O grande desenvolvimento tecnológico dos últimos anos teve como consequência o acréscimo das tecnologias de informação nos processos de comunicação e entretenimento das populações. Tem-se verificado um incremento de jogos infantis electrónicos (ex. jogos de computador) e de espaços lúdicos específicos para estes divertimentos (play centers). Diversos estudos (e.g., Christakis et al., 2004; Vandewater et al., 2007) apontam para o uso muito frequente de variados tipos de equipamento electrónico na vida quotidiana das crianças. O ambiente das novas tecnologias coloca as crianças em contacto directo e livre com a televisão, com os jogos de computador e a internet –
“messenger”; existem também, extensões portáteis electrónicas, como as playstations (PSP), os
pequenos ecrãs autónomos sem cabos – telemóveis, gameboys, Nintendo DS, Ipod, etc. – que acompanham as crianças para todo o lado (no recreio, nos parques e jardins, dentro dos automóveis, nos hipermercados, etc.), todos os espaços e tempos são úteis para a evasão solitária que se move na ponta dos dedos (e.g., Jackson et al., 2007).
Mas, é a televisão que ocupa a maior parte do tempo das crianças; este é, ainda, o suporte electrónico mais consumido pelas crianças sendo, também, o mais passivo, em relação a novos meios interactivos como os jogos de computador ou a internet (Livingstone & Bovill, 2001; Christakis et al., 2004; Vandewater et al., 2007). Diversos estudos (e.g., Pinto, 1995; Moreno, 2002; Vandewater et al., 2007) apontam para um tempo médio diário, superior a 2.30 horas, no consumo de televisão, entre as crianças e que, parece aumentar com a idade (Christakis et al., 2004).
Num trabalho de investigação realizado na Nova Zelândia, com crianças de ambos os sexo e idades entre os 5 e 14 anos, Jackson et al. (2007) verificaram que, cerca de 75% das crianças vêem televisão
51 o conceito de “affordance” e a an|lise ampla da relaç~o deste conceito com o envolvimento foram desenvolvidos no capítulo
anterior
52 ver em Heft, H. (1989). Affordances And The Body: An Intentional Analisys of Gibson’s Ecological Approach to Visual Perception.
diariamente, ocupando com esta actividade, a maior parte do seu tempo; estes autores, referem que a televisão se incorporou nas rotinas das famílias e, as próprias famílias também se ajustaram aos horários da televisão (ex. hora de jantar – noticiário; hora de deitar – novelas). Ver televisão, transformou-se numa espécie de “ritual” em que, determinados programas podem até preparar as crianças para irem { cama, como uma “história para adormecer”.
Enquadra-se, neste âmbito, a cultura do quarto, como sendo, talvez, a maior alteração no ambiente doméstico e familiar dos últimos anos (e.g., Livingstone & Bovill, 2001). Estes autores (2001) referem a tendência contemporânea da vida social das crianças, em concentrar nos espaços privados o que antes era do domínio público; o quarto é o lugar onde a criança manifesta os seus interesses, o sentido individual e a sua identidade; pode ser também um lugar para os amigos, de partilha, que permanece fora da observação parental. Para Pinto (1995), a existência de várias televisões em diversos espaços da casa origina uma alteração de natureza colectiva/familiar da prática televisiva, com o correspondente decréscimo das ocasiões de interacção e mediação – indiciando a tendência da privatização do consumo. Na relação com a televisão, as crianças ficam mais entregues a si mesmas e aos seus critérios e preferências; anula-se a supervisão parental (ou de outros adultos) e são as próprias crianças que passam a estabelecer com relativa autonomia os tempos e modos de utilização do pequeno ecrã, com consequente aumento do tempo de visionamento (e.g., Livingstone & Bovill, 2001; Christakis et al., 2004; Barkin et al., 2006; Barr-Anderson et al., 2008).
