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Bruksegenskaper, knollbeskrivelse og tidlighet

Os encontros de gerações nas comunidades de práticas são como um processo de negociação de trajetórias, ou seja, o encontro entre gerações é muito mais complexo do que a mera transmissão de uma herança. Esse encontro é um entrelaçamento de identidades com todos os conflitos e dependências recíprocos que isso implica. As diferentes gerações trazem perspectivas diferentes para o seu encontro, porque as suas identidades são investidas em diferentes momentos dessa história. Assim sendo, com menos passado, haverá menos história para se levar em consideração e com menos futuro, haverá menos urgência de repensar a história. No entanto, as perspectivas de veteranos e recém-chegados não são simplesmente delineadas, pois aprender na prática implica na negociação de uma identidade, e se essa identidade incorporará o passado e o futuro, então é no outro que veteranos e novatos encontrarão a sua experiência da história. As perspectivas sobre o encontro de gerações – R1, R2 e preceptores – não são simplesmente do futuro em relação ao passado ou de continuidade em relação à descontinuidade, ou o velho versus o novo.

Assim, como vamos percebendo na trajetória, os R2 que estão há mais tempo em contato e vivendo a Residência, começam a demonstrar uma maior critica dos contextos e processos de aprendizagem. Por exemplo, eles notam a discrepância entre uma Especialização em Saúde da Família e a Residência em Saúde da Família, ou ainda entre a graduação ou a Residência como especialização lato sensu.

Quando eu comecei a vivenciar a prática e que eu me deparei com a realidade, com a lacuna que existia na realidade, na época eu busquei fazer uma especialização em saúde da família, mas também que tem uma lógica muito parecida com a graduação. (R2)

O saúde da família vinha muito como uma oportunidade de emprego e a formação [graduação], não dava capacitação e a gente não era preparado pra estar no saúde da família. Aí fui fazer especialização em [...] saúde da família, totalmente teórica e até em termos de teoria voltada pra saúde da família e pro SUS era muito deficiente. (R2)

A Estratégia de Saúde da Família (ESF) surge na perspectiva do mercado de trabalho como oportunidade de emprego para muitas categorias profissionais da saúde, onde a

clínica privada passou a ser um universo sucateado e fortemente competitivo. Sobre este aspecto Dimenstein (2000) traça uma perspectiva interessante da categoria profissional do psicólogo dentro do mercado de trabalho e a busca pela inserção nos setores de políticas públicas. Entretanto, cursos de especialização ainda não ultrapassaram as características de uma formação insuficiente, pois mesmo sendo embasada em projetos de intervenção na prática profissional ainda é teórica e longe de ser vivenciada dentro da prática.

O choque quando eu entrei na residência foi perceber que nossa graduação não contempla as dimensões – eu não digo nem o saber eu digo as dimensões – que a gente encontra dentro do trabalho da atenção básica, na atenção primária. (R2) Quando eu fui formada, o enfermeiro era formado prioritariamente para a atenção hospitalar e eu sempre me identifiquei com a atenção primária e na época eu tentava assim superar um pouco essa lacuna com estágios voluntários, já que não existia ligas da saúde. (R2)

Na graduação, por conta do envolvimento com o movimento estudantil eu já tive diversas reflexões, diversas criticas em relação à formação, que era tecnicista. (R2)

As reflexões sobre a formação profissional acontecem bastante em contraponto aos processos ocorridos desde a graduação e que intrigam trabalhadores ao adentrar a prática do trabalho. Neste caso, indagamos se a comunidade de prática abre-se ou é buscada por aqueles que já têm interesse nela?

Eu me percebo enquanto um profissional que sai da residência e vive [...] um cenário a parte, que vive acho que a construção de raciocínios assim, pois o elenco das prioridades no fazer profissional são bem diferentes [dentro da Residência] daquilo que a gente imaginava quando saiu da faculdade. (R2)

Este cenário à parte, que parece se chocar com outros panoramas, aponta uma trajetória do antes e do depois. Esta fala do R2 nos mostra este trânsito pertinente à trajetória. Portanto, ao comparar o dentro e o fora se ganha condições de identificar as identidades que são estreitas com as trajetórias dos residentes. Esta é a fala de alguém que não está mais na periferia da comunidade de prática, mas sim de alguém que se integrou ao cenário e se mimetizou a ele na trajetória percorrida e que se prepara para sair da comunidade. Neste caso o processo temporal fica demarcado por relacionar com o antes e o depois, mas principalmente por demarcar peculiaridades construídas e introjetadas enquanto dentro da RMSFC.

Acho que quem fica mais agora, enquanto egresso da Residência Multiprofissional, em comparação ao ingresso na residência é justamente isso, esse choque. E não é à toa que se transformou nesse percurso todo e ampliou o olhar que a Universidade não foi capaz [...] de fazer, mas que continua ainda buscando o ambiente onde possa trabalhar essas potencialidades, porque [...] dentro do ambiente da residência a gente

vivencia uma coisa, mas quando a gente sai da residência pra atuar na atenção primária a gente não encontra esses mesmos aspectos, então é um choque meio esquisito. Enquanto categoria aprendi muito! Aprendi muito a lidar com o conhecimento técnico quando ele é pensado no outro e não quando ele é pensado exclusivamente no profissional, enfim, tem mais coisas né e quem sabe vai sair né. (R2)

Eu sabia que eu precisava ser uma profissional diferente, mas intuitivamente ou não, não sei, tive a sensação que poderia ser este espaço [da Residência] de aprender como ser diferente. (R2)

No processo entre ser um ingresso e um egresso de uma CP houve uma ampliação reflexiva a partir da prática do que foi até então a graduação e gerou potencialidades que sofrerão novo atrito ao adentrar no cotidiano fora da Residência. Esta é uma angústia premente em residentes que se preparam para concluir a Residência e que merece atenção. Eu, enquanto preceptora de residentes da primeira turma já formada desta Residência Multiprofissional me deparei com angústias e ansiedades de muitos residentes ao final do processo após os dois anos corridos do programa. Parecia haver um apego pelo trabalho realizado e pelos casos e processos de trabalho conquistados e angústia por não poder continuar, principalmente, naqueles casos em que houve uma construção coletiva nos moldes de uma comunidade de prática na qual o trabalho pôde ser construído dentro de um projeto comum e houve engajamento mútuo. Em momentos seguintes dos quais pude retornar a esses mesmos territórios, ainda outros profissionais e – surpreendentemente – usuários do sistema indagavam sobre os antigos residentes que lá atuaram e a nostalgia das atividades interrompidas propostas por eles no processo de vínculo e corresponsabilização do cuidado.