Chapter 7: Discussion: Hydropower as Development
7.8 The process of hydropower projects
As reuniões em torno do Orçamento Participativo promoveram o encontro das necessidades e dos desejos de várias moradoras da Vila Nossa Senhora Aparecida. A cada reunião, elas reconheciam uma nas outras os mesmos sofrimentos e os mesmos anseios por mudança. A lama nas ruas, o esgoto que adoece e entorpece os sentidos, a porta sempre fechada do único posto de saúde e a violência do desemprego atravessavam a todas. Se antes eram sofridos na solidão da família e dos vizinhos mais próximos, agora surgem reunidos e assumem nova orientação e grandeza. Os flagelos continuam os mesmos, mas os anseios, estes puderam aos poucos crescer e ganhar corpo.
É justamente sobre isso que Isaurina nos fala nesta passagem de sua entrevista:
Foi dentro da participação do Orçamento Participativo que eu conheci a Nelsa. Até ali a gente não se conhecia porque ela trabalhava fora e a gente não tinha conhecimento. Então, por eu conhecer ela ali, por causa do Orçamento, que a gente começou também a caminhar juntas sobre interesses em... política. Na luta pelo posto de saúde, que na época não tinha, por que ele estava fechado, a gente caminhou pela reabertura do posto. Foi aí que a gente começou a se conhecer. E dentro disso aí foi
que a gente começou a ter aquela conversa: “O quê que tu faz? O quê é que tu sabe fazer?” Foi quando elas se levantaram e se juntaram; era pra fazer um grupo pra trabalhar (Isaurina) [grifos nossos].
É interessante notar o trajeto feito pela fala de Isaurina. Ao ser perguntada a respeito da história da cooperativa, ela organiza assim seus argumentos: primeiramente ocorreu o encontro de um pequeno grupo em torno das lutas travadas no Orçamento Participativo. Em seguida, elas passaram a caminhar juntas, orientadas por interesses políticos, como a luta pela reabertura do posto de saúde da Vila. Nesse processo, segundo Isaurina, elas começaram a se conhecer e, finalmente, depois de encontradas e orientadas por sentidos comuns, surgiu a idéia de organizar um trabalho coletivo.
É Nelsa agora quem nos falará agora de como surgiu a “idéia da cooperativa”:
Bom, o que tem aqui na Vila, foi conquista do Orçamento. Aí a gente foi percebendo o seguinte, que nós precisávamos fazer alguma coisa a mais que isso. Na época nós sentamos em três mulheres [...]. A gente pensou que tinha dois segmentos realmente que a gente queria tocar: com as mulheres e com os adolescentes. [...] A gente pensou na época que devíamos tocar alguma coisa que tivesse ligado ao trabalho. Porque realmente aqui na Vila tem muita costureira, sabe? [...] Nessa região aqui tem fábricas que faliram, de confecção. E também tem muitas lojas que vendem tecidos. Nós fizemos um estudo nessa região, ela tem uma vocação pra isso, pra confecção. [...] Na época nós não sabíamos disso. Foi uma coincidência. Então a gente pensou assim: “Puxa, nós podíamos costurar pro Hospital Conceição”, porque o posto de saúde é ligado ao hospital. Então nós fomos em duas, num dia, falar sobre isso. Teve uma manifestação porque um médico ia sair. Eu e a Maria, nós fomos lá falar se a gente poderia costurar pro hospital. E eles nos empolgaram tanto, Cris! Disseram assim: “Bah, muito boa idéia que vocês tiveram! Quantas mulheres vocês têm?”. Nós não tínhamos ninguém, Cris. [risos] Só eu, a Maria e mais duas. Mas nós dissemos: “Ah, a gente tem umas vinte.” A gente tinha malandragem, né! [risos]. [...] Porque se nós não falássemos isso... Imagine se a gente dissesse que tinha três, quatro? Eles não iam pegar. Daí ele falou: “Vocês têm que ser uma associação ou uma cooperativa” [...]. Uma entidade jurídica. associação, pela nossa história, a gente falou “Nem pensar.” E nem daria, mas graças a Deus nem precisou a gente ter esse desgaste. E cooperativa foi uma coisa! Ai, mas eu achei tão bonito quando ele falou
