• No results found

Chapter 2 Methodology

2.8 Rumors as a disturbing element

A gente tem algo muito forte. O caminho que a gente foi percorrendo foi encontrando as soluções e as soluções vieram ao nosso encontro. A gente conseguiu encontrar bons parceiros. - Nelsa (Univens)

Seguir o rastro da história da Justa Trama é também reconhecer, em seus oito anos de existência, o estabelecimento de muitas relações de apoio e parcerias, com instituições diversas, não apenas por parte da rede, como também dos empreendimentos que a compõem.

Parceiros, apoiadores e companheiros de luta são constantemente citados pelos trabalhadores da rede, em geral, num ânimo de reconhecimento. Vimos que Idalina, por exemplo, identifica o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) como “berço da Justa Trama” e, em companhia de Nelsa e Dalvani, nomeia passagens importantes, na história da rede, vividas nos respectivos fóruns municipais, regionais e estaduais.

Embora não se configure propriamente como um espaço institucionalizado, as experiências vividas nas arenas do Fórum Social Mundial também exerceram um relevante papel na história da rede, em termos políticos e econômicos (materializado na confecção das sacolas da edição do evento de 2005).

Em outro plano, os aportes recebidos de instituições apoiadoras para a constituição ou desenvolvimento da rede, sejam eles técnicos, políticos, organizativos ou financeiros, também foram lembrados, tanto de organizações brasileiras (caso da ADS-CUT e da Unisol Brasil), como estrangeiras (caso das ONG.´s CONOSUD, da Espanha, e NEXUS – CGIL, ISCOS CISL e FAIR Societa Cooperativa Sociale, da Itália)140. No caso da Unisol Brasil, especificamente, as associadas não apenas reconhecem os apoios recebidos, como falam da instituição com maior proximidade, uma vez que se trata de uma representação de empreendimentos da Economia Solidária, da qual a Justa Trama e seus elos fazem parte.

Como vimos, muitas dessas relações institucionais de apoio ou parceria exerceram papel crucial para o êxito ou continuidade das iniciativas dos grupos. Ouçamos o que diz Antonio Cruz, que pesquisou a rede, sobre este aspecto:

Seria possível pensar a Adec sem o Esplar? A Univens sem a Incubadora da Prefeitura de Porto Alegre? A Fio Nobre sem o CEPESI? A Justa Trama sem a ADS ou a Unisol Brasil? Seria possível pensar todos eles, e qualquer um deles, sem a lista volumosa de entidades apoiadoras que participaram de todos os momentos importantes da sua construção? [...] Entretanto, é necessário qualificar também esses atores como apoiadores. (Cruz, 2010. p. 377)

140 CONOSUD já foi referida neste texto. As instituições italianas citadas dispõem de sítios na Internet com vasta informação sobre seus respectivos históricos e modos de atuação: http://www.faircoop.it/, www.er.cgil.it,

Este fenômeno sugere a configuração de outra rede, exterior à Justa Trama, conformada por ela, seus elos, parceiros e apoiadores, no Brasil e no exterior. Teia densa, baseada em relações interpessoais de confiança, revela complexidades importantes. A Univens, por exemplo, que serviu-se do apoio da Incubadora da Prefeitura de Porto Alegre enquanto conquistava sua estabilidade econômica, ajudou a viabilizá-la, por meio da atuação militante de cooperadas no Orçamento Participativo local (Andrada, 2009a)141. Processo semelhante parece ter ocorrido na relação entre Fio Nobre e CEPESI, em Itajaí. Destes fatos, podemos supor que as relações institucionais citadas estabeleceram-se em bases recíprocas e, ainda que nem sempre parelhas, raramente ocorreram em via de mão única.