Num estudo em que participaram 781 adolescentes, Barr-Anderson et al. (2008) verificaram que os jovens que possuíam televisão no quarto, viam o dobro daqueles que não possuíam televisão no quarto. Cerca de 62% tinha televisão no quarto; os autores constataram que as variáveis idade, sexo e estatuto socioeconómico estavam associadas à presença de televisão no quarto. Os resultados indicaram, ainda, que as raparigas com televisão no quarto faziam menos actividade físicas vigorosas que raparigas sem televisão quarto. Para os autores, o esforço de retirar a televisão do quarto, parece ser o primeiro passo para ajudar a diminuir as horas de visionamento, diminuindo também, todos os comportamentos associados à elevada exposição à televisão (ex. sedentarismo, obesidade, ausência de contactos familiares, etc.). De uma maneira geral, a origem socioeconómica, está associada à presença de televisão no quarto e ao seu grau de utilização; as crianças de meios socioeconómicos mais baixos tendem a possuir e a ver mais televisão que as crianças de meios socioeconómicos elevados (e.g., Livingstone & Bovill, 2001; Christakis et al., 2004).
Christakis et al., (2004) num estudo realizado com crianças de idade inferior a 11 anos assinalaram que cerca de 26% possuia televisão no quarto, vendo mais de 2 horas de televisão diariamente. Os autores consideram que a utilização da televisão está a ser superada pelos vídeos e jogos de
computador, sendo que, o estatuto socioeconómico elevado está associado a menos horas de televisão e vídeo, mas não, a menos utilização de jogos computador. Também as diferenças culturais se enquadram em padrões mais gerais da população; Livingstone & Bovill (2001), assinalam que em Espanha se vê mais televisão em família, estando a permanência no quarto, menos associada à televisão; na cultura nórdica (ex. Finlândia), pelo contrário, a crianças vêem mais televisão no quarto sozinhas ou com amigos.
Mas, a diversidade e disponibilidade de novos meios tecnológicos, pode facilitar a comunicação e a interacção social entre crianças e adultos ou entre pares; cada vez mais, as crianças e jovens se servem das tecnologias avançadas para interagir, (mesmo que virtualmente), uns com os outros, quer seja no quarto – via internet, através de emails ou messenger, utilizando o telemóvel e outros equipamentos, como uma actividade social que se espalha pelo espaço doméstico, pela escola e pela rua; muitas vezes as crianças falam na escola sobre os seus programas televisivos preferidos, sobre as novidades da net – ex. you tube – ; chegam a criar brincadeiras (faz de conta) no recreio da escola, baseadas em programas da televisão que podem envolver ou não actividade física (e.g., Jackson et al., 2007).
Embora a televisão, seja amplamente apresentada, como um factor inibidor da actividade física, a questão da sua influência sobre o decréscimo da prática de actividade física, continua em aberto e não está totalmente esclarecida (e.g., Taveras et al., 2007); apesar do tempo destinado ao visionamento da televisão e à utilização de computadores não estar sistematicamente associado, de forma negativa, com a actividade física, a utilização do tempo livre (especialmente no período pós-escola e fim de semana) em actividades passivas ou sedentárias, parece ter uma associação importante, na diminuição da prática ou envolvimento na actividade física (e.g., Mota & Sallis, 2002; Carvalhal et al., 2006; Vandewater et al., 2007).
No entanto, as crianças não consideram a televisão e os jogos de computador como barreiras à actividade física; eles percepcionam uma coexistência entre actividades diversas, em que o universo dos trabalhos de casa, da televisão, do computador, do desporto e brincadeira (jogo livre) podem e devem coexistir, esperando elas próprias que os adultos delimitem regras de utilização (MacDougall
et al., 2004). A educação parental é assim, um forte indutor do tempo de utilização da televisão pelas
crianças. Um estudo que pretendeu analisar o visionamento de televisão e os níveis de actividade física (Hesketh et al., 2006), reconheceu uma relação mais forte, entre as circunstâncias familiares (número de pais e irmãos a viverem em casa) com o tempo de visionamento de televisão, em pré- adolescentes, do que com actividade física moderada ou vigorosa; por sua vez, o envolvimento das crianças nas actividades físicas, depende também do tempo disponível dos pais, dos seus
conhecimentos e recursos económicos, etc… Ainda no mesmo estudo, os autores efectuaram medições objectivas que mostraram a utilização do tempo (cerca de 6 horas/diárias) em ocupações sedentárias, metade das quais, a ver televisão; as crianças mais velhas ocupam mais tempo a ver televisão e menos tempo em actividade física que as mais novas; não há diferença de género, no visionamento de televisão, contudo, as raparigas gastam menos tempo que os rapazes na actividade física moderada e/ou vigorosa.