“cooperativa”, pra que a gente pudesse tocar alguma coisa assim... [...] Quando ele falou “cooperativa” foi o primeiro contato da gente com o termo, com o que seria. Mas a gente teve uma compreensão, de toda a Vila, com o nome “CO-O-PE-RA-TI-VA”. Foi isso que nos motivou, foi o nome. Nada de saber de outras histórias de cooperativas, nada. Nem positiva, nem negativa. Ah, meus pais também sempre foram ligados a cooperativas de vinho e tal. Mas também isso não inspiraria nada, muito pelo contrário. [...] As cooperativas de leite que meu pai foi sócio sempre faliram, sempre ficou sem receber. [risos] Mas isso não somou naquele momento, não pesou nada. [...] Então a gente pensou: “Como é que nós vamos fazer? Então vamos ver as mulheres que a gente conhece”. Aí a gente falou de uma pra outra. Cris, se eu quisesse te dizer hoje, quem falou exatamente com quem, eu não sei te dizer. Eu sei que a gente foi espalhando, assim, uma pra outra. [...] A notícia foi correndo assim: “vamos fazer uma cooperativa pra costurar pro Hospital Conceição”. Era isso. Quando vieram as dezenove mulheres a gente ficou tão feliz, porque eu achei que não iam vir... (Nelsa)
Isaurina também nos falou do “nascimento da UNIVENS”, ocorrido em 23 de maio de 1996. Abaixo, ela complementa as informações de Nelsa:
Um médico ia sair do posto e a gente fez aquele movimento pro médico ficar. E dentro da conversação com o secretário [municipal da saúde] e com os médicos ali, a gente levantou o fato de que tinha tanta gente desempregada. Será que a gente não poderia trabalhar pro Hospital Conceição? Aí ele disse que “sim”! Mas a nossa intenção era de, por exemplo, remendar as roupinhas de nenê, fazer bainha de lençol, aquelas coisinhas simples, porque ninguém tinha profissão. [...] Então, com essa movimentação do médico, depois da manifestação, a gente já conversou com a diretora do hospital. Aí foi quando a Nelsa chegou e... Conversamos. Nós estávamos lá e daí conversamos. A gente podia formar um grupo, alguma coisa, pra gente pegar esse trabalho. Aí foi quando foi chamada a primeira reunião e vieram dezenove mulheres. [...] Esse momento foi que a gente garrou e... Foi o nascimento. (Isaurina)
Segundo os relatos de Nelsa e Isaurina, após a primeira chamada para a formação da cooperativa, houve uma reunião na qual compareceram dezenove moradoras da Vila. Nessa ocasião, elas conversaram sobre a idéia de se constituírem como uma cooperativa de costureiras que prestaria serviços para o tal hospital. Reconhecendo o entusiasmo uma das outras, elas foram logo em busca de subsídios que pudessem
orientar os próximos passos. Mal sabiam elas a longa e dura peregrinação que teriam pela frente. Sem ter qualquer referência sobre o assunto, recorreram aos vínculos de amizade:
Tinha uma cooperativa habitacional e um deles era nosso amigo. Eu disse pra ele: “Quem sabe tu passa o estatuto e a gente vai tentar ver o quê a gente faz”. E foi aí que a gente viu que dezenove não dava, então chamamos uma segunda reunião. (Nelsa)
Diante da barreira legal44, o grupo foi novamente para as ruas da Vila para conversar com outras vizinhas a respeito da “idéia da cooperativa”. Finalmente chamaram nova reunião, à qual compareceram trinta e cinco mulheres.
