Chapter 3: War, Energy and Norway’s Aid
3.3 Geography, economy and resources
Paul Singer (1998) caracterizou os empreendimentos da Economia Solidária como singelos implantes socialistas em uma sociedade esmagadoramente capitalista. Decerto advém dessa natureza resistente grande parte das dificuldades vividas pelos trabalhadores da Justa Trama:
O maior desafio de todos é a gestão. [...] você tocar um negócio, onde você tem que ver o mercado e ter o controle de todo o processo de produção. Ninguém pode imaginar o quanto isso é difícil. [...] A gente disse muitos „nãos‟. Como que tu abre um mercado que não faça tu negar a tua marca? Ao mesmo tempo nós precisando comercializar porque isso melhora a vida de todo mundo, porque o algodão está aí. – Nelsa (Univens)
Um modo de operar característico do grupo, como vimos, é pautar os temas da gestão, e não apenas eles, como objeto de discussão política. Este fenômeno parece ter duplo significado no cotidiano da rede – por vezes é signo de força, por outras, de fragilidade. Do
ponto de vista da gestão, confere ganhos objetivos importantes: socializam-se recursos de elo para elo e desenvolvem-se outros, a partir da reunião dos insumos materiais e simbólicos disponibilizados por um coletivo mais amplo. No entanto, o predomínio permanente da racionalidade política sobre a econômica pode significar riscos ao desempenho econômico da Central, considerando o contexto maior em que se encontra, francamente desfavorável, de hegemonia capitalista, orientado por princípios diversos aos praticados pelos trabalhadores:
Nós fazemos como se faz no movimento! Nós discutimos a nossa pauta econômica como se discute no movimento, como se discute a política. [...]. A questão econômica nossa é discutida como um ponto de pauta de um movimento. [...] E nós temos uma deficiência no [plano] econômico – Idalina (Fio Nobre)
Desenvolver modos de operar no cotidiano as práticas econômicas da rede é tarefa permanente que exige grande dedicação de seus associados. No capítulo anterior demos vários exemplos disto, especialmente nos relatos das incursões a Fortaleza e a Porto Velho.
A inexistência de uma gerência que detém o controle dos processos de produção nas relações de trabalho autogestionárias não significa ausência de tensões, ambigüidades e conflitos. A existência destes fenômenos é própria, sabemos, de relações democráticas. Quando ocorrem, podem também sinalizar que há trabalho micropolítico a fazer, em outras palavras, que é preciso renegociar as escolhas do grupo frente a alterações das circunstâncias dadas (Sato, 1999; Sato & Esteves, 2002; Andrada, 2006).
Agnes Heller (2008) também tratou desta questão ao discutir os pressupostos dos papéis sociais na estrutura da vida cotidiana: “o conflito é a rebelião das sadias aspirações humanas contra o conformismo: é uma insurreição moral, consciente ou inconsciente (é evidente que isso não se pode ser dito de todo e qualquer tipo de conflito).” (p. 126). O que nos parece evidente também é a necessidade de resignificação dos sentidos desses termos – conflitos, impasses e afins – em contextos autogeridos ou não-alienados, como diria Heller.
A seguir, Nelsa cita uma situação que tipicamente demandou escolhas e re-escolhas por parte do grupo, e que exigiu, ao cabo, o desenvolvimento de uma fórmula, um recurso para composição dos preços dos produtos da rede :
A gente vive num mundo onde tu vives praticamente um processo reivindicatório, né? Os trabalhadores sempre foram colocados pra reivindicar. A grande luta do movimento sindical sempre foi reivindicar. Reivindicar melhores salários, reivindicar melhores condições de trabalho, reivindicar pra alguém isso que você quer aqui. Então, agora, quando tu vai discutir valores do processo de produção, tu te coloca numa postura que tu não está reivindicando nada pra ninguém. [...] A gente quer que essa jaqueta aqui tenha um valor de vinte reais. Quem é que vai te dizer sim ou não? [...] E se quiser, a gente define que nós vamos botar no mercado [a jaqueta] a 40, a 50, a 70, a 100 reais. Mas como que a gente
faz isso num processo justo? [...] E até hoje nós fazemos da forma que a gente achava mais justa. Pela média do tempo gasto, que daria boas condições [de trabalho] [...] uma fórmula que a gente enxerga ela aqui, que qualquer um dos trabalhadores consegue entender, que ela é justa pra cooperativa aqui, pra outra lá, pra outra lá... – Nelsa (Univens)
Reivindicar, como referiu Nelsa acima, é conduta característica em pessoas que se encontram em uma condição de desigualdade de poder. Neste sentido, pode ser compreendida como uma tática, tal como postula Michel de Certeau (1994). Em um contexto de autogestão, em que o conflito capital-trabalho não mais opera (nos limites interiores do grupo), será não apenas possível, como necessário, o tecimento de estratégias – métodos e ações politicamente pactuados pelo conjunto dos trabalhadores para definir, entre outras coisas, os valores e os alcances de suas práticas. Eles não apenas detém o poder de discutir, definir e praticar o que lhes parece justo, como são impelidos a fazê-lo, sob o risco de terem que assumir um modelo postiço de gestão ou de verem o poder concentrar-se nas mãos de alguns, o que termina por descaracterizar o espírito autogestionário que os uniu, na fundação do empreendimento.
