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Chapter 7: Discussion: Hydropower as Development

7.11 Vested interest of the dam industry

Hoje a gente conta assim [essa história] porque ela já passou e a gente tem orgulho de dizer: “Puxa, nós conseguimos” [...]. “Nós fizemos tudo isso sozinhas.” Mas não é num tom nem de arrogância, nem de orgulho besta não. Quando a gente diz isso, a gente quer dizer pra todo mundo que hoje tem muito mais recurso, então hoje tem muito mais possibilidade das pessoas irem pra frente. Porque se sem nada a gente conseguiu, hoje tem muito mais possibilidade. É isso que a gente quer dizer quando a gente diz essas coisas. (Nelsa)

Vale relembrar que falamos do ano de 1996. Os anos noventa marcam o início do ressurgimento da Economia Solidária no Brasil, e apesar de já existirem algumas ações nesse campo, havia poucas instituições de fomento e apoio a futuras cooperativas realmente atuantes no país47.

Por isso, mesmo tendo cultivado uma vasta rede de contatos junto ao poder público e a organizações não-governamentais, por meio do Orçamento Participativo, as futuras cooperadas da UNIVENS tiveram muitas dificuldades em encontrar informações ou parceiros que pudessem orientá-las na tarefa de organizar a cooperativa, tanto foi assim, que recorreram ao estatuto de uma cooperativa habitacional para servir de modelo para a elaboração do documento delas. Isaurina e depois Nelsa relembram estes fatos:

É, isso aí não tinha. [instituições que pudessem apóia-las] Foi bem na época que o PT começou a administrar, foi quando a gente também começou. [...] Nós já tínhamos o Orçamento Participativo aqui... [...] Aí começou aquela rede de conhecimento nas Secretarias [Municipais]. Então já tinha uma organização maior pra nos colocar. A gente sabia que acompanhando o Orçamento Participativo, a gente estaria dando um passo... Mas a gente não sabia que a SMIC poderia nos apoiar com máquinas. A gente ficou sabendo depois. Fazia um ano que nós estávamos trabalhando na Capela quando vieram pela primeira vez

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Ana Mercedes Icaza (2004) trata do quadro institucional de referência em Economia Solidária no estado do Rio Grande do Sul. Segundo ela, as organizações atuantes nessa área começaram a despontar nesse estado nos anos 80, mas só se generalizaram e ganharam força após os anos 90.

representantes da SMIC fazer uma visita pra nós. Nós já tínhamos um ano de trabalho. (Isaurina) [grifos nossos]

Ninguém mais vai viver essa história, porque hoje tu pode contratar pessoas que fazem toda essa abertura. Mas não tinha, não tinha, Cris. Não tinha nem sequer uma cooperativa de produção que a gente pudesse pegar e dizer: “Nós vamos fazer assim, desse jeito”. A questão das cotas, o que era o capital inicial48, tu não imagina o que a gente se debateu pra entender o quê era. (Nelsa)

Os primeiros passos de fato também significaram grandes sofrimentos e dificuldades. Esta passagem da entrevista de Nelsa ilustra bem esta afirmação:

A gente foi pegando esse estatuto [da cooperativa habitacional] e foi descobrindo algumas coisas, como é que tinha que ser. Olha, sério mesmo, eu acho que foi Deus quem ajudou nós, porque não estávamos completamente sozinhas. E ninguém acredita, Cris! Esses dias eu falei isso e o pessoal de uma Organização [ONG] disse: “Ah, isso não existe!” Então eu falei: “Então tu está dizendo que a nossa história não existe.” A única coisa que a gente conseguiu, depois de umas três ou quatro reuniões, foi chamar uma pessoa, que era vereador na época, mas que sempre foi muito parceiro nosso. [...] Ele veio e contou como é que funcionavam as cooperativas dos assentamentos do MST49, pra gente poder ter uma noção. Porque a gente não sabia nada, nem como é que ia dividir o dinheiro [...]. E ele também não tinha tudo. Ele falou assim: “Olha, vocês podem dividir por hora. Lá eles fazem assim: ta, ta, ta”. E a gente foi discutindo o estatuto, Cris. Nós fomos discutindo artigo por artigo. Olha, tu pode ler ele e tu vai ver, que tem palavras assim, que até o português não está tão legal. Mas ele é nosso, sabe? [...] Sem ninguém, não teve absolutamente ninguém, que nos ajudou nesse período. Tanto que na hora que a gente foi digitar, bater à máquina o estatuto, a gente não tinha quem batesse. Aí nós conseguimos uma pessoa que bateu metade, depois nós procuramos outra pessoa que bateu a outra metade. A gente tem o original e ele está batido com duas máquinas diferentes. E aí descobrimos: “Tem que registrar ele numa Junta Comercial”. “Onde que é essa Junta Comercial?” Vai pra Junta Comercial e tem que ter a assinatura de todo mundo. Daí nós abrimos um caderno com os dados de cada uma, tudo, tudo. [...] As fichas de matricula, tudo, Cris! Tudo a