A Justa Trama dirige-se às mesas de reunião com seus parceiros ofertando „bens‟, mesmo que imateriais: saberes coletivos, práticos e políticos, além de uma representação bastante favorável dentro do movimento, um lastro de confiança, conquistado nesses anos de parcerias firmadas e cumpridas. Abaixo Nelsa ilustra este fenômeno ao falar do apoio recebido na proposição da Cadeia do PET:

Sempre que houve desconfiança alguém dizia: „aqui tem uma pessoa da Justa Trama, que conseguiu construir lá; isso vai validar pra que se consiga construir essa cadeia do PET também‟. [...] Por exemplo, a SENAES. Por que ela está apoiando esse projeto? Porque pra quem apoiou a Justa Trama, que era uma possibilidade remota, sabendo que a gente está lá agora, à frente disso, sabe que a gente vai fazer acontecer. [...] Então tem essa confiança, sim, exatamente porque tu vem de um processo que tu soube como fazer. – Nelsa (Univens)

Entre os apoios recebidos, a Justa Trama e seus elos contaram também com recursos associados a políticas públicas de fomento à Economia Solidária, tanto em âmbito federal como estadual e municipal142. Porém, cabe ressaltar que, neste caso específico, o Estado tem respondido a demandas provocadas pelos protagonistas da rede e dos elos, que se esmeram por conservar, nessas como nas demais relações, o mais alto grau de autonomia. Antonio Cruz (2010) e Paul Singer (s/d, citado por G. Cunha, 2012) tratam desta questão, por visadas distintas – Cruz fala a partir do observado especificamente em pesquisa sobre a Justa Trama.

141 Vimos na pesquisa anterior, desenvolvida na Cooperativa Univens, que a Incubadora em questão foi fruto do pleito de cooperadas do grupo, também conselheiras do Orçamento Participativo, neste fórum. Para saber mais, sugerimos a leitura do item A cooperativa „incuba‟ a Incubadora (pp.111-115), em Andrada (2009a).

142 As políticas públicas voltadas à Economia Solidária configuram tema complexo, fora do escopo da pesquisa. Estudo aprofundado sobre o assunto foi recentemente desenvolvido por Cunha (2012). Cruz (2010) tratou especialmente da relação entre Estado e Justa Trama: “Entretanto, as políticas públicas dirigidas à economia solidária sofrem dos mesmos limites das políticas públicas dirigidas às questões sociais. [...] O caso da Justa Trama é a exceção que confirma a regra. Sua acessibilidade aos recursos resulta, basicamente, do êxito alcançado inicialmente, a duras penas, por seus protagonistas, e que recebeu parte do pouco apoio disponível

Já Paul Singer fala de modo amplo, a partir do trabalho que vem desenvolvendo na Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), pasta da qual é titular desde 2003, ao observar as relações com os diversos atores do campo da Economia Solidária, especialmente nas relações que estabelecem com o Estado:

Embora todos tenham cumprido papéis distintos, cada empreendimento [da Justa Trama] reconhece o valor específico que cada um desses parceiros teve na sua caminhada. [...] Mas estou convencido de que os [apoiadores] mais valorados foram aqueles que participaram da construção dos projetos em seu quotidiano – das ideias aos transtornos, das vitórias às derrotas, das frustrações às comemorações -, mas que, sobretudo, souberam respeitar o protagonismo dos trabalhadores associados, especialmente naqueles momentos em que as relações foram tensas e difíceis. É preciso saber valorar e reconhecer o papel e os limites desses atores e, principalmente, aprender com eles o seu ofício de coadjuvantes solidários. (Cruz, 2010, pp.377-378) [grifos e comentários nossos]

A conciliação é construída por meio de negociações em que nem os representantes da sociedade civil e nem os do estado podem perder sua autonomia. Porque de sua autonomia depende sua autenticidade e desta sua capacidade de representar e portanto seu poder político. A negociação, no campo da economia solidária, se dá entre representantes da sociedade e do estado, sendo os representantes de ambos os lados muitas vezes provenientes dos movimentos sociais que optaram pela economia solidária, portanto entre pessoas que adotam os mesmos princípios, mas que – pelas posições que ocupam – podem facilmente ter opiniões bastante divergentes sobre os problemas a enfrentar e as soluções para os mesmos. O que pode significar, em muitos casos, que a negociação não deve começar por trocas de concessões para reduzir as diferenças entre propostas, mas por troca de ideias e informações que levem à aproximação das opiniões divergentes. (Singer, s/d, citado por G. Cunha, 2012, p. 264) [grifos nossos]