A seguir, José Ribeiro nos fala sobre o cotidiano da gestão da rede. Os procedimentos do grupo de trabalhadores envolvidos com a coordenação da Justa Trama comparecem claramente envoltos por um sentido de participação democrática. Além disto, parecem guardar plasticidade suficiente para as necessárias re-escolhas e re-planejamentos:
Essa gestão ocorre no dia-a-dia, e ela é participativa, né? Os encontros, que a gente chama de encontros de lideranças, ocorrem algumas vezes por ano, quando a gente aproveita pra resolver as questões-macro. E no dia-a-dia a gente vai resolvendo as questões nossas, do nosso elo e do elo mais próximo da gente [no fluxo da cadeia]. E isso a gente vai fazendo através da comunicação via correio eletrônico e outros meios; a gente vai debatendo aquilo que cada elo vai sentindo que é importante no momento. Então, apesar de a gente não estar reunido muitas vezes por ano, nós estamos em constante contato. Quando vai ocorrer alguma coisa que eu sei que vai afetar o meu elo e também os elos mais próximos ao meu, eu procuro colocar aquilo pra toda a cadeia, pra que seja pensado. [...] Quando acontece uma coisa bem anormal, bem atípica, que necessita uma intervenção mais direta, aí a gente se comunica e a gente acaba achando uma maneira de intervir mais diretamente naquele problema. Mas quando a gestão está correndo de uma maneira natural, previsível, essa comunicação diária, nos mantém de tal forma que eu consigo ajudar um elo a se gerenciar e o outro elo costuma mandar informações pra que eu possa gerenciar o meu. E a gente vai fazendo essa coisa compartilhada, essa coisa dividida. E não necessariamente presencialmente. [...] É difícil a gente imaginar... A gente não pode fazer um comparativo, assim, direto sobre autogestão e economia de mercado, né? [...] Na economia de mercado, a empresa tem os seus dirigentes, tem os seus consultores, as pessoas responsáveis por tomar a decisão pra todos. O organograma. Essa autogestão não é somente uma autogestão do elo, é uma autogestão compartilhada. Onde um elo pensa no que a decisão dele vai influenciar no outro elo da cadeia. Isso é um compartilhamento. [...] É muito mais complexo. E nós não temos uma hierarquia tal que resolva os nossos problemas. Nós temos que resolver os nossos problemas. [...] É uma coisa que a gente compara muito com a própria vida da gente. Faço uma comparação, assim, da autogestão como se fosse a vida da gente. – José Ribeiro (Coopertêxtil)
Por fim, chamamos a atenção para as falas finais de José Ribeiro. Ele compara a gestão tradicional capitalista, que conheceu na empresa que antecedeu a Coopertêxtil, com a autogestão agora experimentada na Justa Trama, e afirma que esta última é algo “muito mais
complexo. [...] É uma coisa que a gente compara muito com a própria vida da gente. Faço uma comparação, assim, da autogestão como se fosse a vida da gente”
A analogia que José Ribeiro estabelece entre a autogestão na rede e a própria vida novamente sugere uma integração maior dos trabalhadores com os processos que envolvem suas experiências de trabalho. Com o advento da rede, além da integralidade já experimentada nos processos de fabricação e de gestão em cada elo, os trabalhadores passaram a viver outro grau de integração quando dedicados, também, à gestão cotidiana da Justa Trama. E como ele mesmo aponta, além dos aspectos visivelmente benfazejos, este fato ocasiona outra complexidade à experiência de trabalho, torna-a num só tempo mais desafiadora e exigente.