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O capital social da UNIVENS foi composto através da integralização de três quotas-parte por cooperada, no valor de R$1,00 (um real) por quota.

gente foi descobrindo assim, sem nenhuma assessoria. [...] Na época quem ficou na secretaria [do Conselho de Administração] era quem conseguia ter uma letra legal pra ir anotando as coisas. Era com muito esforço, um esforço tremendo. As pessoas se esforçavam demais. Talvez porque ninguém sentia que alguém era dono, sabe? A gente ia pros lugares e largava panfletinhos, fazia bilhetinhos pra divulgar a cooperativa. (Nelsa)

A certa altura da entrevista, perguntei à Nelsa sobre como havia se dado o processo de formação em cooperativismo do grupo. De imediato ela respondeu que a formação delas acontecera ao longo da história da cooperativa, ao enfrentar tantos empecilhos, e ao se debruçarem juntas, nas inúmeras reuniões do grupo, na tentativa de encontrar maneiras de transpô-los, teimando em manter vivo “o sonho da cooperativa.” Ela então passou a me contar alguns casos, tão impressionantes quanto sofridos:

Um dia eu desci aquela ladeira, mas eu chorei tanto!... Eu disse: “Eu não acredito. Nós estamos num país, onde a gente quer construir alguma coisa, que não vai tirar o dinheiro de ninguém, que é um trabalho coletivo, e estão nos fazendo sofrer tanto, tanto!” Aquele dia eu senti um sofrimento tão grande, mas tão grande, que tu não pode imaginar. Acho que foi uma das últimas vezes que o estatuto voltou. Porque o estatuto voltou seis, sete vezes pra gente mudar, Cris. (Nelsa)

Tem histórias hilárias, por exemplo, de perder os papéis. Uma vez a Cida foi levar os papéis na Junta Comercial e ela ficou esperando o ônibus. Então ela botou os papéis em cima do banco, ali no ponto do “Diretão.” E veio o ônibus. Ela pegou o ônibus e deixou tudo, sabe? [...] E o Diretão é assim, a parada da Cida é a última, e de lá vai direto pro centro, sem parar. Quando ela entrou no ônibus, imagine o escândalo que ela fez! “Pelo amor de Deus!!! Você tem que parar! Você tem que parar! Eu esqueci um documento, você tem que parar!” E tava um vento... [...] Ela fez um escândalo que ele parou perto do viaduto e largou ela. Ela voltou correndo, correndo. Quando ela chegou, cadê os papéis?! Não estavam mais em cima do banco do ponto. Alguém viu os papéis e colocou em baixo do banco pro vento não levar. (Nelsa)

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Abaixo segue outro caso dessa época em que ela narra mais um momento de dificuldades no processo de legalização da cooperativa:

A gente ia atrás e chegava lá no Ministério, na Secretaria da Fazenda, e tinha que registrar três livros, e tinha que ser naquele dia, porque se não fosse, teria uma multa pra pagar. Aí vai, corre com os livros, faz abertura dos livros, leva eles. [...] Pode perguntar pro Tiago [filho dela], ele tinha quatro pra cinco anos, ele lembra até hoje. A gente tinha que pegar a assinatura do advogado – porque o estatuto havia sido refeito – então tinha que pegar a assinatura de novo e descer correndo pra poder entregar até às quatro horas [16h]. Essa criança correu tanto, tanto, mas tanto!... E nós conseguimos chegar, acho que faltava um minuto pras quatro horas, quando nós entramos. Ele sempre diz: “Mãe, eu nunca me esqueço daquele dia do advogado, que nós corremos tanto...” [risos] (Nelsa)