actividades realizadas na 2ª feira e assim sucessivamente – as actividades de 6ª feira, sábado e domingo serão registadas na 2º feira seguinte).
Assim, cabe à criança narrar as suas vivências com recurso à memória e com a ajuda de um adulto que organize e sistematize no diário as suas acções, os espaços e os tempos referenciados. A explicação e aplicação do diário de actividades que se concretiza no seu preenchimento devem ser partilhados entre o autor do estudo, a pessoa colaboradora na sua aplicação (professores do 1º ciclo, educadoras, pais ou avós) e a criança respondente. Para além do diálogo e confiança mútua, foi elaborado um manual do colaborador (Anexo V) com o intuito de salvaguardar a coerência e uniformização nas instruções de aplicação do diário de actividades.
No grupo etário de 8/9 anos, o acompanhamento no preenchimento do diário foi realizado por um adulto colaborador que redigiu o texto6.As crianças de 11 e 12 anos receberam informações precisas
sobre a forma de preenchimento do diário. Os procedimentos para a elaboração do diário foram realizados pelas próprias crianças que, diariamente faziam os registos e esclareciam dúvidas com o autor do estudo, durante a semana em que decorria a elaboração do diário.
A aplicação do diário de actividades realizou-se num universo de 36 crianças, retiradas da amostra global, com sujeitos dos dois sexos (21 elementos do sexo masculino e 15 do sexo feminino), dos dois grupos etários (21 crianças do grupo 8/9 anos e 15 do grupo 11/12 anos), com origem socioeconómicas diferenciadas (19 crianças de estatuto socioeconómico elevado e 17 de estatuto socioeconómico baixo) e finalmente, com locais de residência distintos, em relação à localização das escolas – centro urbano – considerando 19 crianças residentes no centro urbano e 17 com residência na periferia.