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Chapter 4 Theoretical framework

4.5 Resource curse

Apresentaremos aqui, de modo breve e sintético, as principais características da cooperativa escolhida como foco desta pesquisa. O intuito é apenas possibilitar um conhecimento inicial acerca de seus aspectos mais objetivos, já que logo adiante, no capítulo III, trataremos de maneira aprofundada sobre o processo histórico de formação da UNIVENS até os dias atuais.

A Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos – UNIVENS – foi fundada em maio de 1996 e está localizada na Vila Nossa Senhora Aparecida, no bairro Sarandi, extremo norte do município de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul.

Organizada somente por mulheres, as idades das cooperadas variavam de maneira impressionante, entre 18 e 80 anos. Apesar de duas delas ter concluído o ensino médio, a grande maioria do grupo interrompeu os estudos antes de completar o ensino fundamental. Elas encontravam-se embebidas em uma larga experiência de luta por melhorias nas condições do bairro, e não contaram com qualquer apoio, assessoria ou tutela institucional para iniciar e organizar seus trabalhos.

Quando legalizada, há mais de oito anos, a UNIVENS contava com trinta e cinco sócias-trabalhadoras que se reuniam no salão da capela da Vila para cortar as peças, posteriormente costuradas em casa.

De 1999 a 2004, a cooperativa esteve sediada em um espaço que ajudou a formar, a Incubadora Popular de Cooperativas e Grupos da Prefeitura de Porto Alegre, situada no bairro em que todas residem. Em dezembro de 2004, o grupo transferiu suas atividades para a sede própria da cooperativa, também localizada na Vila. Trata- se de uma conquista histórica, de forte peso simbólico para as trabalhadoras, que trataremos mais adiante20.

20

O tempo presente deste texto refere-se ao período final de permanência do grupo nas instalações da Incubadora, exceto atualizações devidamente indicadas.

O grupo de cooperados

Atualmente a cooperativa é formada por vinte e dois cooperados, dos quais apenas dois são homens. Mais de 80% dos membros são casados e têm filhos, e todos eles são moradores da Vila Nossa Senhora Aparecida por escolha do grupo, formalizada como princípio estatutário da cooperativa.

Aproximadamente metade do quadro social da UNIVENS é composta por sócias- fundadoras. Hoje em dia, as idades das cooperadas ainda mantêm o traço inicial de grande variabilidade, conforme podemos notar pelo gráfico abaixo:

0 1 2 3 4 5 6 20 - 29 30 - 39 40 - 49 50 -59 60 ou mais

Figura 1. Gráfico das faixas etárias das cooperadas

A organização do trabalho

As atividades produtivas da UNIVENS são divididas pelo grupo em quatro setores ou “módulos”: Corte, Costura, Serigrafia e Culinária (também chamado de Cozinha). Todo o processo de modelagem e de corte das peças é feito por quatro cooperadas alocadas na sede do grupo. Já as atividades relativas à costura acontecem tanto na Incubadora – onde se encontram quatro costureiras – quanto nas casas das cooperadas que lá trabalham (oito cooperadas). No módulo da serigrafia da cooperativa trabalham quatro cooperados, inclusive os dois únicos representantes do gênero masculino do grupo. As atividades da culinária, que também ocorrem no interior do galpão da Incubadora, são realizadas atualmente por apenas duas cooperadas. O gráfico abaixo aponta a distribuição dos trabalhadores da UNIVENS por estes setores produtivos e por local de trabalho:

0 1 2 3 4 5 6 7 8 9

Corte Costura Serigrafia Culinária

Sede Casa

Figura 2. Gráfico das cooperadas por área de atividade e por local de trabalho

A figura abaixo representa de forma esquemática a planta baixa e o mezanino do prédio da Incubadora, local de trabalho de outras duas cooperativas, a COOMESPAR (metalúrgica) e a “Mãos Dadas” (artesanato):

Figura 3. Desenho esquemático da planta baixa e alta da Incubadora

Ao observar as instalações da UNIVENS representadas acima, podemos notar alguns aspectos importantes que interferem na organização do trabalho do grupo. Ainda que este tema não faça parte do objetivo desta pesquisa, consideramos

Me za nino rre o Sala de reuniões Coomespar Coomespar

Grupo Mãos Dadas

Área externa Coomespar UNIVENS corte UNIVENS costura UNIVENS cozinha UNIVENS serigrafia Plantas baixa e al ta da INCU BADORA Vão do Mezanino Equipe SMIC WC WC mesa de corte I mesa de cor te II estoque peças I estoque de matérias-primas máq. máq. máq. máq. máq. máq. máq . PC estoque peças II mesa ADM. bancada I pia fog ão in d. ban ca da II estoque freezer gel ad eir a for n o in d . arara secadora 8 be rç os térmi c o s tan q u e I tanq ue II est oq ue bancada

adequado abordá-lo rapidamente aqui, já que ele pode nos auxiliar na tarefa de apresentar as singularidades desta experiência cooperativa.

As trabalhadoras dos módulos do Corte e da Costura convivem lado a lado, sem barreiras físicas que impeçam ou dificultem as freqüentes interações cotidianas que ocorrem entre elas (ver tópico 3.3.). Por outro lado, podemos perceber a existência de uma distância física que separa estes setores, integrados ente si, dos demais módulos, cozinha e serigrafia.