O aumento da exposição e interacção, em várias horas, a todos estes suportes electrónicos, com características passivas, constitui um dos múltiplos factores de sedentarismo que influenciam o desenvolvimento das crianças (e.g., Piéron, 1998). Habitualmente, acredita-se que as crianças são intrinsecamente aptas para o movimento e, por isso, suficientemente activas; contudo, as investigações nesta área têm demonstrado que elas apresentam baixos níveis de participação em actividade física regular e mesmo em actividades espontâneas (e.g., Neto, 2001; Mota & Sallis, 2002).
Assim demonstra o estudo longitudinal (com duração de quatro anos) entre os hábitos televisivos e outras causas de comportamentos sedentários e o tempo de lazer, realizado numa amostra de 10856 sujeitos, de ambos os sexos, com idades entre os 10 e os 15 anos, realizado por uma equipa de investigadores (Taveras et al., 2007) que consideram que a actividade física e os comportamentos sedentários são regulados por uma série complexa de decisões, em que a simples restrição da televisão pode não ser eficaz para promover a actividade física. Estes autores (2007) não encontraram substantivas relações entre hábitos televisivos e actividade física em tempo de lazer; consideram tratar-se de dois “constructos” separados. Actividade física e hábitos televisivos são determinantes independentes para a obesidade e outros riscos para saúde. Para os autores, os programas de saúde pública devem considerar a redução dos hábitos televisivos e a promoção de actividade física, separadamente, para a mudança de comportamentos.
O aumento em várias horas, de exposição a ver televisão ou a usar outros meios tecnológicos, como o vídeo, jogos electrónicos, telemóveis, o computador – jogos, internet, messenger, etc., envolvem uma grande parte da vida diária das crianças e jovens, relacionando-se de forma consistente com o aumento da obesidade e de alguns problemas de saúde, cada vez mais idênticos aos que afectam os adultos (e.g. Carvalhal et al., 2006; Ekelund et al., 2006; Sallis & Glanz, 2006; Vandewater et al., 2007).
Vandewater et al. (2007) analisaram a relação entre a obesidade na infância e a participação em actividades como ver televisão e utilizar jogos de computador e vídeo. A amostra era constituída por 2831 crianças até aos 12 anos de idade. Os resultados indicaram que o uso de televisão não está relacionado com a obesidade (peso a mais) mas há uma relação entre os jogos de vídeo e a obesidade, principalmente, entre os mais novos. Verificaram também que as crianças com sobre peso gastam
mais tempo em actividade sedentárias que as crianças que têm menos peso. Para os autores, parece haver uma relação pouco consistente entre ver televisão e obesidade, não se verificando uma associação forte entre os dois fenómenos; consideram existir três mecanismos que funcionam na relação entre o uso da televisão, dos jogos de computador/vídeo e a obesidade: (1)– a televisão e
jogos de vídeo estão relacionados com o aumento da obesidade, porque o tempo gasto nessas ocupações substitui a actividade física. Actividades sedentárias versus actividades físicas com desgaste de energia; (2)– a ligação entre ver televisão (principalmente) aumenta o consumo de
alimentos hipercalóricos, enquanto vêem televisão, estimulados que são pela publicidade explícita – as crianças consomem alimentos de fraco valor nutritivo e de elevados índices de gorduras e calorias;
(3)– o próprio acto de ver televisão, provoca o decréscimo dos valores metabólicos do organismo
(mais do que descansar ou até dormir).
O hábito das crianças consumirem alimentos enquanto vêem televisão e jogam computador, constitui um factor decisivo, no aumento de associação, entre a utilização de equipamentos electrónicos e a obesidade (e.g., Christakis et al., 2004; Vandewater et al., 2007).