Além da forte marca do gênero feminino45, este grupo tinha em comum a vivência de condições precárias de trabalho, já que a maioria encontrava-se desempregada e vivia de pequenos serviços de costura prestados aos vizinhos, sempre de maneira autônoma e informal.
Quase todas elas possuíam baixa escolaridade, com exceção de duas pessoas que haviam conseguido concluir o ensino médio. Já as idades dessas mulheres variavam de maneira impressionante:
Foi algo que nós organizamos por aquela falta de trabalho, das pessoas de mais idade, que não tinham mais entrada no mercado de trabalho, e pelas pessoas que tinham filhos pequenos e que não tinham como trabalhar fora. Então havia pessoas de oitenta a dezoito anos [...]. Quer dizer, não foi uma integração de pessoas da mesma idade, nem da juventude. Foi uma união total. (Isaurina)
Outro aspecto que merece destaque é que nem todas haviam passado por experiências de participação política ou comunitária. Assim como Terezinha, que
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A legislação cooperativista brasileira (Lei no. 5.764-16/12/1971) exige, entre outros pontos, o número mínimo de vinte cooperados para a constituição legal de uma cooperativa.
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Como disse a Professora Sylvia Leser, por ocasião do Exame de Qualificação, “a Economia Solidária é muito feminina” (comunicação pessoal, 22/11/2004). De fato, muitas experiências e estudos comprovam a presença majoritária e ativa das mulheres nesse movimento, principalmente a partir das chamadas cooperativas populares (Parra, 2002). No caso da UNIVENS, essa questão comparece de forma notável. O gênero feminino é marca do grupo, já que mesmo contando com dois homens em seu quadro social, eles ingressaram há pouco tempo na cooperativa e ainda não participam dela com a mesma intensidade que as demais cooperadas. No entanto, apesar da relevância do tema
não pôde juntar-se ao grupo desde o início por impedimento do marido, outras mulheres enfrentaram o mesmo problema:
Eu não participava de nenhum tipo de atividade até porque o pai dos meus filhos não permitia. Era aquele negócio: “Mulher minha é dentro de casa e encerrou.” Então eu tinha atividade dentro de casa, com as crianças, e eu costurava pra fora. (Terezinha)
Os primeiros encontros foram muito marcantes. Segundo Nelsa, não havia uma clara liderança naqueles tempos, embora atualmente seja notável o destaque e a influência da sua presença na cooperativa46:
Agora, tu imagina o quê é reunir trinta e cinco mulheres?! Era muita mulher! Nós fazíamos uma roda – porque sempre foram em roda, nossas reuniões – sempre foi em círculo. [...] E não tinha liderança! Não dá pra tu dizer assim: “Olha, vamos lá, que a Nelsa chamou pra cooperativa.” Naquelas alturas nós não sabíamos quem é que ia se sobressair no trabalho, quem é que ia tomar a frente. [...] Porque, quando começa, geralmente alguém tem toda a informação, sabe? E daí chega e automaticamente está eleito presidente da cooperativa, é o que vai coordenar. E com a gente não foi assim, Cris. (Nelsa)
A escolha do nome da cooperativa surgiu nesses primeiros encontros e em meio a essa atmosfera de união, ressaltada há pouco por Isaurina. É ela quem diz: “Por exemplo, o nome da cooperativa a gente se reuniu e discutiu, acho que umas três reuniões, pra chegar a tirar o nome. E a gente sempre se reunia e imaginava. Nós fazíamos chá, a gente conversava, imaginava junto.”
Nelsa em seu livro também fala sobre isso: “Decidimos então o nome de nossa cooperativa ‘Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos’, e mais tarde, UNIVENS, que é abreviatura de ‘Unidas Venceremos’. Sempre acreditamos no real sentido deste nome” (Nespolo, 2003. p. 08).
para a Economia Solidária, não será possível dedicar uma análise específica sobre o assunto em função dos nossos objetivos. Porém, de modo indireto, ela será tratado no decorrer do texto.
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