Outra característica marcante e reveladora deste grupo, que também pode ser notada na figura acima, é a inexistência de uma sala ou de um setor administrativo. Conforme nos informou Terezinha, cooperada da UNIVENS, trata-se de uma escolha do grupo, que nunca desejou remunerar as atividades dos cooperados do Conselho Administrativo, nem tampouco destacá-los de suas tarefas produtivas. As atividades- meio da cooperativa – gestão administrativa e contábil, compra de matéria-prima e atendimento aos clientes, por telefone ou pessoalmente – sempre foram realizadas pelas cooperadas em meio ao cotidiano de trabalho. Somente quando necessário, agendam-se reuniões fora do tempo da produção para concluí-las.

No entanto, notamos que a realização dessas tarefas concentra-se fortemente nas cooperadas do setor de Corte, e em menor grau, entre aquelas da Costura que trabalham na Incubadora. Esse fenômeno parece ocorrer por razões bem práticas e materiais, uma vez que o telefone, o computador e a porta de entrada da cooperativa encontram-se bem próximos a esses setores. Porém, podemos supor outras razões que expliquem essa divisão de tarefas, e deduzir também, ainda que de maneira prematura, a existência de repercussões micropolíticas provenientes desse fato no interior da cooperativa.

Todos esses aspectos, próprios da dimensão técnica do processo organizativo da UNIVENS, podem incidir sobre sua dimensão social, uma vez que tendem a delimitar e a combinar de maneira diferente os temas, os espaços e os tempos das interações cotidianas inter e intramódulos, determinando, ainda que parcialmente, a dinâmica micropolítica da cooperativa.

Os produtos

A UNIVENS fabrica atualmente diversos tipos de produtos. Se em seus primórdios o grupo de cooperados sofreu com contratos precários de trabalho (as chamadas facções), hoje em dia conta com uma carteira de clientes extensa e muito diversificada (mais de cento e cinqüenta ativos), que as mantém em um ritmo de produção frenético e preocupante, do ponto de vista da saúde dessas trabalhadoras.

Essas costureiras gaúchas fazem bandeiras, sacolas, bonés e camisetas para sindicatos, movimentos sociais, associações, escolas, clubes e afins. Elas também fornecem materiais para eventos, como congressos, seminários e outras espécies de encontros políticos, científicos e culturais. Os produtos da UNIVENS alcançam fins inimagináveis: bandeiras para a Parada Gay da cidade, sapatos para cachorro (com fecho de velcro e solado antiderrapante!), sacolas e camisetas para os Fóruns Sociais Mundiais, jalecos para os trabalhadores do CEASA, e até singelos uniformes para empresas dos mais variados setores.

O módulo da culinária iniciou suas atividades produzindo e vendendo para postos de saúde um composto alimentar – a multimistura – utilizado para o combate da desnutrição, mal que atinge diversas famílias nas redondezas da Vila. Além desse produto histórico, atualmente as cozinheiras do setor servem refeições diárias para moradores da Vila e para os trabalhadores da cooperativa vizinha (COOMESPAR). Elas também fazem doces muito elaborados e salgados diversos, por vezes oferecidos em serviços de buffet prestados a eventos e festas familiares. Essas cooperadas ainda fazem deliciosos pães integrais de cenoura, beterraba e espinafre, muito apreciados por seus vizinhos, que vão até elas para comprá-los em dias determinados, quando saem quentes do forno.

A situação econômica da cooperativa e dos cooperados

Nos últimos dois anos, a UNIVENS experimenta uma estabilidade econômica invejável, considerando as dificuldades do ramo da confecção no país, marcado pela forte competitividade entre as empresas e pela precarização dos contratos de trabalho (Cruz-Moreira, 2003). A cooperativa possui atualmente um faturamento médio mensal de R$30.000,00, gerando renda estável para todos os seus membros, em um

patamar muito superior aos valores praticados pelas empresas tradicionais do setor. A renda dos cooperados oscila entre R$300,0021 e R$800,00 mensais, alcançando picos superiores a R$1.200,00, dependendo do tipo de trabalho realizado e do setor produtivo interno (corte, costura, serigrafia ou culinária).

A UNIVENS adota dois regimes distintos de remuneração. Os módulos do corte, da serigrafia e da culinária possuem rotina comum e horários fixos de trabalho e, portanto, dividem igualmente a renda gerada entre seus trabalhadores. Já as trabalhadoras da costura optaram pela remuneração por peça produzida, o que significa retiradas mensais diferentes. Conforme as cooperadas, a escolha baseia-se no fato de muitas delas trabalharem em casa (o que dificulta o controle sobre o tempo dedicado ao trabalho) e no princípio do respeito aos ritmos diferentes de produtividade e às idiossincrasias das situações pessoais e familiares que, em alguns casos, permitem ou exigem uma dedicação e uma renda maior, e em outros, impedem a realização do trabalho da cooperada em tempo integral.

Devemos ressaltar ainda que a cooperativa conta com um fundo de reserva desde a fundação, com vistas a reunir recursos para a construção da sede própria. Esse fundo é composto pela soma acumulada de 10% das retiradas mensais de todos os cooperados.