Carvalhal et al. (2006) estudaram a relação entre a obesidade, a utilização de jogos electrónicos e a participação nas aulas de Educação Física; o estudo realizou-se numa população portuguesa, com 3363 crianças de 7- 9 anos de idade, de ambos os sexos. Os pais forneceram informação sobre as horas que os filhos utilizavam, a ver televisão, nos jogos de computador e a sua participação nas aulas Educação Física. Os autores assinalaram que ver televisão e jogar computador, surgem como promotores de sedentarismo e causa de obesidade; ver televisão tem efeitos consideráveis nos reduzidos valores metabólicos, daí a associação encontrada, entre jogos electrónicos e massa corporal para rapazes e raparigas e, uma associação, entre massa corporal e tempo a ver televisão para rapazes. As actividades sedentárias de ecrã estão associadas a valores mais elevados de obesidade; entre as mais importantes variáveis, associadas à obesidade, estão as familiares; constataram existir uma forte associação entre ver televisão e obesidade, em crianças de estatuto socioeconómico baixo e também em pais com baixo nível de escolaridade. Os resultados indicam que o tempo utilizado em jogos electrónicos está associado à obesidade; para os autores, a redução da obesidade infantil passará pela diminuição de comportamentos sedentários e pela promoção de estilos de vida activos, realçando a importância dos espaços de recreio nas escolas que promovam actividades e jogos mais activos; o tempo de recreio é, segundo os autores, fundamental, como contexto para a promoção da actividade física entre as crianças.
São importantes os espaços de recreio escolar e todo o envolvimento habitacional para a prática de actividades físicas espontâneas e para a diminuição dos índices de visionamento de televisão,
evitando hábitos sedentários; a segurança do envolvimento físico, o tempo de utilização da televisão e o tempo de brincar no exterior, podem funcionar como potenciais elementos de prevenção e controlo da obesidade infantil a nível individual e da população (e.g., Burdette & Whitaker 2005; MacLeod et
al., 2008).
O telemóvel é, cada vez mais, um objecto apropriado pelas crianças e induzido pelos adultos, o que intensifica o controlo parental, limitando a autonomia e a liberdade da criança; surgem, constantemente novos modelos, com inesperadas inovações tecnológicas; os criativos não esquecem o universo infantil e o mercado prolifera de pequenos portáteis coloridos e resistentes, com funções mínimas, pensados e elaborados para as crianças (Downie & Glazebrook, 2007). Num estudo, realizado por estas autoras (2007), com crianças Australianas, de 6-13 anos de idade, ficou claro que o telemóvel não tem apenas a função de comunicar mas cumpre uma finalidade material – pelo consumismo e desejo de identidade. Cerca de 23% das crianças afirmaram possuir telemóvel próprio; os mais velhos possuem mais telemóvel que os mais novos; as raparigas de 12-13 anos possuem mais telemóvel (65%) que os rapazes da mesma idade (55%). A diferença na posse de telemóvel entre raparigas e rapazes sugere diferentes atitudes na comunicação, nos dois sexos. Numa hierarquia de valores, em relação à posse de telemóvel, as crianças assinalaram: (1) a importância da aparência do aparelho; (2) a marca do telemóvel; (3) a importância de possuir aparelhos com a mais recente funcionalidade e avançada tecnologia; (4) o desejo e intenção de mudar de aparelho, melhorando de tecnologia, em tempo breve.
Segundo os resultados do estudo referido atrás, as crianças que possuem telemóvel são motivadas por razões sociais e estéticas; cerca de 53% de crianças acreditam que a marca dos seus telemóveis é importante e 62% valorizam o seu aspecto; verifica-se uma competição de consumo, tentando, cada criança, possuir o melhor modelo, em relação aos amigos; cerca de 61% deseja ter o último modelo da marca e mais de metade (54%) das crianças querem mudar o seu telemóvel por outro melhor. Para as autoras, a posse de telemóvel em idades precoces assenta na ideia crescente de consumismo, da (in) segurança e na identidade entre pares. A pressão que as crianças sentem no consumo, afecta negativamente o seu desenvolvimento. Os telemóveis representam, assim, um sintoma e um problema mais alargado do consumismo da infância.